Um romance admirável de uma escritora injustamente esquecida
Este depoimento, que publiquei no meu livro Memórias, José Régio e Outros Escritores, foi-me entregue por Graça Pina de Morais, quando de uma longa entrevista televisiva, para o meu programa, na RTP, O livro à procura do leitor. Esse programa (mais de uma hora de filme) nunca chegou a ser transmitido. Encontrando-se o livro referido atrás esgotado e atendendo ao grande interesse do texto, resolvi apresentá-lo, aqui.
Passei uma fase da minha infância em França, até aos 7 anos. Em Paris, Bordéus, passando as férias em Biarritz, Arcachon, pois o meu Pai era exilado político. Poucas recordações conservo dessa longínqua infância num país estrangeiro. Apesar de educada num lar feliz, era uma criança meditativa e um pouco triste e já de uma extrema lucidez. Lembro-me, no entanto, que aos três anos eu com a minha irmã de dois anos atravessámos, em Arcachon, a sebe que separava a casa da floresta, a floresta de areia e pinheiros nas landes onde muitos homens perderam a vida por não encontrar um rumo. Depois de andarmos mais de duas horas a minha irmãzita disse-me “vamos encontrar a casa da fada boa” e eu respondi-lhe “não há fadas nenhumas, estamos perdidas na floresta” e comecei a chorar porque tive medo. Foi esse choro infantil de uma criança já perfeitamente consciente, e que aos três anos não acreditava na existência das fadas, que permitiu que os Pais nos encontrassem.
Lembro-me vagamente de viver num 6º andar em Paris e frequentar a escola maternal. Lembro-me sobretudo do Paizinho -o Pai nunca será para mim o Pai mas sempre o Paizinho- contava-nos à noite a história do cavaleiro andante, com as filhas sentadas nos seus joelhos. Uma noite, ao longo dessa prolongadíssima história, o Paizinho disse “o cavaleiro andante chegara aos 40 anos, estava velho e cansado” e eu comecei a chorar convulsamente pedindo ao Paizinho “não, o cavaleiro não estava velho!” Estranha precocidade dessa garotita de cinco anos que chora aos soluços com medo da velhice e o Paizinho continuou a história de maneira diferente, dizendo que o cavaleiro andante nunca chega a velho, o cavaleiro andante é sempre novo e continua sempre a andar.
Passei uma fase da minha infância em França, até aos 7 anos. Em Paris, Bordéus, passando as férias em Biarritz, Arcachon, pois o meu Pai era exilado político. Poucas recordações conservo dessa longínqua infância num país estrangeiro. Apesar de educada num lar feliz, era uma criança meditativa e um pouco triste e já de uma extrema lucidez. Lembro-me, no entanto, que aos três anos eu com a minha irmã de dois anos atravessámos, em Arcachon, a sebe que separava a casa da floresta, a floresta de areia e pinheiros nas landes onde muitos homens perderam a vida por não encontrar um rumo. Depois de andarmos mais de duas horas a minha irmãzita disse-me “vamos encontrar a casa da fada boa” e eu respondi-lhe “não há fadas nenhumas, estamos perdidas na floresta” e comecei a chorar porque tive medo. Foi esse choro infantil de uma criança já perfeitamente consciente, e que aos três anos não acreditava na existência das fadas, que permitiu que os Pais nos encontrassem.
Lembro-me vagamente de viver num 6º andar em Paris e frequentar a escola maternal. Lembro-me sobretudo do Paizinho -o Pai nunca será para mim o Pai mas sempre o Paizinho- contava-nos à noite a história do cavaleiro andante, com as filhas sentadas nos seus joelhos. Uma noite, ao longo dessa prolongadíssima história, o Paizinho disse “o cavaleiro andante chegara aos 40 anos, estava velho e cansado” e eu comecei a chorar convulsamente pedindo ao Paizinho “não, o cavaleiro não estava velho!” Estranha precocidade dessa garotita de cinco anos que chora aos soluços com medo da velhice e o Paizinho continuou a história de maneira diferente, dizendo que o cavaleiro andante nunca chega a velho, o cavaleiro andante é sempre novo e continua sempre a andar.
Sempre frequentei estabelecimentos públicos. Regressando a Portugal, fui para a escola primária em Mesão Frio. Como era gélida essa escola onde aliás me sentia feliz entre os garotos e garotas da aldeia. Eu e a minha irmã éramos as meninas das Quintãs, quinta que ainda nos pertence. Lembro-me de cair na estrada numa poça de gelo e chorar porque as minhas mãos estavam doridas das frieiras. Nessa escola aprendíamos bem, embora apanhássemos, tanto eu como a minha irmã, grandes camadas de piolhos que era necessário dizimar nessa época com tintura de sevedilha. Fiquei no entanto ligada à maravilhosa beleza do vale do Douro que ainda hoje continua a comover-me e que é a paisagem onde decorre o meu romance A Origem. Eu e a minha irmã tínhamos uma única pasta e disputávamos para transportar essa pasta que entendíamos nos dar um ar importante. Éramos tanto uma como a outra possuidoras de uma poderosa imaginação. Andava-se a construir uma estrada que atravessava a Quinta e que nessa aldeia se chamava a estrada nova. Essa história da nossa perda na floresta foi relatada, aos engenheiros que construíam essa estrada, com foros de prodigiosa aventura. Não éramos mentirosas -eu no entanto mais mentirosa do que ela- mas sempre tivemos a mania de contar a estranhos histórias mirabolantes que no fundo da nossa inocência infantil julgávamos serem verdadeiras.
Como o Paizinho sempre teve a mania dos estabelecimentos públicos, passámos da escola primária para o Liceu Carolina Michaelis no Porto. Vivíamos na Foz do Douro. A minha alma ficará para sempre ligada a esse mar bravio que rebenta contra a praia com uma violência estrondosa. Aí passei toda a minha adolescência e uma parte da minha juventude. Essa paisagem descrevê-la-ia mais tarde com todos os pormenores nos meus livros. Aí, um pescador levou-me para o largo e arremessou-me à água. Comecei a nadar como um jovem animal. Nunca tive medo do mar. Aos dez anos distanciava-me para tão longe e ficava longe até que os altifalantes começavam a chamar a menina que se perdia assim nas imensidades desse oceano gelado. Sempre gostei do perigo e da aventura. Muito longe da praia, punha-me a abrir e fechar os olhos e sentia-me feliz nessa solidão aquática.
Fui feliz nesse Liceu feminino. Tive aí a única reprovação da minha vida, fui reprovada -embora fizesse o melhor exame do Liceu- pelo excesso de erros de ortografia que fiz no ditado. Costumo, aliás, escrever com erros de ortografia que os tipógrafos caçam. Apesar de ser uma natureza triste, fui profundamente feliz, as minhas camaradas adoravam-me e de tal maneira que, tendo-se formado na turma dois grupos adversos, as chefes desses dois grupos disseram “tu pertences aos dois grupos, a nós e ao inimigo”.
Aos doze anos disse a uma amiguita minha por quem tinha uma paixão, paixão essa de natureza absolutamente platónica, “hei-de ser escritora quando for grande”. Apesar de frequentar um Liceu feminino, nunca tive na minha vida qualquer acidente de homossexualidade. De resto, só aos 23 anos soube que existia essa distorção do humano. (?)
No Liceu já escrevia e as minhas redacções eram lidas em voz alta e as minhas colegas testemunhavam-me uma profunda admiração. As minhas leituras nessa época, entre os doze e os treze anos, eram más. Lia os livros de Max de Veuzit e Madame Delly. Quem não leu John, o Chauffeur Russo e a exaltada (?), de Madame Delly? No entanto, devo dizer que ainda na Quinta, em Mesão Frio, a minha avó deu-me a mim e à minha irmã o Miguel Strogoff. Esse destemido correio do Czar que leva uma carta através de perigos incomensuráveis encheu-me a imaginação e muitas vezes disse à minha irmã “eu sou Miguel Strogoff, o correio do Czar”. Como ele era destemida e amava já profundamente a aventura.
Tenho pelas minhas professoras do Liceu uma respeitosa e mantida admiração. Quase todas mulheres sós, profundamente infelizes mas que com todo o seu coração e a sua alma se devotavam ao ensino. À professora de Português devo o amor da literatura. Essa mulher, bondosa e triste, lia às vezes para nós histórias tolas mas comoventes, a sua voz tinha qualquer coisa de emocionante e digamos mesmo dilacerante e de tal maneira a capacidade dessa voz era extraordinária que punha a chorar um bando de miúdas qie só pensavam em brincar.
O primeiro conto que publiquei, embora já tivesse escrito muito até aí, chamava-se precisamente Sala de Aulas e descreve a capacidade de emocionar que possuía essa ignorada Dona Alice Delgado. Solteirona boa, feia e triste e inteligente. Devo muito a essa mulher e ainda hoje tenho no ouvido o grande poder emotivo dessa voz.
Aos 14 anos lia Os Três Mosqueteiros, O Conde de Montecristo e outros livros do mesmo género. O primeiro livro sério em que peguei foi Le Livre de mon Ami, de Anatole France e aos treze anos esse livro trazia-o comigo para me dar ares de intelectual e não me interessava muito. Devo dizer, no entanto, que sabia de cor todos os versos de Florbela Espanca e que os recitava para mim só, admiravelmente.
Trazia comigo Le Livre de mon Ami porque acompanhava com um homem, o melhor aluno da Faculdade de Engenharia e queria impressioná-lo. Esse homem que era o Director da JUC e trazia sempre consigo um missal conduzia-me para um caminho de um erotismo desenfreado em que nunca no entanto chegávamos ao fim. Eu repetia, em plena praia, tudo quanto ele me ensinava, num estado de profunda pureza e inocência. As senhoras andaram a fazer uma lista para me expulsarem da praia pois entendiam que eu era um amu exemplo para as filhas.
Li, emprestado por esse homem, um livro do escritor católico Bernanos Sous le Soleil de Satan. Esse livro foi-me de difícil leitura e a única coisa que compreenndi nesse livro é que havia uma miúda de 16 anos possuída pelo demónio. Com esse livro, quis exprimir-me que eu era também o centro das forças do mal. Não compreendi essa comparação, não me identifiquei com a personagem –sentia-me completamente pura e livre de pecados.
Abandonada por esse homem, e ainda bem, aos 17 anos, escrevi -e só por esse motivo falo dele, porque os factores afectivos dominaram sempre a minha escrita- o meu primeiro romance, chamado Rapariguinha. Esse romance perdeu-se na imensidão da minha casa da Foz. Foi talvez deitado ao lixo com papéis velhos. Esse homem abandonara-me porque eu não frequentava a Igreja. Mal sabia ele que no meu livro o esqueci. Esqueci-o enquanto escrevia o meu romance e andava a pensar nos chocolates que comia com pão, à tarde, quando chegava do Liceu. Tinha 17 anos e esse romance, querendo descrever uma ligação onde o sexo predominava, era com grande espanto meu de uma espiritualidade profunda. Já nessa altura sabia que se o sexo tem limites o espírito não os tem. Tenho ainda na memória uma aula de Filosofia em que não sei porquê comecei a chorar. A minha vida já complicada levou-me a esse choro convulso. A professora de Filosofia, mulher teatral, exclamou “a menina chora porque se acompanha dum homem muitíssimo mais velho e essas relações afectam-lhe os nervos”. Relato este pormenor porque as minhas colegas de turma olharam-me demoradamente, a mim que estava levantada, com uma admiração intensa. Nunca fui tão admirada, respeitada e querida como durante esses minutos. A admiração e o afecto obsessivo dessas trinta crianças da turma nunca a poderei esquecer.
Depois desse romance li muito e escrevi muito.Tudo contos e novelas que se perderam em gavetas, em sótãos, papelada velha a quem ninguém ligava importância. Li, pode dizer-se, toda a literatura universal.
O primeiro livro que publiquei foi O Pobre de Santiago. Esse conto foi-me sugerido por uma velha tia solteirona que vivia no campo e apenas contava histórias que se relacionavam com camponeses. Impressionava-me a história desse velho mendigo que apenas vivia para manter um monte ventoso onde nada frutificava mas o pobre amava a sua terra que aliás se chamava Santiago. Foi esse o primeiro livro que publiquei.
Frequentei a Escola Médica no Porto. Fui muito menos feliz na Universidade do que no Liceu feminino Carolina Michaelis. Os homens que tanto me fizeram sofrer, gostavam de mim, assim um ambiente turvo me rodeava, misto de amizade e inimizade, era querida e detestada. Na festa do fim do curso, porque eu já me considerava uma mulher de letras embora ainda não tivesse publicado nada, puseram-me em cima duma cadeira para fazer um discurso. Tive uma crise imensa de timidez, não me ocorria uma única palavra. Saltei da cadeira e fugi, percebi que nunca seria capaz durante toda a minha vida de fazer um discurso. Sou capaz de travar conversas banais e até profundas com uma ou duas pessoas, mas um discurso nunca o poderei fazer.
A medicina em mim pouco influíu para a minha literatura. Boa médica e em contacto com o sofrimento humano nunca me lembrei de descrever esse sofrimento. A medicina apenas me serviu para descrever médicos e utilizar os sintomas clínicos que antecipavam as mortes dos meus personagens. Na minha alma onde o destino fez campo aberto para as mais devastadoras paixões só os afectos e a infelicidade que produzia a destruição desses afectos me levaram a escrever. No entanto devo mencionar a atracção que sempre exerceu sobre mim a morte e a loucura. Devo dizer que embora nunca atinja, nem possa atingir, a qualidade dos meus mestres literários o livro ue mais amei ler foi Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski, que li aos 26 anos. Aconteceu-me, ao ler esse livro, uma coisa extraordinária. Pensei “até que enfim que encontro pessoas que se parecem comigo”. Nunca descortinara qualquer afinidade entre mim e os outros seres humanos e finalmente estava perante almas com as quais sentia uma afinidade profunda. Como quem encontra o seu verdadeiro mundo. Durante o mês em que li esse livro uma felicidade profunda se apoderara de mim. Caminhava como uma sonâmbula, o mundo era final o mundo e a vida, a vida. Embora lesse um ano mais tarde A Guerra e a Paz, embora a grandeza e a profunda harmonia dessa obra genial me transmitissem também um clima de serenidade e alegria –e li ese livro nos dois mses ques se seguiram à morte do Paizinho- a verdade é que sinto muito maiores afinidades com esse quase inacreditável Dostoievski que descreve a alma humana em toda a sua grandeza, em toda a sua miséria, em toda a sua loucura. Os Irmãos Karamazov acabam mesmo pela seguinte frase “Ivan continuava doido”.
A literatura para o escritor tem a função de desprender ideias interpretadas e levá-lo a criações muito diferentes mas de qualquer forma criações. Para a restante população fornece-lhes o sonho e a cultura e de certa maneira superioriza-o. Assim um homem ou uma mulher que lê um romance perfeito, como por exemplo Madame de Bovary, onde não existe uma palavra a mais ou a menos, não pode deixar de se sentir enriquecido por ter assimilado, compreendido, essa preciosidade artística e fica com mais do que se tivesse misturado história com a imagem duma época.
Não gosto de romances sectários. O artista deve contar simplesmente uma boa história verídica ou inventada e nunca deve servir uma doutrina política. As suas ideias políticas, se as tem, sobressairiam nas entrelinhas. Assim, Tolstoi, contando uma simples história como O Senhor e o Servo, desvenda toda a miséria da grande Rússia Branca. Não me lembro precisamente das palavras com que termina essa novela mas o sentido é o seguinte: o senhor morreu e o servo que fora salvo por ele na tempestade de neve ficou implorando a Deus que o levasse o mais depressa possível porque era uma boca inútil, um velho que os netos maltratavam e nenhuma serventia tinha. Essa história é já compreendida pelas crianças de 10 anos.
Para mim que sou uma mulher vaga e sonhadora e um tanto lunática a técnica é um inferno. No entanto a técnica devo reconhecer que a técnica ajuda a vida até um certo limite e esse limite é aquele em que a pessoa humana e o indivíduo se despersonaliza e não deixa de ser mais do que uma peça, uma engrenagem duma imensa máquina. Lembro-me que nestes últimos tempos, sendo proibida a utilização de automóveis ao domimgo em Genève, eu passeava na cidade liberta como num imenso jardim sem ser martirizada pelos ruídos dos claxons, dos motores das ... e do arrancar dos automóveis.
Eu, que fui uma aluna aplicada, uma estudante brilhante, uma médica e uma interna conscienciosa dos Hospitais, uma mulher cheia de fervor pela vida e uma escritora honesta em tudo o que escrevia, eu que queria realizar-me, destruída subitamente por uma doença que dura há sete anos e da qual não estou completamente curada, exactamente como a juventude tornei-me num ser profundamente marginal. Como se vivesse uma nova adolescência, em vez de encontrar o fio da meada que perdi, do caminho que já não encontro, prefiro como a juventude de hoje trilhar caminhos marginais e perder-me cada vez mais profundamente, viver o momento que passa porque o seguinte não sei se existe e em vez de procurar realizar-me projecto-me no nihilismo e deliberadamente na destruição. Só uma coisa não faço, tenho horror a tudo o que tira a lucidez ao ser humano, não me drogo. Se a destruição vier, quero assistir conscientemente a essa destruição. Neste momento, doente e quase velha, só o caminho marginal me é possível. Talvez que a juventude esteja já envelhecida e doente como eu.
O romance que me deu mais prazer a escrever foi A Origem. Passava noites acordada, encadeando ideias. Sentia-me uma iluminada. Contava a História da minha própria família absolutamente deformada pela imaginação. Os contos Na Luz do Fim, onde nunca existiu a alegria da criação, considero-os admiráveis. Escrevia lentamente, palavra a palavra, tomada duma desmoralização infinita. No entanto, eles dão a expressão da minha realidade. No conto Cristina descrevo-me a mim mesma. Cristina, que só aparecia em sonhos, Cristina infinitamente espiritual e simultaneamente com um sorriso humano, um sorriso de boa rapariga. Esse conto Cristina foi publicado no Brasil numa antologia dos melhores contos portugueses. Eu que nada tenho de vaidosa devo dizer que esse livro Na Luz do Fim é excelente.
No meu teatro, não posso deixar de mencionar a peça O Medo. Essa peça tem um valor de um presságio e mostra a profunda inteligência do médico do século XIX. Baseada sobre uma frase de Freud “o médico não é na sua essência que ... da pessoa humana”. Escrevi-a alegre, perfeitamente equilibrada, e até num estado de completa boa disposição. Essa peça, mal conseguida teatralmente, sem os tempos teatrais devidos, e que apenas na televisão pode ser representada, descreve Marina, profundamente doente. Mulher realizada no exterior, assistente em psicologia, aparentemente equilibrada fora de casa, tem os nervos destroçados e a tal ponto que tem medo do vento na janela, das vozes ao longe quando não sabem o que dizem e dos passos na escada. Quando soa a campaínha da porta grita “não posso com o toque das campaínhas, tenho a sensação que vai suceder qualquer coisa horrível”. Essa mulher a quem a morte brutal dos pais num desastre de automóvel não chocou, é destruída por uma carta em que o homem que ama lhe pede uma separação. Essa mulher egocêntrica e obstinada e histérica sente-se monstruosa e entre o amor de uma homem que a adora e ela admira e a quem diz, assombrada, numa voz que de súbito se torna distante... “ muitas mulheres, quase todas, eram capazes de dar metade da vida e andar o mundo inteiro só para verem um homem como o José chorar de amor por elas...mas eu estou tão doente que não sei...estou espantada! Quem é você? Quem o educou? Onde cresceu?”
Marina, entre o amor desse homem, sentindo-se irremediavelmente destruída, escolhe a morte. Tendo, no entanto, acertado o noivado, conhece a madrinha de José, descobre uma personalidade idêntica à dela, para quem os afectos eram a espinha dorsal de toda a vida. Mãe de três filhos, essa mulher sente por José um afecto tão obssessivo e egocêntrico como aquele que Marina experimentara pelo homem que a abandonara. Marina, ao vê-la escondida na varanda da casa, quando José que vem anunciar à madrinha o noivado compreende nesses brevesinstantes que o afecto obsesivo ed Maria Teresa, completamente esquecida do seu amor maternal, a levará ao crime. No terceiro acto, um mês passado sobre essa cena, Marina espera Maria Teresa em sua casa, fresca como uma rosa, serena como um anjo, entre as ansiadas angústias e terrores de uns nervos doentes escolhe um perigoo autêntico. Antes da chegada de Maria Teresa, fala com Angélica, mulher sem filhos que a criara e para quem esta era a única razão de existir e de quem Marina gostava mais do que dos pais. A sua atracção pela morte já vem de longe.
Angélica diz: “Volto a ver-te com dezóito anos...dezóito anos, nem me quero lembrar!” Marina interrompe-a: “Porquê, Angélica? Foi o ano mais feliz da minha vida. Estávamos na Serra, eu e tu...os Pais iam visitar-nos aos fins de semana. Tinha interrompido os estudos...não havia aulas, colegas... a cidade tinha ido para muito longe...aquelas manhãs frias de Novembro, o céu pálido onde um pássaro de vez em quando traçava uma linha negra no seu voo solitário. Passeávamos de braço dado... Havia uma grande silêncio... e só a tua voz amiga e terna”. Angélica interrompe-a, bruscamente: “Tive que me virar do avesso para ter essa aparência calma. Eu e os teus Pais vivíamos numa aflição mortal. Tinhas os dois pulmões atingidos, Marina. Escondia-me no quarto para chorar à minha vontade. Diante de ti disfarçávamos. Dizíamos que não era nada, mas em que tortura vivíamos os três”. Marina, risonha: “Disfarçavam muito mal”. “Porquê?, pergunta Angélica, interdita. Marina (sempre calma): “Tantas conversas escondidas...tantas portas fechadas! Olhares ansiosos. Quando fui para a Serra estava farta de saber que tinha os dois pulmões atingidos e estava muito doente”. Angélica diz, fulminada pela surpresa: “Viveste então aterrada! Não tinhas medo, não tinhas medo de morrer?” Marina responde, com lentidão: “Durante esse ano amei a vida apaixonadamente, não havia futuro...os dias eram apenas um encadear de instantes luminosos...não pensava sequer em nós mas pensava que de súbito um desses instantes se podia fixar, parar no largo espaço que há entre as estrelas”.
Marina afasta de sua casa essa pobre Angélica para esperar a morte, isto é, a visita de Maria Teresa. Após receber em pleno coração o tiro de Maria Teresa, chama-a e morre abraçada a essa mulher que a destrói mas com quem sente profundas afinidades. Marina escolhe entre as ansiedades, pavores e angústias de uns nervos doentes um perigo real e a destruição.
Angélica, regressando a casa, fala com Marina normalmente mas de súbito pressente que esta está morta, a campaínha toca com estridência e Angélica rola-se no chão aos gritos: “Vai suceder qualquer coisa de horrível! Tinhas razão, Marina!
Vai suceder qualquer coisa de horrível!”
Alguém me disse “já estava doente quando escreveu essa peça.” Não estava doente, mas a doença vivia encoberta na minha alma.
Depois disso escrevi Jerónimo e Eulália, romance que foi realizado sem o êxtase d’ A Origem mas onde me sinto completamente realizada.
Com o fim do livro Jerónimo e Eulália, revelou-se a minha doença muito mais grave do que aquela da personagem de Marina. E assim me perco no anonimato, sendo um estrangeira desconhecida nas ruas dessa nebulosa e gélida Genève mas, exactamente como Marina, prefiro o perigo real aos medos e angústias fantasmagóricos duns nervos doentes.






























