No fundo do poço
Os portugueses conhecem a exclusão social há séculos e com
ela têm convivido –ou, dela, fugiram e fogem, emigrando.
O Alpedrinha, que o Teodorico, d’A Relíquia queirosiana, encontra no Cairo, não passa de um excluído,
isto é, de um dos tais que fugiu do país e da fome, da morte certa, da agonia
num buraco de Lisboa ou do Porto, ou de qualquer burgo medieval oitocentista.
Após mais esse século infausto, o século XVIII, apesar do
sonho de 1820, dos setembristas, das Conferências
do Casino e etc., passámos, rapidamente por uma república jugulada e
apanhámos em cima com uma ditadura que durou quase 50 anos. De uma ditadura
instalada, obviamente, sobre a exclusão.
Proibiram a palavra; a liberdade de pensamento; o acesso
livre aos bens do país –aos bens que, obviamente, deveriam dividir-se,
equitativamente, por todos os cidadãos.
Cidadãos? De nome; na realidade, cidadãos apenas os da
minoria, da guarda pretoriana de Salazar –com as armas e, sobretudo, com o dinheiro
que as segura, à rédea curta.
A pobreza, o analfabetismo, a incultura, a continuação da
vaga migratória, medraram durante cinco décadas –e milhões de portugueses
emigraram.
O 25 de Abril mudou muita coisa e abriu os olhos a muita
gente, mas o olhar não bastou: hoje e aqui, o governo ultraliberal recupera a exclusão.
Dir-se-ia que, ao português, restam duas saídas: ou emigra,
ou aceita a miséria, a fome e a marginalidade social.
Penso que muitos portugueses entenderiam a mensagem de Frantz
Fanon, no já clássico “Les damnés de la terre” –porque aquilo que alastra,
entre nós, chama-se racismo: racismo social.
Na peça de Nuno Costa Santos, Condomínio de Rua, que vi, ontem, no D. Maria II, assiste-se ao
estertor dos martirizados: daqueles que desistiram de tudo e desacreditaram de
tudo.
Eles são o resultado do sistema ultraliberal.
Em que haveriam de acreditar esses desgraçados, se o exemplo
vem de cima –e quem está em cima não só aceita a injustiça como a pratica e
impõe?
A exclusão é praga universal? Certo. Mas, acontece,
escandalosamente, nos países desenvolvidos.
A exclusão acontece em toda a Europa? Certo. Mas a Europa
diz-se berço da Cultura e de raiz cristã.
Recorro a Fernando Pessoa, quando justificava autocitar-se: “Sou
o exemplo que tenho mais perto de mim”.
Portugal é um país desenvolvido,
europeu, de raiz cristã –e eu vivo nele e nele acontecem os crimes sociais que informam a tragédia que as
seis personagens de Condomínio de Rua ilustram.
Nuno Costa Santos escreveu um texto admirável, duro, directo,
corajoso; e escreveu-o sem papas na língua.
Uma obra dolorosa –e só não se sentirá mal quem já se aboletou
com a amoralidade imperante.
A encenação é excelente e os actores, de alto nível, honram a
peça.
Antes do pano cair, as personagens avançam até à boca de cena
e confrontam-se connosco –responsabilizam-nos.
Têm razão: somos nós que podemos rejeitar a injustiça, tal
qual somos nós que podemos resignar-nos a viver na injustiça.
Depende, pois, de nós, a infelicidade do outro –e muitos
existem nas condições que Nuno Costa Santos denunciou.
Não percas Condomínio
da Rua –é a imagem, em negro, do condomínio
para que tende o nosso país.