quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A atracção do abismo



À beira do fim


“Maioria aprova OE 2013 no Parlamento”

dos jornais

Leituras



Branquinho da Fonseca é um Mestre da narrativa de ficção portuguesa.

Só portuguesa?

De modo nenhum.

Branquinho da Fonseca é um Mestre –e disse.

O Lobo Branco, incluído em Caminhos Magnéticos (a 1ª edição, ainda assinada António Madeira), é uma obra-prima da nossa Literatura.

Se o conseguires caçar, não o percas: vai encher-te a alma.


Bom dia!


Um sorriso destes redime os dias tristes deste Outono triste...


terça-feira, 30 de outubro de 2012

Não resisti: é a resposta certa aos devaneios folclóricos (vulgo disparates) do 1º ministro Coelho

in Público de hoje

Reencontro marcado: sexta-feira, dia 2 de Novembro


Estou a chegar...

Amigos: ando a pôr a cabeça (e a alma) em ordem –10 dias em Roma, mesmo quando por lá se viveram tantos anos (15), mexe e remexe em tudo, cá dentro…

Sexta-feira, volto –com um post “especial”.

Abraços! 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Uma poesia de uma jovem poetisa com talento

"Venus Verticoria", 1864-1868, obra de Dante Gabriel Rossetti


"In that cold evening air, 
Much she moaned in dispair.
For all that was her desire
His body next to her fire.

Like a virgin untouched, 
Her heart never rushed
For one, but him,
Her only weakness, her only whim.

White sheets waiting for blood
As dry land , waiting for a flood.
There she was, covered in flames,
Hearing , playing, his sick games.

When the time came,
She heard nothing but his name
Colourful shivers, perfect whispers
As twisted fleetings of shame
She felt nothing but blame.

Enjoyed his every touch, his every moan
She wished never to be alone.
But the venom spread,
Soon she would be dead.

And dead she was, 
That's everything he does.
Creates hopes, then to drown, 
Make every queen drop her crown."

Alexandra Juliana

A palavra justa



Antes da partida, quero deixar-vos, ainda, esta frase de Christian Bobin, autor francês que Le Monde me revelou ontem:

“Na escrita, giramos, sempre, à volta de um fogo central. Mas, porque giramos, as sombras mudam.”

Etenia Cigana, Igualdade Racial


Adeus, amigos!, e até ao meu regresso...


A caminho do reino maravilhoso: Itália!

Portalegre agoniza?

Rua Direita, rua viva, em tempos que já lá vão... Hoje, vai-se desertificando -acompanha o assassínio do Interior... e do país... 

A óptima nova!

in Público de hoje

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Outono

"Dia de Outono", 1879, óleo de Isaac Levitan


Ir, vir

Ir, vir…
Ir. Manhã, ar fresco, paisagem nova.
Vir. Tarde. Hora dos poetas, dos que não cantam e passam pelas coisas apenas gozando, surpreendidos e ternos.

Se em cada lugar da terra eu perdesse a minha humana essência, aquilo que me iguala ao que é e ao que foi!
Nesta hora divina, nesta formosa tarde como ser?
Que me tentava?
Não sei.
Terra, luz, ar, amenidade indizível!

Irene Lisboa, com o pseudónimo de João Falco, in Outono havias de vir, Edição da “Seara Nova”, s.d.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Para o meu amor de uma vida

"Perfil de jovem mulher", 1884, Berthe Morisot



Madrigal

Coisinha frágil…:
Teu corpo perdeu-se
no meu coração.

Queres encontra-lo?
-Tenho-o fechado
na minha mão.

Eugénio de Andrade in Pureza, ilustrações de Manuel Ribeiro de Pavia, Livraria Francesa Lisboa, 1945 

Notícias do roubo


O que eles querem; e nós vamos deixar?:

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Agustina faz hoje 90 anos

Agustina Bessa-Luís: um caso singular, a ela se devem algumas das melhores páginas da Literatura contemporânea

Homenagem à beleza: Gene Tierney




Notícias do roubo

A chegarem...

Roma em pura poesia romanesca***


Piazza della Rotonda, Roma, gravura de Giovanni Piranesi (1720-1778)


Piazza de’ la Rotonna

Qui è la Rotonna che fu costruita
da Marco Agrippa e‘st’opera pagana,
cor tempo e l’invecchià’, s’é convertita,
è diventata puro lei cristiana.

E, intorno a quela massa scolorita,
tra quele case vecchie e la fontana,
c’è sempre un movimento e ´na gran vita,
‘na folla romanesca e matriciana.

La serva, er vetturino, er venitore
contràtteno e discutano all’aperto
cor côco, cor sensale e cor trattore.

E, dentro ar tempio, ne’la sepportura
riposeno tre Re: Vittorio, Umberto
e Raffaello, er Re de’ la pittura.

Valentino Banale (1880-1963) in Roma E I Suoi Poeti, Aldo Martello Editore, 1972, Milão

*** dedico este post à amiga Ana Ruas Alves, amante de Roma e da Piazza della Rotonda, onde está o Pantheon

Raul Brandão e o tempo que vivemos




“Sofia:

…eu não posso, eu não sei exprimir o que sinto, mas compreendo que a vida não pode ser assim –não se pode ser pobre e desgraçado, pobre e humilhado. Neste mundo atroz, neste mundo onde não há a esperar piedade nem justiça, só os desgraçados é que têm de cumprir o seu dever?

(…)

Neste mundo onde se grita, ninguém ouve os gritos dos que sofrem?”

Raul Brandão in O Gebo e a Sombra, Edição de A Renascença Portuguesa, Porto, 1923

domingo, 14 de outubro de 2012

O Nobel da Senhora Merkel

EUROPA, 2012
A CHANCELER MERKEL RECEBE, EM NOME DA UE, O PRÉMIO NOBEL DA PAZ

"...e quero agradecer aos que me brindaram com o seu apoio nos momentos de fraqueza, dizendo-me: Não te rendas! Exige-lhes que te paguem até ao último euro! E logo verás chegar o teu reconhecimento..."

in El País de hoje

A beleza




"Sibíla de Delfos", 1508-1512, pormenor, Michelangiolo Buonarroti, Capela Sistina, Vaticano, Roma

Na tempestade, a alegria: a esperança

No limite

Estação Termino

Não sei que orçamento o governo vai apresentar, amanhã; sei apenas aquilo que todos nós sabemos: estamos fartos.

De quê?

De sermos tratados como números, objectos, coisas –e não como pessoas.

Ontem, no tal café, enxerto de taberna em casa de pasto, que já aqui referi, ouvi este montruoso desabafo, a um pobre gebo, descendente do bonifrate trágico de Raul Brandão:

“-Se, ao menos, eles nos deixassem ser pobres! Mas andam, sempre, a roubar-nos…”

É um grito velho de oitocentos anos: o grito de um povo que nunca deixaram crescer, levantar-se, afirmar-se –conquistar o espaço e a felicidade que lhe cabe, em terra de onde Deus e a justiça emigraram, afinal em terra saqueada.

Mas seja o que for que digam eles, os do governo, eles chegaram, como todos nós, à Estação Termino.

O que virá, se conquistará, se construirá, a seguir –ninguém sabe.

Também isso ninguém sabe –por mais que eles, os do governo digam, por mais que se reinventem milagres, fados e canjirões de vinho, sebastiões e nevoeiros.

A fome está aí –e, tal qual se queixava o desgraçado da tasca de carrascão e serradura,  nem a  fome nos deixam sofrer em paz.

sábado, 13 de outubro de 2012

A Cultura não se troika

Sondagens




A liberdade -II


"NÃO ao princípio de autoridade sem princípios"

El Roto in El País de hoje

A liberdade


Campo dè Fiori, símbolo de liberdade, de libertariedade, lugar onde o horizonte pertence a cada um, o voo d’alma se impõe à inacção e ao medo, à prudência e à indiferença, ao egoísmo e ao quotidiano embalsamado; a praça de Roma onde a Inquisição mandou queimar Giordano Bruno, culpado de pensar por si, onde, junto à estátua que recorda Bruno, Alberto Moravia leu a oração fúnebre de Pier Paolo Pasolini –espaço onde  a juventude contesta a a vida-morta e busca os caminhos da vida-viva   

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O estado da política: sondagem

in Expresso de hoje

Notícias do roubo

in Público de hoje

Bom dia, com um grande homem



Jean Jaurès (1859-1914)

Há homens de espinha direita e há vermes acomodatícios. 

Neste momento duro, desumano, amoral, que atravessamos, aparentemente condenados a sofrer (até quando?) a vontade do capitalismo financeiro agonizante em busca de oxigénio no sangue dos desprotegidos inocentes –aqui te deixo a imagem de um Homem, assassinado por um extremista direitista, culpa sua, dele, Jaurès, ser um Homem que amava os outros homens e se batia pela liberdade, a igualdade e a fraternidade. Um socialista –não um arranjista.

Fui buscá-la a um artigo de Gilles Candar, que saiu em Le Monde (10/10/12), a propósito de uma antologia de textos de Jaurès, recentemente publicada. 

“Rebelde Jean Jaurès? O adjectivo convém a uma glória republicana, que repousa no Panteão, ao líder socialista cujo nome é o de centenas de ruas, França fora (…)? Certamente. Há, nele, uma parte de inflexível: a sua revolta contra a ordem das coisas, o seu amor à luta, ao debate, à “liberdade verdadeira, plena, à liberdade viva”. Uma força que impõe a liberdade de justiça, a criação de novos direitos, a defesa das vítimas da ordem social(…).

Jovem universitário e deputado republicano, Jaurès revolta-se, contra a mentira, o reino do capital sem freio, a corrupção intocável. Socialista, em 1890, Jaurès é sempre um republicano, um republicano inteiro que quer transformar em vida o lema: “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”.

[Reclama] a liberdade, não apenas  para as eleições, mas, também, em todos os domínios: na universidade e na escola, no artesanato e nas fábricas.”

http://en.wikipedia.org/wiki/Jean_Jaur%C3%A8s

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Não percas!, quando chegar, claro...

Alentejo: ainda Noel Teles

Planície heróica 

A identidade de uma terra é a sua Cultura. Já o sublinhei (inutilmente?), a propósito do estranho caso do Sr. Casimiro e da sua Papelaria em morte cataléptica (oxalá!), na cidade da Guarda. O Alentejo, com as Beiras e Trás-os-Montes, é um dos sobreviventes do Portugal que foi. Nunca lhe faltou quem o cantasse. Uma dessas vozes trago, hoje, aqui: Noel Teles e o romance “Terra Campa”. Data de 1947 (de há 62 anos). Roger Martin du Gard, o autor da saga admirável “Les Thibault”, distinguia “a Arte que é actual e a que é humana”, realçando a segunda, por eterna. É o caso de “Terra Campa”. Reli o romance, deslumbrado, os olhos a abrirem-se-me para uma realidade empolgante. Noel Teles deixou um romance ímpar –e é isso que eu quero saudar e recordar. Na garra, na força da linguagem, na poesia, na capacidade de fixar e transmitir a paixão e drama de personagens em carne viva –não deve nada a ninguém. O Alentejo e a nossa Cultura é que lhe devem o haver ele roubado à erosão do tempo um mundo fabuloso: dos ganhões e malteses, dos ratinhos, heróis anónimos da terrível luta pela vida, em pleno latifúndio.

Há coisas imperdoáveis e que acontecem nos nossos dias do descartável e do consumo renovável: suicidar-se o homem, virando as costas à raiz. Entregando-se à incultura. Exibindo a prosápia imbecil de ignorar o passado. Nada se constrói sobre o nada, senão o vazio. Eis o que explica que esteja esquecida “Terra Campa”, jóia romanesca, e enterrada, perdida a sua seiva fantástica. No entanto, leitor, basta abrir o livro: ele tratará de si. Mas onde pára? Esqueceram-no? É urgente reeditá-lo. Oxalá os herdeiros de Noel Teles me oiçam...
(aqui publicado em 01/03/09)

Alentejo, pássaros e migrações



Pratos chamados “Ratinhos”, que os beirões traziam consigo, quando vinham trabalhar no Alentejo, hoje peças de museu


Terra Campa, de Noel Teles (Empresa Nacional de Publicidade, 1949), eis um dos romances admiráveis que se escreveram sobre a epopeia alentejana. 

Obra desconhecida, ignorada, menosprezada. E, no entanto, ela guarda páginas magistrais, apaixonantes.

Cheguei ao livro -da dedicatória do autor isso consta- em Outubro de 1969, graças a Tomaz de Figueiredo que me apresentou, na Brasileira do Chiado, a Noel Teles –um homem de idade, gentil, reservado, talvez céptico, ansioso, porém, do reconhecimento que nunca aconteceu.  

Já aqui referi Terra Campa; acrescento, hoje, a breve e curiosa lembrança dos imigrantes que vinham da Beira Alta e da Beira Baixa para trabalharem a planície alentejana:

“Em Dezembro, uma ou outra tarambola da cor do terreno aparece na terra quente. Anuncia um Janeiro geoso para enraizar os trigos. Em princípios de Fevereiro surgem as primeiras cegonhas. Procuram nas almiaras, em desmantelados muros, num choupo exilado, os ninhos velhos. E as migrações dos homens e a vida das herdades continuam reguladas pelas migrações das aves.

Os ceifeiros da Beira Baixa, os ratinhos, vêm em Maio com as rolas e partem em Julho com as cegonhas. Os trabalhadores da Beira Alta vêm em Novembro com os torcazes e partem pelo S. João, quando as novas cegonhas se começam a adestrar no voo.”  
  

Obra-prima de Michelangelo Merisi, dito Il Caravaggio, exposta em Sant'Agostino,entre a Via dei Portoghesi e a Piazza Navona

"Madonna dei Pellegrini", 1603-1606, óleo de Caravaggio, na Igreja de Sant'Agostino, em Roma

A dois passos da Piazza Navona, em Roma

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Aqui está o signor Rossi, meu barbeiro, na Via dei Portoghesi, em Roma

Fotografia pedida emprestada ao blog "Janelas"

Memórias de Roma

Via dei Portoghesi, Roma (ao fundo, a porta pequenina é a do meu barbeiro; à direita, podes ver os candeeiros que assinalam e iluminam a lindissíma Igreja de Santo António dos Portugueses)

Agora, quando, mais uma vez, voltarei a Roma, lembrei-me de vos trazer uma das muitas figuras que me impressionaram –e escolhi Mario Onofri, porteiro do Instituto de Santo António, onde fui hóspede oito meses… oito inesquecíveis meses… Transcrevo uma nota da, aliás, “Nota Prévia” que abre o meu primeiro livro sobre Itália, Crónicas Italianas, obviamente esgotado, destino feliz e infeliz dos meus livros. Diz assim:

“…faleceu-me um Amigo que não posso deixar de recordar aqui: Mario Onofri, porteiro do Instituto de Santo António dos Portugueses, em Roma. Mario Onofri foi o meu primeiro Amigo italiano. Era um homem de grande e boa alma, romano puro, generoso, irónico e céptico, amante da vida, com as ilusões que achava possíveis. Era uma figura da Via dei Portoghesi, entre a mesa pobre a que tinha de se sentar, o frio e a pouca luz, o café da viúva e o gradeamento da igreja: punha-se, ultimamente, ali, a apanhar sol e a ouvir o barulho dos outros. Quem por lá passou lembra-se dele: da sua nobreza e da sua compreensão. Ele sabia tantas coisas que, ao vê-lo morto, a transparência da pele e a fragilidade do cadáver me convenceram de que ele se encostara ao ocre de Roma e iria ficar por ali, pelo menos na minha alma, enquanto me lembrasse. Não podia ter morrido. Sabia tantas coisas e viveu muitas vezes em má companhia: de peculadores e acomodatícios, ao longo da sua vida que foi também -e os olhos iluminavam-se, quando falava disso-, a de barman no Grand Hotel des Bains, em Veneza. O fascismo italiano roubou-lhe o emprego e gostava de mostrar o cartão que lhe enviara, em tempos, Giacomo Matteoti, socialista mandado assassinar por Mussolini. Acreditava em pouco, mas tinha uma grande esperança: a que o levava a ser uma pessoa boa para quem quer que chegasse –uma pessoa que se interessava pelos outros. Indignado, exclamava, se falávamos do mundo: “Esses bandidos!” Depois, sorria, espreitava o efeito das palavras, era capaz de encolher os ombros e ir fazer paciências, sempre, porém, com a frase conciliatória, a simpatia inelutável pelo outro: “Venceremos!” – e dizia-o já sem ver o outro, com o lápis a resolver os enigmas da revista de quatro reis, que comprara e levara para o Instituto, curvado sobre a mesa, mas com a barba feita e o cabelo penteado e a cheirar bem. Morreu aso setenta e quatro anos, sem sofrimento. Levantou-se de manhã, deu umas voltas pelo quarto -contaram-me os parentes-, disse à mulher: “Olha, já me vesti, vamos sentar-nos um bocadinho…”, abriu a boca e já não pôde respirar.

Roma, Setembro de 1983”

domingo, 7 de outubro de 2012

A pobre ignorância


Bernardo Santareno (1924-1980)




Uma obra-prima sobre uma epopeia portuguesa


Calhou, hoje, topar, algures, um artigo sobre a epopeia dos bacalhoeiros portugueses… a referir um autor estrangeiro que se interessou por ela.

Bem da nossa pobreza cultural, essa ignorância! Pois se na Literatura Portuguesa contemporânea, de ontem, existe um livro admirável que trata da aventura e do drama!:

o estupendo Nos mares do fim do mundo, de Bernardo Santareno, publicado em 1959, e reeditado, em 2006!…

Mas aqueles que se ocupam por cá de cultura desconhecem, à partida, os grandes escritores portugueses silenciados pelos canibais da feira literata: os que não servem o espectáculo superficial e fácil da decadência em curso...

Procura-o tu, amigo: o autor e o livro, retrato de uma luta e da coragem infinita de um grande povo: o português. 

A boa nova!

Piazza Navona, Roma: aqui irei almoçar no próximo dia 19 deste mês...

Os mistérios do Vaticano


No interior do Vaticano: o que se passa por lá?

Sobre o esquisito julgamento de um mordomo do Papa:

A fé de Coelho


in Público de hoje

Jeanne Hébuterne vista por Amedeo Modigliani

1919



1919


1919

Uma história de amor camiliano


Amedeo Modigliani e Jeanne Hébuterne, montagem


Retrato de Jeanne Hébuterne

sábado, 6 de outubro de 2012

A luta sem fim

Homenagem

Outra voz

Outra voz -2

A alma portuguesa


Camilo Castelo Branco, por Júlio Pomar

Num café da periferia, desta monstruosa grande Lisboa, dormitório de trabalhadores mal pagos, descaracterizados e ancilosados, algures, num enxerto de taberna em casa de pasto, onde me refugio, às vezes, a escrever e a escutar quem lá vai, gente doída e maltratada, que já nada remedeia e nada espera, náufragos da sociedade canibal –ouvi:


“-Um homem não chora.”

E logo, veemente, a resposta de um pobre solitário, encostado ao balcão e a remexer o cálice de aguardente:

“-Um homem só chora por amor!”

Andava, por ali, Camilo.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Onde é que está o povo do meu país?!


1º de Maio de 1974

É URGENTE VOLTAR A CANTAR!

Viva a República!


Implantação da República Portuguesa: 5 de Outubro de 1910

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A Mulher Nua (continuação)

"Bathsheba", 1482?, Hans Memling

III

 À hora das lojas abrirem, foram comprar roupa.  Tinha-lhe emprestado umas calças e, quando começou a vestir-se, ele voltou-se para a parede.  Ela ficou com as calças enfiadas até aos joelhos, e perguntou-lhe:
                  
-Por que é que te viraste?
                  
-Estás a vestir-te.
                  
-Já me viste nua...
                  
-Mas agora estás a vestir-te -e não se mexeu enquanto ela não acabou.
                  
Saíram, ela com o roupão encarnado e as calças de veludo azul, ele com uma gabardina verde, que lhe chegava aos pés.  No patamar, esbarraram na lareira.
                  
-Ai! -gritou ela, que foi a que bateu.
                  
Giacomo, a desculpar-se, disse:
                  
-Nunca acendemos...
                  
-Mas magoa...
                  
Deu-lhe o braço e ajudou-a a descer as escadas.  Viram o canal gelado, o passeio deserto e uma gaivota em cima de um caixote do lixo, a arfar.
                  
-Isto está mau -disse Giacomo
                  
-O quê?
                  
-Está frio!  -respondeu, a esfregar as mãos.
                  
-Deixa lá!  -exclamou ela e fez-lhe uma festa nas barbas.  As unhas arranharam-lhe a cara.
                  
-Tens umas unhas duras!
                  
-É da natureza!
                  
-Qual natureza?
                  
-A minha
                  
-A tua?
                  
Não sabia onde a levar.  Tinha de lhe comprar roupa.
                  
-Olá!  -disse o vizinho do lado, o pintor Gastone, que vinha a cair de bêbedo-  Com que então uma sueca?
                  
Ele não respondeu e puxou-a, com medo que o outro a atropelasse.
                  
-Anda sempre assim?  -perguntou Greta.
                  
-Não.  Só às vezes...
                  
A gaivota fugira assustada e a manhã envolvia a cidade, branca, azul.  Os canais gelados reflectiam a luz e seguiam as casas cinzentas de portadas verdes.

                  
-Piccolo mondo...  -murmurou Giacomo.
                  
-O quê?
                  
Ele não respondeu.  Abraçou-a e disse-lhe:
                  
-Vamos...