segunda-feira, 30 de julho de 2012

domingo, 29 de julho de 2012

Sobre Marguerite Duras

Marguerite Duras



Entrevista sobre ela:

Turismo: a praga, a ganância, o crime








 Veneza, Canale Grande, fotos monstruosamente reais.

A praga do nosso tempo, o turismo, sem rei nem roque e comandado pela ganância, assalta a cidade dos doges, pérola única. E, em plena crise, as autoridades hesitam: tudo vale, desde que se faça dinheiro. E tudo mesmo: até aquilo que representa uma forma de suicídio, de assassínio do ambiente, da beleza, do viver humanamente… Veneza é (era?) uma das raras cidades humanas do mundo.


http://www3.lastampa.it/costume/sezioni/articolo/lstp/463975/

Bom dia!

"O lago", 1902, têmpera sobre tela, de Viktor Borisov-Musatov

Quem foi?:

sábado, 28 de julho de 2012

O voo


Óleo de Aldo Zari, 1995


Epitáfio para uma borboleta

Tanto girou, girou, em derredor da chama,
Que, nela, enfim, se abrasa,
Ferida em pleno coração, -na sua asa.
Morta como quem ama,
Renasce agora, viva
De eterna mocidade,
Coisinha heróica e fútil, que seduz
Não viver livre, mas morrer cativa
Dum Destino maior que a liberdade:
A vocação da luz.

José Régio in Colheita da Tarde, Brasília Editora, 1971, anteriormente publicado em Praça Nova, nº13, Porto, Setembro de 1963

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Eles aí estão!

Hoje: abertura dos Jogos Olímpicos de Londres

Bom dia!

"Um dia de vento", 1908, óleo de Nikolai Krymov

quinta-feira, 26 de julho de 2012

O bom governo...

Erlich in El País de hoje

O verso ou o achado poético



"Beira-rio", 1880, óleo de Isaac Levitan

“De séculos de tédio, poderia ficar um verso: o mais belo, o mais inútil, o mais melancólico, o mais perfeito que alguma vez tenha sido escrito:

E chiaro nella valle il fiume appare”

Umberto Saba in Primissime scorciatoie, Mondadori, 1946

Aqui deixo a tradução, confessadamente literal que a mais não me atrevo:

“E claro no vale o rio aparece”

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Bom dia: antevisão do nosso tempo...

"A criança carburador", 1919, trabalho de Francis Picabia 

terça-feira, 24 de julho de 2012

A frase do dia: tudo se vulgarizou e só conta se é um "produto" rentável...

O adeus à alma...

“Hoje em dia (fenómeno das democracias fraudulentas), banalizar a arte, a ciências, as coisas graves do pensamento, tornou-se rotina. E há ainda artistas que vivem seriamente a sua criação, que se refugiam mais dentro de portas, às vezes só as portas da sua sinceridade inviolável.”

Agustina Bessa-Luís in Longos dias têm cem anos Presença de Vieira da Silva, IN/CM, 1982 

domingo, 22 de julho de 2012

Da poesia


"Quando um verso é belo deixa de pertencer à sua escola. Um bom verso de Boileau é um bom verso de Hugo. A perfeição é a mesma em toda a parte: concisão e certeza", Gustave Flaubert, em  carta a Louise Colet, datada de 25 de Junho de 1853 

sábado, 21 de julho de 2012

A Cultura portuguesa está de luto: morreu Helena Cidade Moura

Helena Cidade Moura (1924-2012)




Transcrevo uma entrevista com a grande lutadora, a mulher que se bateu pela liberdade e pela igualdade social -pelo Portugal que estamos em vias de perder: 

http://www.aniall.pt/noticias/15-entrevista-helena-cidade-moura.html

Enquanto o país arde e ardem os bolsos dos contribuintes, descansam os tubarões...

Campos e casas entregues ao fogo




E os políticos:


...descansam e meditam na "rentrée"...




Não inventei!, ora abre e lê:


sexta-feira, 20 de julho de 2012

Na morte de um homem admirável

José Hermano Saraiva


Na sua imensa capacidade de comunicar, autenticidade, humanidade, José Hermano Saraiva foi das figuras mais interessantes e importantes da televisão portuguesa.

Ensinou milhões de pessoas.

Ficámos a dever-lhe muito.

Tiro o chapéu a um homem singular.

A um homem bom.

A um homem generoso e apaixonado. 

Janela aberta para Sherwood Anderson

Sherwood Anderson 


Venho acrescentar à notícia que aqui trouxe a semana passada breves linhas talvez capazes de iluminarem um pouco o grande escritor: a dedicatória de Cidade de Estranhos (“Winesburg, Ohio, a Group of Tales of Ohio Small-Town Life”):

“À memória de minha mãe
Emma Smith Anderson

cujas lúcidas observações sobre a vida que nos rodeava despertaram, em mim, o desejo de compreender aquilo que existe debaixo da superfície das vidas, dedico este livro”


E, também, acrescento esta nota de Francis Scott Fitzgerald sobre quem foi um dos seus reconhecidos mestres:


“…exprimir os movimentos de alma quase imperceptíveis, matéria favorita de Anderson…” (carta de Fitzgerald a Maxwel Perkins, datada de 20/02/1926)

Deixo-vos ainda uma pista para encontrar o livro e o perfil do mesmo.

p.s. dando voltas à nossa biblioteca, verifiquei que a versão da obra na língua original (in A Signet Book, published by The New American Library, 1956) me foi oferecida, em Agosto de 1956, na Granja, pelo meu velho amigo, João Alfredo de Sá Pessoa, hoje, professor universitário, em Fortaleza, Brasil.

O livro:
  

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Um abraço para Mantorras

Mantorras despediu-se, ontem, do Benfica e do futebol..., com mais um golo! Era um fora de série.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

As crianças e o holocausto: um filme essencial

O Holocausto recordado em Paris

Eu sei que é insuportável ver, mas aconteceu: durante a segunda guerra mundial, 1.500.000 crianças judias foram assassinadas nos campos de extermínio, organizados pela Alemanha nazi


Abre:

Quino fez ontem 80 anos: parabéns e obrigado! (na foto: Mafalda e o Pai)

Erlich in El País de hoje


"-Exerci a melhor das virtudes, fiz muita gente feliz"

E É VERDADE! OBRIGADO, QUINO!

Mascote dos Jogos Olímpicos de Londres 27 de Julho/12 de Agosto 2012)

Wenlock, a mascote

Mascote dos Jogos Paralympic de Londres (27 de Julho/12 de Agosto 2012)

Mandeville, a mascote

terça-feira, 17 de julho de 2012

Há quem não possa pagar o preço da água



A água é um bem essencial. Tal qual o pão…

E, no mundo em que vivemos, essenciais são-no, também, a electricidade e o gás.

As medidas de austeridade inútil e mãe da recessão e da pobreza, que este governo anacrónico nos atirou para cima, taxaram, brutalmente, esses bens.

E é o Jornal de Notícias de hoje que anuncia aumentar o número de portugueses que não pode pagar o preço da água.

Obviamente, não poderá pagar o da luz nem o do gás…

Aqui vos venho comunicar, para que não continueis a fazer a triste figura dos papalvos, que essas medidas se podem e devem evitar.

Alguém vos disse que o governo francês, diante da mesma crise, que não parece suster-se, fixou um tecto para o aumento da luz, água e gás?
E que esse aumento insuperável é de…

2%?

Há quem respeita a sociedade que governa e se ocupa dos problemas dessa sociedade e há quem governa em proveito próprio.


No verão

"Debaixo do toldo", 1919, óleo de Joaquín Sorolla (1863-1923)

…e aí está -o Verão!-, a chegar-se aos 40 graus, e, com ele, a praia, a areia, o espaço aberto, o mar...

Inicia, pois, Sobre o Risco as suas férias –interrompidas, vai não vai, por um pulo até aqui.

Bom dia e bom Verão, amigos! 

domingo, 15 de julho de 2012

Asger Jorn na Fondatio de L'Hermitage, Lausana, até 21 de Outubro

Aguarela de Asger Jorn (1914-1973)


para saber mais:

O livro para as tuas férias


O livro que eu te sugiro, para as férias, é esta obra-prima de Sherwood Anderson, na tradução portuguesa, intitulado Cidade dos Estranhos, no original, Winesburg Ohio.

Sherwood Anderson (1876-1941) influenciou uma geração de grandes escritores norte-americanos, Faulkner, Hemingway, Steinbeck, Scott-Fitzgerald, o próprio Salinger, e o israelita, nosso contemporâneo, Amos Oz -e todos o reconheceram como Mestre e lhe ficaram gratos (excepto Hemingway, que, bem à sua maneira esquisita, ou retorcida?, o ridicularizou mais de uma vez...).


Cidade dos Estranhos devora-se. Apanhei-o, há muitos anos, na fabulosa Colecção Miniatura (é o nº13, mas não te assustes...), ainda na Guarda e graças à mítica papelaria do sr. Casimiro; reli-o, agora, maravilhado... apaixonado. 


Terás dificuldade em encontrá-lo. 


Mas vale a pena procurar nos alfarrabistas ou nos vendedores on line.


p.s. a bela capa é de Bernardo Marques... obviamente...



sábado, 14 de julho de 2012

Para suavizar o dia e dedicado a Daniela Ignazzitto, quem me referiu este compositor

Gustav Klimt nasceu há 150 anos

"A esperança", 1900-1907, obra de Gustav Klimt (14 de Julho de 1862-6 de Fevereiro de 1918)


Se quiseres ver mais:


http://www.klimt.com/

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O artigo do dia: a cultura em Portugal


O "mercado" universitário

por Manuel António Pina


Ontem fui atendido numa caixa de supermercado por uma licenciada em Engenharia, área em que parece não faltar emprego. O seu problema, explicou-me resignada, era a universidade que lhe atribuíra o diploma...

Muitas escolas de ensino superior privado são hoje apenas negócios (e sem departamentos de pós-venda). Comercializam diplomas de "dr", de "mestre" e de "doutor por extenso" como poderiam comercializar frutas ou legumes. 

Com uma diferença: o sector das frutas e legumes é mais fiscalizado e os seus consumidores mais protegidos do que os do "sector" do ensino superior.

As universidades públicas, apesar do "salve-se quem puder" orçamental para que foram empurradas, vão sobrevivendo ao naufrágio. E o mesmo se diga de algumas universidades privadas, que mantêm cotação de exigência e rigor. (Uma sugestão ao ME: já que o ensino superior é uma actividade empresarial "liberalizada", por que não uma Bolsa de Valores Universitária? Assim, os alunos saberiam o que compram ao matricular-se em certas universidades. Um "outlet" para diplomas inúteis ou com defeito também não seria má ideia.)

Há muita hipocrisia em tudo isto. Porque não "liberaliza" o ME também os cursos de Medicina? Talvez porque, parafraseando Harold Bloom a propósito da política de quotas nos EUA, o ministro não queira ser um dia operado ao cérebro por um turbolicenciado à bolonhesa ou por um mestre ou doutor "equivalentes".

transcrito do Jornal de Notícias de hoje

Se isto é uma mulher...



A chinesa obrigada a abortar, com o feto ao lado

Numa província da China, as autoridades obrigaram uma mulher, grávida de sete meses, a abortar.

Motivo?

Na China, é proibido ter mais que um filho.

A China não quer que a demografia galope e prejudique o seu (vertiginoso) crescimento económico.

O poder central, apesar disso, reagiu e, além de criticar (não sei se castigou ou castigará) as autoridades dessa província, decidiu dar, à mãe abortada, uma indeminização de 7000 e alguns euros.

Um economista chinês comentou:

-Realmente, a restrição deixou de ter sentido. Podemos avançar para dois filhos. Há cada vez menos chineses e a mão-de-obra vai ficar mais cara e a produção vai baixar.

Em suma: os filhos e filhas não dependem do amor dos pais: destinam-se a ser peças da grande máquina da produção chinesa; peças da Grande China imperial.

O amor, o afecto, os sentimentos –não contam… e não devem ser levados em conta.

Eis um dos aspectos do mundo em que vivemos…

Vale a pena viver assim?

p.s. adivinhando a volta que alguns tentarão dar ao que escrevi, sublinho o seguinte: sou a favor da liberalização do aborto, mas o que aconteceu na China não tem nada a ver com isso. Entendidos?

No 3º centenário de Jean-Jacques Rousseau (Genebra, 1712-

Jean-Jacques Rousseau


Capa da 1ª edição 


Se abrires o famoso Do contrato social ou os princípios do direito político (1762), talvez a obra mais citada de Jean-Jacques Rousseau, deparas, e logo nas primeiras linhas, com a seguinte afirmação:

“O homem nasce livre e, por toda a parte, o vemos algemado.”

Em plena crise cuja responsabilidade se divide indiscriminada e injustamente e todas as decisões se tomam e se executam à margem das nossas opiniões e vontades, sentimos a verdade das palavras do genebrino.

A sociedade que deixámos construir e, volente o nolente, ajudámos a desenvolver e a enraizar, é visceralmente opressiva, trituradora e formatadora, massificadora da personalidade individual.

Se a questão de ter ou não ter sentido a vida, o problema do absoluto, vem atravessando os séculos, nunca, como hoje, o modo de estarem os homens na terra foi tão tragicamente absurdo.

E nunca, como hoje, a moral, o espírito e a fundamental liberdade foram tão perseguidos e, sistematicamente, anulados.

O homem passou a ser um objecto –e quanto mais oco, mais inculto, mais incapaz, menos ameaçado de tortura…

O que é esta crise se não o resultado de um jogo neo-capitalista, em que fomos utilizados como bonifrates a que impuseram os caminhos, bonecos desalmados que usaram no monstruoso teatro da especulação e do roubo organizado?

Onde está a liberdade do homem?   

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Um livro fundamental



É hoje apresentado na Biblioteca do Museu República e Resistência, Espaço Grandella, Estrada de Benfica, nº 419, às 18h,30, o livro Raízes dos Judeus em Portugal, de Inácio Steinhardt, editado pela Vega.

O tema é de extrema pertinência: o judaísmo constitui elemento importantíssimo da formação da nossa identidade e da nossa Cultura.

Inácio Steinhardt, filho de judeus polacos, que em Portugal procuraram abrigo, em 1932, na sequência da instabilidade política e a adivinharem o alargamento das perseguições anti-semitas, Inácio Steinhardt, um judeu nascido entre nós, hoje a viver em Israel, evoca e descreve esse fenómeno -a presença judaica na Cultura portuguesa-, magistralmente.

Quando o embate de religiões agita o mundo e, esquecido o monstruoso crime do holocausto, o antissemitismo volta às primeiras páginas, árabes e judeus se chocam violentamente (tantas vezes, instrumentalizados por terceiros de péssima fé), aqui transcrevo, em breve esquisso, notícias do que foi e poderia ser a relação inter-racial, ou inter-religiosa:

“[perante a invasão árabe da Península Ibérica] A população nativa ibero-romana, que havia absorvido a cultura romana, e estava agora subjugada pelos germanos visigodos, não criou oposição às tropa de Tariq: aproveitou para se vingar e em muitos casos, juntou-se aos invasores.

Os judeus da Península também não tinham, como vimos, razões para lastimar a derrota dos visigodos. Com a chegada dos invasores muçulmanos, sentiram que não tinham que temer. Fecharam-se em casa e aguardaram o desenvolver dos acontecimentos.

Iria iniciar-se agora, na Península Ibérica, o longo período de soberania muçulmana que só terminaria totalmente sete séculos mais tarde.

Obviamente o avanço das tropas de Tariq para o norte implicava um desgaste muito rápido no número de combatentes. Não eram só os que pereciam nas lutas, como também os que teriam de permanecer para formar as guarnições de ocupação, em cada uma das cidades e vilas tomadas. Os muçulmanos de Tariq recorreram então aos habitantes judeus, para formarem essas guarnições, e, ao mesmo tempo, assegurarem a manutenção da ordem e da administração local.

Nestas circunstâncias, o facto dos judeus serem o único grupo de habitantes da Península isentos de ambições territoriais, foi, para eles, uma vantagem. Assim, como eles não tinham motivos para recear a invasão muçulmana, também os muçulmanos não tinham receio de lhes confiar a guarnição das cidades conquistadas.”

…Para nossa infelicidade e alegria da futura República dos Países Baixos, Holanda, D. Manuel I, em 1496, seguiu o exemplo dos reis católicos, da vizinha Espanha, e expulsou os judeus de Portugal… Mais argutos e generosos teriam sido os árabes…    

A mítica Cinecittà, em Roma, corre o perigo de deaparecer

Cinecittà: um mundo maravilhoso que a ganância dos patos-bravos & cia ameaça...

http://www.lemonde.fr/culture/breve/2012/07/12/mobilisation-de-realisateurs-francais-pour-sauver-cinecitta_1732509_3246.html

Não faltes! É a única maneira de sobreviver a este terramoto em curso...


O amor e a morte




“Dizem que o amor morre entre duas pessoas. É falso. Não morre. Deixa uma pessoa, vai-se embora, se a pessoa não é bastante boa, bastante digna. Não morre; a pessoa é que morre. É como o oceano: se não fores bom, se começares a cheirar mal dentro dele, ele cospe-te para morreres noutra parte.”

William Faulkner, in Palmeiras Bravas, tradução de Jorge de Sena, Livros de Bolso, Portugália Editora. s.d.

Bom dia!

"Janela", 1886, óleo, Borisov-Musatov (1870-1905)

Há 50 anos, os Rolling Stones apresentaram-se no Marquee Club, Oxford Street, em Londres



Ora lê a história...:

Hoje: o cinquentenário dos Rolling Stones

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Um homem bom, um artista excelente -o meu abraço!

Nuno Teotónio Pereira é justíssimamente distinguido...

A notícia:



Na hora da morte...

in Público de hoje

O impressionismo russo

"Alionushka", 1881, óleo de Viktor Vasnetsov

Mini saia faz 50 anos!


O fenómeno que mudou o olhar do homem e alegrou a figura da mulher aconteceu há 5 décadas. Merece bem este lembrete...

terça-feira, 10 de julho de 2012

O impressionismo russo

"Flores e frutos", 1911-12, óleo de Constantin Korovin (1861-1939)

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Napoleão




“[Museu Puschkine]: O Napoleão, de Gérard (1805). A coroa, o ceptro, o manto de arminho. Não é isso que me impressiona: é o olhar de adolescente, de quem não cresceu e continua a sonhar.

O imperador apaga-se, volta o tenente pobre e solitário, que escrevia novelas românticas e se chegara ao suicídio, quinze anos antes. O olho direito denuncia-o –os nossos olhos abrem janelas diferentes.

Há um mundo naquele homem imaturo (ele, o anti-Cristo, o estratego genial, o condottiero),  uma interioridade, que adivinho e me escapa –a sua viagem era dele.

Vê, além do horizonte.

E compreendo excessos, imprudência, o disparate da campanha da Rússia. Talleyrand explicava-lhe que era o senhor da Europa. Não ouvia conselhos. Nada bastava ao sonho imenso. Por isso, após Waterloo, a recusa da fuga para a América, a confiança absurda nos ingleses, o exílio de Santa Helena –afinal, a assunção do próprio destino, cumprido -na convicção pura de louco visionário- integramente."


in Diário Moscovita

Notas da 1ª viagem à Rússia


"Janela aberta", 1886, óleo de Valentin Serov

DIÁRIO MOSCOVITA

Sentimento de um português na Rússia

6 de Agosto de 2004

Entro no avião da Lufthansa directo a Franqueforte e reparo numa das hospedeiras. É uma mulher de estatura média, cabelo curto loiro. Já não é jovem. Tem o rosto fechado de profissional alemã, correcta e atenciosa. Sorrio-lhe, porque inicio a longa viagem para Moscovo, a cabina, climatizada, parece confortável e se trata de uma mulher diferente das do meu país. Afinal, mais reservada, severa e distante. Mas, quando responde ao meu sorriso, os olhos azuis transformam-se, doces, envolventes, familiares, e eu lembro-me da actriz da minha adolescência, que me apaixonava, no velho cinema da Guarda: Maria Schell. Ah, sim, a mesma ternura dilacerada, comovente... Seria difícil dizer a sua idade. Há na expressão desta desconhecida, neste instante, apelo, afirmação. Oferta. Como se quisesse comunicar-me qualquer coisa, por exemplo, que estava ali, existia, guardava, dentro, um mundo e podia dividi-lo. Andou para trás uns anos, rejuvenesceu. Sempre pensei que, se a procurarmos, a criança que fomos, escondida dentro de nós, reaparece. Brevemente. O átimo em que a eternidade se revela?

Antes de embarcar, disse a uma jovem amiga, que se queixava do sem sentido da vida e que me perguntara qual o destino das nossas experiências: “Não sei. Talvez nenhum, à luz da razão, do nosso entendimento das coisas. Tempo? Espaço? Destino? Que sabemos disso? As nossas certezas e convicções o que valem? Sei que foi uma sorte o acaso que trouxe o bocadinho de vida que nos cabe. Revelaram-se a beleza e a harmonia. Qual o sentido? Não sei. E não vale a pena pesar e medir nada. É inútil, nem aquece nem arrefece. Resta-nos entregarmo-nos ao instante”. Com a imprudência da hospedeira alemã. Enquanto formos capazes. 

Ela já perdeu o sorriso e o rosto voltou ao que o tempo lhe pôs em cima. Os músculos da face cederam, o brilho do olhar apagou-se. Ainda me sorri, hesita, mas o meu lugar não pertence à zona que lhe confiaram. Até Franqueforte, constatei que era uma funcionária eficiente.

À mesa do  incaracterístico café de aeroporto – o “Goethe”-, espero a empregada. Fazem-me companhia três asiáticos –de Singapura?, da Tailândia?, da China? Sem cerimónias, bebem cerveja e riem. A menina chega e eles querem pagar. Acena-lhes que esperem e toma nota do whisky com água lisa, que eu lhe peço. Noto que o faz porque são asiáticos e  gesticulam de maneira insólita –grosseira, segundo um europeu do Norte. A menina não tem culpa, mas eu lembro-me dos campos: Auschwitz, Dachau... Lembro os diferentes. A exclusão. O recuo, face ao outro. A alterofobia. A menina não tem culpa, retribuo-lhe a delicadeza, também eu impaciente. A refugiar-me no meu egoísmo. Horror à massificação? Fuga? Alterofobia? Um sentimento comum, que tentei corrigir -e continuo a tentar-, através de viagens, convívio, vivências. Esse sentimento não morreu e o mundo que criámos exacerbou-o. Já perdemos o hábito de viver com os outros –ou nos servem ou não nos servem. Educamo-nos, assim. O outro é um parceiro no jogo do lucro e da indiferença –ou um inimigo, ou um concorrente. Os judeus eram concorrentes, segundo Hitler e  contemporâneos. São, ainda hoje, inimigos só por serem judeus? Afinal, como os árabes, os negros, os imigrantes... Os asiáticos do “Goethe” nem deram por nós, pela menina e por mim. É o mesmo, não é verdade?

No avião para Moscovo: tenho sorte, quase vazio. Reabro o livro, que abandono: “De la Russie”, de Youri Afanassiev. Custa-me ler, durante as viagens, interessam-me as pessoas. A mulher, na fila da frente, à minha direita. Alta, esbelta, olhos cor de mar, conversa, em russo, com a amiga. Agita as mãos e os braços. Tem a expressão determinada, sabe o que quer. A outra é calma, doce, leva o filho, uma criança, trata-o com meiguice. De costas, só lhe distingo o cabelo loiro (levanta-se e puxa um saco de lona, é baixa e gordinha). A magra explica-me que não se encontravam há vinte anos, trabalha em Orvieto e a amiga vive em Nova-Iorque. Em Orvieto?! Fala um italiano perfeito. “Falo inglês, espanhol...” Russa? Se a encontrasse num café de Telavive acharia natural. Adivinha e antecipa-se: “Sou um quarto judia”. Precisa: “Vinte e cinco por cento.” Nina Malievine. Conhece Umberto Saba, Svevo, viu os filmes de Visconti e, obviamente -lê-se-lhe nos olhos ansiosos-, os de Antonioni. É independente, pagou caro a independência. Vejo as cicatrizes. Digo-lhe? “Sim, acertou...”, responde-me, em italiano, fica entre nós. E acrescenta: “Telefone-me domingo de manhã, segunda já estarei em Petersburgo. Jantamos com uns amigos. E se for a Petersburgo, não deixe de visitar a casa de Puschkine, na Fontanka. É o maior escritor russo! Maior que Dostoievski... Puschkine é tão directo!”

8 de Agosto

Não telefono a Nina. Passo a manhã de domingo na Feira da Ladra, a Ismaylovo. Almoço, numa barraca, a excelente sopa do Uzbequistão, funcho, cebola crua, paprika, carne de vaca, cenoura, abóbora, esparguete cortado e iogurte, tudo muito bem apurado, em panela monumental. Os parceiros de mesa brindam, cálices erguidos, nasdarovie!, “à saúde!” E noto a solidariedade, o acolhimento espontâneos. Volto aos atalhos de Ismaylovo, no grande bazar, sobressaem os quadros: figurativos, impressionistas, abstractos, imitações de ícones. Técnica perfeita. Algumas paisagens admiráveis, que o mau gosto turístico não condicionou. Escolho a pequena tela “No Alto Volga”, de um artista que vem de fora de Moscovo. Tardo impressionismo. Sensibilidade: a falésia ocre, a meio da mancha do arvoredo, o farol, as águas encrespadas, um barco, em que ressaltam a proa de um azul mais claro do que o do rio e, na popa, a cabina de comando, iluminada, as nuvens, brancas, violetas, cinzentas, a outra margem, distante, escura, imprecisa, o céu tempestuoso. Demoro-me nas bugigangas, antiguidades autênticas e de ontem, molduras, roupas, lembranças de época recente, da União Soviética, fotografias delidas, namorados, um senhor barbudo, de sobrecasaca preta e chapéu alto, a dama elegante, um ramo de flores encostado ao peito cheio, que espera nunca saberemos por quem, uma praça de Moscovo,  postais, que alguém escreveu e alguém juntou, ali esquecidos. Nostalgia.

11 de Agosto

Visito o Convento de Novodevichiy e, à entrada, depara-se-me a Capela funerária dos Prokhorov. Um pequeno edifício de paredes brancas, desenhado em dois planos de quatro arcos bizantinos, a cúpula doirada, contra o azul  do céu. Singelo e atraente, por isso. Mas o segredo esconde-se lá dentro: a monja, vestida de preto, que conta uma história a duas senhoras. Escutam-na, religiosamente. É uma mulher de idade, rosto e mãos de camponesa, muito viva. Está sentada  atrás de um mesa cheia de livros e postais, de folhas escritas. O que ela diz não entendo. E, apesar disso, não consigo desviar o olhar. A música da voz -o russo é uma língua musical, enleante-, a convicção, os gestos, teatrais e ingénuos, prendem-me, tal qual me fascinam as duas senhoras. Há, na monja, a humanidade profunda dos eleitos, que não se sabem escolhidos. Há generosidade, poesia –tão terrena e imaterial! O lirismo dos simples, que lhes confia Deus. E os olhos ficaram-me marejados: diante, tinha a Santa Rússia –a de Puschkine, Dostoievski, Tchekhov. A Rússia imensa e misteriosa, espiritual e concreta, violenta e poética. A Rússia a que Tolstoi se entregou, agonizante e sozinho, no apeadeiro perdido de Astapovo. Gostaria de lhe beijar as mãos ou de as apertar nas minhas. De nunca mais a perder –porque ia perder, quando me fosse embora.

Nas costas do Convento, a Sul, o Cemitério, onde repousam figuras gradas das artes e da política russa. O túmulo de Gogol, com a estátua grandiosa. Pergunto ao jovem pintor que a copia: “Tchekhov?” Acena a uma campa rasa, coberta de flores, logo atrás. Nem estátua, nem imagem: um arremedo de muro branco, coberto por um manto verde, três coruchéus de ferro, pobre esboço de cenário teatral, modesta memória do dramaturgo que ele foi. Não choca. Viveu tão discretamente! Escreveu tão simplesmente! Morreu tão docemente! A beleza das suas histórias é tão delicada! À noite, assistirei, na Escola de Teatro Contemporâneo, à peça A Gaivota. Uma das personagens, o novelista Trigorin (Tchekov) ironiza: “O público lê-me e diz: “Bonito, escrito com muita inteligência... Mas inferior a Tolstoi... Belo trabalho, mas inferior a Turgueniev...” E sofria (Tchekhov), por isso. Hofmannsthal: “É preciso esconder a profundidade. Onde? Na superfície.”

O teatro-estúdio está cheio, pessoas de todas as idades e condição social. A peça é apresentada, essencialmente: espectadores dispostos em duas bancadas de três filas, uma de cada lado da sala, ao longo da passadeira que une dois espaços: interiores da casa de Petrosha e o jardim, ocupado pelo palco improvisado, em que se apresentará a obra de Kostia. A Gaivota depende do talento dos actores. Sem compreender as deixas, eles arrebatam-me. É, também, a emoção de assistir a uma peça de Tchekhov, na Rússia. Mas actores destes encantam.

Há, em Moscovo (catorze milhões de habitantes), dezenas de grupos e de teatrinhos. Aliás, sente-se a força cultural da cidade: teatro, cinema, bailado, concertos musicais. A corrida aos livros, vendidos a preços baixíssimos (de bolso a 2 euros; edições normais e traduções de autores estrangeiros, a 4, 5 euros). O gosto pela leitura, topo-o no metropolitano, nos eléctricos, nos cafés. A defunta União Soviética promoveu a leitura, a música, o bailado. Condicionada, embora, ferozmente vigiada, policiada, censurada (daí, o deserto da criação, o caso Pasternak e a forçada renúncia do escritor ao Nobel, o degredo, o desaparecimento esquisito -Isaac Babel- e o exílio de outros), a prática generalizou-se. A alma russa não se deixou sufocar, sobreviveu à dureza dos anos. Hoje, voltam à luz do dia, autores esquecidos na clandestinidade e no purgatório, Dostoievski, Ivan Bunine, Achmatova, Bulgakov, revelam-se escritores, músicos, realizadores de cinema. A Santa Rússia não dorme –sinto bater o coração.

14 de Agosto

Ivan Bunine (1870-1953), velha admiração, descoberta na Guarda, na Papelaria do Sr. Casimiro, Amor que santifica, editado pela saudosa “Inquérito”, à qual, em boa hora, João Gaspar Simões serviu de conselheiro. Leio o último livro de contos do grande escritor, exilado, em França, desde 1920, primeiro Nobel russo, em 1933, Les Allées Sombres  (Biblio, Poche). Em 1910, o romance A Aldeia, um êxito, que trata a condição dos camponeses (também ele conhecia o povo, os humilhados e ofendidos), consagrara-o. Anos depois, marginalizaram-no, não perdoaram a independência: a recusa frontal da revolução bolchevista, o afastamento do experimentalismo literário, do futurismo, de Maiakovski, Essenine, Achmatova, cujo triunfo duraria pouco, afastados, eles também –de que maneira!-, pelo didáctico e obrigatório realismo socialista ou o medo da singularidade. Bunine continuou, até à morte, fiel a si próprio. Beleza das descrições (amava, carnalmente, a Rússia, quanto não sofreu, ao abandoná-la!), poesia, complexidade das personagens –tudo isso faz o seu génio. Mas quero inclinar-me diante da verticalidade: respeitou-se, perseverou, contra ventos e marés, ergueu uma obra única. Atravessou modas,  desprezou dogmas, coerente, livre –coisa extraordinária.     

O mar de gente, mais de três milhões de automóveis, eléctricos, autocarros, o moscovita corre, não anda. O metropolitano tentacular, com estações que são obras de arte. Árvores, muitas árvores. Procuro entender: gente próxima de nós, isenta, felizmente, da insegurança e da opinião alheia, complexos que nos anquilosam. Reservada, aparentemente brusca (um sorriso e a doçura salta) mas tranquila e generosa, romântica e sonhadora. Tensa, ansiosa. Complexa, como os seus artistas, e frequentadora de cafés e amante do convívio. 

Raparigas muito belas, loiras, esguias, corpos flexíveis, frágeis, diria pássaros, um golpe e quebravam. Olhos de azul celeste. Aprenderam a dançar ou seria impossível a correcção e a elegância das atitudes. E o latino abre a boca, pascácio, e passa-lhes ao lado. O latino é, por natureza, machista –e não leu os poetas russos. Elas saíram dessas páginas. Não vale a pena demorar-me no salivar dos lorpas. Elas ignoram-nos. Animam as ruas, os cafés, os teatros, as praças de Moscovo, enriquecem, aquecem a alma. (Nesta megapolis permissiva, obviamente, é possível experimentar, tudo quanto se deseje).

As novelas de Irina Denejkina, 22 anos, Dá-me! Song for Lovers. Agarram. Retrato da juventude que sofre as consequências da mudança, da crise social, o deserto de valores. Uma juventude que ama, esbraceja, se agride e destrui. Irina (imagino-a indefesa e exposta, preço da sinceridade) acusa: “Tudo é pó, tudo é glória vã, tudo é mentira”. Aflige-me e não posso abraçá-la –é só um livro. Reage: “A vida é extraordinária e surpreendente”. Pudesse eu sarar a dúvida, que não a larga! Mai-la raiva e a solidão, a fuga. Luta e grita. Álcool, droga, camas de acaso... Song for lovers. Quem ama os amantes que falham o milagre da própria juventude? Não têm rugas, são belos, os músculos respondem, os cabelos vão com o vento, tal qual as mãos, que se procuram, se encontram, se apertam e se largam, e as bocas imaculadas, que se beijam, sempre insatisfeitas e inconscientes, os corpos misturados, hiantes, e logo abandonados à ternura que ninguém colhe. Sangram, na estrada.

Antologia de autores russos contemporâneos -muito mais velhos do que a Denejkina-, organizada por Viktor Erofeev e traduzida, para o italiano por Marco Dinelli. Não me interessam. Estéreis, circenses, insinceros. Outra forma de fuga –experimentalismo serôdio, repetição do que se disse e se tentou, há quase um século: Maiakovski, Marinetti... Outra face da crise de identidade, comum, no fim e ao cabo, a muita literatice nossa. Ouvi, em Moscovo, a intelectuais cultores dessa nova linguagem, que Dostoievski é um escritor menor, ultrapassado. Eles, sim, que me pareceram anacrónicos e de costas viradas para a realidade, impotentes e a esconderem-se no artifício fútil. 

17 de Agosto

Museu Puschkine. Um quadro de Goya, assinado da maneira seguinte: Lola Jimenez, o modelo, surpreendido a desenhar o retrato do artista –esboço do rosto de Goya, ao canto da tela. Obras do renascimento italiano, Lorenzo Lotto, Perugino, Tiziano. Os impressionistas e fauvistes franceses, Degas, Renoir, Gauguin, Matisse. Peças notáveis do período azul de Picasso. Grandes telas de Bonnard.

O Napoleão, de Gérard (1805). A coroa, o ceptro, o manto de arminho. Não é isso que me impressiona: é o olhar de adolescente, de quem não cresceu e continua a sonhar. O imperador apaga-se, volta o tenente pobre e solitário, que escrevia novelas românticas e se chegara ao suicídio, quinze anos antes. O olho direito denuncia-o –os nossos olhos abrem janelas diferentes. Há um mundo naquele homem imaturo (ele, o anti-Cristo, o estratego genial, o condottiero),  uma interioridade, que adivinho e me escapa –a sua viagem era dele. Vê, além do horizonte. E compreendo excessos, imprudência, o disparate da campanha da Rússia. Talleyrand explicava-lhe que era o senhor da Europa. Não ouvia conselhos. Nada bastava ao sonho imenso. Por isso, após Waterloo, a recusa da fuga para a América, a confiança absurda nos ingleses, o exílio de Santa Helena –afinal, a assunção do próprio destino, cumprido -na convicção pura de louco visionário- integramente

19 de Agosto

Não aprecio Bulgakov, mas é no Café Margarida, homenagem ao seu romance, O Mestre e Margarida, que vou almoçar. Nenhum turista. Uma excelente sopa, borsch, depois, ravioli (os russos têm uma variante muito saborosa, os pelmeni) e cogumelos assados, vinho tinto da Geórgia, um cálice de vodka (já não me lembrava de vodka tão pura, Standard Russian). Decorado com peças de madeira escura, simples, aconchegante. No friso do balcão, cinco figurinhas, um conjunto de jazz, em que brilha a eterna criança, genial e infeliz, Billie Holiday. Vou beber o café ao Mania, na praça do Conservatório, onde ensinaram Tchaikovski (lembra-o a estátua) e Chostakovich (afastado, em 1942, por... incompetência). Leio e escrevo. Numa cidade destas, é costume. E, além do cidadão comum, que aprecia a leitura, frequentam o Mania escritores, professores e alunos do Conservatório. Katia, a jovem empregada tártara que me atende, sorri e improvisamos uma conversa em inglês arranhado. Ouso duas ou três palavras russas, descabidas. Que importa? Paro o tempo, abandono-me aos olhos em amêndoa, ao calor do corpo harmonioso, em que adivinho a seiva correr, impaciente. Travo-lhe o braço acetinado. Liberta-se, agradece, e vai veloz, contornando mesas e cadeiras, a cintura que o arco das minhas mãos abarcaria, o movimento leve de bailarina, quase em pontas, os finos cabelos, presos com um laço de veludo azul. Mania, meu refúgio moscovita, é um outro Diza, o café de Telavive, onde conheci Nathan Zach. Mas Katia não é Meital, a minha amiga do Diza. Qual a diferença entre as russas e as israelitas? Talvez, a doçura resplandecente das primeiras. Há, com certeza, em Moscovo, judias, que não são israelitas. Às vezes, julgo reconhecê-las: a espessa cabeleira preta ondeada, a melancolia insondável dos olhos escuros.

21 de Agosto

Yasnaya Poliana, a propriedade familiar onde Tolstoi (1828-1910) nasceu (em 1854, a casa foi vendida e removida, resta uma pedra, a lembrá-la), viveu muitos dos seus dias e está enterrado. Malgrado a austeridade procurada, o lugar de um Grande Senhor –e fica-me a ideia de que é natural a sua obra gigantesca. A morte não lhe aconteceu ali, mas aconteceram romances e novelas e, certamente, a Sonata a Kreutzer –o drama do seu matrimónio. Quando atravessei o portão, e, depois, entrei na residência, que ele próprio ajeitou, recordei o apartamento alugado por Dostoievski, em São Petersburgo, modestíssimo, vulgar, não fora o inquilino e o fantasma. Nesse andar de burguesia remediada, escreveu Os Irmãos Karamazov e morreu gasto, doente, pobre, endividado. Yasnaya Polyana deslumbra: o parque imenso; o lago tranquilo; a floresta de abetos de altos troncos brancos, os vastos espaços verdes, os caminhos de terra batida, em que terão passeado e conversado André Bolkonski e Pedro Bezukov. A casa mãe, aristocrática: ampla sala de jantar, com os retratos, a óleo, dos antepassados, a grande mesa de dezasseis pessoas, outras, onde se jogava e lia, o piano, em que a mulher, Sofia Andreievna tocou a tal Sonata; quartos bem mobilados; um mundo de livros e pinturas; esconderijos de Tolstoi, que lá se refugiava, a fugir a Sofia, sua obsessão, doença e tragédia (Ramón J. Sender analisa, magistralmente, o conflito em Tres ejemplos de amor y una teoria, Alianza Editorial). A fuga derradeira, iniciada na noite de 28 de Outubro de 1910, terminaria no apeadeiro de Astopovo. Recusou, até ao fim, a presença de Sofia Andreievena. Nos últimos dias, em Yasnaya, leu Os Irmãos Karamazov, que sublinhou, detendo-se no capítulo Do inferno e do fogo eterno. Vi o exemplar, numa mesinha do escritório, aberto nessa página e anotado. Na mesa de trabalho, os Essais, de Montaigne e uma obra sobre o povo russo. Tudo era assim? É improvável: em 1941, o exército alemão ocupou Yasnaya Poliana e, na retirada, tentou incendiar a casa. Escapou à barbárie o que se havia escondido, a tempo: objectos pessoais, obras de arte, livros, alguns móveis, em suma, bastantes coisas, mas o arrumo seguiu as fotografias e os conselhos dos que lá viviam.

Aponto: o retrato do único autor presente em Yasnaya, Dickens; o fonógrafo e o copiador, enviados, da América, por Edison; no quarto de cama espartano, o leito de ferro, um armário, um lavatório, duas cadeiras e a garrafa de água de Vichy, a caixa de “Macaraíb Chocolat”...           

25 de Agosto

A riquíssima Galeria Tretyakov. Os retratistas russos e a sua arte insuperável. Os paisagistas. Os impressionistas (Tchekhov preferia-os, aos franceses). Uma Arte diferente. Arte russa, à margem daquela à qual nós, europeus, nos habituámos, mesmo quando se aproxima de correntes que experimentámos. Claro que me tocam, especialmente, os retratos de Dostoievski, (Perov), de Tolstoi, (Repin), de Puschkine, (Kiprensky), o génio de Serov, as paisagens de Leviatan (que Tchekhov privilegiava) e de Vassiliev, o maravilhoso e subtil Kuindji (que as páginas de Bunine recordam). Mas há tantos! O que me encanta é o novo universo. Que ridícula a ilusão de sermos o centro do mundo, nós europeus envelhecidos, actores cansados de uma história gasta, safada, inconsequente.  

À saída, já ao cimo das escadas, fiquei parado, preso do rosto e do corpo de uma rapariga, linda como qualquer pintura. De tal modo e tão excessivamente, que ela baixou os olhos, envergonhada e lisonjeada, sem saber o que eu queria. Ou a saber: queria a sua beleza. E se o bom senso -a pior das coisas- me não fizesse cair em mim, abraçava-a. 

27 de Agosto

No metropolitano, assisto à cena que define um povo que não nada em dinheiro: uma mulher de meia idade, vestida modestamente, pára diante da jovem que toca violino, encostada a uma coluna do túnel, e deixa algumas moedas, no estojo ao lado. Não é esmola –é a homenagem ao talento e à Arte.

1 de Setembro

Dostoievski, Tolstoi, Tchekhov, Puschkine (sempre evocado com particular amor, o Camilo ou o António Nobre russos), esta Cultura única. Simeone Frank, eslavista, fala do espírito russo como “de um peregrino, saído do povo, ou de um Dostoievski, de um Tolstoi, sempre em busca de uma verdade que não lhes iluminasse e explicasse, apenas, o mundo –constituísse o alicerce da vida verdadeira e justa, por isso santificadora e salvadora”.

3 de Setembro

No décimo primeiro andar da Bolshaya Spackaya, perto do Largo das Três Estações, a meio da noite, oiço uma voz suave de mulher, a anunciar as partidas dos comboios. Petersburgo? Surgut? Saratov? Amanhã, regresso a Portugal. Arrumo, religiosamente, os livros que me acompanharam: Dostoievski, Bunine, Puschkine, Tchekhov... Guardo este caderno. Chego à janela, espreito os eléctricos iluminados, as pessoas que se apressam, a fugir à chuva miudinha. Onde vão?