O Le Nouvel Observateur desta semana publica uma breve, mas preciosa
entrevista com Christiane Taubira***, ministra da justiça do actual governo
francês.
Natural de Caiene,
capital de Guiana francesa, mulher de cor negra, tem sido objecto de insultos
racistas vindos não apenas do partido de ultradireita, o FN, Front National,
mas também de militantes e deputados do UMP, União para um Movimento Popular,
partido de centro direita.
E vou transcrever e
comentar algumas passagens dessa entrevista; as afirmações de Taubira são em
itálico:
“…incontestavelmente, alguma coisa se passou nos últimos anos. As
inibições que impediam a palavra racista de se expressar diluíram-se. Os diques
desabaram. A palavra racista usa-se a rosto descoberto, no espaço público, tranquilamente
e, às vezes, a rir.”
Incontestavelmente -por
toda a parte.
Triste, muito triste, e
grave, que se deva escrever: pela Europa fora.
Pela Europa, onde
brotou o Renascimento; onde o povo se levantou contra o racismo social -e penso na Revolução Francesa; onde aconteceu o
Iluminismo.
Trata-se de alterofobia
-de recusa do Outro, do Diferente?
Sim -o que significa
Medo: medo do Outro, medo que ele venha alterar o nosso modo de estar, mesmo
que esse modo de estar seja de miséria.
Trata-se de um
retrocesso?
Sim, mas não só:
reaparecem o nazismo, o fascimo cujo assento era o racismo e levou ao
holocausto, que queimou seis milhões de judeus, centenas de milhares de
ciganos, centenas de homossexuais -porque eles eram Outros.
Uma afirmação de força?
Defesa da própria identidade?
Não: manifestação de
covardia, insegurança… medo.
A superioridade da “raça ariana” e o missionarismo fascista cevaram
os seus medos e ódios no assassínio dos mais fracos e indefesos.
Defesa da identidade de um país?
“O
destino comum é a nação [Taubira refere-se à França, o que
não impede que aquilo que diz sirva para qualquer país], desde a Festa da Federação de 14 de Julho de 1790****. Renan alterou o
seu fio de reflexões: compreendeu que a nação não é um grupo étnico mas sim uma
comunidade cívica, ligada por um destino comum.”
E cada vez mais assim
será, agora que o movimento migratório é imparável e, por exemplo, na referida
França, e apenas em três gerações, 25% dos cidadãos têm ascendentes
estrangeiros.
Diga-se -não de
passagem mas sim para que não o esqueçamos- que a identidade portuguesa compreende, além do que nos trouxeram
fenícios, romanos, merovíngios, etc., etc., sangue árabe, judaico, africano.
A identidade,
a
comunidade cívica resulta de encontros, diálogos, partilhas, comunhões.
“A
resposta ao mal-estar da identidade francesa [isto é: das identidades que se agarram ao racismo e
à sua prática, com MEDO e AVAREZA] é,
pois, lembrar aos cidadãos de onde vêm e perguntar-lhes qual a história que
querem viver juntos (…) começar a compreender que é juntos que deverão construir
um futuro comum.”
Essa é a Estrada Real,
o caminho certo, a atitude frutuosa.
***http://fr.wikipedia.org/wiki/Christiane_Taubira
****http://pt.wikipedia.org/wiki/Festa_da_Federa%C3%A7%C3%A3o

O respeito pelos outros é a base da convivência! Independentemente da cor, raça, religião. Isso deve ser válido para todos.
ResponderEliminarUm beijinho e bom domingo
Gostei! É importante:
ResponderEliminar"lembrar aos cidadãos de onde vêm e perguntar-lhes qual a história que querem viver juntos (…) começar a compreender que é juntos que deverão construir um futuro comum.”
Porque se não não há futuro para ninguém....
Isabel, e tão pouco se respeita! Um abraço grande!
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