segunda-feira, 31 de março de 2014

Bom dia!


"A queda no Paraíso", obra de Bill Viola


Quem é:

http://en.wikipedia.org/wiki/Bill_Viola

domingo, 30 de março de 2014

O racismo prolifera? Recusa-o e denuncia-o. Raça há só uma: a raça humana.

Christiane Taubira

O Le Nouvel Observateur desta semana publica uma breve, mas preciosa entrevista com Christiane Taubira***, ministra da justiça do actual governo francês.

Natural de Caiene, capital de Guiana francesa, mulher de cor negra, tem sido objecto de insultos racistas vindos não apenas do partido de ultradireita, o FN, Front National, mas também de militantes e deputados do UMP, União para um Movimento Popular, partido de centro direita.

E vou transcrever e comentar algumas passagens dessa entrevista; as afirmações de Taubira são em itálico:

“…incontestavelmente, alguma coisa se passou nos últimos anos. As inibições que impediam a palavra racista de se expressar diluíram-se. Os diques desabaram. A palavra racista usa-se a rosto descoberto, no espaço público, tranquilamente e, às vezes, a rir.”

Incontestavelmente -por toda a parte.

Triste, muito triste, e grave, que se deva escrever: pela Europa fora.

Pela Europa, onde brotou o Renascimento; onde o povo se levantou contra o racismo social -e penso na Revolução Francesa; onde aconteceu o Iluminismo.

Trata-se de alterofobia -de recusa do Outro, do Diferente?

Sim -o que significa Medo: medo do Outro, medo que ele venha alterar o nosso modo de estar, mesmo que esse modo de estar seja de miséria.

Trata-se de um retrocesso?

Sim, mas não só: reaparecem o nazismo, o fascimo cujo assento era o racismo e levou ao holocausto, que queimou seis milhões de judeus, centenas de milhares de ciganos, centenas de homossexuais -porque eles eram Outros.

Uma afirmação de força? Defesa da própria identidade?

Não: manifestação de covardia, insegurança… medo.

A superioridade da “raça ariana” e o missionarismo fascista cevaram os seus medos e ódios no assassínio dos mais fracos e indefesos.

Defesa da identidade de um país?

“O destino comum é a nação [Taubira refere-se à França, o que não impede que aquilo que diz sirva para qualquer país], desde a Festa da Federação de 14 de Julho de 1790****. Renan alterou o seu fio de reflexões: compreendeu que a nação não é um grupo étnico mas sim uma comunidade cívica, ligada por um destino comum.”

E cada vez mais assim será, agora que o movimento migratório é imparável e, por exemplo, na referida França, e apenas em três gerações, 25% dos cidadãos têm ascendentes estrangeiros.

Diga-se -não de passagem mas sim para que não o esqueçamos- que a identidade portuguesa compreende, além do que nos trouxeram fenícios, romanos, merovíngios, etc., etc., sangue árabe, judaico, africano.

A identidade, a comunidade cívica resulta de encontros, diálogos, partilhas, comunhões.

“A resposta ao mal-estar da identidade francesa [isto é: das identidades que se agarram ao racismo e à sua prática, com MEDO e AVAREZA] é, pois, lembrar aos cidadãos de onde vêm e perguntar-lhes qual a história que querem viver juntos (…) começar a compreender que é juntos que deverão construir um futuro comum.”

Essa é a Estrada Real, o caminho certo, a atitude frutuosa.     
  

***http://fr.wikipedia.org/wiki/Christiane_Taubira

****http://pt.wikipedia.org/wiki/Festa_da_Federa%C3%A7%C3%A3o 

Vamos limpar este país que mãos de bandidos, grosseiros assassinos, cobriram de lama… vamos seguir o arco-íris: vamos repor o sonho, a poesia, a liberdade, o Bem!


"Arco-Íris", óleo de William Turner

sábado, 29 de março de 2014

Dia Nacional dos Centros Históricos

Guarda: Praça Velha

A poesia de uma jovem beirã

Guarda: Dobadeira do Jarmelo

Bom dia e... boas novas!

"A carta", obra de Carl Larsson

quinta-feira, 27 de março de 2014

O futuro é imparável

A repressão da liberdade é violência inútil: confirma-o a História

“(…) a juventude é um potencial transformador. Até certo poto tende a constituir uma zona de liberdade num mundo resignado, dominado por servidões e constrangimentos irracionais de vária ordem. A sua consciência vive na utopia, isto é, num mundo concebido para o homem. O sentimento profundo de solidariedade com todas as vítimas da alienação amortece nela o espírito de classe.

Pode perguntar-se muito a sério se é a juventude que deve dobrar-se perante o mundo ou se é o mundo que deve adaptar-se à juventude. Porque neste seu sentimento a juventude não fala apenas por si própria, antes pela totalidade dos homens , inclusive aqueles que já se resignaram à mutilação, e a sua voz é um protesto de espontaneidade da Natureza contra as servidões humanas.”


António José Saraiva in Dicionário Crítico De Algumas Ideias E Palavras Correntes, Publicações Europa-América, 1960

quarta-feira, 26 de março de 2014

Um fim do dia feliz...

O governo quer transformar Portugal num cano de esgoto

in Público de hoje

O culto do ódio

No gueto de Varsóvia, 1944

“Eu, que vivi com a morte desde a infância, sei que o amor e a bondade, a sua irmã mais velha, representam as únicas coisas importantes. Mas como fazê-lo crer aos meu irmãos humanos? Nunca o acreditarão verdadeiramente, e eu continuo o ingénuo dos meus dez anos. Mas devo dizer-lhes aquilo que sei, aconteça o que acontecer à minha ousadia. Ó vós irmãos humanos, conhecei a alegria de não odiar. Assim digo eu com um sorriso, assim digo eu na minha já velha idade, assim, à beira da morte.”


Albert Cohen in Ô vous, frères humains, Éditions Gallimard, Paris, 1972

Albert Cohen (1895-1981)

http://fr.wikipedia.org/wiki/Albert_Cohen


segunda-feira, 24 de março de 2014

Música popular uruguaia ..

O governo que atirou Portugal para a miséria pede, afinal, ajuda aos milionários (mesmo a fugir à polícia) no crescente roubo aos pobrezinhos...

in Público de hoje

O artista não aceita ordens ou poesia liberdade livre

Johan Wolfgang Goethe

Em 1928, Thomas Mann escreveu e publicou o seguinte ensaio: Cultura e Socialismo.

Desse excelente texto, escolhi… uma afirmação de Goethe, citada por Mann:

É sem dúvida possível que uma obra de arte tenha consequências morais; mas exigir do artista certas intenções e certas finalidades equivale a dar-lhe cabo do ofício”.

E, agora, toca-te a ti, amigo, julgares aquilo que deixou o autor de Fausto -e concordares ou discordares.

Bom dia!

Thomas Mann in L’Artiste et la société, Éditions Grasset & Fasquelle, 1973

 Thomas Mann

domingo, 23 de março de 2014

Adolfo Suárez González ou a lição de Democracia

Suárez toma posse do lugar de Primeiro Ministro

Suárez cumprimente Dolores Ibarruri, "La Pasionaria"



Suárez com Fidel de Castro



Suárez com Santiago Carrillo, Secretário-Geral do PCE



Suárez com Felipe González, Secretário-Geral do PSOE


Em plenas Cortes, que os revoltados invadiram, Suárez opõe-se ao Coronel Tejero, um dos cabecilhas da tentativa de golpe militar de 25 de Fevereiro de 1981. De todos os deputados, os únicos que se recusaram a deitarem-se no chão, diante das metralhadoras dos militares franquistas, foram Suárez e Santaigo Carrillo. 



Suárez e o Rei Juan Carlos, os dois homens que salvaram a Democracia Espanhola

Na morte de Adolfo Suárez González: a morte de um grande político, de um homem íntegro, de um democrata

Adolfo Suárez González (1932-2014): obreiro da democracia espanhola

http://politica.elpais.com/politica/2013/09/24/actualidad/1380044109_467419.html

Na Rússia, onde?, quando?, quem?

"A desconhecida",1883, óleo de Ivan Kramskoi


“Beauté mon beau soucis…”-confidência de Valéry Larbaud, que partilho…

Mais:

http://en.wikipedia.org/wiki/Ivan_Kramskoi


D. Quixote é o sonho a redescobrir na alma portuguesa -e pelo qual lutar

"D. Quixote", por Júlio Pomar

sábado, 22 de março de 2014

Uma flor na Primavera


"Azalea", 1906, de Carl Larsson


Quem era:

http://en.wikipedia.org/wiki/Carl_Larsson

sexta-feira, 21 de março de 2014

A ventura de amar

Ela e eu


Amor

Antes que seu perfil me aparecesse,
Eu tinha gasto o coração a vê-la…
E erguendo aos céus as minhas mãos em prece,
O meu amor foi só reconhecê-la.

Como graça de Deus que me atendesse,
Sou seu amor, posso dizer-me de Ela…
Chamar-lhe minha, assim quem o pudesse,
Na noite da minh’alma única estrela!

P´ra meu amor é que Ela ao mundo veio;
E, assim, outrem amando-a, era parti-la,
Que alguma coisa de Ela há no meu seio.

Não será minha? Isso que tem para a Arte?
Estatuário que eu sou, hei-de esculpi-la;
Dá-la em beleza é o meu amor em parte.


Afonso Duarte in Rapsódia do Sol-Nado seguida do Ritual do Amor, Edição “Renascença Portuguesa”, 1916, Porto

quinta-feira, 20 de março de 2014

Memória


Roma, em nossa casa, eu e os meus filhos, no jantar do Natal de 1980(?)... a ler-lhes uma passagem da Bíblia...

Abre:

http://videos.sapo.pt/k43oCl23NCkjoHzDggaP

quarta-feira, 19 de março de 2014

Para um jovem escritor as palavras dum Mestre

Anton Tchekhov

Num excelente livro-evocação de Antonin Tchekhov, um dos grandes romancistas russos do século XX e, aliás, o primeiro Prémio Nobel de Literatura que a Rússia teve, em 1933, Ivan Bounine***, escreveu:

“Quem, se não ele, teve a coragem de persistir no seu próprio caminho, sem preocupar com as correntes na moda?”

Na sua “própria estrada”, como dizia José Régio…

E cita Bounine o grande Tchekhov:

Não se deve dar a ler a ninguém as nossas obras, antes de as publicarmos. Os conselhos dos outros são de fugir como da peste. Se errares, se te afastares da verdade, é pena -mas, ao menos, o erro será teu.”

Mais adiante, dizia Tchekhov, na linguagem simples e escorreita sempre cultivou:

“Há cães grandes e cães pequenos; por que razão os pequenos se deixariam intimidar pelos grandes? É bom que cada um ladre com a voz que o Senhor lhe deu.”

Ivan Bounine in Tchekhov, Éditions du Rocher, 2004

Ivan Bounine

***http://en.wikipedia.org/wiki/Ivan_Bunin 


terça-feira, 18 de março de 2014

A crise e o livro

O deserto que deixámos criar e onde morremos com fome do espírito

É claro que comparar o nível cultural da França com a do nosso depenado país é absurdo.

Não tanto assim...

Nos anos 40, 50, 60, por exemplo, afrimavam-se e “sobreviviam”, entre nós, numerosas editoras -Portugália Editora, Livros do Brasil (com três colecções excelentes: Dois Mundos, Miniatura e Vampiro), Inquérito, Romano Torres, Europa-América…, por exemplo-, vendiam-se muitos livros a muitos leitores… Os jornais cultivavam páginas literárias de grande qualidade… A RTP -única TV- tinha programas culturais de grande qualidade, à frente dela o melhor Director de Programas que jamais foi igualado: Carlos Miguel de Araújo…

Em plena ditadura que assentava em dois pilares: a PIDE e a Censura.

Mas os tempos mudaram e, hoje, a velocidade e superficialidade, a morte do Espírito, a vulgarização dos gestos, a pornografia que se quer chamar erotismo e o destrói, a decadência geral -por toda a parte rebaixaram a Cultura,  apagaram os valores, criaram e expandiram um deserto em que se empurram e se usam os neo-analfabetos, gente só, egoísta e indiferente à paixão.

De grande teatro grego, o mundo passou a palco-piolho.

***

Aleluia!: chega-me, através do Le Monde de hoje, uma boa notícia:

Se, nos últimos três anos, em França, a venda do livro baixou 4%, “o livro continua a ser a primeira indústria cultural, à frente do cinema e da música”.

O que lêem? De tudo.

Precisam de ler -apesar do tempo lhes ser roubado, cada vais mais, dia após dia.

***

Em França, certo; mas vale a pena assinalar que, no ano de 2013, se venderam 356 milhões de livros (número que inclui livros escolares, mas isso nada diminui, muito pelo contrário).


Apesar da internet, dos supertelemóveis, etc.   

A Primavera já bateu à porta. Agarra -quem te disse que não é a última que vives, antes de murchares e nem te aperceberes dela? Vive-a com a frescura que ainda não secou em ti!

"Primavera", 1482, quadro de Sandro Botticelli

Mais um bocadinho de fado e um pratinho de Fátima: eis o português analfabeto e nos 3 FFF... (o quarto omito por pudor...)

in Público de hoje

Eis o que nos falta de Belém a São Bento, onde é a burra que se enche e a moral não existe, de onde, há muito, a integridade se ausentou: homens dum só rosto e duma fé

Francisco de Sá de Miranda

“Homem dum só parecer
dum só rosto e duma fé,
d’antes quebrar que volver.
outra cousa pode ser,
mas de corte homem não é.”


in Carta a El-Rei D.João, Obras Completas de Francisco de Sá de Miranda, Texto Fixado, Notas e Prefácio pelo Prof. M. Rodrigues Lapa, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1943

Eis o deserto português, de Portugal carente de ideal, de moral, de humanidade, de Portugal com a porta aberta para o abismo. 

segunda-feira, 17 de março de 2014

Palavras Daqui e Dali: Vergonha

Palavras Daqui e Dali: Vergonha:      De manhã, enquanto limpava o pó, na sala ( malditas tarefas domésticas! ) liguei a televisão e dava na TVI um programa sobre a Cáritas...

Um grande poeta que o Nobel terá de distinguir

"Repouso do meio-dia", óleo de Nahum Gutman

WIND

The wind brings peace to what was. To what never was,
wind does not bring peace. To one’s surprise, this too
is a place: the poet brings it forth
with the breath of is mouth,
the writing of is eyes -and old ruse.
When I say you, already you smile. When I glance at my watch
you grow unhappy. Pretty girl, how little
you require, and what little profit there is in love.
This place is worse than hell:
Hell is, is real.

in The Static Element, Selected, Poems of Nathan Zach Translated by Peter Everwine and Shulamit Yasny-Starkman, Atheneum, New York, 1982


Nathan Zach

Mais:

http://natakarla.blogspot.pt/2012/05/intanto-nathan-zach.html


sábado, 15 de março de 2014

sexta-feira, 14 de março de 2014

quarta-feira, 12 de março de 2014

Com o tempo vamos perdendo as pedras de oiro de cada dia...

)

Esta é a minha cidade: aqui quero ser enterrado: em caixão de pinho e em terra rasa. E que façam, os bichos que por lá andam um festim: que lhes entregue o meu amor.






Os crimes do PSD

O Teatro Municipal da Guarda

Durante 9 anos, um poeta, um homem de bem, um grande homem de teatro, Américo Rodrigues, fez a maravilha que foi o TMG. 

Sem o Américo Rodrigues nunca haveria  CULTURA na nossa Guarda.

Com misérias e sacanices e jogos baixos, o PS, ao fim de 40 anos, entregou a  Câmara Municipal  a uma coisa que quer chamar-se PSD -e é um bando de ultra-direita. 

novo presidente da CMG actuou rapidamente: demitiu o director do TMG, Américo Rodrigues e… fechou a Cultura.

Em consequência, a Guarda apagou-se.

A Cultura apagou-se.

O prestígio internacional do TMG e a existência da Guarda apagaram-se.

É necessário nunca o esquecer e lembrá-lo.

Antes que o País se apague ou volte aos anos de Salazar -inspirador desta bicharada que nos arruína e que se diz... social democrata..

Não nos roubam só o nosso dinheiro: analfabetizam-nos.

Esta maravilha, obra do meu maior amigo, Aldo Zari, que dorme em San Michele, trouxe-a para agradecer à Rosanna Marcato a sua extraordinária amizade

Óleo do grande pintor veneziano Aldo Zari

terça-feira, 11 de março de 2014

Um livro muito belo que não deves perder!



Como se faz: juntam-se o tempo e o modo acabados de colher ainda pedrentos   
ainda latejantes. 
Bater as cinzas do vulcão em castelo. Juntar fermento esmalte

celeste. Amassar amassar até que areia e mão sejam um só vaso. 
Enxugar ao sol do deserto durante um epiciclo.
E uma pedra por acaso renasce em carne viva.

Sua artesania vocálica: língua bifurcada  
sílabas roubadas ao Deus: percutindo os pilares dos dentes. 
A coisa e tu: um instante voraz: labareda perfurando a Terra.

Manuel Silva-Terra in Pastor de Pedras, Editora Licorne, 2014


segunda-feira, 10 de março de 2014

O caso Alex Katz

Instalação de Alex Katz

Mais:

http://en.wikipedia.org/wiki/Alex_Katz

http://cultura.elpais.com/cultura/2014/03/07/actualidad/1394221163_016300.html

Os Amantes Voluntários

Imagem colhida no programa da peça


No programa da minha peça Os amantes Voluntários***, encenada por Roberto Merino e estreada em Janeiro de 2000, Seiva Trupe, Teatro do Campo Alegre, com os artistas Romi Soares e o falecido Manuel Geraz e figurinos de Olga Rego -a escritora Fernanda Botelho**** quis publicar o seguinte  texto, e bem haja por ele: 

Do amor voluntário
Por Fernanda Botelho

Gosto de ler teatro quase tanto como de ver, é quase o mesmo encantamento – ou desencanto. E é curioso verificar até que ponto a representação que eu elaboro a partir do texto lido se ajusta ou diverge da mesma peça vista.

Pois a minha pessoalíssima encenação contempla toda a materialidade do teatro como espectáculo, desde o cenário até aos acessórios, desde o guarda-roupa até à movimentação cénica.

E vem tudo isto a propósito da leitura que fiz da "farsa quase trágica" em 1 acto Os Amantes Voluntários, de que é autor Manuel Poppe. E do prazer que a leitura me proporcionou. E ainda de alguns danos que me deixou, felizmente reparáveis com o tempo (É que esta farsa quase trágica nos embrenha, mesmo à revelia do nosso querer, numa freudiana floresta de enganos, que bem gostaríamos de ignorar).

O tema é o do Amor, ou mais rigorosamente, a nostalgia do Amor. Às personagens falta-lhes a capacidade de dialogar com o (a) outro (a), instalam-se, isso sim, num monólogo eufórico, monólogo a duas vozes, ou quatro vozes (se considerarmos as duas juvenis réplicas do casal em cena). Cada uma das personagens serve-se das outras como pretexto para o seu monólogo (revivendo com frustração o passado e o presente).

É que estes amantes voluntários não estão a viver uma simples, insofrida, irresistível aventura – eles são mesmo voluntários, oferecidos para reconstruir um rito sacrificial ao Amor. São voluntários e também ambíguos, não pretendem amar, pretendem amar-se, através de um encontro fatalmente breve ou obcecadamente eterno.

Pois que se ame o Amor, porque não? Que se reinvente o Amor. É bem mais divino o Amor reinventado que o pecaminoso acto de vivê-lo em quartos de aluguer. O acto de amar o outro é uma solidão, enquanto amar o Amor é amar-se a si próprio numa claustral superioridade. Também é solidão, claro, é sempre. O resto são ilusórios encontros de solidões elementares.

Ser ou ouvir as palavras destes amantes voluntários no cenário, que se imagina sufocante e denso, de um quarto fechado, revela-nos (ou sugere-nos) que lá fora há outros quartos fechados, outros horizontes, outros enigmas, outros encontros fortuitos. Mas não é confortoso: lá fora, como cá dentro, o Amor é igual a si próprio (mas será?), perverso e implacável (mas será?).

Fica-se absorvido por este jorro de palavras, em monólogo (ou diálogo), elaboradas com mestria a que se acrescenta uma excelente fluidez coloquial, com o quanto baste de realismo e poesia.

Janeiro de 2000

***Os Amantes Voluntários, 2ª edição, foi publicado em Janeiro de 2000 pela Editorial Teorema

****http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernanda_Botelho


Fernanda Botelho



sábado, 8 de março de 2014