Roma é uma cidade
espectacular. A Itália é um país extrovertido. Arquitectura, pintura, música,
atitude dos que lá vivem –tudo aponta isso.
Lembro-me de pouco
depois de chegar a Roma, nos idos de 1975, ter pensado: “Os italianos têm uma
grande qualidade: não levam a vida demasiado a sério”. Eu vinha de um país
tradicionalmente triste, de gente fechada, insegura: Portugal…
Woody Allen, em “To
Rome with love”, não retrata nem os romanos, nem a Itália –ainda que os romanos pesem
bastante, como veremos.
Aproveita a natural
abertura e extroversão italiana -a esmagadora maioria de actores é italiana- e
caricatura o nosso quotidiano; a farsa do dia-a-dia.
Não por acaso, a ópera
de Ruggero Leoncavallo, Pagliacci, se
torna o pivô, ou chave, desse intermezzo, que poderá considerar-se o
filme de Woody Allen.
(E sublinhe-se a
excelente interpretação de Fabio Armiliato, tenor de fama, actor notável…)
Nem por acaso o drama
-a tragédia- de Leopoldo Pisanello, bem representado por Roberto Benigni, ocupa
o espaço que ocupa, sobretudo, dentro dos espectadores.
… Pisanello, cittadino qualunque, homem comum, que o
carrossel vazio do mundo em que vivemos transforma em senhor nº1, e, com a mesma velocidade e indiferença, atira-o para o
nada, para a inexistência, para a insignificância onde o fora buscar…
Qual nada, qual
inexistência, qual abismo?
O abismo que suporta
-porque é no nada que assenta- a palhaçada das nossas vidas.
Correctamente: a
mascarada social.
Se quiseres, chama-lhe,
porque chamas bem, a sociedade do capitalismo financeiro, do consumo frenético,
da superficialidade, da aparência, do assassínio das almas –dos homens
transformados em produtos.
Palhaços –eis o que
somos.
Não escapa ninguém, no
filme?
Escapa, antes de mais,
Anna, a call girl, que a genial Penélope Cruz encarna, sem ilusões, nem máscara; depois, os jovens, à beira do
abismo.
E os outros?
Há que perdoar-lhes:
não passam de vítimas da máquina infernal.
Sim, amigo, exactamente, a máquina que precipitou a crise –a que te rouba e escraviza.
Aqui, ali e acolá.
Voltemos à
gente de Roma, e à sua importância: redimem a ironia pessimista de Woody Allen.
Ele viu-os e animou-os,
com a humanidade e a simpatia que os romanos, os italianos, suscitam.
O romano -o italiano-
não leva a vida -a vida convencionada- demasiado a sério: dá-lhe a importância
que reconhece, e dá-lhe a volta: obriga-a a dobrar-se diante da alegria e do
prazer de viver.
Reinventa a esperança.
Amanhã é outro dia... e quem sabe?