Haverá psiquiatras suficientes para estancar esta sangria????
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Mais uma...: se topares aqui um cheirinho a ética, diz-me por favor, amigo!
Aqui vão os "criminosos"... não tarda que vão parar à cadeia ou, satisfazendo o sonho governamental, tão apregoado, sejam postos na fronteira e transformados em emigrantes compulsivos...o que, aliás, renderia uma data de massas e aliviaria Gaspar & Cia...
“Alunos faltosos serão obrigados a prestar tarefas a favor da comunidade
O novo diploma, que segue agora para o Parlamento, mudou de
nome e intitula-se Estatuto do Aluno e Ética Escolar.”
in Público de hoje
p.s. a Comunidade agradecia, isso sim, que o governo protegesse o Ensino, professores e alunos, e ajudasse à expansão da Cultura em Portugal... e cancelasse o PAC: o Processo de Analfabetização em Curso!
Lembrando Eugénio de Andrade
Eugénio de Andrade, por Augusto Gomes (1910-1974)
Poema à Mãe
No mais fundo de ti,
eu sei que te traí,
mãe!
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus
olhos!
Tudo porque tu ignoras
que há rios sem margens
para a água
e paisagens que não
escorrem do teu rosto!
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as
rosas brancas
que apertava junto ao
coração
no retrato da moldura!
Se soubesses como ainda
amo as rosas,
talvez não enchesses as
horas de pesadelos…
Mas tu esqueceste
muitas coisas!
Esqueceste que as
minhas pernas cresceram,
que o meu corpo todo
cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha, queres ouvir-me?:
às vezes ainda sou o
retrato
que adormeceu nos teus
olhos;
ainda aperto contra o
coração
rosas mais brancas
do que aquelas que tens
na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma
princesa
debaixo dum laranjal…
Mas -tu sabes- a noite
é enorme
e todo o meu corpo cresceu…
Eu saí da moldura
e dei às aves os meus
olhos como espaço.
Não me esqueci de nada,
mãe.
Guardo a tua voz dentro
de mim.
E deixo-te as rosas...
Boa noite. Eu vou com
as aves!
in Os Amantes sem
dinheiro, Cancioneiro geral, Centro Bibliográfico, 1950, Lisboa
p.s. Manuel Pestana comentou um antigo post, com este poema; fui revisitá-lo e verifiquei que o blog, manhosamente, dera cabo dele... aqui o trago de novo, porque é muito belo
Não há milagres: há vontade
A esperança é deste mundo, com mezinhas não vais a lado nenhum...
Esperança é uma palavra que não devemos enterrar.
Esperança é uma palavra que não devemos enterrar.
Antes pelo contrário.
Não vivemos a
apocalipse.
E também não vivemos a
restauração de um sistema.
Vivemos a mudança e
assistimos ao estertor do capitalismo financeiro, que tudo faz para recuperar o
imenso poder que teve, durante as últimas décadas, que tudo faz para se
reinstalar, à nossa custa, com os benefícios de que usufruía.
Nenhum de nós o ignora:
à nossa custa o faz, exigindo-nos sacrifícios injustos, o que significa muito
mais do que insuportáveis: a injustiça é um crime.
A convulsão social
existe –já existia: agora, revela-se, inteiramente.
Por toda a parte, da
Argentina (porque não só a Europa sofre) à Holanda, à Bélgica, à Itália, à
Espanha, à Irlanda, à Grécia… ao nosso país.
Dizer que “sempre houve
pobres” quer dizer duas coisas:
má fé
ou ignorância.
Ou, ainda outra coisa mesquinha
e covarde: resignação de quem prefere a mentira e nela se aconchega, por medo à
luta que teria de travar se a denunciasse e rejeitasse.
Os pobres não existiram
“sempre”, como os rios e as serras.
Antes do pobre, existiu
o ladrão.
O pobre é, apenas, o
homem roubado: espoliado, escravizado, excluído dos direitos sobre os quais
assentam as sociedades justas.
Mas nada dura… para
sempre…
E, hoje, em boa hora, os
cidadãos contestam o sistema onde o capitalismo financeiro se moveu e roubou e violentou
os cidadãos.
Denunciam os crimes do capitalismo
financeiro.
Os cidadãos contestam a
credibilidade dos políticos –porque através desses políticos o sistema se nos impôs
e impõe, destruiu e destrói.
E a indignação dos
cidadãos representa a abertura da mudança, a alvorada de uma época nova.
É um sinal positivo,
que nos garante a esperança.
Jean-Claude Guillebaud escreveu,
há duas semanas, no Le nouvel Observateur, estas palavras pertinentes:
“Não vivemos uma
“crise”, mas sim uma mudança civilizacional. Não se trata do problema de uma
“estratégia de saída” de não se sabe bem de quê. (…) O crescimento cujo
regresso tantos imploram, à maneira dos xamãs siberianos quando estes se
dirigem a entes invisíveis, não recomeçará a funcionar como um motor gripado
que se arranjou. (…) O crescimento não é uma adição de quantidade, é, acima de
tudo, um impulso colectivo, uma vontade partilhada.”
E esse impulso, essa
vontade partilhada, comum de todos, dará lugar a uma mudança civilizacional: os
cidadãos deixarão de ser peças de máquina, robôs, num parque comandado à
distância por uma minoria de privilegiados…
…aqueles que hoje
acumulam bens, à margem do fisco ou porque o fisco o consente, isto é, porque os
governos admitem a diferenciação dos impostos: levezinhos, para os ricos,
letais, para os pobres…
Quanto ao descrédito evidente
dos políticos, ainda Jean-Claude Guillebaud me traz a seguinte frase de Václav
Havel, escritor checo que esteve na raiz da libertação e democratização do seu
país, em 1989:
“penso que o mundo
político precisa de mais humanidade e espiritualidade.”
Quem governa necessita,
também, e urgentemente, de moralidade.
Mas existe moral no
modo como os governos conduzem as sociedades por que são responsáveis?
quarta-feira, 30 de maio de 2012
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Também elas pagam o mau governo...
"Crianças portuguesas são das mais carenciadas"
in Público de 29 de Maio de 2012
in Público de 29 de Maio de 2012
A abrir a semana: sem vergonha na cara
Christine Lagarde: a prepotência indelicada...
A Grécia aqui tão perto
Perguntada se não lhe custava impor ao povo grego, sobretudo aos mais pobres, medidas de austeridade que cortam em serviços fundamentais como a saúde, a assistência social ou o apoio a idosos, a directora-geral não podia ser mais clara (nem mais cínica): "Penso mais nas crianças que andam na escola, numa pequena aldeia do Níger, que apenas têm duas horas de aulas por dia e partilham uma cadeira por três...".
E que tem Lagarde a dizer àqueles que, na Grécia, todos os dias lutam hoje pela sobrevivência, sem emprego e sem serviços públicos? Que se ajudem a si próprios "pagando os seus impostos". Mas as crianças, senhora? "Bem, os pais são responsáveis, não? Por isso os pais que paguem os seus impostos".
transcrito, com a devida vénia, do Jornal de Notícias de hoje
e, já agora, pergunto eu, saltando para a África que a senhora Lagarde evoca, tão "carinhosamente": o que é que o capitalismo financeiro tem feito no continente africano, além de explorar e roubar as suas riquezas e reescravizar quem lá vive?
MP
A Grécia aqui tão perto
Por Manuel António Pina
As chocantes declarações
da directora-geral do FMI ao "Guardian" revelam bem que género de
gente preside hoje aos nossos destinos e a quem governos como o português ou o
grego subservientemente se vergam. Por momentos, Lagarde deixou cair o idioleto
técnico com que ela, Durão Barroso e a "fürehrin" Merkel, mais os
seus feitores locais, justificam o empobrecimento forçado dos povos e mostrou o
rosto selvagem do neoliberalismo dominante, assente no direito do mais forte à
liberdade.
Perguntada se não lhe custava impor ao povo grego, sobretudo aos mais pobres, medidas de austeridade que cortam em serviços fundamentais como a saúde, a assistência social ou o apoio a idosos, a directora-geral não podia ser mais clara (nem mais cínica): "Penso mais nas crianças que andam na escola, numa pequena aldeia do Níger, que apenas têm duas horas de aulas por dia e partilham uma cadeira por três...".
E que tem Lagarde a dizer àqueles que, na Grécia, todos os dias lutam hoje pela sobrevivência, sem emprego e sem serviços públicos? Que se ajudem a si próprios "pagando os seus impostos". Mas as crianças, senhora? "Bem, os pais são responsáveis, não? Por isso os pais que paguem os seus impostos".
Maria Antonieta não o
teria dito melhor. Só que os "sans cullotes" de hoje persistem em
crer que ainda vivem em democracia (se calhar até em democracia económica).
transcrito, com a devida vénia, do Jornal de Notícias de hoje
e, já agora, pergunto eu, saltando para a África que a senhora Lagarde evoca, tão "carinhosamente": o que é que o capitalismo financeiro tem feito no continente africano, além de explorar e roubar as suas riquezas e reescravizar quem lá vive?
MP
Arte e vida
Obra de Abel Salazar
“O artista ao criar uma
obra de arte, não tem outra finalidade que não seja o próprio acto de criação;
realiza-se nesse acto e, assim, no acto se resuma a finalidade da obra de arte.
Uma vez realizada, a
obra de arte não mais interessa o artista; é um fruto maduro, que caíu.
Em realidade o artista
não procura nem o Belo, nem o Sublime, nem o Real, nem qualquer outra
finalidade estética; ele realiza-se, simplesmente. A criação de uma obra de
arte é um acto vital, fundamentalmente em nada diferindo de qualquer outro acto
vital. Ora a vida não tem outra finalidade que não seja o seu próprio acto de
viver; a vida é, por sua própria natureza, construtiva, mas a finalidade da
construção reduz-se ao próprio acto construtivo, exaure-se e termina nele.”
…e logo outro lhe
sucede, porque cada deles pertence à mesma cadeia, ou nebulosa, vinda do início
que nunca existiu porque dele não descobrimos sinais suficientes ou seguros, e
continuando e repetindo-se através do infinito…, divago sobre essa passagem de
“O que é a arte?”, de Abel Salazar (Arménio Amado Editor, Coimbra, 1940).
José Luís Porfírio cita-a
e comenta-a, no excelente ensaio/apontamento, rico em inteligência e sensibilidade,
Transparência e Opacidade (catálogo da exposição ‘Transparência Abel Salazar e
o se tempo, um olhar’, Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto, Setembro/Novembro
de 2010).
A identificação do acto
de viver -do movimento incessante da vida, afirmação sempre renovada da vida-
com o acto da criação artística é fascinante, abre a caixa de Pandora e precipita
questões infinitas, também elas infinitas…, e inesgotáveis.
Logo à cabeça do
primeiro capítulo do livro referido, escreveu Abel Salazar:
“Para definir Arte
seria preciso definir Vida; o mesmo é dizer que é impossível definir Arte.”
E, agora, é contigo
amigo; é convosco, amigos.
É connosco.
domingo, 27 de maio de 2012
E é com gente desta que poderemos sair do buraco para onde nos atiraram e teimam em manter-nos
Isabel Moreira e Tânia Dias, por terras de trás-os-montes: dão o que têm porque a isso obriga a sua humanidade exemplar...
Lê a história maravilhosa de duas jovens inconformistas com o coração tão grande como o universo:
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Itália: o reino maravilhoso
Café della Pace, em Roma: a dois passos da Piazza Navona, um lugar miraculoso, como tantos outros, no país em que o sonho é a realidade
http://cultura.elpais.com/cultura/2012/05/24/actualidad/1337889184_922918.html
http://cultura.elpais.com/cultura/2012/05/24/actualidad/1337889184_922918.html
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Em tempo de vulgaridade pensa por ti
O livro é um "produto" como outro qualquer...
À massificação da Cultura, hoje rebaixada a nível de produto; à corrida acéfala aos deploráveis best-sellers, impostos pelos mercenários da crítica acrítica; à ditadura da estupidez, que se estendeu às escolas, vinda directamente de universidades da mula russa –encontrou Stendhal a resposta, há quase duzentos anos, e porque a perniciosa tendência sempre existiu e agora triunfa como lei:
“Feliz a literatura que não está na moda, e feliz se apenas as pessoas a que se destina quiserem ocupar-se dela.” (citado por Jacques Rivière, em carta a Alain-Fournier, datada de 25 de Abril de 1910).
Feliz, acrescento, aquele que, livremente, de mente livre, escolhe a obra que, de facto, alguma coisa lhe diz…
Feliz a literatura e feliz os leitores que caminham sem antolhos e pelo seu pé…
À massificação da Cultura, hoje rebaixada a nível de produto; à corrida acéfala aos deploráveis best-sellers, impostos pelos mercenários da crítica acrítica; à ditadura da estupidez, que se estendeu às escolas, vinda directamente de universidades da mula russa –encontrou Stendhal a resposta, há quase duzentos anos, e porque a perniciosa tendência sempre existiu e agora triunfa como lei:
“Feliz a literatura que não está na moda, e feliz se apenas as pessoas a que se destina quiserem ocupar-se dela.” (citado por Jacques Rivière, em carta a Alain-Fournier, datada de 25 de Abril de 1910).
Feliz, acrescento, aquele que, livremente, de mente livre, escolhe a obra que, de facto, alguma coisa lhe diz…
Feliz a literatura e feliz os leitores que caminham sem antolhos e pelo seu pé…
quarta-feira, 23 de maio de 2012
O regresso impossível
O paraíso perdido
Uma das quatro epígrafes de A Toca do Lobo, obra maior de Tomaz de Figueiredo, diz pela boca de anónimo:
Uma das quatro epígrafes de A Toca do Lobo, obra maior de Tomaz de Figueiredo, diz pela boca de anónimo:
“On ne guérit jamais de son enfance.”
Nunca nos curamos da
nossa infância…
Le Grand Meaulnes, de
Alain-Fournier, romance da adolescência, já clássico, ilustra esse sentimento.
E Jacques Rivière, em
carta ao autor, comenta (30 de Março de 1910):
“Tiveste uma infância tão
bela, rica de imaginações e de paraíso, que, ao deixá-la, os limites da vida
desencorajaram-te. E foi como se houvesses vivido a tua vida e te sobrasse,
apenas, repeti-la na memória, narrá-la, interminavelmente, a ti próprio. E isso
é terrível.”
Alain-Fournier morreu
jovem, desapareceu, algures, ninguém sabe onde, durante a guerra de 1914-18.
Esfumou-se.
E nunca chegou a
responder à pergunta implícita na resposta a Rivière, datada de 4 de Abril de
1910:
“Ser atirado para a
vida, sem saber como dar-lhe a volta nem como encontrar o nosso lugar. (…) Após
terminado o primeiro ciclo da vida, imaginar que ela acabou e não saber como
vivê-la…”
A saudade do paraíso
perdido, a lembrança dolorosa, a infância de que nunca nos curamos, chaga do
lado –e a violência absurda da vida que tudo vai rasgando.
terça-feira, 22 de maio de 2012
Um povo inculto é o paraíso do mau governo e a sua segurança
Para o governo, é melhor assim: um homem que sabe é um perigo a evitar...
“Um dos pontos fracos de Portugal evidenciado no anterior relatório é a baixa percentagem (30%) de pessoas entre os 25 e 64 anos que têm o ensino secundário completo e que fica muito aquém da média de 74% registada nos outros países.”
“Um dos pontos fracos de Portugal evidenciado no anterior relatório é a baixa percentagem (30%) de pessoas entre os 25 e 64 anos que têm o ensino secundário completo e que fica muito aquém da média de 74% registada nos outros países.”
in Público de hoje, artigo “Portugueses pouco satisfeitos com a vida”
Frase do dia em tempo de solidão e indiferença
"As três velas", 1938-40, óleo de Marc Chagall
“Nenhum aluvião poderá afogar o amor e nem os grandes rios o submergem; se um homem muito rico oferecesse toda a sua fortuna, para comprar o amor, colheria apenas desprezo.”
“Nenhum aluvião poderá afogar o amor e nem os grandes rios o submergem; se um homem muito rico oferecesse toda a sua fortuna, para comprar o amor, colheria apenas desprezo.”
Cântico dos cânticos,
VIII, 7
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Um pintor veneziano
"Interior", c.1982, óleo de Carlo Tessarolo, colecção particular
Carlo Tessarolo é um
pintor da geração de Aldo Zari, veneziano e amigo.
Hoje, conhecido e
admirado, tornou-se num excelente retratista, mas continua a trabalhar em obras
figurativas muito pessoais, difíceis de definir pois que a definição limita e
Tessarolo ama a liberdade.
Melhor: o seu estilo é assunto entre ele e as telas, a resolver enquanto trabalha e se
procura.
domingo, 20 de maio de 2012
Será desta -e pela segunda vez?
A Briosa: Associação Académica de Coimbra, em luta pela 2ª Taça de Portugal: se não ganhar, como seria justo, a festa vai acontecer à mesma!
Mário de Sá-Carneiro e os outros
"para
falar de obras impressas, citarei, como preferidas o Só de António Nobre nas suas ternuras de pajem, saudades de
luar, febres esguias e, ainda, frisantemente, o livro do futurista Cesário
Verde, ondulando de certo, intenso de Europa, ziguezagueando de Esforço.”
Mário de Sá-Carneiro, resposta ao inquérito de Boavida Portugal,
publicado no jornal República de 13 de Abril de 1914 (citado in Mário
de Sá-Carneiro FOTOBIOGRAFIA, de Mariana Tavares Dias, Quimera Editores,
1988)
Uma flor para o poeta
Pigalle, painel, 1895, obra de Henri Toulouse-Lautrec
João Pinto de Figueiredo, com garra especial e rara sensibilidade, no estudo incontornável, A Morte de Mário de Sá-Carneiro (Publicações Dom Quixote, 1983), descreve o enterro do poeta, e para aqui traslado (o.c., pp. 218, 219):
João Pinto de Figueiredo, com garra especial e rara sensibilidade, no estudo incontornável, A Morte de Mário de Sá-Carneiro (Publicações Dom Quixote, 1983), descreve o enterro do poeta, e para aqui traslado (o.c., pp. 218, 219):
“29, ao meio dia, é o
enterro “modesto mas decente”, segundo Araújo. “Nunca vimos o azul de Paris
mais resplandecente, mais cheio de luz”, escreve Xavier de Carvalho, sendo “sob
esse colorido dossel de estonteante beleza”, continua, que “o modesto caixão de
pinho, coberto dum pano franjado de prata” segue em direcção ao cemitério
Pantin. No magro préstito vão Helena
A da pulseira duvidosa
A dos anéis de jade e
enganos
o próprio Xavier de
Carvalho, Carlos Ferreira, “um bom rapaz”, e José d’Araújo (…).
À esquina da Rua
Frochot, a meia dúzia de passos do Tabarin e do Hotel de Nice [onde viveu e se
matou Sá-Carneiro, hoje, Hotel Ninon], ouve-se dizer, num grupo, à passagem do
carro funerário: “É um escritor português que se suicidou por amor.” Então,
conta Carvalho, “uma midinette atravessou a rua e atirou sobre o caixão o
pequeno ramo de violetas que trazia no ‘corsage’ de ‘linon’,… exclamando: -Um
poeta que morreu de amor… Como eu o teria amado!”
Helena era a amante de
Sá-Carneiro, uma das figuras de Pigalle, da boémia parisiense, que Henri
Toulouse-Lautrec amou e fixou.
Sá-Carneiro conheceu
esse mundo, certamente querido à sua alma torturada, ansiosa, peregrina do
absoluto.
Jorge Barradas, que
privou com o poeta e conheceu Helena, disse-me ela nada ter de extraordinário.
Não seria Helena a
Jeanne Hébuterne*** de Modigliani. Mas dessas coisas só sabe quem as vive por
dentro.
Quanto à midinette das
violetas ficou, para sempre anónima, daquelas figuras únicas que todos os
dias iluminam o mistério de Paris.
Acerca dos outros
portugueses que João Pinto de Figueiredo refere… deverás ler a obra admirável,
que nenhum admirador de Sá-Carneiro pode dispensar.
sábado, 19 de maio de 2012
Os 122 anos de Sá-Carneiro, nascimento e morte de um poeta português
Mário de Sá-Carneiro (19 de Maio de 1890-26 de Abril de 1916), visto por Almada Negreiros
Aqueloutro
O dúbio mascarado, o
mentiroso
Afinal, que passou na
vida incógnito;
O Rei-lua postiço, o
falso atónito;
Bem no fundo o covarde
rigoroso…
Em vez de Pajem bobo
presunçoso…
Sua alma de neve asco
de um vómito…
Seu ânimo cantado como
indómito
Um lacaio invertido e
pressuroso
O sem nervos nem ânsia,
o papa-açorda…
(Seu coração talvez movido
a corda)
Apesar dos seus berros
ao Ideal,
O corrido, o raimoso, o
desleal,
O balofo arrotando
Império astral,
O mago sem condão, o
Esfinge Gorda…
***********************************************************
Eram os últimos versos,
que antecederam de pouco o suicido brutal.
“Daqui a vinte anos a
minha literatura talvez se entenda”, escreveu o poeta.
E acertou: em 1936, já
a revista presença o arrancara ao esquecimento. E são de João Gaspar Simões,
um dos directores de presença, estas palavras, publicadas no magistral Prefácio
a Poesias, de Mário de Sá-Carneiro (Ática Editora, Lisboa):
“Vai precipitar-se a
crise. O homem que afronta a morte é um homem: Sá-Carneiro desce, pois, ao
plano da vida, por estar prestes a fechar-se no seu quarto de Paris, de smoking vestido, pronto para a viagem derradeira. Morre em beleza, já que em beleza não
pôde viver. Sim: o destino do verdadeiro artista é incompatível com o destino
do mundo. Nas últimas horas -os seus últimos poemas são das últimas horas-
põe-se a falar de si mesmo com aquele cinismo, aquele desprezo, aquela altivez de
que só os grandes homens são capazes. Eis o último recurso dos génios num mundo
cada vez mais hostil aos artistas: o desprezarem a humanidade, desprezando-se a
si mesmos. Sá-Carneiro, grande poeta, grande artista, desprezou-se a si mesmo,
porque se transcendeu. Só os homens que se transcendem a si mesmos são dignos
de eterna glória.”
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Não há PS
Que tristeza, meu pai!
“Seguro assinala retoma de diálogo que tinha sido interrompido
“Seguro assinala retoma de diálogo que tinha sido interrompido
O secretário-geral do PS, António José Seguro, saiu esta
sexta-feira da reunião com o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho,
assinalando o “gesto positivo” que representou o encontro.”
in Público de hoje
Não há PS nem secretário-geral do maior partido de esquerda: há um que parece um sedativo, assim uma coisa como um “Xanax”.
Diria Cristo, mais ou menos assim: “deixa lá, pá, ele não sabe o que há-de fazer.”
in Público de hoje
Não há PS nem secretário-geral do maior partido de esquerda: há um que parece um sedativo, assim uma coisa como um “Xanax”.
Vai essa alminha, aluno de partido, que cresceu nos quadros
do mesmo, e que, imaturo, se viu à frente de um rebanho espantado, vai esse “jovem”,
incapaz de decisões que mudem a podridão em que caímos, cumprimentar e conversar
com quem nos enterra e vem dizer que ficou mais tranquilo?!
Diria Cristo, mais ou menos assim: “deixa lá, pá, ele não sabe o que há-de fazer.”
Deixa, uma ova! “Ele” está a participar do crime: da miséria
para onde nos atiram.
“Ele”, com a sua falta de verga e convicção socialista, está
a enterrar-nos e a enterrar um PS que existiu e é urgente que volte a existir.
O “jovem” Seguro, na insegurança, é o coveiro do socialismo a
sério e da esquerda –dos que se recusam pactuar com os outros coveiros, os que
vendem Portugal, a Pátria, o nosso País.
p.s. figura de sendeiro?, sim fez o "jovem" e, com isso, desacredita o PS que deve opor-se frontal, clara e irreversivelmente à política anacrónica e letal deste governo.
p.s. figura de sendeiro?, sim fez o "jovem" e, com isso, desacredita o PS que deve opor-se frontal, clara e irreversivelmente à política anacrónica e letal deste governo.
A Grécia anda a sair dos carretos ou o susto dos neo-liberais do roubo organizado.....
in The Guardian de hoje
"A acção europeia contra o débito:
"-Nesta situação, os rótulos são um luxo, a Grécia não pode permitir-se isto!"
"A acção europeia contra o débito:
"-Nesta situação, os rótulos são um luxo, a Grécia não pode permitir-se isto!"
O "progresso": o que é verdadeiro não se suporta
A capelinha do Mileu: humilhada e ofendida
Havia um Homem que ia dizer missa a esta capelinha: o Padre Pôpo, ovelha inconformista da igreja e, por natureza delicado, a preferir a discrição. Deus esperava-o naquele lugar essencial. Sempre que fosse o dia ou Ele o chamasse. O gasóleo tem feito tudo para sufocar a voz do absoluto ou, se não fores nessa, da beleza.
Dia Internacional dos Museus: um crime sem castigo
Capela do Mileu, Guarda
http://www.infopedia.pt/$capela-do-mileu-(guarda)
No Dia Internacional dos Museus, cabe recordar uma monstruosidade
invulgar, agressão vergonhosa a um monumento nacional: a Capela do Mileu, na
Guarda.
Como podes verificar pela fotografia, é uma joia de
arquitectura medieval e, pelo link abaixo, tem história.
Anos atrás, o presidente da Câmara Municipal, então em
exercício, permitiu o assalto do betão, de casas abnormes, autênticas
coelheiras de vários andares e permitiu, o analfabeto, que, brada aos céus!, ali a poucos metros do
monumento maravilhoso na elegância simples, instalassem uma estação de serviço.
Assim ficou.
Para sempre?
Nada é para sempre –mas esse crime muito dificilmente terá
castigo –arranjo…
Modo bem português, o desprezo pela qualidade, o ódio aos
monumentos (lembras-te da autoestrada que passa ao lado da Batalha e das
estupendas Capelas Imperfeitas?), a incapacidade de conviver com as árvores, a ganância e a procura do lucro fácil e imediato …
Talvez um dia…, quem sabe?
quinta-feira, 17 de maio de 2012
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