Via dei Portoghesi, Roma
A Rua dos Portugueses, Via dei
Portoghesi, é uma mini-artéria romana, perpendicular à Via della
Scrofa e a acabar na Torre della Scimmia, que tem à sua
direita a Via dei Pianellari e, à esquerda, a Via
dell’ Orso. O nome da Torre -ali trabalhava e conversava (e talvez trabalhe
e, se trabalha, continua a conversar) Maestro Peppino, o
melhor barbeiro do mundo-, nome ou alcunha da casa-monumento, liga-se
à lenda da criança que ia cair da janela e uma macaca salvou. Facto prodigioso:
uma candeia de azeite, arde bem ao alto, a recordá-lo. Ao fundo da Via
dell’Orso, está a Osteria dell’Orso, em que Michel de Montaigne
se hospedou; na Via dei Pianellari, um dos melhores restaurantes de
Roma:Da Piero. Mas a jóia da rua é a belíssima Igreja de Santo António
dos Portugueses cujas raízes remontam ao século XV: um prelado português,
António Martins de Chaves mandou ali erguer uma pequenina capela, em honra de
Santo António de Lisboa. Depois, transformou-se, aumentou, embelezou-se.
Integra-se -ou acompanha- aquele que, por volta de 1367, era um abrigo
destinado aos peregrinos da nossa terra, hoje com o nome de Instituto de Santo
António dos Portugueses...
É do Instituto que quero, brevemente,
aqui falar. Vivi lá cerca de oito meses, em 1975, quando iniciei as minhas
funções de Conselheiro Cultural, na Embaixada de Portugal em Roma. Com a Piazza
Navona a dois passos, iniciei, então, a minha viagem espiritual e
carnal pelo mundo maravilhoso italiano.
Já instalado na Via Cassia, Orti della Sibila, ao Norte de Roma,
nunca perdi o hábito da Via dei Portoghesi, que visitava,
praticamente, todos os dias. O Instituo, entretanto, fora albergando
personalidades inesquecíveis, como a actriz Estrela Novais; o Doutor Carlos
Carvalho, Professor na Universidade de Aveiro e, nesses tempos, jovem leitor de
português, na Faculdade do Magistério de Roma, amigo do coração; bolseiros
curiosos e alguns divertidos.
Havia um que se encostava à Igreja e, de
mãos nos bolsos, peito às balas, se punha a treinar a voz.
Outro, figura chapada de Eça de Queirós,
a quem chamavam de Periquito e ao qual aconteciam as desgraças mais absurdas.
O dito Periquito comprou uma máquina
para adelgaçar a barriga. Abriu a caixa, leu as intruções, mas, falta de
sorte!, constatou que precisaria de uma extensão que fosse buscar a
electricidade à tomada do corredor. Comprou-a, também. Ligou a extensão,
despiu-se e deitou-se, no quarto, de barriga para o ar e a massajadora
aplicada. Ora os colegas acharam provocante... E, na segunda ou terceira
sessão, desligaram-lhe o cabo, quando o desditoso, a agitar-se, a suar,
finalmente feliz, começava a crer que emagrecia...
Amante das praias de Óstia, preparava de véspera uma merenda e lá ia, todos os
domingos, de comboio, embrulho nos joelhos e o lacinho de cordel no dedo, bronzear-se.
Ora aconteceu-lhe, nessa altura, dividir o quarto, com um fogoso brasileiro que
não suportava os seus (do Periquito) ademanes. Chegou, assim, o domingo em que
o infeliz foi ver da merenda e lhe encontrou o sítio. O Periquito perplexo, deu
voltas e voltas ao quarto. Nada. O vazio. Angústia. Indecisão. Dúvidas. E
procurou o brasileiro, olhou-o, duramente, como quem pede satisfações. Foi a
gota de água, que entornou o copo: rapaz desempoeirado, do Nordeste, sem papas
na língua, o outro levantou a mão: “Ai!, olha que levas!...” O Periquito fugiu,
escadas abaixo, revoltado, indignado e a soluçar… dizem.
Havia, também, a “Nossa Senhora”, uma
rapariga de muita fé, que tinha visões e, vai não vai, caía numa espécie de
transe ou delíquio... Com essa, a Estrela Novais -a Estrelinha- não ia à bola.
Mexia-lhe com os nervos, vê-la tão seráfica, tão solteira...
Onde isso, desgraçadamente, vai... Sic
transit gloria mundi...
A Estrelinha era muito de nossa casa, onde passou fins de semana.
Conversávamos, víamos filmes, ouvíamos música, comíamos a boa cozinha italiana,
bebíamos vinhos dos Castelos e os whiskies ('Ninguém faz amigo em leitaria' dizia
o Vinicius de Moraes...), sempre o Johnny Walker, Red Label, claro, que a vida
custa...
Aconteceu que, numa tarde de Junho de 1982, soou a Edith Piaff e
o Milord. A Estrelinha adorava a canção e ouvimo-la várias vezes.
Até que resolvi escrever o contarelo Sónia e o Milord, em que cito
versos da poesia. Desci ao meu estúdio, que ficava na cave, com bandeiras para
o jardim, e escrevi-o de um jacto. Está nas minhas Crónicas Italianas, que ganhou o Prémio da APE, em 1995 -e me valeu uma inesquecível semana em Amesterdão...