sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Feliz Ano Novo!




Para todas as amigas e todos os amigos os votos de um


MUITO FELIZ ANO NOVO!



p.s. se acontecer um Milagre de São Francisco, o Santo Bom e amigo dos homens bons que não merecem mais sofrimento (somos nós, não verdade?)... SEM CAVACO!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Hoje vai a alma sufocando...

Henri de Man (1885-1953): o João de A Velha Casa, de José Régio, inspira-se nele



Capa de Uma gota de sangue, primeiro volume de A Velha Casa, de José Régio



Foi hoje que reabri o tal ensaio de A. De Sousa Gomes, Henri de Man e o Socialismo Personalista (Cadernos Culturais Inquérito, 1940).

Henri de Man!

Um homem íntegro, vertical, um humanista. Um homem que lutava para que, aos homens, não fosse roubada a dignidade. A auto-estima. A... humanidade.

Pensei em nós, na crónica depressão portuguesa, no desencanto, no pessimismo, na desistência,

que nos chocam em nós próprios, portugueses.

Que parece fatalidade. Ou mau olhado. Ou condenação da raça.

E topo com esta frase:

O complexo de inferioridade resulta de as condições de vida e de trabalho dos operários industriais entrevarem “a satisfação de uma série de necessidades instintivas e habituais, e de engendrarem, por consequência, um recalcamento crónico do instinto de auto-estimação”.

Serve para todos os que trabalham; para todos que vivem inseridos nesta sociedade de hoje, neoliberal, selvagem, que de cada um faz gato e sapato e um novo escravo.

Em 70 anos, quanto se andou para trás!

Em 70 anos o liberalismo selvagem, o mercado sem regras, a concentração do capital,

foram tomando conta de tudo e de todos.

Mas o que eu quero, ainda, aqui dizer, é o seguinte:

Henri de Man foi o inspirador da personagem de João Trigueiros, na obra-prima do nosso romance, A Velha Casa, de José Régio.

Eis uma confidência de Régio ao seu amigo Feliciano Falcão, em Portalegre.

Confidência que o segundo me confiou e, agora, aqui deixo registada.

José Régio não olhava para o umbigo: olhava, com atenção e muita inteligência e sensibilidade, para a realidade que o rodeava.

Foi um activo combatente anti-fascista. Pertenceu ao MUD. Fez campanha por Norton Delgado. Escreveu contra o regime salazarista. Viu obras sua retiradas do mercado. Peças suas de teatro proibidas. Artigos seus censurados.

Nos 100 anos do nascimento de Paul Bowles




A GENEROSIDADE DA IMPRUDÊNCIA

Nos anos de Marrocos visitei uma única vez Tânger, onde me demorei três dias. Era o Sul que me atraía, Marraquexe, Essaouira.


Óbvio que cometi um erro, mas a imagem da cidade de Bowles ficou-me bem fixa na retina. E no coração.


Talvez, a lembrança das pessoas paradas frente ao mar, na Praça de Faro, que lhes abria o horizonte, nostálgicos de partir. A viagem é a grande aventura e começa à nascença. Depois, depende do rumo que lhe dermos.


Paul Bowles, o americano intranquilo cujo centenário passa em Dezembro (10/12/1910-18/11/1999), escritor, músico, tradutor, sobretudo vivente, escolheu, em 1950, Tânger e nunca mais daí arredou. No seu “Without stoping” expõe as experiências, pelas sete partidas repartidas. Mas à cidade “mestiça”, árabe, francesa, espanhola e de quem chegar, segundo a mitologia grega obra de Tingis, mulher de Anteus, filho de Poseidon, se recolhia e lá arriscou oferecer-se inteiro. Foi uma personalidade complexa e sem fronteiras.


Ousar, eis o verbo que mais conjugou. “O hábil e o prudente cuidam apenas deles próprios”, escreveu, em “Sous le soleil de satan”, Georges Bernanos. Isso foi coisa que Bowles desconheceu: habilidade e prudência –contrariavam-lhe a prodigalidade intrínseca.


Muitas vezes o diabo terá passado perto ou metido o nariz no seu quotidiano. É o preço a pagar por aqueles que decidem lutar contra o demonismo da sociedade despersonalizada, anunciada por Orwell, em “Animal Farm”. Bowles, mochila às costas, remexeu o mundo, revolveu Tânger, marcou gerações de insatisfeitos. A terra já lhe comeu os ossos. Fica o indestrutível: o espírito, que sempre se liberta do efémero.

publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de hoje

Vamos respirar ar puro!

"Pássaros no azul", de Georges Braque





Vamos reagir ao pesadelo de ontem!

Esquecer a embrulhada deprimente do discurso de Cavaco, diante do calmo, seguro e... caridoso Manuel Alegre cujo humanismo me leva cada vez mais a inclinar-me para votar nele, a 23 de Janeiro de 2011.

Reagir à caterva de disparates que o homem de Boliqueime nos atirou para cima (bem entendido: para cima dos que aguentaram até ao fim...).

Vamos pensar positivo, contra a onda do neoliberalismo selvagem que faz de Cavaco ponta de lança na destruição programada do Estado Social.

Vamos acreditar que há quem saiba dizer “Bom dia” porque deseja bom dia ao outro!

Que a vida é demasiado forte para que o egoísmo, a ganância e a desumanidade dos usurários do neo-capitalismo selvagem possam triunfar.

E aqui deixo esta frase preciosa de Henri de Man (1885-1953), que topei numa obrinha com 70 anos, “Henri de Man e o Socialismo Personalista”, de A. de Sousa Gomes (nas saudosíssimas edições Inquérito),

Frase que levanta a alma:

“a ética não começa senão onde acaba o interesse”.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O regresso ao bom espírito da Mocidade Portuguesa

Cantando e rindo, sigamos o "chefe", direitinhos à mansa miséria...




Fazer pela vidinha

por Manuel António Pina



O "sensato" conselho de Cavaco Silva para comermos e calarmos de modo a que "os nossos credores" não se zanguem connosco e nos castiguem com juros cada vez mais altos espelha uma cultura salazarenta de conformismo que, sendo muito mais antiga que Cavaco, ele representa na perfeição, até nos seus, só na aparência contraditórios, repentes de arrogância.



Quando Cavaco nos recomenda que amouchemos pois "se nós lhes [aos 'nossos credores'] dirigirmos palavras de insulto, a consequência será mais desemprego para Portugal", tão só repete, adaptada à actual circunstância, a "sensata" e canónica fórmula do "Manda quem pode, obedece [ no caso, cala] quem deve".



Trata-se de uma atávica cultura em que a vida é vidinha, a crítica deve sempre ser "construtiva" e colaborante, os trabalhadores, por suave milagre linguístico, se tornam "colaboradores" (e se colaboracionistas melhor ainda) e servilismo e acriticismo são alcandorados a virtudes cívicas. Porque é assim que se faz pela vidinha, de joelhos.



Estejamos, portanto, gratos às "companhias de seguros, fundos de pensões, fundos soberanos, bancos internacionais e cidadãos espalhados por esse mundo fora" que nos emprestam dinheiro a juros usurários, pois eles apenas querem o nosso bem. E, como o bom Matateu numa famosa entrevista a Baptista Bastos, digamos tudo o que quisermos, excepto dizer mal, "porque [cito de cor] Matateu não diz mal de ninguém".

transcrito, com a devida vénia, do Jornal de Notícias de 30/12/2011

Meia-hora de tristeza e uma alma caridosa

Um homem esquisito vítima da sua própria incapacidade



Do debate ficaram-me certas expressões e palavras desconexas de um homem enervado, irritado e mal habituado ou incapaz de suportar oposição, críticas ou quem o contradiga.

Já percebeste quem foi, porque só podia ser ele: Cavaco Silva.

Expressões e palavras, assim:


"Melker" (tratava-se da chanceler alemã Merkel)


"do Sarkozy" (tratava-se do Presidente da República francesa)

direito à fome”

“inventualmente”

“encruzulhada”

Caridosamente, digamos que, na sua total incapacidade de conviver com o discussão democrática, metia os pés pelas mãos.

Se uma pessoa dessas voltar a ser eleito PR, acontece o seguinte:

confirma-se que vivemos num país com 60% de analfabetos,

onde se ignoram os direitos e deveres cívicos,

num país onde predomina o inculto,

o asténico

o indiferente,

o demitido.

Num país onde a exigência da qualidade entrou em coma.

Manuel Alegre distinguiu-se pela boa educação, a paciência e... a caridade de não sublinhar a incoerência do discurso quase delirantemente desconexo do seu adversário.

Decididamente, Manuel Alegre teve pena da triste figura que ali esteve a fazer Cavaco.

A liberdade de escolha

Erlich in El País de hoje


"-Dizem que em 2011 poderemos optar entre o canibalismo e a escravidão.

"-Ah, sim. A liberdade de escolha, antes de tudo.

Picasso roubado e não encontrado

"Le pigeon aux petis bois", 1911, é o quadro de Picasso que foi roubado, Maio passado, no Museu de Arte Moderna de Paris... e a polícia procura, em vão, até hoje...

As obras de Cavaco

As autoestradas rendem mais àqueles que especulam com o erário público...


O candidato à Presidência da República, Defensor Moura lembrou -e muito pertinentemente-, ontem:

"nos Governos de Cavaco Silva foram destruídos 848 quilómetros de ferrovia”.

Quem sente a falta deles que não o esqueça!

Vamos a ver o que tem para dizer hoje o remexido de Boliqueime a Manuel Alegre... Não faltes!


NA RTP1 ÀS 20::40: OBRIGATÓRIO ASSISTIR!

O programa eleitoral de Cavaco: um povo mudo

Dos jornais: "Cavaco não quer que os portugueses critiquem os que lhe atrasam a vida"




“Come e cala-te!”, eis o que diz Cavaco.


que é como quem diz: “Aperta o cinto e não bufes!”


Ou: “Está caladinho e curte a miséria!”


E pode ser: “Não faças ondas porque senão ainda te lixas!”


E também: “Sê pobrezinho mas obediente!”

E ainda:

“Olha o papão, olha o ladrão que te dá cabo do pêlo!”

Revela-se Cavaco o sonho de Cavaco.


O ideal de Cavaco.


A moral de Cavaco.


E é esta: “O Zé Povinho não tem voz na matéria”.


O homem de Boliqueime, que esbanjou 10 (dez!!!) anos de primeiro-ministro, com ajudas milionárias da UE e a pôr-nos de tanga,


andou 5 anos (cinco!!!), como PR a fazer que fazia e se propõe para continuar a ser a mesma inutilidade mais 5 anos ( mais cinco!!!),


manda respeitar o silêncio e engolir o desemprego, o abandono, a fome.


Ser obediente.

Portarmo-nos bem.


Praticar os brandos costumes.


Não haverá quem o mande, a ele, estar calado???

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Vai a todas...




Presidente ou candidato?

por Manuel António Pina


O jantar era de amigos e estavam todos envergonhados. Todos menos eu, o único que tinha, pelos vistos, perdido o espectáculo "kitsch" do ano: o casamento de dois ex-sem-abrigo abrigados agora à dentífrica e eleitoral tutela presidencial (ou candidato-presidencial, eis a questão).


Autoflagelavam-se os convivas, interrompendo o desempenho gustativo, com os pormenores mais confrangedores do episódio quando lhes ocorreu que, afinal, aquele presidente (ou candidato a presidente) não era seu e, caindo em si e nos lombinhos de porco preto, deixaram-no entregue, ele que se governasse, ao "exquis" gosto do casamenteiro sucesso. Não sem - pois que a coisa decerto haverá de ficar para a posteridade - um piedoso "frères humains qui après nous vivez/ N'ayez les coeurs contre nous endurciz".


Sobrava, mais séria, a questão presidencial ou candidato-presidencial. E havia quem defendesse que, aproveitando-se o actual PREC (Processo de Revisão Em Curso), fosse incluída na Constituição a obrigatoriedade de suspensão do mandato de presidentes-candidatos de modo a garantir, se não a dignidade da função, ao menos a transparência das campanhas. E porque não antes a obrigação de os presidentes a votos se fazerem acompanhar de dois bonés, um com um "P" de Presidente, outro com um "C" de Candidato, que um assessor lhe fosse pondo na cabeça conforme as conveniências do que dissesse ou das figuras que fizesse?


transcrito, com a devida vénia, do Jornal de Notícias de 23/12/2010

Um homem íntegro

Guarda: a cidade onde a alma respira melhor


Salvar do esquecimento o que define o perfil de uma terra é trabalho sagrado.

A literatura, a música, o artesanato, personalidades, eventos, quanto traduza e afirme a sua identidade.

O Núcleo Cultural da Guarda publica a colecção “O fio da memória”, onde tem vindo a reunir elementos preciosos, e leva a cabo um trabalho inestimável. Os cadernos editados aproximam a centena. Nenhum desnecessário. Acrescentam sempre alguma coisa importante. É o caso do recente número 93: “J. Pereira da Silva, Médico, Filantropo e Humanista”, de Isabel Coelho Antunes.

Em poucas páginas, a autora invoca alguém cujo carácter independente e limpo encarnou as contradições e dificuldades da cidade, nos anos 40 e 50 do século passado.

Unamuno, que a visita, em 1908, assinala o interesse dos egitanienses pela Cultura. Mas esse desejo viria a sofrer o recrudescimento de um clericalismo obsoleto e a tacanhez, o cinzento asfixiante do salazarismo.

No entanto, a luz nunca se apagou. Crescido na Guarda, lembro bem o Dr. Pereira Silva. Era um homem extraordinário: perspicaz, generoso, integérrimo clínico. Certamente, um humanista cristão. Ele e outras figuras, os advogados Bigotte e João Gomes, o Dr. Bernardo, entre poucos mais, preservaram o fogo do “alto monte da sagrada Beira” (Augusto Gil dixit).

Tive a honra de o conhecer e der ser seu jovem amigo e admirador –e o adolescente é avaro em admirações... No Dr. José Pereira da Silva, impressionava-me a simplicidade das atitudes, onde adivinhei a fidalguia da coerência moral. Não se dava ares: dava-se aos outros. Nunca o esqueci, porque nunca esquecemos quem nos ajuda a entender a vida.

Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 26/12/2010

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Um presidente que era um presidente e um homem que era um homem... ou dois homens que eram dois homens...

Sandro Pertini, Presidente da República italiana, e Enzo Bearzot, seleccionador italiano de futebol, celebram a vitória da Itália, no Campeonato do Mundo de Futebol, em Madrid, ano de 1982... pois... era outra loiça...

Saudade




Enzo Bearzot, seleccionador da Itália, em 1982, quando ganhámos o Campeonato do Mundo de Futebol, em Madrid


Quando ganhámos: exactamente: quando ganhámos.
A Itália era e é a minha segunda Pátria.

Vivia lá há 7 anos, era um dos que, todos os dias, iam à Piazza Navona. Ao Campo Dè Fiori. Ao Pantheon.

Um dos que, todos os dias, almoçavam nas osterie ali à volta.

A Itália era e é a minha segunda Pátria.

Recebeu-me bem e deu-me tudo.

Amor, beleza, o viver simples e directo do dia-a-dia, que ninguém sabe se o dia seguinte virá.

A Itália de Pertini. A Itália livre. A Itália que queria ser socialista.

Não te assustes.

Ainda era o tempo em que a política não era uma carreira: era um ideal.

Socialismo: igualdade, fraternidade, liberdade.

Pois, direitinho da revolução francesa: que mudou tudo.

Era a nossa Itália.

Por isso é que eu digo: ganhámos.

Eu tinha a bandeira tricolor à janela e só a minha mulher é que me impediu de tomar banho numa das fontes da tal Piazza Navona.

Atravessámos Roma, no bolinhas, um Fiat 600, uma maravilha! Quase a derrapar, a bater, e tão felizes!

O meu cão Zac ia no banco de trás, a ladrar, a festejar.

Nós tínhamos ganho!

Com Rossi, Gentili, Tardelli, Zoff...

E com um que falhou um penalti e fez dar um pulo desesperado ao Presidente Pertini, que o rei Juan Carlos acalmou...

Mas ganhámos à mesma.

Foi um dos dias mais felizes da minha vida de 15 anos, em Roma.

Hoje soube que Bearzot morreu.

Às vezes, as pessoas morrem.

A vida continua.

Ah!, continua!

Mas seria pouca coisa, se não lembrasse, agora, esse momento.

Seria um homem sem passado –sem as alegrias de ontem.

Interrompi as férias, para assinalar a vida de Enzo Bearzot.

Não vim assinalar a morte.

Vim recordar a vida que ele viveu e a alegria que nos trouxe: campeões do mundo de futebol, fora de casa.

A morte não é para aqui chamada: é um pormenor da vida. Nada mais.
p.s. em italiano, aqui lhe deixo:

Feliz Natal!

Para levar apenas o essencial...





Amigos!, já arrumei as coisas e vou ao meu Natal que será algures no Alentejo costeiro.


À cautela, arranjei uma mala de porão...


Voltaremos, o Sobre o Risco e eu, lá para o fim do ano ou, quem sabe?, nos princípios de 2011.


Desejo-vos um Feliz Natal e, se não falarmos antes, um Ano Novo menos trágico do que andam a vender por aí...


Um Ano Novo bom mesmo!



Abraço forte!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Cuidado com a "cultura" dos regedores!

A "cultura" labrega já vai além das freguesias: pode chegar às câmaras e às assembleias municipais...



É a cultura, estúpido!


Manuel António Pina



O "Público" trazia um dia destes uma notícia alarmante (como geralmente são as provenientes do INE), a de que, ao contrário do Ministério da Cultura que, em 2009, diminuiu a despesa em em 13,4%, os gastos das câmaras municipais em cultura aumentaram 23,6%.

Mas o que será, para a generalidade das câmaras, "cultura"? O INE fala, por exemplo, em "Publicações e literatura", rubrica onde cabem tanto a "Ilíada" como o Boletim Municipal e o Regulamento dos Lixos Domésticos.

Num sentido antropológico ou sociológico suficientemente vasto, "cultura" é, de facto, tudo: o queijo da Serra, as papas de sarrabulho, a Liga de Futebol, as procissões das velas, as tardes de domingo com a família às voltas nos centros comerciais, o "boi" e o "filho da p..." das discussões de trânsito, o Mosteiro dos Jerónimos, a "Art Nouveau", La Feria como a Royal Shakespeare Company, Toni Carreira como Eurico Carrapatoso.

Assim, no Porto, Rui Rio que, quando ouve falar de cultura puxa da máquina de calcular (que mata mais do que a pistola do outro, e no Porto tem matado grupos de teatro e instituições de toda a ordem), irá este ano pôr de novo a Câmara a pagar corridas da Avenida da Boavista.

Quem contesta tal despesa invocando as carências vividas hoje no Porto, não sabe (é a cultura, estúpido!) que nem só de pão vive o homem mas também de "carros de corrida a correr atrás uns dos outros a ver quem chega primeiro".

transcrito, com a devida vénia, do Jornal de Notícias de hoje

O Natal de um pintor português

'A adoração dos pastores', por Jorge Afonso, 1515

No reino da hipocrisia

Cavaco no casamento de Paulo e Filipa





Cavaco responde a José Sócrates

título do Correio da Manhã de hoje





Sócrates denunciou, e bem, o aproveitamento da pobreza portuguesa pelos políticos que se manifestam “indignados” e “solidários” com a miséria, para promoverem a sua própria imagem.

Ao que parece ao “Correio da Manhã”, Cavaco ter-se-á sentido (atingido?) no dever de responder ao primeiro-ministro.

E como respondeu?

Indo à festa de Natal dos sem abrigo, organizada pela Comunidade Vida e Paz (CVP); e explicou: “A primeira razão para estar aqui é associar-me ao casamento do Paulo e da Filipa".

Um casal pobre e ex-sem abrigo.

Como Cavaco não está em campanha eleitoral e a tratar da sua reeleição para a presidência da República, a ida à festa dos pobrezinhos e os parabéns ao casal pobrezinho, atitude de “pura filantropia”..., é, "real e admiravelmente", a resposta "apropriada" às críticas de Sócrates...

O país, que usufruiu da "riqueza a rodos" que os seus, dele, 10 anos de primeiro-ministro lhe trouxeram (isto é: ainda hoje anda de tanga a pagar os tais 10 anos de "sabedoria"), não se surpreende com mais este gesto de profunda competência cultural e política do homem de Boliqueime.

Gesto desinteressado e altruísta, claro está...

É preciso ter lata!

domingo, 19 de dezembro de 2010

O esplendor dos dias

'O pomar", óleo de Pierre Bonnard (1867-1947)


Sol

Não fora a terapêutica do sol
E um cavar de terra o meu pedaço
Que me prende ao cantar de um rouxinol,
Eu já tinha morrido de cansaço.

Oh! Estética feliz do sol a sol,
Na terra que removo com meu braço,
Ver as plantas crescer, ou me console
Um respirar de rosas pelo espaço!...

Há sorrisos de amor na Natureza
De um cheiro a eternidade, e de beleza,
Que eu penso-a no divino junto a mim

Mas a deusa sorrindo ao que caminha,
Ouvi dizer a uns olhos de velhinha:
“Porventura é aqui algum jardim?”

Afonso Duarte in O anjo da morte e outros poemas

Pensar o Natal dos outros: e os imigrantes?


Editorial

Arrastre xenófobo


Partidos democráticos europeos disputan a los populistas su agenda contra los inmigrantes


Los duros efectos de la crisis económica sobre el déficit público y el empleo han propiciado un retorno del debate europeo en torno a la inmigración. No porque se trate de una consecuencia inevitable, sino porque las dificultades que atraviesan la mayor parte de los países de la Unión han creado un caldo de cultivo favorable a la expansión de las propuestas populistas y xenófobas.

Los partidos democráticos, por su parte, no han intentado contenerlas y combatirlas, sino que han preferido disputar electoralmente en el mismo terreno que estas fuerzas emergentes, y ateniéndose a la misma agenda. Medidas contra los inmigrantes que cosechaban una amplia condena hasta fechas recientes se incorporan ahora a los programas electorales y de Gobierno de los partidos democráticos. Y también la Unión Europea (UE) se está dejando arrastrar por esta peligrosa corriente, como ha quedado de manifiesto en el intento felizmente abortado de aprobar la Directiva del permiso único en el Parlamento de Estrasburgo.

El regreso de la inmigración al primer plano político no debería ocultar el cambio de sentido que ha experimentado el debate. Si durante los tiempos de bonanza se centraba en las medidas para canalizar o ralentizar los flujos de trabajadores extranjeros, invocando los supuestos desafíos que su sola presencia representaba para las culturas o identidades nacionales, en estos momentos lo que se discute es cómo privarlos de sus derechos. Y no de los que les corresponden como a cualquier persona -que, por lo demás, no siempre están siendo respetados-, sino de los que han adquirido por haber trabajado legalmente y, por consiguiente, haber cotizado por sus prestaciones y pagado sus impuestos.

En tiempos de ajuste presupuestario y de recortes sociales, el populismo y la xenofobia proponen excluir a los trabajadores extranjeros de los beneficios que les corresponden como fórmula para aliviar el esfuerzo que se exige a los nacionales. Y según demuestran algunas medidas de la Directiva del permiso único, como la de la no exportación de las pensiones, es una tentación a la que no parecen resistirse los partidos democráticos.

Si algo diferencia a estos es que, al contrario que las fuerzas populistas y xenófobas, no se atreven a proponer por sí solos los recortes a los derechos de los trabajadores extranjeros y prefieren recurrir a la UE para que les sirva de coartada. En vez de asumir la ignominia de lo que proponen, buscan descargar la responsabilidad en las instituciones europeas y presentarse como disciplinados ejecutores de sus directrices.
Con esta estrategia allanan el camino al populismo y la xenofobia, al otorgar un marchamo democrático a su agenda y a sus iniciativas. Pero, además, desvirtúan el proyecto de la Europa unida, que va dejando de ser un instrumento en favor de las libertades civiles y el respeto a la ley para convertirse en lo contrario. No basta con que Europa avance hacia cualquier unidad. La única unidad que merece la pena es la que se articula en torno a aquellos principios que están siendo vulnerados para tratar la inmigración.

El número de extranjeros trabajando en la Unión se ha estancado como consecuencia de la crisis. El balance entre los que regresan a sus países de origen y los que llegan se ha equilibrado, y podría inclinarse hacia el descenso de la población inmigrante si persisten las dificultades. Por eso, el retorno del debate sobre la inmigración al primer plano político es un cínico señuelo que esconde lo que de verdad se está jugando la Unión. Por una parte, el principio de igualdad ante la ley; por otra, la universalidad de los derechos sociales. Vulnerados ambos principios, nada impediría que, tras los trabajadores extranjeros, se discriminara a otros colectivos desfavorecidos.

Transcrito, com a devida vénia, do El País de hoje

Carlos Pinto Coelho



A Cultura em Portugal não tem crédito na Bolsa. Não me refiro às farsas que alimentam o mercado e às paródias, preferência dos mercantilizadores: “pão e circo” denunciado e ridicularizado pelo romano Juvenal. Inconsciência, incultura, indiferença. Eis ao que aponta a sociedade desumanizada em que vivemos. A Cultura não dá dinheiro, logo não serve. A telenovela razoavelmente pornográfica, o bobo a vender publicidade, a conversa de chacha sobre um tema que se degrada –são as coisas que atraem e se vendem. E rendem. Compensam os investimentos. Porque se aposta na ignorância. Os que remam contra essa barbaridade têm a coragem e o sonho de D. Quixote. Têm um ideal: o homem que não verga. Senhor de si e do seu destino. E são os D. Quixote que empurram o mundo e ajudam a sair do atoleiro aqueles que nele esbracejam –e a escapar às ratoeiras que os tais mercadejantes-agiotas armam, sempre “actualizadas”. Carlos Pinto Coelho foi um Quixote. Ofereceu a vida à Cultura. Artista, fotógrafo de rara qualidade, confirmou-se, em “Acontece”, excelente produtor de televisão. Homem íntegro e independente, não acasalou com nenhum bando literato nem sacrificou a nenhum bonzo político. Em 2003, as autoridades consideraram despesa supérflua “Acontece”, na RTP desde 1994, e mandaram que se cancelasse. Esse programa fez, pela cultura portuguesa, o que mais nenhum outro fez até agora. Explicam-no a inteligência do criador e a liberdade de opinião e de escolha. Valores, hoje, condenados? Carlos Pinto Coelho bateu-se por eles, frontalmente. Remou contra a maré. Paladino de causa sacrossanta, assim será recordado.


Publicado na Págia de Cultura do Jornal de Notícias de hoje

Vergonhas do Natal


O triunfo!

Dâmaso Salcede, gato feliz, refastelado, depois do triunfo da proposta de repúdio de um cidadão honesto, apresentada pelo seu cliente, o regedor de Aldeia do Cónego, e outros analfabetos afins, na Assembleia Municipal da Cidade do Frio...

sábado, 18 de dezembro de 2010

Avô e Neto falam sobre o futuro

Erlich in El País de hoje



"-Avô, dá-me um conselho para eu chegar, com saúde, à tua idade.

"-Mantém-te longe dos bancos.

As misérias do dia

Américo Rodrigues, o cidadão livre, o artista exímio, a alma generosa, que deu e dá à cidade da Guarda o melhor de si próprio e a revela ao país e ao mundo, abrindo-lhe a Estrada Maestra da Cultura


Esta é a palavra devida ao que se votou, ontem, na Assembleia Municipal da Guarda:

o voto de aprovação da proposta de repúdio das afirmações do cidadão Américo Rodrigues, aprovado por maioria.

Nele, repudia uma maioria exígua (1 voto, somados os votos contra, em branco, nulos e as ausências) o homem a quem a Guarda tudo deve, no plano da Cultura.



O homem que projectou a cidade no país e no estrangeiro.



Que arrancou a cidade ao quase anonimato.



Repudia o cidadão livre, íntegro e exemplar.

Repudia as afirmações livres de um homem livre.



Se pretende repudiar/ condenar afirmações do Director do Teatro Municipal da Guarda, não as repudia nem condena.


Se pretende depreciar e atingir, por essa via, o Director do Teatro Municipal da Guarda, não consegue.



Esse -o Director do TMG- não fez as declarações alegadas, no excelente blog do cidadão Américo Rodrigues, Café Mondego...



Quando Américo Rodrigues escreve e publica no seu blog, –não está a exercer as suas funções de Director do TMG.


É a um cidadão de um país que vive em democracia, a expressar as suas opiniões de intelectual livre e independente.


É pena ver aqueles que tanto têm recebido -mesmo sendo a minoria que são- ofender quem lhes dá alimento.



Porque a Cultura é o alimento do Espírito –e os valores do Espírito são os mais importantes.



Lamento ser obrigado a concluir que, para essa minoria, a Cultura pouco valha e, certamente, pouco valham as coisas do Espírito.



Misérias do quotidiano, que em nada impedirão o Director do TMG (o respeito e consideração que nutro pelo Presidente da CMG leva-me a assim pensar) de prosseguir o seu precioso trabalho, que a vastíssima maioria dos cidadãos da Guarda aplaude e agradece.

Dr. José Pereira da Silva: evocação de um homem probo




As cidades têm os seus arquivos. Preservam a lembrança das suas figuras marcantes, registam momentos decisivos, salvam do esquecimento costumes, tradições.


Os cadernos da Colecção O Fio da Memória, que o Núcleo de Acção Cultural (NAC), da Câmara Municipal da Guarda edita, cumprem essa preciosa tarefa.


No passado dia, 16 deste mês, lançou o NAC um caderno muito importante:


“Dr. José Pereira da Silva, Médico, Filantropo e Humanista”, da autoria de Isabel Coelho Antunes.


Conheci o Dr. José Pereira da Silva.


Eu era um adolescente, que abria os olhos para a vida, na Guarda dos anos 50; ele foi, para mim, um exemplo.


Recordo-o com admiração e respeito. Com a saudade que nos merecem os amigos.


Justíssima esta iniciativa do NAC, que realiza a devida homenagem da cidade da Guarda a um dos seus mais nobres cidadãos.


Um homem íntegro, humano, generoso, um profissional competentíssimo.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O ano vai a caminho do fim...

Raul Brandão e Maria Angelina, retrato de Columbano




É... a gente pensa: tão depressa! Que importa? Se voltasse atrás... Está muito frio e, lá fora, cinzento, as árvores despidas, o mar revolto, as gaivotas em terra. O céu plúmbeo. Inverno. Tão íntimo! Ela, junto à lareira, perto da árvore de Natal, lê Camilo, fora do mundo, noutro mundo. E aqui, ao alcance dos olhos: Ela. Recordo Raul Brandão, a Casa do Alto, Maria Angelina, e, mais uma vez, descubro que a vida me trouxe a companheira sonhada. A vida!... Se voltasse atrás... E oiço o poeta d' As Ilhas Desconhecidas:



«Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído. Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra.»

Contra tudo e contra todos, eles hão-de refazer o mundo!

‘...compreendi que o único bem que possuo é o meu coração e a capacidade de amar’, escrevia Tolstoi, a meio do furacão da vida





O amor desses dois jovens é a vergonha da nossa indiferença.


Porque ser indiferente é ser incapaz de amar.


A notícia d’ A Bola, que transcrevi abaixo, aponta a infâmia em curso: o abandono a que a nossa sociedade (a sociedade neoliberal em geral, mas, agora, vamos ver da nossa, em particular) votou a juventude.


Trazer à colação, em plena época natalícia, um drama assim, pode parecer descabido.


Não: o drama dos outros nunca pode nem dever não caber nas nossas preocupações.


Natal é amor; falemos do desamor em que vivemos.


Escrevi, ontem, no meu Mural do Facebook, que não estou pessimista e confio na juventude.


Há dias, num café desta aldeia suburbana onde vivo, S. João do Estoril, plantação de casas, dormitório atirado às ortigas pela Câmara de Cascais, que se aplica na degradação do território por que é responsável e...


Adiante.


Dividia a minha mesa com um homem marcado pela vida, cansado, desesperado.


-“Isto está nas vascas da morte! Olhe ali!


e apontou-me noutra mesa, rapazes e raparigas, alunos da Escola Secundária da tal freguesia semi-destruída:


-“Esses é que são o futuro?! Nem estudam nem querem...


-“Sim, esses é que são o futuro. Não sei é se o futuro que aí vem estará à altura deles...


O homem é um homem bom e não insistiu. Encolheu os ombros.


Muitos de nós encolhemos os ombros. Desacreditámos.


E não me venham com os genes, com o vinho carrascão, a chouriça industrial mal assada, o fado, o pessimismo nacional, etc., etc.


Isso é argumento-capa dos vigaristas que nos roubam há séculos, aspergidos pelos que nunca separaram o que é de César (e das suas bolsas...) do que é da fraternidade, da solidariedade, da moral, religiosa ou laica.


O futuro vem aí: chega daqui a bocadinho. Depende do que fizermos dele.


Vivemos numa sociedade em que a corrupção e o clientelismo são profissões com vento na popa.


Em que a classe política pula e rebola num circo instalado à margem da realidade social.


Em que o neoliberalismo reinventou e impôs a escravatura.


“-Mas você acredita nessa malta?


perguntou-me o meu companheiro de mesa,


“-E então porquê?


insistiu, desconfiado mas já menos descrente do falar e do riso, que chegava do grupo de rapazes e raparigas.


(os rapazes e raparigas ainda riem, porque ainda amam)


-“Porque já falei com muitos e sei que não querem esta tristeza! Recusam.


“-E que tristeza!”, exclamou, “Mas... querem lá eles saber! Amanham-se!


-“Como?


E poderia acrescentar: emigrando? Todos os anos, dezenas de milhares de portugueses -e tem de ser força de trabalho, manual, técnico, intelectual- deixam o país.


“-Ora!


Poderia responder-lhe: faça como eles: recuse esta desvergonha! Recuse que decidam da sua vida pessoas que não sabem nem querem saber da sua vida. Recuse que lhe imponham o que vai fazer de si um novo escravo, ou vai atirá-lo para o desemprego, ou vai empurrá-lo para a emigração.


Não há escravos voluntários. Não há emigrantes voluntários.


Há um povo explorado, chupado até ao tutano –humilhado.


E há a revolta daqueles que não estão para ser tratados como gado.


“-Esses jovens ali!, disse-lhe.


Porque já lhe dissera o que escrevi acima.


E levantei a voz (queria que eles me ouvissem?, sim, queria, porque ansiava por os apoiar):


“-Esses jovens ali, que vão refazer o mundo!


“-Qual mundo? Isto? Esta desgraça?


“-Sim, a começar por “esta desgraça”. Que é desgraça por culpa nossa, porque a suportamos.


E apostei:


“-Eles não vão suportar!


Vinha-me de dentro, da revolta, da indignação. E da esperança. E de não querer escandalizar aquelas criaturas jovens, retirando-lhes a minha confiança. Seria mais um pecado –que de muitos já somos responsáveis, na nossa indiferença.

Defender a beleza da terra onde vivemos? Mas...

E agora, José? Apodrecer?


"Mais de 300 mil jovens portugueses não trabalham nem estudam

Cerca de 314 mil jovens portugueses, com idades entre os 15 e os 30 anos, não trabalham nem estudam, segundo avança o Instituto Nacional de Estatística (INE). Esta parte da população jovem portuguesa tem vindo a aumentar nos últimos anos, tendo registado no terceiro trimestre de 2010 o valor mais alto dos últimos anos."

in A Bola online (que eu leio desde menino, porque gosto de futebol e é um jornal sério)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A beleza da terra

'Vénus adormecida', óleo de Giorgione (Giorgio Barbarelli da Castelfranco, 1477-1510)



A páginas tantas do seu Diário, Tolstoi escreveu:


"Não, o mundo não é uma brincadeira, um vale de lágrimas, uma prova, a passagem para um mundo melhor; o mundo é belo, é alegria, e nós devemos contribuir para a sua beleza, a pensar naqueles que nele vivem hoje e naqueles que o habitarão amanhã.”

in La Délivrance de Tolstoi, de Ivan Bounine (L’oeuvre Littéraire, 2010)

Um abraço, querido Amigo!

Carlos Pinto Coelho



O desaparecimento de Carlos Pinto Coelho é uma enorme perda para a Cultura portuguesa.


Todos lembramos o seu programa Acontece, o melhor programa cultural que teve, até hoje, a nossa televisão.


Todos sabemos o grande e original fotógrafo que ele foi.


Homem íntegro, homem culto, homem bom.


Acontece foi mandado cancelar por políticos -os que nos governavam em 2003- cujo sentido da Cultura não vai além da “sabedoria” do dr. Assis, imortalizado por Trindade Coelho, no já clássico e exemplar In illo tempo: a dos iliteraciados.


Essa gente não suporta nem a liberdade de pensamento, nem a liberdade de escolha, nem a liberdade de opinião.


Carlos Pinto Coelho cultivava todas essas qualidades


Era um homem livre.


Tive a honra de ser seu amigo.


Recordo-o, neste momento, com saudade e admiração e respeito incondicionais.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Feliz Natal, amiga!

'Adoração dos magos', Retábulo da Igreja da Madre de Deus, por Jorge Afonso, 1515





Os comentários de Carlota Pires Dacosta aos meus mais recentes posts, são apontamentos breves mas sentidos e pertinentes, vibrantes e, na sinceridade, dispensam observações.



Assim, resta-me responder-lhe com os votos de um Feliz Natal,


votos que são fruto de amizade.


E também, com votos de um Bom Ano Novo!

Da pulhice humana

Nikolai Gogol (Poltava, Ucrânia, 1809-Moscovo, 1852)



Pertence a Nikolai Gogol, o escritor de Almas Mortas, Novelas de São Petersburgo, Diário de um louco e O Capote, esta frase, que ilumina a miséria politico-social em que vivemos:

‘Um dos maiores erros do homem é considerar o ódio um meio de comunicação.”

Os 103 anos de Óscar Niemeyer



Óscar Niemeyer faz hoje 103 anos. Em Avilés, Astúrias, Espanha, inaugura-se o Centro Cultural com o seu nome, cuja imagem se reproduz mais acima...


A resolver a crise...

O dinheiro tem ficar onde já está... quem o não tem que se arranje como puder... à esmola ou na sopa dos pobres...



"Patrões prevêem redução das indemnizações por despedimento

A CIP espera que o Governo aprove novas medidas para serem discutidas pelos parceiros sociais, como a redução das indemnizações para despedimentos de novos contratados."


notícia do Público de hoje



Que os patrões esperam pagar sempre ainda menos e meter no saco sempre ainda mais, já nós sabemos...


Resta saber como lhes irá responder o governo socialista.


A crise resolve-se cortando nos vencimentos, cortando nas indemnizações, facilitando o desemprego e deixando-o multiplicar-se?


A crise resolve-se aumentando o número, já inaceitável e insuportável, de pobres?

O Bairro Alto faz hoje 497 anos!

Identificaram? O Bairro Alto fica ali ao lado...



Soube-o através da minha amiga Alexandra Costa.

O meu Bairro Alto é o dos jornais e dos ardinas.


Trabalhei, no extinto Diário Popular, de 1962 a 1975.


Que saudade!


Aprendi, com mestres de jornalismo mas, para não ferir ninguém, citarei, apenas, um:


Jacinto Baptista, que dirigia o suplemento semanal, Quinta-Feira á Tarde, que era de Cultura e Espectáculos.


O que ele me ensinou!


Era um homem muito inteligente e sensível, culto –um Senhor.


E, já agora, outra figura de artista, que, por ser das artes plásticas, não vai ferir ninguém:


José de Lemos.


Bom, simples, humano e... um grande desenhador.


Pois o meu Bairro Popular era o dos jornais. Do cheiro a sardinha assada e dos pequenos restaurantes sem turistas, das borboletas da noite conviventes, dos gatos nos telhados e as flores à janela...


Por isso, escolhi, a ilustrar esta prosa, a estatuazinha do ardina, que recordo a correr e a apregoar as últimas notícias, as mais sensacionais.


Muitos anos antes, contou-me meu Pai, na morte de Gandhi, em 1948, um ardina, na baixa lisboeta, teve esta frase genial... e que só um ardina poderia inventar:


‘Morreu o rei da fome!”


Parabéns, Bairro Alto!

Aos jovens namorados da Guarda

'Amantes ao luar', óleo de Marc Chagal



Américo Rodrigues publicou, no seu Café Mondego, um post encantador, sobre um rapaz e uma rapariga apaixonados e, certamente, pobres como o pobre do português comum... Tanto me tocou o texto que fui buscar esta bela poesia do poeta que soube falar dessas coisas como ninguém:


Os Amantes Sem Dinheiro

Tinham o rosto aberto a quem passava.
tinham legendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados,
e olhos românticos
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos,
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Eugénio de Andrade in Os amantes sem dinheiro

Um grande escritor que desconhecemos

Aharon Appelfeld




Mão amiga fez-me chegar aquele que julgo ser o mais recente romance de Aharon Appelfeld: Et la fureur ne s’est pas encore tue”, título da tradução francesa. Um livro que nos prende, desde o início.



A primeira obra de Appelfeld que li e me apaixonou –essa em inglês- foi The immortal Bartfuss. É uma novela extraordinário, enxuta, directa, que me pareceu obra-prima, a ler e reler.



Eu tinha acabado de chegar a Israel, Telavive, era em 1996 e ali me demorei cinco anos, por razões profissionais.



Enviei The Immortal Bartfuss a editores portugueses amigos, recomendei-a, em vão.



A Civilização Editora, em 2005, publicou outro livro superior de Appelfeld: Fragmentos de uma vida.



E, que eu saiba, nunca mais o grande escritor israelita -e um dos maiores deste momento- apareceu na nossa língua.


É um buraco.


Traduzem-se e publicam-se dezenas de milhares de páginas de autores minoríssimos, dos que se vendem, com capas vistosas, nas papelarias de aeroporto...


...promovem-se nomes de quinta classe, sem nada dentro...


Inventam-se génios, que aliam a pornografia à divulgação de ideias alheias, à exibição da cultura colada com cuspo e pisada a martelo...


E Aharon Appelfeld?

A sua voz é importantíssima: é de hoje e de sempre.

Conheci-o, em Jerusalém, no final da minha missão, nos fins de 2000. É, também, uma pessoa fascinante.


Voltei a encontrá-lo, outras vezes que voltei a Israel cuja realidade me interessa e preocupa.


Às vezes, penso que, se não fosse israelita, Appelfeld já teria recebido o Prémio Nobel de Literatura, que anda tão mal empregado...


Tal qual tenho a certeza que nenhum autor palestino receberá o Nobel.


Há muito que o Nobel distingue escritores por razões políticas e o valor artístico passou a segundo plano.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A fome de Cavaco




Motivos de vergonha
por Manuel António Pina


Há hoje em Portugal, até onde é possível fazer contas, mais de 300 mil pessoas que passam fome e dependem, para sobreviver, da ajuda de instituições como o Banco Alimentar Contra a Fome e outras. "Recebemos todos os dias pedidos de ajuda de pessoas sem dinheiro para comer, para medicamentos, renda, água ou uma botija de gás para cozinhar", diz a AMI ao DN. "Já não são só os sem-abrigo a procurar as carrinhas de distribuição de comida", acrescenta Heloísa Teixeira, da Legião da Boa Vontade. E, depois, há ainda a chamada "pobreza envergonhada", que para já não procura ajuda porque a vai conseguindo, designadamente a alimentar, junto de amigos, vizinhos ou familiares, e da qual não se conhece a verdadeira dimensão.

Cavaco Silva tem pois todos os motivos para, como disse, se sentir envergonhado com a situação de fome que muitos portugueses hoje vivem.

Mas deveria sentir-se também envergonhado, e deveria dizê-lo, por, simultaneamente, outros portugueses viverem na mais escandalosa abundância (como sucedeu nos tempos das vacas gordas dos fundos comunitários em que foi primeiro-ministro e em que nasceu o Banco Alimentar Contra a Fome), e banca e grandes empresas todos os dias anunciarem lucros da ordem dos milhões que, na maior parte dos casos, irão parar a "offshores", enquanto avidamente disputam a pobres e desempregados as cada vez mais escassas verbas com que o Estado ainda os vai apoiando.

transcrito, com a devida vénia, do Jornal de Notícias de 15/12/2010