terça-feira, 30 de junho de 2009

O dia de hoje... Voltamos ao nosso diálogo. 'Como íamos dizendo...' E aqui vos deixo memórias da infância, de quando começa a grande viagem...



UMA FURTIVA LÁGRIMA


Clarice

Em Castelo Branco, no jardim de nossa casa, havia uma cabrinha branca. Durante o dia, andava à solta, alimentava-se do que a Beatriz -a cozinheira- lhe trazia, no balde dos desperdícios. Não era adequado mas todos sabiam que a cabrinha não ia ficar. Eu é que não: julgava-a para sempre. Pusera-lhe o nome de Clarice (ou fora minha irmã, leitora de Erico Veríssimo, que a chamara assim?) e brincava e falava com ela. Não me lembro se a levava a passear. Não tinha -não me lembro de ter- muitos amigos. Não me lembro de nenhum. Nesse tempo, a diferença de idade -de cinco a catorze anos- separava-me dos irmãos. Eu dava os primeiros passos, eles entravam na adolescência. As relações entre pais e filhos eram formais, quando não frias. Chegava-me às criadas e a Clarice. Fugia às vezes, disseram-me, até ao quartel de bombeiros. Nesse tempo, não havia infantários, crescia-se em casa. A infância é uma imensa nebulosa, quando a recordo. Um dia, ao entardecer, encontrei-me no quintal. As criadas, fartas de me aturar, empurraram-me para ali. Nada de extraordinário e, no entanto, foi diferente. Podia ouvir a Beatriz e a Bina, na cozinha. Ver as luzes acenderem-se, nas ruas e nas casas. Respirar o perfume das roseiras. Clarice viera vindo e olhava-me, à espera. Não sei o que aconteceu depois, provavelmente brincámos. Corremos no jardim. Abri a cancela de madeira e levei-a à rua. Nada disso me lembra. A imagem (o sentimento) que ficou é intemporal: de um abismo que gelava e me separava do resto. Não sei se o meu coração começou a bater; agora, a angústia e o medo voltam a ocupar-me. Nesse momento, compreendi (pressenti) aquilo que me aflige hoje: a impossibilidade da união desejada. Eu gostaria de abraçar Clarice, de a beijar; de me agarrar à Beatriz e à Bina e de me aquecer a elas; de rir, na companhia de meus pais e irmãos. Mas estavam longe –irremediavelmente perdidos e ao alcance. A luz de Outono, suave e melancólica, íntima e a recolher-se na própria delicadeza reservada, delimitava os corpos, que o instante parara, inatingíveis, distantes, imóveis. Doía mais. Não apareciam fantásticos ou imponderáveis, eram realidade. Se lhes tocasse, encontraria a carne e o osso –impassíveis e indiferentes à minha solicitação. Entre nós, o abismo que separava. Nos olhos de Clarice, percebi a vontade de me ajudar mas ainda não entendia a linguagem dos animais nem a da natureza. Precisava da voz dos homens. Afligia-me a incomunicabilidade.

(Mais tarde, disseram-me: “Terás, sempre, amizades difíceis. As pessoas nunca te darão o que lhes pedes...” E, no entanto, deram-me: partilharam comigo a solidão. Só isso? Também, a luta contra ela, a busca da companhia e do amor. Dividimos a nossa solidão? Talvez. Mas houve momentos em que a paixão -o confronto com a sarça ardente- nos arrebatou juntos e nos abraçámos nesse transe.)

Clarice oferecia-me a presença e o amor, e não me bastava. Tal qual me não bastaria a beleza do entardecer. Tudo parecia suspenso, a cidade parada. Eu achava-me indefeso, diante do silêncio. Queria respostas e explicações? Ir além da aparência? Esse desejo, essa necessidade tomavam forma, aliás, por vias esquisitas, aparentemente autónomas (a ciência relaciona-as): sofria de eczemas (maleita que, depois, se transformou em asma). A insatisfação e o medo buscavam caminhos vários para se declararem. Descobria a solidão –os limites intransponíveis de cada um? A impossibilidade de tocar, realmente, de possuir o outro e de me abrir, dar? De me libertar de mim ou ir além de mim, numa comunhão sem fronteiras, imaterial e ilimitada? O que teria eu a comunicar e queria saber? Esforço-me por voltar ao que fui, ao que era nesse instante –para me reassumir. E eis-me criança, imóvel eu também, os olhos abertos, os braços caídos. Da cozinha, cuja porta abria para o quintal, surge Bina, que me agarra e levanta no ar. Beija-me nas faces, aperta-me contra o peito amplo, os seios duros, encosta-me a cara suada. Sinto-o, agora.
-Que anda a fazer? –pergunta.
“Nada...”, penso eu e digo:
“-E tu?”
Riu, sem me responder, dançou, às voltas, abraçada a mim. Bina era uma jovem mulher, viva, alegre, provocante. Alta, cabelo castanho claro e olhos pretos, corpo cheio e rijo, a pele sedosa, que cheirava bem. Ocupava-se do serviço de fora e girava pela casa. Interpelava-nos. Os olhos brilhavam-lhe, quando nos provocava. Apetecia responder-lhe, tocar-lhe. Mas pisou o risco e um dia mandaram-na embora. Isso chocou-me e quis saber porquê. Não me explicaram. Eu percebi que acontecera qualquer coisa grave com alguém da casa, mas guardei o meu entendimento. Por amor e respeito por ela –e porque me chocara, confundira.

(Quanto escrevo não passa de imaginário –do que imagino que terei pensado. Mas consigo identificar-me com a criança invocada. Os nossos corações batem, agora, em uníssono. E a mesma antiga angústia da separação irremediável me atormenta. É uma ferida insanável. Alguma vez desisti de a curar? Alguma vez remediei? Nunca desisti de o conseguir. E tomei por desafio aquela dor.)

Quebrar o gelo

O que veio depois, quando cresci? A distância mudara: as figuras agitavam-se, falavam e eu procurava decifrar os gestos e as frases. As pessoas animavam-se e o mistério permanecia. Levantara-se uma nova barreira –ou perfizera-se a inicial. Éramos universos separados e fechados em nós próprios. A nossa tragédia residia nisso e, por mais que esbracejássemos e discursássemos, não conseguíamos resolvê-la. Ao tempo, tudo isso era vago, indefinido, inconsciente; no entanto, era bem real a minha insatisfação. Precisava dos outros e do amor dos outros. A ausência ou o silêncio deles angustiava-me. Gelava-me. Na peça Os Sobreviventes, as minhas personagens tentam dialogar e ter-se -possuírem-se e aquecerem a alma ao calor da alma do outro- diante de um glaciar. Possuir outrem é quebrar as cadeias que nos separam de nós e do universo –a que chamarei , correndo o risco de pedante, totalidade, absoluto, Espírito. As personagens do meu drama pensavam-no, comigo. Mas, Os Sobreviventes, escrevi-o adulto e a criança de que trato não sabia tais coisas (ainda que as pressentisse) e limitava-se a correr dentro de uma redoma. Batia no vidro e ninguém lhe ligava importância –ninguém lhe ligava a importância de que necessitava. Não admira: os adultos não reparam na maturidade das crianças –no fogo que arde nelas. Não têm tempo para isso e a infância acabará por passar, por se resolver, naturalmente, julgam. Só que na vida do homem nada se resolve naturalmente –e muito menos na vida das crianças. Expulsos do paraíso, estamos condenados à ignorância e à fragilidade, à insatisfação e ao sofrimento e a partilhá-lo -em disputa- com os outros. Soltos da redoma e, feridos pelos vidros quebrados, damos por nós na arena que nos há-de ferir sempre mais. Ao combate imposto, que nada tem de natural, vamos sobrevivendo, cobertos de cicatrizes. São poucos os que não sobrevivem deformados e raros aqueles que salvam a raiz. Legião, os que se entregam e lançam em corrida oca, atropelando tudo e todos, a fugirem de si próprios e usando a violência como lenitivo ou narcótico.
Os primeiros anos da infância perderam-se em fumo que me esconde quanto aconteceu. Tiro deles monotonia, espanto, as doenças acumuladas. É um poço. Insistindo, arranco alguma coisa. Improviso ou reavivo o sentido? Aconteceu e foi assim? Ou eu é que, hoje, o vejo assim? Tenho por verdadeiro o que sai da alma. A mais estará o que é meu. E, se não passamos de uma combustão, vinda da eternidade para, após a morte, se projectar nela –tudo é, necessariamente, autêntico. Nós somos a sarça ardente, que se alimenta do fogo e com ele se enforma. E, depois, se apenas palavras, words, words –que importa? A caveira de Hamlet é do tamanho do mundo. Aos costumes direi o que saberei dizer.

As poucas coisas

Meu pai, foi nomeado juiz em Vila Franca de Xira e montou casa em Lisboa. Frequentei um colégio na Rua da Praia da Vitória e lembro a directora: Dona Maria, gorda e generosa, que perdoava tudo. Também, uma professora pequenina, de olhos muito tristes, melancólicos, impaciente e dividida entre o desgosto -ou o sonho irrealizado de que não desistia e ainda a trabalhava- e as obrigações. Os seus olhos, quando, realmente, me fixavam, iam longe e logo me precipitava eu, a ver se nos entendíamos. Ela retirava-se e passava a outro aluno. Esqueci-lhe o nome mas guardei-lhe estima. Era uma das poucas coisas, breve rasgo de luz, no nevoeiro em que me sentia sufocar. Provavelmente, mal paga ou com dois trabalhos, aos quais se somaria o de dona de casa. Havia, nela, melancolia e amargura ou desilusão consentida. Eu não pensava nisso, mas a sua resignação, que disfarçava mal com a severidade ou a impaciência de professora conscienciosa, interessava-me. Nunca soube ao certo se era solteira ou desistira de mudar a vida morna que lhe caíra em sorte. O modo de vestir, descuidado, abandonos, em que a saudade e o cansaço se confundiam, ausências logo corrigidas, a secura, espécie de trave que a fixava a si própria e impedia soçobrasse, denunciavam (à minha imaginação) uma mulher só. E, sempre, as mulheres sozinhas me pareceram especialmente infelizes –ou frágeis, indefesas. Já o discuti e muitas mulheres recusaram essa ideia, fazendo finca-pé na força e capacidade de sobreviver à solidão, até na vantagem de viverem sozinhas. Para outras, a solidão custará mais ao homem. Não creio que assim aconteça nesta sociedade. Os preconceitos pesam muito e continuam a levantar barreiras às mulheres. Não se usa, hoje, mais do que nunca, o corpo feminino como objecto –no cinema, nos livros, na publicidade? E o que é isso senão o inferiorizar a mulher, transformada em instrumento erótico –mero instrumento de gozo. Sobre o falso erotismo do nosso tempo, chocadeira de frígidos, tanto a dizer!
À severidade da minha professora e ao seu retraimento, que tomava por traição, respondia com violência e despautérios. Reagia agressivamente, indócil, provocador. Virava as costas à disciplina. Inventava vinganças: interromper as lições, levantando-me e gracejando a destempo; riscar a carteira, deitar bolas de papel amachucado aos colegas; desenhar obscenidades nos lavabos... Era um foco de infecção na escola. E, se me faziam sentir, se me ralhavam e castigavam (e um dos piores, doloroso castigo, consistia em desacreditarem-me, isolando-me), manhosa ou verdadeiramente, adoecia. Perdia pé e tempo, atrasava-me e, de facto, pouco a pouco, deixava de participar das aulas. Assim, saltei de colégio para colégio, irremediavelmente desorientado.

Uma alma boa

...e mais ainda ficaria, se não tivesse já começado a formar-se o acervo de recordações amáveis, às quais de quando em quando tornava e me eram apoio e escudo. A vida, voraz, atirava-me de um lado para o outro. A páginas tantas, sempre por via das transferências de meu pai, fui parar a Vila da Feira, hoje, Santa Maria da Feira (que prepotência obrigar os lugares a nomes que não são os seus; no caso, que tola beatice!). Isso aconteceu antes do colégio da Praia da Vitória e frequentei as aulas de uma modesta regente escolar, que me ensinou as primeiras letras. Muitos anos depois, vi a série televisiva Cuore, adaptação do romance homónimo de Edmondo D’Amici. Uma das personagens, la maestrina della penna rossa, interpretada por Giulianna De Sio, e lembrou-me a singela mestra de Vila da Feira. E, no entanto, salva a profissão, nada as aproximava –nem o aspecto, nem a importância social. Aproximou-as a minha saudade e a delicadeza da boa alma de Vila da Feira. A maestrina era uma figura respeitada na cidade e relativamente bem paga; Maria dos Anjos, a mestra a quem me confiaram, levava a vida às costas, jovem mulher sem importância. À alegria espontânea de Bina, à sua rebeldia, excesso e atrevimento, opunha a aceitação do destino que pressentia descolorido, sem aventura nem imprevisto, condenado, no espaço cinzento de uma vila esquecida. Sim, devo sublinhá-lo, opunha qualquer coisa: a resignação era escolha e defesa. Protegiam-na as asas que sabia cortadas e, abraçada a elas, esquecia os horizontes irremediavelmente perdidos ou imaginava-os, a seu modo, sonho esse possível e que vivia, livre e a recato de violências e intromissões. Elas haveriam de vir –sabia. Mas, entretanto, o coração aprendera a defender-se. Nunca esqueci a delicadeza meiga; a expressão doce e insistente, resignada e boa, os olhos húmidos, às vezes, marejados; o muito que trazia dentro de si e comunicava. A maneira como me recebeu e envolveu. Transmitiu-me calor e recordá-la aflige-me: é, na memória, imagem angustiante. Talvez, uma das pessoas de quem, na infância, me senti mais perto: em comunhão, sem palavras. O que poderíamos dizer? Além da melancolia que lhe toldava os olhos brilhava, neles, a curiosidade. Eu pertencia a outro mundo e, na morada que aceitara para sempre, divertia-a espreitar o intruso, o visitante inesperado e de pouca dura, imaginar-lhe um futuro, partilhá-lo, quem sabe?, mais que não fosse, no imo que só ela tocava e onde se passavam coisas que não se confiam a ninguém. E eu adivinha-lhe o interesse terno, que me dava força, esperança, a vontade de corresponder-lhe. De ser como eu julgava que ela me imaginava. É provável que me acompanhasse, até hoje e nos momentos bons e difíceis. Nunca sabemos quem nos acompanha, escondidos -e vivos- nas profundezas do nosso ser.

O mal

Ora se até aí me afligira o fosso que separava as pessoas, -a difícil ou impossível comunicabilidade- trouxera-me a humilde mestra o calor humano, a companhia verdadeira, o conforto, que procurara em vão. Provavelmente, certamente, eu não dei por isso, não o consciencializei, mas aconteceu ou não estaria a recordá-la. Maria dos Anjos deixou-me um sinal de possibilidade –janela que abria para o outro, já não figura fria, inatingível, agora, corpo quente e próximo. À minha solidão, juntara-se a dela e as duas se esqueciam, no encontro que o acaso proporcionara e jamais se repetiu e, porém, marcou a minha alma. E a sua? Que lhe aconteceu? É certo que vive em mim, continuará viva, enquanto a lembrar e refizer -coisa extraordinária e, ao mesmo tempo, dolorosa e consoladora-, prolongar, dentro de mim, a sua vida e a nossa breve intimidade.
Um dia, num café do velho Porto, serviu-me uma rapariga que os dias tinham obrigado a ser mulher antes do tempo, a vida humilhara e ofendera, mãe de duas filhas de pais diferentes, ex-expatriada, conhecedora da enxovia e da prisão -heroína, sem o saber, de Dostoievski, do grande russo, como tantas outras e outros, neste esquisito país que gerou Camilo e Raúl Brandão, Branquinho da Fonseca e Irene Lisboa-, capaz de alegria e confidência. Depressa conversámos e as palavras saíam-lhe cândidas, no atropelo de quem precisa de falar e de se entregar.
-A nossa mãe morreu, ficámos sozinhos. Abandonados. Vivíamos numa ilha. Sabe o que são as ilhas?
Explicou, seca:
-É o sítio onde vivem os pobres do Porto!
E a agredir-me:
-Já lá foi? Já entrou nelas? Ou acha que é miséria a mais?!
Depois, dominou-se e corrigiu:
-Desculpe... Não se zangue. É miséria, sim. Ainda vivi uns meses em casa da minha irmã mais velha, no Seixal. Mandou-me embora. O homem dela era metediço e ela teve medo... Emigrei, toca para o Luxemburgo. O Luxemburgo!... Espere, já volto...
Ia e vinha, despachava o trabalho, para mais depressa voltar e conversar. Uma vez, demorou e eu acenei-lhe:
-Clarinha...
E, do meio da sala, respondeu:
-Há tanto tempo que ninguém me chamava Clarinha!...
Ela procurava um amigo, eu limitara-me a interpelá-la e a deixar que se me chegasse. Ouvia-a e ela encostava-se à minha simpatia: vencera a barreira que separa as pessoas e as obriga ao gelo do isolamento. Depois, mais tarde, o movimento acalmou e ficou um cliente, ao fundo, pasmado, diante da bica e do bagaço. Clarinha sentou-se à minha mesa e contou-me a história do emigrante que a contratara para ser cozinheira num restaurante do Luxemburgo e a tratava mal.
-Era uma besta! Um dia, foi ter comigo à cozinha e quis violar-me!
Olhou-me, desconfiada e ansiosa: eu acreditava? Eu prendi-lhe a mão, a sossegá-la.
-Deixe, já passou!
Fitou-me, desiludida e reagiu:
-Já passou?! Não passou nada! Isso é que era bom!
Repeti o que ela dissera:
-Uma besta!
-Ai não! Se era!
Riu-se:
-Dei-lhe com a panela nos cornos, foi o que me valeu!
Fitou-me, em desafio, e de novo amarga:
-É a vida!
Baixou os olhos e murmurou:
-Depois que a minha mãe morreu...
E confiou-me, envergonhada e, outra vez, feliz:
-É quando sonho com ela que mato as saudades.


O outro lado

Assim, também eu recupero, arranco, provavelmente, à morte, Maria dos Anjos; assim, reaparecem muitos dos que perdi. Quando vivia na Guarda -teria 14, 15 anos-, concorri, sem nunca ganhar nada, aos Jogos Florais da Queima das Fitas conimbricense. Era o meu amigo Lorga quem os dactilografava, pois tinha acesso (ele ou o irmão) à máquina de escrever. Enviei vários contos e um deles era isto: um homem apaixonava-se pelos próprios sonhos, a ponto de se suicidar, quando reconheceu impossível continuar acordado e impossível, também, aprisionar o sonho, para ele, mais apaixonante do que o quotidiano. O meu herói vivia o sonho como se fosse vida real e não aceitou perder esse dom. Pensava -tinha a certeza- que havia realidade, para além desta –e feita de sangue, paixão, alma: aquela que habita dentro de nós, imaginada ou sonhada, revelada no sonho. Compreendo o meu herói e que quisesse guardar o sonho, não menos real do que a realidade, achava ele e. Teimosia? Evasão? Será, apenas, capricho da vontade querer, por exemplo, ouvir a voz dos desaparecidos ou revê-los? E, no entanto, acontece, diz José Pires Sanches, o poeta do Rochoso, tocado por Deus, nas provações e na pureza. Fechamos os olhos e reaparecem. Sucede impor-se-nos tudo e dispensar a nossa vontade e regressarem pessoas e momentos, que se diriam irremediavelmente perdidos. Voltamos a amar, a sofrer e desejar. É provável que os cientistas tenham uma explicação, mas as explicações da ciência pecam por provisórias (caso contrário nunca avançaríamos). A razão é redutora e só ao assumir-se como tal o deixa de ser –ao aceitar considerar as conquistas imperfeitas, incompletas e encarar o racionalmente inaceitável -tentar compreende-lo. Ou melhor: aceitá-lo e caminhar com ele, na esperança de que se faça luz (e talvez ela nunca se faça inteiramente ou definitivamente, mas essa é a maravilhosa aventura de viver). Quando Giordano Bruno ardia, em Roma, no Campo Dè Fiori, imolavam-no a uma espécie de racionalismo a que os iluministas chamariam superstição: a Igreja do tempo atinha-se a dogmas estudados e calculados, que julgava necessários à própria sobrevivência. O discurso de Bruno era, para aIgreja, tão absurdo e irracional como hoje o é, para os racionalistas actualizados, o sonho do ingénuo, do maduro que teima em crer no incrível: nas andanças do espírito (e já não é nada mau acusarem-no de ingenuidade ou madureza: evita-lhe o hospício). Da realidade, sabemos sempre pouco –se bem que mais do que soubemos. Por exemplo: conseguimos adiar a nossa morte e alargar a esperança de vida. Chegámos à Lua e chegaremos a Marte. E depois?
O coveiro que arranjava a campa onde enterrara um amigo meu disse-me:
-O seu amigo começou a viagem.
-Qual viagem?
Encostou-se ao cabo da enxada, fitou-me, pensativo, e encolheu os ombros.
-A viagem para o lado de lá!
Retomou o trabalho, a assobiar baixinho.
-Mas o que há do lado de lá?
-Ora..., não sei. O senhor sabe? Alguma coisa tem de haver...
publicado no número 25 da revista Praça Velha, da Câmara Municipal da Guarda, que saíu há dias



quarta-feira, 17 de junho de 2009

O dia de hoje é...



...para me despedir, e até ao meu regresso. Desta vez, não vou nem ao Porto, nem a Braga, nem ao Gerês. Nem a Marvão. Vou onde o destino me manda, e fica comigo. Questão de pudor. Voltarei, espero... e aqui deixo o abraço.

Catorze escritores do Norte, Prefácio, Coordenação, Desenhos e Grafismo de Orlando da Silva, Tiragem fora do Mercado de 50 exemplares



a convite do coordenador, nesse livro escrevi, sobre José Régio, o que aí vai:


O último homem livre?

Poemas de Deus e do Diabo, livro primeiro de José Régio, data de 1926. Dele consta o seu projecto de vida: Cântico Negro e o verso sempre repetido, declamado, proclamado, hoje, clássico: “Não sei por onde vou,/ Não sei para onde vou,/ -Sei que não vou por aí!”

Uma escolha assente numa recusa: “Vou por onde eu sentir ou adivinhar que é o meu caminho”, pensava. Diante da larga estrada da vida, apresentava-se -e queria-se- virgem, impoluto, livre de influências alheias; ouvindo os avisos do destino e interrogando-os, entregando-se à sua viagem. Decifrando os avisos, sinais, luz.

Foi Régio constantemente fiel à escolha? É irrelevante que o tenha sido ou não. O importante é que quisesse sê-lo. A luz não passa de um sinal na noite; de uma estrela inatingível, porque o Infinito é infinito e não podemos saber onde, no Infinito, ela brilha. Não sabemos sequer se ela não é o Infinito imponderável, inatingível, imprevisível. O que conta -e vale- é a tentativa para atingir o sinal. O que interessa é vencermos obstáculos, ultrapassarmos derrotas e desilusões. E avançar. Quando Régio, em A Lição Inútil ou Carta a Um Juvenil Individualista, fala do marco de pedra que vai pontuando a nossa viagem ao longo dos dias -“De tal parte a tal parte, tantos quilómetros”- não sugere outra coisa.

Nada nos garante que estamos no caminho certo? Nada garante. A vida não oferece garantias. Respeitamos e seguimos a inspiração, escolhemos consoante. O risco da escolha é inevitável e a escolha nunca é definitiva. A nossa vida é soma de escolhas, de certezas e incertezas. Caímos e levantamo-nos. Acumulamos as nódoas negras e, em movimento, desenhamos a nossa imagem.

Salvamos as ilusões, recriando-as? Talvez. Mas é teimosia que nos salva do desespero (porque a dúvida é insuportável). Se não temos a certeza da verdade, temos a certeza do que há do outro lado: o silêncio, o deserto, a morte, a negarem a luz de vida. Avançamos em direcção à luz fixa e esquiva, ambígua como a alegria que alivia. E continuamos. Continuamos contra a dúvida e a fraqueza.

Thomas Hardy, em Tess of the d’Urbervilles, apontava-o: “o valor moral deve estimar-se não pelo que foi realizado mas, sim, pelo que se quis realizar”. E acrescentava: “por vezes, a imperfeição pode ser superior à perfeição”.

É desafiar a maioria habituada a não discutir o lugar-comum estabelecido afirmar que a imperfeição pode ser superior à perfeição. E, de facto, Hardy escandalizou no século da rainha Victória e escandalizaria a massa, agora ainda. No entanto, ele sublinhou uma verdade: da imperfeição partimos em busca da perfeição –e ai daquele que se julga perfeito: está morto e julga-se vivo. Na cruz, não duvidou Cristo do Pai e, duvidando, não duvidava de si próprio, que se tinha por filho de Deus? E, antes de crucificado, não sofreu a dúvida? E não lutou com ela, tal qual Jacob lutou com o Anjo? Cristo, Deus feito homem? Ou sagrada criatura de Deus, como nós todos? Cada um receberá a mensagem de Jesus, interpretará a sua vida breve neste mundo e há-de tê-lo pelo que nele achar. Seja, porém, qual for a conclusão, a extraordinária, maravilhosa vida breve de Cristo -algo mais- conforta e aquece o homem obrigado à viagem que o abrasa, do berço à morte.

Não sei se José Régio leu Hardy, mas procedeu de acordo. E, recusando receber de mãos alheias a perfeição que lhe cabia conquistar -entendia que devia conquistá-la sozinho, diante de Deus e do diabo-, arriscou perdê-la? Esse é o trabalho do homem: assumir o risco de perder –e talvez a perfeição não seja deste mundo, a saudade dela é que é.

Conheci José Régio em Junho de 1957, na casa da Boavista, Portalegre. A impressão primeira marcou toda a convivência de 12 anos. Um nada, claro!, porque o tempo cronometrado não é nada. O “muito”, o “tudo” é imensurável. O “tudo” -e os 12 anos foram um “tudo” mais a somar-se a outros, esse especialmente intenso- está em nós: somos, breve e eternamente, o seu sujeito. Recebemo-lo e vivemo-lo. Ardemos nele, porque o Infinito é a Sarça Ardente, o fogo que assombrou e decidiu Moisés. Os 12 anos, não sendo nada, foram muito –precipitaram miríades de instantes (cada instante guarda, em si, a legião incontável dos instantes).

Digo o seguinte: o homem essencial que me abriu a porta da casa da Boavista nunca se traíu -nunca dei por que se traísse-, durante os 12 anos. E, quando escrevo “homem essencial”, aludo a um homem despido de supérfluo, um homem em carne viva, a recortar-se na penumbra do vestíbulo, exposto, surpreendido, curioso, reservado e disponível. Ecce Homo. Régio era-o e foi-o sempre. A fidelidade ao essencial representa a fidelidade ao Cântico Negro.

Não ir por aí; buscar o nosso caminho. À partida, defender a pureza da alma. Preservar a subjectividade. Exigir autenticidade, sinceridade. É um acto de coragem indispensável, se quisermos acrescentar alguma coisa à vida e, terrena e espiritualmente, viver. Porque é aqui -na terra- que o espírito se reconhece e conquista. De facto, ele afirma-se no viver com os outros, em comunhão. Isso não implica a desistência de nós próprios, pelo contrário.

Um homem independente, um homem livre, é um homem sozinho? De modo nenhum. No fundo da solidão encontra-se o Outro. E, na descida aos abismos da subjectividade -do Mistério-, vamos desenhando a nossa figura: um poliedro que reflecte e multiplica imagens –tantas quantas a complexidade do homem que, escavando a própria perplexidade, foi descobrindo. Porque nenhum homem é uma imagem só. E na figura geométrica enraíza o diálogo criador. Outros “bichos da terra tão pequenos” -cada um à sua maneira- reconhecem, nas múltiplas faces do poliedro, sinais da perplexidade e do deslumbramento de viver, que, através do encontro e do diálogo, se multiplicam infinitamente, encadeados e livres.

O homem que fala a sério comigo alguma coisa leva para dar a outrem e dele recebo ensinamento. E por diante.

Eis a luta e a coragem do grande poeta: oferecer-se descoberto. O amor fati: amou e respeitou o próprio destino, na certeza (e na incerteza: Deus e o diabo) de não ser em vão.

Hoje, poderá parecer desvario ou inconsciência. Provavelmente, assim hão-de considerá-lo alguns, quando se tem por aconselhável a prudência hipócrita: seguirmos aquilo que os cartazes apregoam, entregarmo-nos à mascarada e, ao imperativo ético, substituirmos as regras do lucro e do comércio... De facto, negociamos a alma. Alienamos a liberdade e a responsabilidade, dissolvemo-nos no tumulto da massa, espécie de morfina ou droga que adormece e anula. Vamos com a procissão dos falsos vivos, feridos de morte, palhaços cujo frenesi esconde a covardia.

***

Olho à volta e pergunto-me: terá sido José Régio o último homem livre?

Porto Covo, Natal de 2008





terça-feira, 16 de junho de 2009

Os impostos segundo Romeo in El Pais


Uma notícia do El Pais bem escrita e fundamentada que ajuda a entender a espinhosa missão de Obama perante o Irão...



Obama: "La libertad de expresión debe respetarse" en Irán
por Antonio Caño


En su primer comentario tras las elecciones en Irán, Barack Obama advirtió ayer que "no se puede permanecer en silencio" ante los sucesos de violencia ocurridos en ese país en los últimos días y llamó al régimen a "respetar el deseo y los derechos fundamentales de los ciudadanos" y a "evitar un baño de sangre". El presidente norteamericano no denunció, sin embargo, la existencia de un fraude electoral ni renunció a su política de diálogo con las autoridades iraníes, cualesquiera que sean como resultado de este proceso.
Las palabras de Obama, al final de una entrevista con el primer ministro italiano, Silvio Berlusconi, fueron un ejemplo del difícil equilibrio que el presidente norteamericano trata de mantener ante la incertidumbre de la crisis iraní, intentando apoyar el movimiento de protesta surgido sin romper del todo lazos con el régimen.
Obama dijo que "corresponde a Irán decidir cómo elige a sus líderes" y aseguró que Estados Unidos no va a interferir en la política interna iraní. Pero, inmediatamente, añadió que se sentía "profundamente preocupado" por las escenas vistas en la televisión en las últimas horas. "El derecho de los ciudadanos a un proceso electoral democrático y la libertad de expresión son valores universales que tienen que ser respetados", afirmó.
"Nosotros no queremos tomar ninguna decisión que corresponde a los iraníes", insistió, "pero sí queremos que el deseo del pueblo iraní sea respetado".
El presidente estadounidense manifestó que confiaba en que el Gobierno iraní cumpla su promesa de revisar las irregularidades denunciadas en las elecciones del viernes y pidió que lo hiciera "de una forma que no desemboque en un baño de sangre". "El mundo está observando", advirtió.
Obama recalcó que Estados Unidos no tenía observadores en esas elecciones ni dispone de información fiable de organizaciones internacional como para saber con certeza quién fue el auténtico vencedor. "Pero lo que sí sabemos", añadió "es que toda esa gente que puso tanta esperanza y optimismo en ese proceso político se siente traicionada".
El presidente norteamericano recordó que tiene un amplio repertorio de diferencias con el líder iraní aparente reelegido, Mahmud Ahmadinejad, pero afirmó que sigue creyendo que la mejor manera de reducir esas diferencias es por medio de "una fuerte diplomacia". "El diálogo sin ilusiones", dijo, es el camino más adecuado para evitar una carrera de armas nucleares en Oriente Próximo.
Estas declaraciones han despertado ya, minutos después de ser pronunciadas, reacciones hostiles de quienes pretenden que Obama encabece un movimiento de protesta internacional por lo ocurrido en Irán. La Casa Blanca ha optado, sin embargo, por una actitud prudente que, al mismo tiempo, revela la escasez de instrumentos eficaces para presionar a los ayatolás.
Estados Unidos puede, por supuesto,jugar la baza de nuevas sanciones en el Consejo de Seguridad por la negativa iraní a negociar su programa nuclear. Pero ni eso se antoja probable ?Rusia se opone? ni, en última instancia, eso acabará con las ambiciones nucleares del régimen.
Obama parece condenado a intentar la vía de la negociación directa con Teherán. Después de todo, tal como hoy se describe la situación en Washington, el régimen iraní hubiera seguido siendo el mismo con cualquier resultado electoral. "Lo más importante", dijo ayer el portavoz de la Casa Blanca, Robert Gibbs, "es que nuestras preocupaciones por el programa nuclear y nuestras preocupaciones por su apoyo al terrorismo no son diferentes hoy de lo que eran el viernes".


in El Pais, 16/ 06/ 09

O blá-blá obviamente gratuito (às vezes, ridículo) e de autopromoção acerca da venda de Ronaldo e um excelente apontamento de Paulo Ferreira



Cristiano Ronaldo


por Paulo Ferreira


A transferência de Cristiano Ronaldo (CR7 para os fãs) do Manchester United para o Real Madrid, por módicos 94 milhões de euros, provocou uma longa série de díspares comentários. Os mais comovidos indignaram-se com os valores em causa, sobretudo por estarmos no meio de uma severa crise económica. Os menos comovidos - poucos no conjunto dos que foram instados a dizer qualquer coisa - alegraram-se, por verem no facto a pujança do mundo futebolístico e a possibilidade de os adeptos da modalidade esquecerem, por momentos que seja, a tristeza que os dias carregam, quando virem Cristiano e o brasileiro Kaká a trocarem as voltas aos adversários.
Vale a pena relembrar algum do argumentário usado.
A Organização das Nações Unidas (onde a coisa chegou!) apressou-se a lembrar que os 94 milhões de euros davam para oferecer 56 milhões de refeições a crianças necessitadas.
Michel Platini, presidente da UEFA, ficou chocado com o pilim em causa.
Joseph Blatter, presidente da FIFA, mostrou-se contente: ele acha que "as pessoas precisam de estrelas e de emoções" - e transferências como esta ajudam à festa.
Cavaco Silva, o nosso presidente da República, disse que, apesar de não ser adepto de futebol, nunca lhe "passou pela cabeça que alguém pudesse pagar quase 100 milhões de euros pela transferência do jogador". Um pecado, portanto.
Paulo Rangel, a nova estrela do firmamento político português, acha a coisa um "escândalo" (Paulo aprendeu depressa a dominar a técnica do "sound byte").
Rui Santos, o novo oráculo do futebol nacional (e, quiçá, internacional), antevê mesmo o "ocaso" (sic) de Ronaldo, supostamente por o rapaz da Madeira dificilmente resistir aos encantos que a "movida" madrilena lhe proporcionará.
Não vale a pena recordar que noutras modalidades para nós menos mediáticas (golfe, basebol, básquete...) há quem aufira bem mais do que aquilo que cabe agora em sorte a Cristiano Ronaldo. Mas já vale a pena lembrar que a UEFA criou, com a Liga dos Campeões, um "clube dos ricos" na Europa. O dinheiro que ali se ganha obviamente incentiva a competitividade, logo incentiva também negócios como este.
Negócios. Essa é a palavra-chave. A transferência de CR7 para o clube da capital espanhola não passa disso mesmo. Uma multinacional de grande sucesso (Manchester United) vendeu a outra multinacional (Real Madrid) um dos seus activos mais valiosos. Eu não tenho nada a ver com isso. Tudo o resto em torno desta novela é folclore do mais puro. E demagogia da mais pura.
in Jornal de Notícias, 16/ 06/09

António Vitorino coordenará o programa eleitoral do PS o que é uma grande responsabilidade para Vitorino...


...e poderá ser um sinal de tentativa do PS recuperar socialismo perdido, tal qual poderá ser, apenas e nada mais, uma aspirina para Sócrates... aceitam-se apostas!


Conheço António Vitorino há muitos anos: desde que apareceu nas ‘sessões de esclarecimento’ organizadas pela Secção do PS, de São João do Estoril, a pedir-nos para participar da mesa e botar palavra. Botou e participou muito bem. Brilhantemente! Da história e da evolução do socialismo, sabia coisas que ninguém sabia.


Vitorino era muito jovem e corriam os últimos dias da Primavera e os primeiros dias do Verão/ Outono de 1974. A partir daí, encontrámo-nos muitas vezes, inclusivamente, quando -eu já em Roma- aderiu à UEDS e a representou na Assembleia. Vejo-o da seguinte maneira: muito inteligente e com uma extraordinária capacidade de trabalho; além disso, muito culto, coisa rara, na balbúrdia politiqueira (de facto, não é um politiqueiro: é um político autêntico, que sabe o que quer).

Aceitou, agora, ser coordenador do programa eleitoral do PS para as próximas eleições. De certo modo, regressa à política activa. Ainda bem! Há um abismo a separá-lo dos ‘activos’ actuais... Mas, ao fazê-lo, arrisca –assume uma grande responsabilidade. O que fizer (e os reflexos do que fizer) será a resposta à seguinte pergunta:

a sua escolha e a sua aceitação constituem o sinal de uma tentativa de regresso ao socialismo, que o PS deixou de representar, desde a ascensão de Guterres (porque Sócrates não pode ser o bode expiatório, como já o desejam centenas de parasitas que giraram à volta dele e abusaram dos mini-poderes sacados, à força de lamber de botas, poderes exercidos à moda de tiranetes -enquanto enchiam, discreta ou indiscretamente, a burra-, por esse Portugal fora, regedorecos de aldeias da serra e da planície)?

E será a resposta a esta pergunta:

A sua escolha e aceitação não passam de uma aspirina para um Sócrates engripado?

O dia de hoje: Bom Dia!



Vamos começar o dia, mais um em que a miséria humana insultará a pureza -e agora, sempre eleições à vista, vão ser muitos assim, até Outubro/ Novembro...-na desesperada luta pelo tacho, pela mama da grande porca, a Política (ou a apolítica?), recusando colaborar na peixeiria! Vamos olhar o belíssimo quadro de Ãngelo de Sousa, grande pintor, que trabalha, obstinadamente, à margem da latrina... apolítica... Na busca de ar limpo, pu-lo aí em cima.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

No limite do silêncio, Prefácio a 'desesperância' livro de poemas de Anthero Monteiro



A voz dos poetas fez-se para desafiar o silêncio. O trabalho é o de Édipo: interpelar a Esfinge. E não obtém resposta: ela, a Esfinge, nunca sai da mudez, serena, indiferente, em pleno deserto –o deserto que é o nosso horizonte. Cada homem traz consigo a sua Esfinge, anda com ela dentro do coração e sofre-lhe a distância. Grita, a ver se a acorda. Grita, a ver se a vida acorda. Porque nesta vida que vive, os dias não lhe bastam e pressente, advinha que, em cada momento, falha o encontro com a verdadeira vida, com o absoluto. A Esfinge sabe, ela conhece os caminhos –julga o homem, que se revolta. E é o silêncio da Esfinge que o agita e ainda mais o angustia. “Um brado surpreende o meu sono/ tento acender o olhar/ nesta fria antracite/ sentir bem os sentidos/ na devassa dos silêncios”, escreve o poeta Anthero Monteiro, e acrescenta: “afinal/ foi ele quem gritou?” Ele, o Deus que a Esfinge deveria revelar mas esconde e, cruelmente, enquanto nos recusa a palavra salvadora, aponta? A nossa inquietação -a nossa ânsia de desespero...- materializa-se na Esfinge, a impossível intermediária de Deus.

Não por acaso Anthero Monteiro é um apaixonado e arguto leitor de Manuel Laranjeira; não por acaso soube abrir, para nós, o desespero do torturado de Espinho. É seu parente. Neste livro, “Desesperânsia”, há um poema, “Ode à imprescindível beleza”, belo, doloroso e forte, de que transcrevo duas estrofes:

aí vem mais um dia para o rol dos perdidos e não achados
bem se esmerou ontem o meteorologista
bem se esmerou o sol para não o defraudar
bem se esmeraram as aves pintando mais azul
bem se apura o silêncio pé ante pé nos ramos
e me insinuo na amplidão vestido de aromas

mas como alçar-me para além de mim
se não posso abstrair-me do chão
desta vala comum onde se debruçam os continentes
onde nos vamos atolando através dos séculos
estrato após estrato

Manuel Laranjeira, preso à terra e saudoso de um “mais”, da harmonia, onde se resolvesse a tragédia do nosso destino -o tal absoluto- compreenderia esses versos de Anthero Monteiro.

Atente-se, também, no poema “Esperança” (o título, na ironia -o poeta confessa a esperança morta-, representa o protesto de quem reclama da absurda condição humana):

este barco já nem é barco
jaz ali abandonado
como um cadáver arrojado à praia
jaz invertido a imitar
uma lapa que devore um rochedo
pela eternidade adiante

este barco
(adivinham-se-lhe as letras quase extintas)
chamava-se esperança

e agora esperança
não passa de um inútil barco
para sempre de borco

O rochedo que não conseguimos decifrar é o de Sisifo –o silêncio que arremetemos, inutilmente, que nos gela e arrastamos connosco. Atraiçoa-nos a Esfinge ou a nossa pobreza –a nossa incapacidade de encontrar a saída ao labirinto? O que nos resta? Camilo Castelo Branco, numa das suas páginas geniais e consoladoras, deixou escrito: “quem tem a graça de Deus não é pobre”. Esse dom, essa dádiva, essa “graça” é o bem que resgata os poetas. E a voz dos poetas é o que nos resta.




Manuel A. Pina vai de férias até 15 de Julho e escurece a nossa imprensa... agarremos esta crónica exemplar!



Falsas esperanças

Em resposta à decisão do Ministério das Finanças de não garantir as aplicações de "retorno absoluto" impingidas pelo BPP a numerosas pessoas, João Rendeiro, ex-presidente e principal accionista do banco, diz que o Governo "alimentou falsas esperanças aos clientes". Vinda de um especialista em falsas esperanças, a constatação tem a autoridade de um juízo inter-pares. Foram assim por água abaixo as pretensões dos investidores do BPP de ver reembolsados pelo Estado os seus investimentos falidos. A verdade é que as falsas esperanças que Rendeiro lhes vendeu contaram com a cobertura (ou, tendo em conta os indícios e rumores que já existiam, com o 'encobrimento por negligência') do BdP e da CNVM. Os clientes do BPP não confiaram apenas em Rendeiro, confiaram também na regulação de Constâncio e Teixeira dos Santos, então presidente da CNVM. Mas se o Estado fosse a indemnizar todas as vítimas disto e daquilo (roubos, furtos, fraudes…) que por aí há diariamente por a Polícia falhar na sua missão de garantir a segurança, não havia dinheiro dos contribuintes (nem contribuintes) que chegassem.


in Jornal de Notícias, 12/06/09

O dia de hoje: agudiza o pânico de passarinhos & passarões perpetuamente (pensam) papadores profissionais do erário quando a esquerda afinal mexe



Não dá vontade de rir nem de encolher os ombros: desgosta e incomoda. É mais um péssimo sinal de atraso cultural.

E o que repugna e aborrece é: para os nossos comentadores & politólogos & opiniólogos, todos os votos à esquerda do PS vêm de díscolos da extrema-esquerda, incapazes (defeito congénito) de governar seja o que for: a bicicleta, a moto, o próprio carro –e, muito menos, muitíssimo menos, esta nação, há 800 anos, democraticamente espoliada pela direita e pela extrema-direita...

Só de pensar nisso, na chegada ao poder dessa canalha avermelhada, treme-lhes tudo: as orelhas, as mãos, o traseiro, as peugas. Sapateiam. Castanholam-lhes os dentes. Espumam os ‘lúcidos e responsabilíssimos’ doutrinadores oficiais e oficiosos, amantes do ‘bom governo’ do ripanço e da barriga cheia, sem sindicatos, sem greves, sem reivindicações... sem nada –ardentemente, tradicionalmente, ordeiramente adeptos do mundo maravilhoso em que pobres e miséria se resignam, se apagam, se esfumam... nem sequer ofendem a vista refastelada dos instalados no roubo...

Eu sei que 80% deles (dos tais opiniólogos, etc.) não estão de boa fé e sabem o que fazem: sabem que aldrabam. Mas faz de conta que julgamos que eles estão de boa fé. Vamos, pois, nosso dever, ajudá-los. Vamos dizer-lhes no que é que se enganam.

Enganam-se no seguinte: as centenas e centenas de milhares de votos à esquerda do PS, que tanto assustam e geraram pânico, não são votos de extrema-esquerda, são votos de esquerda. De qual esquerda? É muito simples: da esquerda, que o PS deixou de representar.

Mas, se não fizermos de conta que não sabemos que eles -os tais comentadores, politólogos, etc,- não estão de boa fé e sabem o que fazem (impingem, muito paulatina e antidemocraticamente, gato por lebre), só nos resta ir buscar, mais uma vez, o martirizado e saturado Zé Povinho, de Bordalo Pinheiro, e pô-lo, lá em cima, a ilustrar este texto. Já pus.

domingo, 14 de junho de 2009

Mais sobre o misterioso exilado de Castelo Branco: Vicente Sanches



Em edição de autor, apareceu a quadragésima obra de Vicente Sanches: “Sessenta e Três Aforismos”. Quadragésima se fizermos fé ao rol de títulos que o autor apresenta nesse livro. Eu não faço: sei que Vicente Sanches publicou outros títulos, o rol é uma selecção, uma escolha, preferências. Há quase 50 anos que Vicente Sanches publica livros, principalmente peças de teatro. Algumas já foram encenadas, com êxito; mas Vicente Sanches é o mais desconhecido dos escritores portugueses. Não sei explicá-lo. As Edições Cotovia lançaram 5 livros de Sanches, e bastou. Também não sei porquê –por que se viram as costas a um dos melhores autores de língua portuguesa.

Atendendo ao muito, muitíssimo que havia a dizer e ao tempo e espaço, não irei longe, na análise de “Sessenta e Três Aforismos”. No entanto, aqui deixo o meu apontamento: o texto (os textos) de Vicente Sanches confirmam aquilo que penso: a sua actualidade. Sanches é um escritor religioso, um escritor católico –um escritor metafísico, que quer ver aquilo que está além do físico. O físico não passará do envelope do essencial, tal qual “a materialidade literária da Escritura”, como Sanches sublinha a propósito da Kaballa judaica. E este homem, que luta, obstinadamente, para permanecer em Deus e no Absoluto, conclui, referindo a saudade da Esperança: “forma doce, forma perversíssima de ainda poderem desfrutar do calor do sol da Esperança, maravilhosamente!, os desesperados definitivamente”. Ora esse drama, a saudade da Esperança que aponta o Absoluto e o desespero definitivo dos “envelopes”, bandeiras do racionalismo redutor –marca as pessoas do nosso tempo gelado.

Entre Gordon Brown e Silvio Berlusconi não há nenhuma impura coincidência... como vimos no meu texto anterior... Era o que faltava!


La tragedia de Brown

Por John Carlin




Cuando Gordon Brown y Barack Obama dieron una rueda de prensa conjunta a finales de marzo, durante una cumbre convocada por el G-20 para buscar soluciones a la crisis económica mundial, el primer ministro británico dejó al presidente de Estados Unidos en la sombra. Obama, por una vez, no estuvo muy fino. Hubo una pregunta en especial, una engañosamente sencilla, que le consternó: ¿qué le recomendaría a los ciudadanos, ahorrar o gastar?
Obama inició un aparatoso circunloquio, intentando ganar tiempo para clarificar sus ideas, pero no logró dar con una fórmula convincente. Entonces respondió Brown. Breve, claro, al grano, dijo que la responsabilidad de los Gobiernos consistía en tomar las medidas adecuadas para que los ciudadanos pudiesen decidir con confianza cual de las dos opciones era la que más les convenía.
Brown, que tres semanas antes había recibido 17 ovaciones durante un triunfante discurso ante el Congreso estadounidense, es un gran cerebro -tan cómodo leyendo las obras de Shakespeare como las de Marx o Adam Smith- y, en el ámbito de los actuales jefes de Gobierno, un peso pesado mundial. En Reino Unido lo identifican como un big beast, una gran bestia, nombre que la clase política reserva para las figuras intelectualmente más dotadas del Parlamento de Westminster. Pero entonces, ¿cómo se explica su calamitosa impopularidad, tanto con el electorado como dentro de su propio partido laborista? ¿Por qué siete ministros han dimitido en diez días, en un intento de derrocarle? ¿Cómo es que en las elecciones europeas el partido gobernante cosechó un denigrante 16% del voto, claro indicativo de que las próximas elecciones generales, el año que viene a más tardar, serán una catástrofe para los laboristas?
Evidentemente, la crisis económica iba a poner a la defensiva a cualquier líder que haya estado en el poder los últimos dos años y más si, como en el caso de Brown, anteriormente fue ministro de finanzas durante 10. Tampoco han ayudado las recientes revelaciones de abusos de los fondos oficiales por parte de los parlamentarios británicos. Pero aquí no está la raíz del problema, ya que el público británico parece haber concluido que la crisis obedece a una lógica global de la que nadie se ha salvado, y que los diputados conservadores también han caído en la corrupción. El problema radica en la figura de Brown, en un defecto en su personalidad que le convierte casi en una figura trágica, en el sentido clásico -griego- de la palabra. Es un hombre extraordinariamente inteligente y de buena voluntad, considerado como tal incluso por sus detractores de la derecha, pero cuando llegó a la cima de su carrera política salió a la luz un defecto en su cuadro psicológico que le ha llevado hoy al borde del precipicio político, que ha convencido a todo el mundo, sin excluir a su propio partido, de que no tiene la más mínima posibilidad de mantenerse en el Gobierno cuando llegue la hora de presentarse ante el electorado.
Hay una cita de Shakespeare que Brown, con toda seguridad, se sabe de memoria. "Ante todo, sé fiel a ti mismo, y a eso seguirá, como la noche sigue al día, que no serás falso con nadie". Brown no ha sido fiel a sí mismo. Desde que llegó al poder ha intentado ser alguien que no es. Ha intentado imitar a su predecesor, Tony Blair, un populista telegénico. Pero no le sale. Brown es, por naturaleza, un personaje adusto y reservado que, viéndose obligado a conectar con los gustos de las masas, ha caído en demagogias baratas y poco creíbles, como declarar en público que escucha la música de una de las bandas indie de moda, los Arctic Monkeys; como decir que disfruta de un programa de televisión cazatalentos de enorme difusión llamado The X Factor; como aparentar que es tal su fascinación por Susan Boyle, la escocesa que saltó a la fama mundial tras su aparición como cantante en otro concurso de talento televisivo británico, que cuando ésta cayó enferma la semana pasada él personalmente llamó por teléfono para ver cómo estaba.
Abundan ejemplos como estos de Brown intentando dar la impresión de que es "uno de los nuestros", otro británico más, cuando todos los británicos saben perfectamente bien que no lo es, que por elección personal aborrece la idea de malgastar un minuto de su vida viendo un programa de cazatalentos, que es un hombre cuyo entorno natural sería una íntima cena entre catedráticos en una ilustre universidad. La consecuencia es que cuando le da por intentar una de sus jugadas populacheras, nadie le cree. La gente ve que no está siendo fiel a sí mismo y sacan la conclusión, invirtiendo la lógica de la frase de Shakespeare, de que es un hombre falso, de poco fiar. Lo cual es injusto, pero así se transmiten las imágenes de los políticos en la era de la televisión y de Internet. Antes, cuando los políticos se comunicaban con el público a través de la radio, Brown podría haber pasado a la historia como uno de los grandes líderes del siglo. Pero ahora que se anatomiza cada tic de la personalidad de cada figura pública, la imagen de Brown se diluye cada día.
Es una exageración concluir, como algunos han hecho, que Brown padece una especie de autismo. Tiene sentido del humor, e incluso no duda en reírse de sí mismo. El año pasado provocó carcajadas cuando declaró, con una media sonrisa: "No entré en la política para ser popular, ¡menos mal!". Pero esa faceta de Brown se suele ver con más frecuencia en privado. En televisión se le ve demasiadas veces tieso, torpe, como luchando consigo mismo para transmitir un campechanismo que no posee.
Y nunca lo poseyó. Su infancia y adolescencia lo marcaron como una persona introvertida y distante. Reino Unido es uno de los países del mundo en los que menos se practica la religión, pero su padre fue un clérigo de la austera Iglesia presbiteriana que inculcó en él hábitos puritanos de trabajo y de poca expresividad emocional. El ejemplo paterno dio fruto en los estudios del joven Gordon: a los 15 años aprobó los exámenes para ingresar en la Universidad de Edimburgo. Poco después sufrió un accidente cuando jugaba al rugby que le dejó ciego. Pasó varias semanas tumbado en la cama sin poder ver, convencido de que nunca volvería a hacerlo, hasta que un cirujano le hizo una delicada operación en la retina que le permitió recuperar la vista en un ojo. Con el otro nunca ha vuelto a ver.
Si Brown optó por ingresar joven en las filas del partido laborista fue en parte, como él ha dicho, por la estima y gratitud que sentirá siempre hacia el sistema gratuito de salud pública que le salvó de la ceguera total. Ha dedicado toda su vida adulta al servicio público. Fue un brillante ministro de finanzas, reconocido como tal por los propios funcionarios del ministerio, que le despidieron hace dos años cuando asumió el cargo de primer ministro con aplausos y lágrimas, y por economistas de la talla del premio Nobel Paul Krugman, que le admira. Pero, en los tiempos que corren, no tiene madera para estar donde está. No debería habérselo buscado; debería haber oído los consejos, algo malignos, del círculo íntimo de Tony Blair, que lo declararon "psicológicamente inadaptado" para asumir el liderazgo del Gobierno.
Eso sí: intelectualmente, al lado de Blair, Brown es un coloso. En las reuniones de los líderes del G-20, incluso con Obama presente, encuentra refugio en su conocimiento superior; es la gran bestia que eclipsa a todos en la habitación. Pero al salir a la luz del día y enfrentarse al gran público sus limitaciones como comunicador y sus inseguridades como persona se ven a flor de piel. Si él mismo se hubiera enfrentado a esas limitaciones e inseguridades, si la ambición no le hubiera cegado como una vez lo hicieron sus ojos, no hubiera dado el paso a la presidencia de Gobierno y la historia lo hubiera recordado como un gran servidor público en vez de como un político incapaz.


El Pais, 14/ 06/ 09

O dia de hoje: ai do político que não saiba dançar o vira...



"Antes de mais, sê fiel a ti mesmo, e a isso seguirá, como à noite segue o dia, que não serás falso com ninguém". O inglês John Carlin, cita esta frase de Shakespeare, no artigo acerca do drama político de Gordon Brown, que aqui transcrevi. Ao que parece, Brown não aprendeu a “arte” politiqueira do malabarismo: sorrisos e abraços, a torto e a direito, dançar o malhão ou confraternizar com o Quim Barreiros, prometer, prometer, dizer a tudo que sim, beijar criancinhas, ajudar velhinhas a atravessar a rua, mascarar-se de pescador, deliciar-se com o amor das vaquinhas aos robôs, que lhes chupam as tetas e celebrá-lo, girar, girar, a meio do vira-ora-vira-torna-a-virar, oferecer canetas (ou computadores, ainda que não funcionem...) aos estudantinhos, não perder a hora de ponta dos telejornais..., em suma, treinar a cambalhota...

Brown é um homem íntegro –e, rarissimamente, um homem íntegro é um político. É um homem superiormente inteligente –e um político, para subir na vida, não precisa nem deve ser demasiado inteligente, antes pelo contrário: tem, apenas, que ser brilhante, de ter pata p'ra dança...
Gordon Brown não perde tempo com fogos de vista. Não se vende por um pratinho de lentilhas: é filho de um Pastor protestante –logo, teve formação religiosa, aprendeu a importância do imperativo ético.

Ora a cartilha dos politiqueiros nada tem de ética e não conhece a religiosidade. Maquiaveletas de aldeia, por essas serras espalhadas, apontam à presidência da Junta de Freguesia, depois, da Câmara Municipal, depois, ao lugarzinho no Parlamento... finalmente, à malga de secretário de estado, depois, ainda, ao banquete ministerial, por que não?, a S. Bento... a Belém... Camilo sabia-o e Calisto Elói também. Na ‘Campanha Alegre’, de Eça, e n’ Os Gatos, de Fialho, abundam esses regedores, broncos ou chicos-espertos, sempre a fuçar, sempre a venderem-se e a venderem gato por lebre, à cata do erário...

Gordon Brown não tem nada a ver com essa brigada esfomeada, espécie de L’Armata Brancaleone, o inesquecível filme de Mario Monicelli, com Vittorio Grassman e Gian Maria Volonté (e outros, por exemplo, o ‘genial’ Carlo Pisacane, em ‘Abacuc’), que corre atrás do que reluz e tilinta. E o primeiro-ministro inglês paga a própria honestidade: desce, vertiginosamente, nas sondagens, porque, quando quis macaquear o vendedor da banha da cobra, deixou perceber que mentia aos eleitores... porque, estruturalmente, não é um vendedor da banha da cobra...

Que alguém tenha uma formação religiosa -ainda que, depois se afaste da religião no seio da qual cresceu- deixa, a meu ver, marca positivíssima: a incontornável presença do imperativo ético. Em Israel, foi minha médica assistente uma jovem mulher, Leah Luzatto, filha do Rabino-Mor de Genova, imigrante em Telavive. É uma médica extraordinária e superiormente humana. Disse-lhe, muitas vezes. ‘A tua generosa humanidade deve-se a seres filha de um rabino...’


Ai do político que não aprendeu a dançar o vira! Creio que percebes onde quero chegar, amigo que me lês...

sábado, 13 de junho de 2009

Em frente ao mar




Num desses fins de tarde húmidos e pesados de Agosto, estávamos sentados, eu, Zvi Pelberg, e Leon Goldapple, numa das esplanadas da Promenade, em frente da praia cheia de gente e do mar azul, sereno, com velas brancas e barcos de recreio ao fundo. O meu amigo resolvera fugir ao calor de Nova-Iorque, onde tinha o seu escritório de consultor financeiro, e viera encontrar o calor sufocante de Telavive. Era um homem da minha idade, solteiro impenitente, que emigrara para a América após a licenciatura em economia na Universidade de Jerusalém. Ali nos tínhamos conhecido e partilhado ilusões, sonhos, aventuras, a brutalidade da guerra do Kippur. Recorri a ele, muitas vezes, para resolver problemas da minha empresa de Holon e para alargar os meus negócios de export-import.
-Ham!... Não se aguenta! -exclamou, no seu hebraico já de Brooklin.
E engoliu, de um trago, o que restava da coca-cola, que fora aquecendo, mal protegida pelo guarda-sol torto e desbotado.
-Podias ter escolhido outro sítio... A riviera italiana, Nice, Marbella! –disse-lhe eu, também cansado e encharcado de suor que me colava a roupa ao corpo.
-Tu sabes que eu volto todos os anos, meu velho! Sem falhar! Esta cidade paga tudo! Única!
E riu alto e pareceu-me que acreditava no que dizia:
-A cidade mais humana do mundo! Aqui és como és, não aldrabas! E já viste como isto se desenvolveu? Olha os hotéis, antigamente eram dunas... E esta Promenade! Olha-me esta juventude! Estas raparigas! Lindas! Gente sã! Capaz!
E piscou-me o olho:
-Aliás, tenho uma coisa para te dizer...
-O quê?
-Nada de grave...
Eu conhecia bem a maneira, espontânea, extrovertida, apaixonada, às vezes cruel, e sabia que ele estava morto por contar tudo, por se exibir:
-Foi hoje?
-Há uns dias...
E, inesperadamente, refreou-se. Olhou-me de viés:
-Conto?... É uma história de sexo. Não te escandalizas?
Não, não me escandalizava. Leon tinha vontade de a contar e, além disso, naquele momento, eu aceitaria tudo, ouviria qualquer história, qualquer anedota, qualquer coisa, fosse o que fosse, não tinha forças para reagir, para me escandalizar, não podia com uma gata pelo rabo, destruído. Falou de modo esquisito, ao princípio tímido, como se tivesse remorsos ou se sentisse em falta, ele que nunca se importara com os sentimentos. Melhor: com certos sentimentos. E depressa se entusiasmou e enveredou pelo sarcasmo, que lhe era muito habitual.
-Foi com uma prostituta... Há-as de todos os tipos, altas, baixas, magras, cheiinhas, loiras, morenas, pretas, amarelas. Cá da terra, africanas, brasileiras, russas... Aquela que eu escolhi era de Kiev, Natacha, deu esse nome, se calhar é outro, é com certeza outro, mas deu esse. Dão, sempre, um nome falso. Uma esplêndida mulher, alta, loira, jovem, com uns olhos lindíssimos! As prostitutas usa-las como quiseres. Podes virá-las, pô-las de pés para a cabeça, agachadas, de gatas. Depende dos teus gostos. E daquilo que contratares com elas. És livre, decides como entendes. E fazes o que te apetecer. Depois, se te cansares, se te fartares, deixas a tua mão nas coxas delas ou mexes-lhes nos seios, se não fores parvo, vale a pena, escolhes raparigas bonitas, frescas... Ou maduras! É contigo, tu é que sabes. És rei e senhor! Julgas tu... Contas feitas, meu velho, nunca leva a mais do que isso, à liberdade de usares o outro à tua insatisfação. Acontece elas acordarem e jogarem contigo o tal jogo das sensações vertiginosas e efémeras. Duram o tempo do contrato. Às vezes a emoção acaba antes! E não tens de agradecer, pagaste. É natural. Se agradeceres, se te virares para a cara do corpo que te aturou e se te ofereceu -é o mercado, a oferta e a procura...-, se olhares, reparas que é uma pessoa. E começas a confiar-te, sem confiança nenhuma, levado pelo que ela te deu e pelo teu cansaço. O teu cansaço, esse, é verdadeiro. Tal qual o dela. Só que elas resistem mais, é a profissão. Amar assim cansa. E desvias os olhos, deixas cair o braço. Chegas-lhe, outra vez o corpo, à procura do seu calor. Ela aceita. Agradece, imagina!, agradece, ou parece que agradece, e é capaz de ser verdade, nunca se sabe... Sem pensar que a compraste, e quando a julgavas indiferente, um objecto treinado para te fazer gozar e saciar, para sossegar os teus vícios, ela abre os olhos para ti e vês neles uma ternura que te aflige, porque achas que não a mereces. Dói-te? É bom sinal. Pagaste... E contrataste, exigiste. Sentes, sabes que abusaste. Ela esqueceu e constrange-te pensar que te perdoou. Afinal, tu és uma pessoa à procura dela e do calor que te dá. Passa as mãos pelos teus cabelos, ao pé de ti, sem se esquivar e com a tristeza irónica que te incomodou. Não tinhas o direito de comprares uma pessoa. Não pensas isso? Julgas que não acredito? Pensas, sim, pensas... E ela continua a olhar para ti e pergunta-te:
“Foi bom?
Tu respondes, lisonjeado:
“-Ah!, sim, foi muito bom!
Também tu não queres desiludi-la.
E ela diz-te e surprende-te:
“-Também para mim...
E apressas-te, desarmado e incerto:
“-Ai sim? Obrigado!
Vês a ironia nos olhos dela? Vês. E não a queres ver, deixas de a ver, queres o seu calor, a compreensão. Ela compreendeu-te.
“-Descansa! Chega-te para aqui...
Sem que nada a obrigue a esse gesto...
Hesitou uns instantes.
-Um disparate, não achas?
E, antes que eu respondesse, continuou:
-Agarrou-me, abraçou-me, apertou-me. Era disso que eu precisava, de uma amiga assim... Daquela sinceridade...
“-Sentes-te bem?
Sentia-me mal, encostado a um corpo que me aparecera por acaso e por dinheiro, que não era, ai!, não era!, o da mulher amada, mas que me excitara e, agora, me consolava, na incauta disponibilidade. Mulher amada!... Sabes o que isso é? Chatices! A Natacha era mesmo uma Natacha, à russa! Insistiu:
“-Não te assustes...
-Sinto-me bem...
“-Mas estás a suar... Vai tomar um banho quente...
Fui tomar um chuveiro, deixei a água escorrer-me pelo corpo, à espera que o lavasse. Ela vestia-se. Peguei na toalha e enxuguei-me. Queria sair dali. Só havia uma porta e ela esperava, ao lado, ainda meio despida. O que é que esperaria aquela prostituta?...
“-E tu? Não te vestes?!
Enterneceu-me, comoveu-me?
“-Agasalha-te... Não estejas assim...
Era no Inverno e o quarto tinha uma grande janela aberta por onde entrava vento frio. Ela foi direita à janela e disse:
“-O mar...
“-Já sei. Está aí em frente...
Ela virou-se e perguntou-me:
“-Gostas disto?
“-Do quê?
Apontou para a cama desfeita.
“-Daquilo...
“-Mais ou menos...
“-Mais?... Ou menos?...
Ela volttara e encostara-se a mim e eu não sabia o que fazer. Já a usara. Já acabara. Passara o tempo.
“-Mais? Ou menos? -perguntou, outra vez, a sorrir- Não gostaste? Não fui boa?
Boa? Boa, com certeza. Mas aquele corpo era humano? Tive vergonha de o pensar, mas pensei-o: apenas, um corpo que comprara. Havia outros. Loiros, morenos. Mais bonitos. Jovens, sem as primeiras rugas. Não me apareceu assim, não a vi mulher de compra e venda. Era uma jovem mulher que se oferecia e sorria, à minha espera. Puxei-a, quis beijá-la, soltou-se, empurrou-me, a brincar e a sério:
“-Já é tarde...
“-E amanhã?
Ela respondeu, contente:
“-Se quiseres, encontramo-nos na praia do Dan Panorama... Queres?


Leon Goldapple calou-se e eu não lhe disse nada. Ele tinha destas coisas e era um homem maduro, independente, solitário. Mas não resisti:
-E tu foste?
Olhou-me como se não me visse, e, depois, franziu o sobrolho.
-Aonde?
-Foste ter com ela?
-És maluco?...
Abanou a cabeça, enquanto pedia à empregada que trouxesse a conta.
-És tolinho... Claro que não fui, tinha mais que fazer!

in Um Inverno em Marraquexe

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O mítico Boris Vian morreu há 50 anos neste mês de Junho e aqui se mostra como se pode escrever bem e fundo a propósito de um autor especial...


El bisonte encantado

de Moncho Alpuente
Cuando se encendieron las luces de la sala, Boris Vian estaba cómodamente muerto en su butaca. Su corazón, débil y acelerado desde su más tierna y desvergonzada infancia, no pudo soportar, dijeron las malas lenguas que siempre le acompañaron, la execrable adaptación cinematográfica de su maldita y celebre novela Escupiré sobre vuestras tumbas. Unos días antes, Boris había pedido que borraran su nombre de los títulos de crédito del filme. Poeta, ingeniero, humorista, cineasta, novelista, trompetista y corneta, cantante, autor de más de 400 canciones, dramaturgo vitriólico, insigne pedagogo patafísico, crítico de jazz, director artístico de una discográfica, autor de óperas y ballets imposibles, pionero de las discotecas, as del volante y príncipe republicano de Saint Germain de Prés en su periodo de máximo esplendor (1947-1950), Boris Vian recibe hoy en el cincuentenario de su muerte, sucedida a los 39 años, el homenaje de sus compatriotas con la tardía edición de sus novelas en la prestigiosa colección La Pléiade, de la editorial Gallimard de su amigo Gaston, a cuyos cócteles solía asistir con frecuencia para asombrarse por la voracidad de las gentes de letras ante los canapés y "sobre todo para ver a Merleau-Ponty en plan pastelito".
Boris Vian fue primero amigo y discípulo de Sartre y su tribu, y luego, por inesperados giros de su vida literaria, política y conyugal, enemigo irónico y despiadado del pope existencialista. Vian, parisiense de Ville d'Avray, conocía de primera mano los gustos gastronómicos de los existencialistas, como anfitrión de las filosóficas "fiestas tarta" que sucedieron a los desenfrenados guateques (surprises parties) de su primera juventud. Su biógrafo y colega Noel Arnaud, en Las vidas paralelas de Boris Vian (Versal, 1990), escribe la nota social de una de aquellas meriendas: mientras Simone de Beauvoir y Boris vigilaban la integridad de las tartas que quedaban en la cocina, el citado Merleau Ponty y Albert Camus estuvieron a punto de liarse a tartazos durante una acalorada discusión sobre motivos que no se mencionan en la crónica. "El divorcio era inevitable", corean los contertulios entre los que se encuentra Raymond Queneau. Camus se va dando un portazo y Sartre le persigue por la calle.
Para los gacetilleros ("meatextos") que comentaban, con gran éxito de prensa, los excesos de los jóvenes pervertidos por el virus existencialista, Boris Vian era el paradigma, improbable por imposible de imitar, de aquella juventud marcada por la guerra y con ganas de marcha. Los "meatextos" que se aprovechaban del ambiente noctámbulo del Barrio Latino para escandalizar un poco y moralizar un mucho a su aburrida clientela confundían el existencialismo con el boogie-woogie. Sartre solo pisó una vez el Tabou, cava iniciática en la que sonaron los fondos de su discoteca, prestados o intercambiados con Boris. Vian siempre fue joven pero nunca existencialista. En un escatológico y laudatorio artículo titulado Sartre y la mierda, el autor anota: "No soy existencialista. En efecto, para un existencialista la existencia precede a la esencia. Para mí no hay esencia". Las múltiples y fragantes esencias del extravagante y eximio polígrafo se diluyen en una obra inabarcable: "Cuando escribo en broma parezco sincero y cuando escribo de verdad creen que bromeo", reflexionaba este maestro de la ironía tras el éxito y el escándalo que saludaron la publicación de Escupiré sobre vuestras tumbas, la novela de un presunto autor negro y norteamericano que presuntamente ningún editor se había atrevido a publicar en su país de origen. Escrita en 15 días por una apuesta editorial, esta novela, doblemente negra, se presentó como original de Vernon Sullivan, traducida del "americano" por Boris Vian, que tendría que recurrir posteriormente a un colega para traducirla al inglés durante un largo y jugoso pleito iniciado por los amigos de la moral y de las buenas costumbres, enemigos acérrimos del autor, demonios familiares que exorcizó a lo largo de su vasta y dispersa obra, siempre en defensa de los valores que le habían inculcado también en familia, un infinito desprecio por el Dinero, la Iglesia, el Ejército, la Política y el Trabajo.
Boris Vian, Bison Ravi, bisonte encantado, según el anagrama que le regaló Prévert, miraba con cierta melancolía, disfrazada por su contumaz visión irónica, el imparable éxito editorial de sus bromas y el fracaso, en ocasiones relativo de sus novelas "serias" (perdón por las comillas), relatos bajo los que circula una personalísima veta poética: Vercocquin y el placton, El otoño en Pekín, La hierba roja, La espuma de los días... Boris Vian, enemigo del trabajo, desarrolló una actividad frenética en todos los frentes. El desertor, hoy reconocido himno pacifista, mereció los reproches de la izquierda y la derecha, los ex combatientes y los resistentes recargaron sus oxidados fusiles. En un terreno tan sensible, patria y orgullo por medio, no cabían bromas, ni escenas como la que se representa en su obra teatral El descuartizamiento para todos: en pleno desembarco de Normandía, soldados americanos y alemanes se juegan a las cartas sus uniformes y pertrechos, y tras haberlos intercambiado se cambian de bando y desfilan hacia frentes opuestos.
La edición de su biografía y la de La Pléiade señalan en Francia la efeméride. En España, donde gran parte de su obra se encuentra traducida, dispersa y muchas veces agotada, un triple cedé, L'Ingénieux Romanesque, que sale el lunes a la venta, viene a cubrir someramente la casi total ausencia de una faceta fundamental del trabajo vianístico, la de cantante, compositor y músico. El disco ofrece una selección de sus impagables, y siempre mal pagadas canciones, interpretadas por él mismo o por sus colegas, como Henri Salvador, Magali Noel, Patachou, Juliette Greco y... Maurice Chevalier, y una recopilación de sus grabaciones de jazz con las orquestas de Claude Luter y Claude Abadie. Para septiembre se anuncia la publicación de No me gustaría palmarla, con algunos de los poemas y poemas-canciones de Vian, ilustrados y traducidos, entre otros, por Javier Krahe y Andy Chango, Fernando Savater, Santiago Auserón y Jenaro Talens. El uso desmesurado del argot y su debilidad por los neologismos, las aliteraciones y los juegos fonéticos siguen torturando a sus osados traductores.
Muerto en 1959, Boris Vian contagió a muchos jóvenes españoles, que le conocieron sobre todo por sus Vernon Sullivan y sus narraciones cortas, el ánimo insurgente de Mayo del 68, cuando su ex colega "Jean Sol Partre" aún trataba de explicar (y explicarse) el marxismo leninismo frente a las turbas rebeldes. Vian acabó encuadrado voluntariamente en las filas de la "Patafísica", creada por Alfred Jarry como ciencia de las soluciones imposibles, disciplina a la que dedicó sus trabajos más sesudos y superfluos como su visionario Tratado de civismo. Su sombra, corneta en mano, planea sobre los talleres del OULIPO con las de otros queridos ectoplasmas, Prévert y Queneau, imprescindibles mentores de todas las manipulaciones, distorsiones y elucubraciones sobre el lenguaje y el concepto en lengua francesa.


El Pais, 13/ 06/ 09

O dia de hoje: conversas privadas carreiristas e a doença sebastiânica o Encoberto nas discursatas e no Boletim Meteorológico da crise...




Há um país -e povo desse país- a sofrer o mau governo e uma crise terrível cujo fim se ignora quando e como. Há um clube de intelectuais, sociólogos, politólogos, opiniólogos, mais ou menos bem instalados, que trocam recados. Conversas privadas. E acontece o discurso de Barreto, António, uma cházada, e logo os colegas de clube descobrem nele mensagem profunda: essencial. Barreto diz, sobretudo diz isso, nas barbas de Cavaco e para que o oiça, que Portugal precisa de pessoas responsáveis –que dêem o exemplo. Uma espécie de Encoberto, de D. Sebastião up dated?... Ou um De Gaulle? Bem, entre De Gaulle e Cavaco há uma distância imensa: de tamanho. Não só do tamanho por fora mas, também, do tamanho por dentro –dentro da cabecinha. Essa coisa do “homem providencial” (viu-se como Cavaco foi “providencial”, durante os 10 anos do seu consulado...), do Sebastião, Rei, do Encoberto... é uma doença que os portugueses arrastam, já vão lá séculos! O que nós precisamos é de Cultura, Ensino, consciência cívica –responsabilidade (de facto, responsabilidade...) cívica. De um debate em que o povo encontre políticos a falarem com ele –e não cerebrozinhos de tertúlias onde se discute o sexo dos anjos e... as vantagens, para as carreiras de cada um, de dizer isto ou aquilo...

O dia de hoje: Vicente Sanches vítima da CIA literata portuguesa? Ou, e não é pouco!, os malefícios da independência...



Sessenta e Três Aforismos (edição de autor) é a 40ª obra de Vicente Sanches, publicada. A 40ª, segundo ele... Escreveu e publicou outras. E fica-se a pensar: por que é que a crítica (haverá crítica?) e o público ignoram um autor da grandeza de Vicente Sanches? Não hesito: Vicente Sanches iguala os melhores dramaturgos portugueses, nada deve a muitos estrangeiros. Ao mesmo tempo, não me admiro: o nosso é o tempo do descartável, do superficial... E, depois, há o PAC: o Processo de Analfabetização em Curso, iniciativa da já tristemente célebre firma Lurdes & Lemos & Pedreira, Sociedade de Irresponsabilidade Ilimitada...

O regresso à literatura de cordel é resultado de tudo isso. Acima, reproduzo o cartaz da peça de Sanches, A Birra do Morto –é uma das preferidas dos grupos teatrais que tentam revitalizar o nosso país (o TMG, Teatro Municipal da Guarda, encenou, há anos, com muito êxito, uma sua peça sobre Van Gogh).

Devo, porém, assinalar que as prestigiosas Edições Cotovia (dirigidas por gente de cabeça lúcida e sentido das coisas da Arte) publicaram 5 livros de Vicente Sanches. É pena que tenham parado, mas a iniciativa foi uma bela forma de homenagem a um homem que se marimba para as homenagens, para a feira das vaidades literatas e, retirado no “seu Castelo Branco” (que terá de abandonar em Setembro, coisas...) já ergueu obra ímpar, admirável e riquíssima.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

A referência de Cavaco ao herói discreto do 25 de Abril, Salgueiro Maia, chegou tarde demais e mal... devo dizer que não esperava outra coisa...



As palavras de Cavaco -bem curtas, bem pequeninas, dir-se-iam meias escondidas- não me surpreenderam, na pobreza (para não lhes chamar outra coisa)... Cavaco sabia o que fizera, o que fez, há 20 anos: não esqueceu a recusa da pensão ao herói do 25 de Abril, homem simples, coerente e honesto. E eu também sei que entre Cavaco eo 25 de Abril não existe nenhuma ligação. É impossível -o mesmo que querer juntar a chateza de espírito com a grandeza dos libertadores. Cavaco nunca libertou ninguém. Os seus dez anos de governo foram mais dez anos a somar aos quase 50 do antes do 25 de Abril. Foram um desastre. Aliás, Salgueiro Maia não precisava daquelas palavretas para nada: o lugar do homem dos tanques sem gazolina (ou gazóleo...) nem balas, mas com o Ideal, há muito que está garantido, honrosamente garantido, na História de Portugal.

Gordon Brown e o calvário da 3ª via socialista...

Blair e Brown dois da 3ª via...

El calvario de Brown


Gordon Brown está intentando recuperar la iniciativa después de haber sobrevivido en precario a la que, sin duda, ha sido su semana más difícil desde que llegara a Downing Street. Los planes para desplazarlo, encabezados por diputados laboristas rebeldes, fracasaron en el último momento no porque Brown contase con el firme apoyo del resto del partido, sino por las dificultades de sus críticos para encontrar un líder de recambio que propiciase lo que hoy por hoy parece una tarea titánica: situar al laborismo en condiciones de disputar con alguna garantía las próximas elecciones legislativas. Con Brown parece imposible, pero nada indica que, prescindiendo de él, los laboristas puedan recuperar el terreno perdido.
Los Gobiernos de izquierda fueron castigados en las elecciones europeas del pasado domingo, pero en Reino Unido el descalabro resultó de tales proporciones que más apunta a una crisis profunda del sistema que a un simple problema de liderazgo en un partido. No son sólo los errores de Brown los que explicarían que el laborismo haya quedado como tercera fuerza política del país, por detrás de conservadores y liberales. Ni tampoco el hecho de que haya servido de chivo expiatorio en el escándalo de los gastos privados de los parlamentarios da cuenta exacta del estado de ánimo de los electores. Los británicos han empezado a interrogarse de manera crítica sobre el funcionamiento de sus instituciones, y ése es el hecho nuevo.
Brown lo trasladó ayer a la agenda política como vía para escapar de la tormenta política que amenaza a su Gobierno, anunciando una reforma del sistema electoral y el establecimiento de una autoridad independiente en el Parlamento para prevenir escándalos. Con estas y otras propuestas destinadas a aumentar la transparencia, Brown trata de dar respuesta a una preocupación que, en efecto, existe y que es mayoritaria. Sin embargo, carece de la autoridad política necesaria para llevar adelante sus anuncios. Los conservadores le han reprochado que emprenda ahora una reforma que los laboristas podían haber llevado a cabo hace más de una década. Y los liberales le han exigido, en cambio, que el sistema proporcional se establezca cuanto antes. Estas críticas cruzadas hacen suponer que el calvario de Brown no ha concluido, y que sus intentos por recuperar la iniciativa política no podrán garantizarle más que un breve plazo de sosiego.


in El Pais, 11/06/09

Pio Baroja um génio e um homem que nunca aceitou albardas. Em suma: um dos maiores romancistas do século XX



O livro aí acima é obra de um dos maiores escritores espanhóis de todos os tempos: Pio Baroja. Encontrei-o, por acaso, entre muitos outros livros, condenados ao abandono e a apodrecer. Curiosa primeira edição de 1941, com ilustrações de Nomo. Não faço ideia de quem era Nomo, mas tinha talento. Levo já mais de cem páginas lidas de Los impostores joviales.

Quando se pega em Baroja, nunca mais se larga. Não há limites para a criatividade do basco (que rejeitava, como Miguel de Unamuno, o nacionalismo basco...): livre, capaz de fixar uma personagem e um ambiente, em duas penadas, curioso da vida até à exaustão (ele que lera e apreciara o pessimismo de Schopenhauer...), contador da vida em movimento, da vida imprevista, aventurosa, envolve-nos: seduz-nos. A própria vida de Baroja foi, também, uma aventura: médico contra vontade, anarquista visceral, correu a Europa, instalou-se aqui e ali, nunca se deixou prender por nenhuma ideologia oficial. Preso, isso foi: pelos franquistas... e solto, verdadeiro milagre!, logo a seguir: uma alma boa ou lúcida salvou-o. Essa alma boa e lúcida, o Duque da Torre, viria a ser (não admira) o preceptor do actual Rei de Espanha...

Refugiou-se em Paris, no Colegio de España, de onde o embaixador da República espanhola tentou, em vão, expulsá-lo. De onde que os republicanos espanhóis respeitavam o talento, a liberdade de pensamento e... a democracia.

Pio Baroja andou, sempre, às avessas com todos os poderes instituídos –era, como disse, um anarquista pacífico (o serviço militar repugnava-lhe e conseguiu safar-se dele). Acabada a guerra civil, regressou a Espanha, instalou-se em Madrid –onde o viam passear, solitário, pelo Parque del Retiro. Os franquistas censuraram-lhe livros, proibiram-lhe outros (a novela sobre a guerra civil, ‘Miserias de la Guerra’, na qual, aliás, criticava os republicanos). Morreu em 1956, recusando..., outra vez recusando, como se não pudesse fazer outra coisa..., a extrema unção. Enterro civil, portanto, mais um escândalo, atendendo ao vento que soprava... Hemingway e Camilo José Cela foram duas das quatro pessoas que levaram, aos ombros, o féretro.

Uma biografia assim incomodará quem lhe exigisse ‘coerência’ (milhares das sua páginas sobre a miséria humana, a injustiça e a prepotência, fariam esperar atitudes diferentes). Mas a sua ‘coerência’ era aquela: ser ele próprio, insubmisso na raiz, homem que recusa (pois... que recusa...) albarda –génio indomável, inclassificável, inquadrável.

E, na verdade, quantos escritores menoríssimos não esconderam a própria mediocridade na capa dos ‘grandes gestos’ cívicos... Não, meus amigos, para o génio a bitola tem de ser outra.

O dia de hoje: 34 mortos para salvar a terra... e salvaram?... E é justo que tenham tido que morrer?



O congresso do Perú suspendeu o decreto conhecido pela Ley de la selva, que, mais uma vez, abriria as portas da exploração, sem rei nem roque, da Amazónia e continuaria a destruir a cultura indígena. Os índios da Amazónia peruana protestaram, manifestaram-se, enfrentaram as forças da “ordem”. 34 mortos foi o resultado. E prisões e espancamentos, etc. Houve quem filmasse, as televisões mostraram, os jornais falaram. O governo fez marcha atrás. Até quando? O governo não decidiu sozinho: teve o apoio do partido do antigo ditador (obviamente, corrupto e, também obviamente, sanguinário) Fujimori e do partido conservador (pretende conservar o quê? Um Peru cada vez mais pobre e dependente das multinacionais?). Ora, alguns números: agricultura: 0,70%; industria: 23,80%; serviços: 75,50%.

A indústria do gás e do petróleo (o Perú tem reservas de gás e petróleo, que atingem a Amazónia...) caminham a passos largos para uma entrega a capitais estrangeiros –e da sus exploração decorrerá, inevitavelmente, a destruição da floresta amazónica peruana e o do meio ambiente e da identidade indígena. A oposição exige que de suspenso e famigerado decreto passe a morto. Isso acontecerá alguma vez? Ou morreram 34 pessoas, inutilmente? O pessimismo do grande amtropólogo-etnólogo Claude Levy-Strauss provoca-me arrepios... O mundo, a nossa vida, a qualidade das coisas –não dependem de nós. Ou cada vez dependem menos de nós. O cifrão é o Imperador.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Marvão e até 5ª feira...


Vou uns dias a Marvão. Volto a Marvão: é lugar onde, de vez em quando, carrego as baterias. Paz e amizade. Bom vinho, boa cozinha, bons enchidos, gente direita. Depois, tenho a planície alentejana, ali ao pé, para meditar... Os tesouros que sobram -ainda resistem ao Portugal da febre betónica e do frenesi alarve... Até 5ª feira! Fiquem bem (...onde estiverem, que pode ser outro dos poucos paraísos que nos restam... oxalá seja, Amigo!).