terça-feira, 30 de junho de 2009

O dia de hoje... Voltamos ao nosso diálogo. 'Como íamos dizendo...' E aqui vos deixo memórias da infância, de quando começa a grande viagem...



UMA FURTIVA LÁGRIMA


Clarice

Em Castelo Branco, no jardim de nossa casa, havia uma cabrinha branca. Durante o dia, andava à solta, alimentava-se do que a Beatriz -a cozinheira- lhe trazia, no balde dos desperdícios. Não era adequado mas todos sabiam que a cabrinha não ia ficar. Eu é que não: julgava-a para sempre. Pusera-lhe o nome de Clarice (ou fora minha irmã, leitora de Erico Veríssimo, que a chamara assim?) e brincava e falava com ela. Não me lembro se a levava a passear. Não tinha -não me lembro de ter- muitos amigos. Não me lembro de nenhum. Nesse tempo, a diferença de idade -de cinco a catorze anos- separava-me dos irmãos. Eu dava os primeiros passos, eles entravam na adolescência. As relações entre pais e filhos eram formais, quando não frias. Chegava-me às criadas e a Clarice. Fugia às vezes, disseram-me, até ao quartel de bombeiros. Nesse tempo, não havia infantários, crescia-se em casa. A infância é uma imensa nebulosa, quando a recordo. Um dia, ao entardecer, encontrei-me no quintal. As criadas, fartas de me aturar, empurraram-me para ali. Nada de extraordinário e, no entanto, foi diferente. Podia ouvir a Beatriz e a Bina, na cozinha. Ver as luzes acenderem-se, nas ruas e nas casas. Respirar o perfume das roseiras. Clarice viera vindo e olhava-me, à espera. Não sei o que aconteceu depois, provavelmente brincámos. Corremos no jardim. Abri a cancela de madeira e levei-a à rua. Nada disso me lembra. A imagem (o sentimento) que ficou é intemporal: de um abismo que gelava e me separava do resto. Não sei se o meu coração começou a bater; agora, a angústia e o medo voltam a ocupar-me. Nesse momento, compreendi (pressenti) aquilo que me aflige hoje: a impossibilidade da união desejada. Eu gostaria de abraçar Clarice, de a beijar; de me agarrar à Beatriz e à Bina e de me aquecer a elas; de rir, na companhia de meus pais e irmãos. Mas estavam longe –irremediavelmente perdidos e ao alcance. A luz de Outono, suave e melancólica, íntima e a recolher-se na própria delicadeza reservada, delimitava os corpos, que o instante parara, inatingíveis, distantes, imóveis. Doía mais. Não apareciam fantásticos ou imponderáveis, eram realidade. Se lhes tocasse, encontraria a carne e o osso –impassíveis e indiferentes à minha solicitação. Entre nós, o abismo que separava. Nos olhos de Clarice, percebi a vontade de me ajudar mas ainda não entendia a linguagem dos animais nem a da natureza. Precisava da voz dos homens. Afligia-me a incomunicabilidade.

(Mais tarde, disseram-me: “Terás, sempre, amizades difíceis. As pessoas nunca te darão o que lhes pedes...” E, no entanto, deram-me: partilharam comigo a solidão. Só isso? Também, a luta contra ela, a busca da companhia e do amor. Dividimos a nossa solidão? Talvez. Mas houve momentos em que a paixão -o confronto com a sarça ardente- nos arrebatou juntos e nos abraçámos nesse transe.)

Clarice oferecia-me a presença e o amor, e não me bastava. Tal qual me não bastaria a beleza do entardecer. Tudo parecia suspenso, a cidade parada. Eu achava-me indefeso, diante do silêncio. Queria respostas e explicações? Ir além da aparência? Esse desejo, essa necessidade tomavam forma, aliás, por vias esquisitas, aparentemente autónomas (a ciência relaciona-as): sofria de eczemas (maleita que, depois, se transformou em asma). A insatisfação e o medo buscavam caminhos vários para se declararem. Descobria a solidão –os limites intransponíveis de cada um? A impossibilidade de tocar, realmente, de possuir o outro e de me abrir, dar? De me libertar de mim ou ir além de mim, numa comunhão sem fronteiras, imaterial e ilimitada? O que teria eu a comunicar e queria saber? Esforço-me por voltar ao que fui, ao que era nesse instante –para me reassumir. E eis-me criança, imóvel eu também, os olhos abertos, os braços caídos. Da cozinha, cuja porta abria para o quintal, surge Bina, que me agarra e levanta no ar. Beija-me nas faces, aperta-me contra o peito amplo, os seios duros, encosta-me a cara suada. Sinto-o, agora.
-Que anda a fazer? –pergunta.
“Nada...”, penso eu e digo:
“-E tu?”
Riu, sem me responder, dançou, às voltas, abraçada a mim. Bina era uma jovem mulher, viva, alegre, provocante. Alta, cabelo castanho claro e olhos pretos, corpo cheio e rijo, a pele sedosa, que cheirava bem. Ocupava-se do serviço de fora e girava pela casa. Interpelava-nos. Os olhos brilhavam-lhe, quando nos provocava. Apetecia responder-lhe, tocar-lhe. Mas pisou o risco e um dia mandaram-na embora. Isso chocou-me e quis saber porquê. Não me explicaram. Eu percebi que acontecera qualquer coisa grave com alguém da casa, mas guardei o meu entendimento. Por amor e respeito por ela –e porque me chocara, confundira.

(Quanto escrevo não passa de imaginário –do que imagino que terei pensado. Mas consigo identificar-me com a criança invocada. Os nossos corações batem, agora, em uníssono. E a mesma antiga angústia da separação irremediável me atormenta. É uma ferida insanável. Alguma vez desisti de a curar? Alguma vez remediei? Nunca desisti de o conseguir. E tomei por desafio aquela dor.)

Quebrar o gelo

O que veio depois, quando cresci? A distância mudara: as figuras agitavam-se, falavam e eu procurava decifrar os gestos e as frases. As pessoas animavam-se e o mistério permanecia. Levantara-se uma nova barreira –ou perfizera-se a inicial. Éramos universos separados e fechados em nós próprios. A nossa tragédia residia nisso e, por mais que esbracejássemos e discursássemos, não conseguíamos resolvê-la. Ao tempo, tudo isso era vago, indefinido, inconsciente; no entanto, era bem real a minha insatisfação. Precisava dos outros e do amor dos outros. A ausência ou o silêncio deles angustiava-me. Gelava-me. Na peça Os Sobreviventes, as minhas personagens tentam dialogar e ter-se -possuírem-se e aquecerem a alma ao calor da alma do outro- diante de um glaciar. Possuir outrem é quebrar as cadeias que nos separam de nós e do universo –a que chamarei , correndo o risco de pedante, totalidade, absoluto, Espírito. As personagens do meu drama pensavam-no, comigo. Mas, Os Sobreviventes, escrevi-o adulto e a criança de que trato não sabia tais coisas (ainda que as pressentisse) e limitava-se a correr dentro de uma redoma. Batia no vidro e ninguém lhe ligava importância –ninguém lhe ligava a importância de que necessitava. Não admira: os adultos não reparam na maturidade das crianças –no fogo que arde nelas. Não têm tempo para isso e a infância acabará por passar, por se resolver, naturalmente, julgam. Só que na vida do homem nada se resolve naturalmente –e muito menos na vida das crianças. Expulsos do paraíso, estamos condenados à ignorância e à fragilidade, à insatisfação e ao sofrimento e a partilhá-lo -em disputa- com os outros. Soltos da redoma e, feridos pelos vidros quebrados, damos por nós na arena que nos há-de ferir sempre mais. Ao combate imposto, que nada tem de natural, vamos sobrevivendo, cobertos de cicatrizes. São poucos os que não sobrevivem deformados e raros aqueles que salvam a raiz. Legião, os que se entregam e lançam em corrida oca, atropelando tudo e todos, a fugirem de si próprios e usando a violência como lenitivo ou narcótico.
Os primeiros anos da infância perderam-se em fumo que me esconde quanto aconteceu. Tiro deles monotonia, espanto, as doenças acumuladas. É um poço. Insistindo, arranco alguma coisa. Improviso ou reavivo o sentido? Aconteceu e foi assim? Ou eu é que, hoje, o vejo assim? Tenho por verdadeiro o que sai da alma. A mais estará o que é meu. E, se não passamos de uma combustão, vinda da eternidade para, após a morte, se projectar nela –tudo é, necessariamente, autêntico. Nós somos a sarça ardente, que se alimenta do fogo e com ele se enforma. E, depois, se apenas palavras, words, words –que importa? A caveira de Hamlet é do tamanho do mundo. Aos costumes direi o que saberei dizer.

As poucas coisas

Meu pai, foi nomeado juiz em Vila Franca de Xira e montou casa em Lisboa. Frequentei um colégio na Rua da Praia da Vitória e lembro a directora: Dona Maria, gorda e generosa, que perdoava tudo. Também, uma professora pequenina, de olhos muito tristes, melancólicos, impaciente e dividida entre o desgosto -ou o sonho irrealizado de que não desistia e ainda a trabalhava- e as obrigações. Os seus olhos, quando, realmente, me fixavam, iam longe e logo me precipitava eu, a ver se nos entendíamos. Ela retirava-se e passava a outro aluno. Esqueci-lhe o nome mas guardei-lhe estima. Era uma das poucas coisas, breve rasgo de luz, no nevoeiro em que me sentia sufocar. Provavelmente, mal paga ou com dois trabalhos, aos quais se somaria o de dona de casa. Havia, nela, melancolia e amargura ou desilusão consentida. Eu não pensava nisso, mas a sua resignação, que disfarçava mal com a severidade ou a impaciência de professora conscienciosa, interessava-me. Nunca soube ao certo se era solteira ou desistira de mudar a vida morna que lhe caíra em sorte. O modo de vestir, descuidado, abandonos, em que a saudade e o cansaço se confundiam, ausências logo corrigidas, a secura, espécie de trave que a fixava a si própria e impedia soçobrasse, denunciavam (à minha imaginação) uma mulher só. E, sempre, as mulheres sozinhas me pareceram especialmente infelizes –ou frágeis, indefesas. Já o discuti e muitas mulheres recusaram essa ideia, fazendo finca-pé na força e capacidade de sobreviver à solidão, até na vantagem de viverem sozinhas. Para outras, a solidão custará mais ao homem. Não creio que assim aconteça nesta sociedade. Os preconceitos pesam muito e continuam a levantar barreiras às mulheres. Não se usa, hoje, mais do que nunca, o corpo feminino como objecto –no cinema, nos livros, na publicidade? E o que é isso senão o inferiorizar a mulher, transformada em instrumento erótico –mero instrumento de gozo. Sobre o falso erotismo do nosso tempo, chocadeira de frígidos, tanto a dizer!
À severidade da minha professora e ao seu retraimento, que tomava por traição, respondia com violência e despautérios. Reagia agressivamente, indócil, provocador. Virava as costas à disciplina. Inventava vinganças: interromper as lições, levantando-me e gracejando a destempo; riscar a carteira, deitar bolas de papel amachucado aos colegas; desenhar obscenidades nos lavabos... Era um foco de infecção na escola. E, se me faziam sentir, se me ralhavam e castigavam (e um dos piores, doloroso castigo, consistia em desacreditarem-me, isolando-me), manhosa ou verdadeiramente, adoecia. Perdia pé e tempo, atrasava-me e, de facto, pouco a pouco, deixava de participar das aulas. Assim, saltei de colégio para colégio, irremediavelmente desorientado.

Uma alma boa

...e mais ainda ficaria, se não tivesse já começado a formar-se o acervo de recordações amáveis, às quais de quando em quando tornava e me eram apoio e escudo. A vida, voraz, atirava-me de um lado para o outro. A páginas tantas, sempre por via das transferências de meu pai, fui parar a Vila da Feira, hoje, Santa Maria da Feira (que prepotência obrigar os lugares a nomes que não são os seus; no caso, que tola beatice!). Isso aconteceu antes do colégio da Praia da Vitória e frequentei as aulas de uma modesta regente escolar, que me ensinou as primeiras letras. Muitos anos depois, vi a série televisiva Cuore, adaptação do romance homónimo de Edmondo D’Amici. Uma das personagens, la maestrina della penna rossa, interpretada por Giulianna De Sio, e lembrou-me a singela mestra de Vila da Feira. E, no entanto, salva a profissão, nada as aproximava –nem o aspecto, nem a importância social. Aproximou-as a minha saudade e a delicadeza da boa alma de Vila da Feira. A maestrina era uma figura respeitada na cidade e relativamente bem paga; Maria dos Anjos, a mestra a quem me confiaram, levava a vida às costas, jovem mulher sem importância. À alegria espontânea de Bina, à sua rebeldia, excesso e atrevimento, opunha a aceitação do destino que pressentia descolorido, sem aventura nem imprevisto, condenado, no espaço cinzento de uma vila esquecida. Sim, devo sublinhá-lo, opunha qualquer coisa: a resignação era escolha e defesa. Protegiam-na as asas que sabia cortadas e, abraçada a elas, esquecia os horizontes irremediavelmente perdidos ou imaginava-os, a seu modo, sonho esse possível e que vivia, livre e a recato de violências e intromissões. Elas haveriam de vir –sabia. Mas, entretanto, o coração aprendera a defender-se. Nunca esqueci a delicadeza meiga; a expressão doce e insistente, resignada e boa, os olhos húmidos, às vezes, marejados; o muito que trazia dentro de si e comunicava. A maneira como me recebeu e envolveu. Transmitiu-me calor e recordá-la aflige-me: é, na memória, imagem angustiante. Talvez, uma das pessoas de quem, na infância, me senti mais perto: em comunhão, sem palavras. O que poderíamos dizer? Além da melancolia que lhe toldava os olhos brilhava, neles, a curiosidade. Eu pertencia a outro mundo e, na morada que aceitara para sempre, divertia-a espreitar o intruso, o visitante inesperado e de pouca dura, imaginar-lhe um futuro, partilhá-lo, quem sabe?, mais que não fosse, no imo que só ela tocava e onde se passavam coisas que não se confiam a ninguém. E eu adivinha-lhe o interesse terno, que me dava força, esperança, a vontade de corresponder-lhe. De ser como eu julgava que ela me imaginava. É provável que me acompanhasse, até hoje e nos momentos bons e difíceis. Nunca sabemos quem nos acompanha, escondidos -e vivos- nas profundezas do nosso ser.

O mal

Ora se até aí me afligira o fosso que separava as pessoas, -a difícil ou impossível comunicabilidade- trouxera-me a humilde mestra o calor humano, a companhia verdadeira, o conforto, que procurara em vão. Provavelmente, certamente, eu não dei por isso, não o consciencializei, mas aconteceu ou não estaria a recordá-la. Maria dos Anjos deixou-me um sinal de possibilidade –janela que abria para o outro, já não figura fria, inatingível, agora, corpo quente e próximo. À minha solidão, juntara-se a dela e as duas se esqueciam, no encontro que o acaso proporcionara e jamais se repetiu e, porém, marcou a minha alma. E a sua? Que lhe aconteceu? É certo que vive em mim, continuará viva, enquanto a lembrar e refizer -coisa extraordinária e, ao mesmo tempo, dolorosa e consoladora-, prolongar, dentro de mim, a sua vida e a nossa breve intimidade.
Um dia, num café do velho Porto, serviu-me uma rapariga que os dias tinham obrigado a ser mulher antes do tempo, a vida humilhara e ofendera, mãe de duas filhas de pais diferentes, ex-expatriada, conhecedora da enxovia e da prisão -heroína, sem o saber, de Dostoievski, do grande russo, como tantas outras e outros, neste esquisito país que gerou Camilo e Raúl Brandão, Branquinho da Fonseca e Irene Lisboa-, capaz de alegria e confidência. Depressa conversámos e as palavras saíam-lhe cândidas, no atropelo de quem precisa de falar e de se entregar.
-A nossa mãe morreu, ficámos sozinhos. Abandonados. Vivíamos numa ilha. Sabe o que são as ilhas?
Explicou, seca:
-É o sítio onde vivem os pobres do Porto!
E a agredir-me:
-Já lá foi? Já entrou nelas? Ou acha que é miséria a mais?!
Depois, dominou-se e corrigiu:
-Desculpe... Não se zangue. É miséria, sim. Ainda vivi uns meses em casa da minha irmã mais velha, no Seixal. Mandou-me embora. O homem dela era metediço e ela teve medo... Emigrei, toca para o Luxemburgo. O Luxemburgo!... Espere, já volto...
Ia e vinha, despachava o trabalho, para mais depressa voltar e conversar. Uma vez, demorou e eu acenei-lhe:
-Clarinha...
E, do meio da sala, respondeu:
-Há tanto tempo que ninguém me chamava Clarinha!...
Ela procurava um amigo, eu limitara-me a interpelá-la e a deixar que se me chegasse. Ouvia-a e ela encostava-se à minha simpatia: vencera a barreira que separa as pessoas e as obriga ao gelo do isolamento. Depois, mais tarde, o movimento acalmou e ficou um cliente, ao fundo, pasmado, diante da bica e do bagaço. Clarinha sentou-se à minha mesa e contou-me a história do emigrante que a contratara para ser cozinheira num restaurante do Luxemburgo e a tratava mal.
-Era uma besta! Um dia, foi ter comigo à cozinha e quis violar-me!
Olhou-me, desconfiada e ansiosa: eu acreditava? Eu prendi-lhe a mão, a sossegá-la.
-Deixe, já passou!
Fitou-me, desiludida e reagiu:
-Já passou?! Não passou nada! Isso é que era bom!
Repeti o que ela dissera:
-Uma besta!
-Ai não! Se era!
Riu-se:
-Dei-lhe com a panela nos cornos, foi o que me valeu!
Fitou-me, em desafio, e de novo amarga:
-É a vida!
Baixou os olhos e murmurou:
-Depois que a minha mãe morreu...
E confiou-me, envergonhada e, outra vez, feliz:
-É quando sonho com ela que mato as saudades.


O outro lado

Assim, também eu recupero, arranco, provavelmente, à morte, Maria dos Anjos; assim, reaparecem muitos dos que perdi. Quando vivia na Guarda -teria 14, 15 anos-, concorri, sem nunca ganhar nada, aos Jogos Florais da Queima das Fitas conimbricense. Era o meu amigo Lorga quem os dactilografava, pois tinha acesso (ele ou o irmão) à máquina de escrever. Enviei vários contos e um deles era isto: um homem apaixonava-se pelos próprios sonhos, a ponto de se suicidar, quando reconheceu impossível continuar acordado e impossível, também, aprisionar o sonho, para ele, mais apaixonante do que o quotidiano. O meu herói vivia o sonho como se fosse vida real e não aceitou perder esse dom. Pensava -tinha a certeza- que havia realidade, para além desta –e feita de sangue, paixão, alma: aquela que habita dentro de nós, imaginada ou sonhada, revelada no sonho. Compreendo o meu herói e que quisesse guardar o sonho, não menos real do que a realidade, achava ele e. Teimosia? Evasão? Será, apenas, capricho da vontade querer, por exemplo, ouvir a voz dos desaparecidos ou revê-los? E, no entanto, acontece, diz José Pires Sanches, o poeta do Rochoso, tocado por Deus, nas provações e na pureza. Fechamos os olhos e reaparecem. Sucede impor-se-nos tudo e dispensar a nossa vontade e regressarem pessoas e momentos, que se diriam irremediavelmente perdidos. Voltamos a amar, a sofrer e desejar. É provável que os cientistas tenham uma explicação, mas as explicações da ciência pecam por provisórias (caso contrário nunca avançaríamos). A razão é redutora e só ao assumir-se como tal o deixa de ser –ao aceitar considerar as conquistas imperfeitas, incompletas e encarar o racionalmente inaceitável -tentar compreende-lo. Ou melhor: aceitá-lo e caminhar com ele, na esperança de que se faça luz (e talvez ela nunca se faça inteiramente ou definitivamente, mas essa é a maravilhosa aventura de viver). Quando Giordano Bruno ardia, em Roma, no Campo Dè Fiori, imolavam-no a uma espécie de racionalismo a que os iluministas chamariam superstição: a Igreja do tempo atinha-se a dogmas estudados e calculados, que julgava necessários à própria sobrevivência. O discurso de Bruno era, para aIgreja, tão absurdo e irracional como hoje o é, para os racionalistas actualizados, o sonho do ingénuo, do maduro que teima em crer no incrível: nas andanças do espírito (e já não é nada mau acusarem-no de ingenuidade ou madureza: evita-lhe o hospício). Da realidade, sabemos sempre pouco –se bem que mais do que soubemos. Por exemplo: conseguimos adiar a nossa morte e alargar a esperança de vida. Chegámos à Lua e chegaremos a Marte. E depois?
O coveiro que arranjava a campa onde enterrara um amigo meu disse-me:
-O seu amigo começou a viagem.
-Qual viagem?
Encostou-se ao cabo da enxada, fitou-me, pensativo, e encolheu os ombros.
-A viagem para o lado de lá!
Retomou o trabalho, a assobiar baixinho.
-Mas o que há do lado de lá?
-Ora..., não sei. O senhor sabe? Alguma coisa tem de haver...
publicado no número 25 da revista Praça Velha, da Câmara Municipal da Guarda, que saíu há dias



3 comentários:

  1. Gosto do que escreve, e como escreve. Das narrativas que partilha. "Rasgos de Luz" que oscilam entre a racionalização do mundo e o sentido e sentir das almas que o habitam. Que nos habitam. Bem-Haja!

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  2. Obrigado, amiga. Boa semana e um abraço! Vejo que é da Beira-Alta, com o seu Bem haja...

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  3. Obrigado, amiga. Boa semana e um abraço! Vejo que é da Beira-Alta, com o seu Bem haja...

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