Óleo de Reuven Rubin (1893-1974)
O CAVALO BRANCO
Pareceu-lhe ouvir bater à porta.
-Quem é?
Insistiam.
Foi abrir e apareceu uma mulher que o fitou com olhos cansados.
-Entre, não se sente bem?
-Tenho frio.
-Entre, entre, chegue-se à lareira.
Quase a puxou para dentro.
-Precisa de alguma coisa?
Ela respondeu:
-De nada.
-Que importa? Entre!
E ficou a olhá-la. Vestia uma gabardina usada, tinha o cabelo desalinhado, umas botas gastas e a expressão de susto ou de ansiedade.
-Venha! -e quase a puxou para dentro, agarrou-lhe as mãos geladas.
Ela resistiu, a tremer, presa a ele.
-Está sozinho?
-Estou.
-Então, entro.
Chegou-se à lareira, sentou-se no sofá que ficara livre e guardava, ainda, o calor do homem.
-Quer tomar qualquer coisa? Uma aguardente, um whisky? Lá fora chove.
-Um temporal.
-Está toda molhada, tire a gabardina, aqui não é precisa.
Ela sorriu, um sorriso amargo.
-Deixe lá, seca.
Encolheu os ombros, alheia. Era um bicho enrolado em si próprio.
-Perdeu alguma coisa?
-Tudo.
Foi buscar a garrafa e serviu-a.
-Não diga isso, é uma mulher bonita.
E calou-se, à espera que ela se explicasse.
A rapariga -era quase uma rapariga- fixava a lareira, impassível. O sorriso apagara-se.
-O que é que me quer?
-A senhora é que bateu à porta.
Depois, emendou:
-Quero que se recupere. Beba.
Ela esvaziou o copo de um golo e perguntou:
-E agora?
Serviu-lhe mais.
-Beba.
-Por que quer que eu beba?
-Que há-de fazer?
Ela levantou para ele os olhos tristes:
-Aquecer-me.
Sentou-se no sofá em frente ao dela.
-Como chegou até cá?
-A cavalo. No meu cavalo branco.
Ele sorriu, incrédulo:
-E onde o deixou?
-Anda por aí.
-Quer que o procure e o guarde no estábulo?
-Não pode, nunca o encontraria.
-Fugiu?
A mulher abanou a cabeça:
-Não pode. Anda dentro de mim. Como é que o agarrava?
Concordou.
-Sim, é impossível.
Foi espreitar à janela.
-Começou a nevar.
E virou-se de repente:
-Quer dormir aqui? Há um quarto livre.
Não sabia por que suportava aquela conversa mas sentia que a compreendia, que estava perto dela. Acendera-lhe qualquer coisa dentro. E ela retribuiu-lhe a ironia:
-Só um quarto? Mas não há mais ninguém, não vejo mais ninguém.
Ele respondeu, abruptamente:
-Que tem com isso?
O rosto dela envelheceu.
-Nada -e desviou os olhos.
Esfregou os braços, ajeitou a gabardina, e murmurou:
-A sua hospitalidade… a lareira… a noite cerrada… Bem haja!
Ele esboçou um gesto e ficou a meio. Mas queria salvá-la, sossegá-la:
-Que importa o cavalo?
Dessa vez, a mulher endureceu, fria, distante, talvez nunca mais lhe perdoasse.
Agitou-se, bateu no peito, desesperada.
-Se ainda aqui estivesse!