segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Os anjos no trapézio

'O beijo", 1907-8, de Gustav Klimt



Sessenta anos depois, talvez se encontre, nas livrarias, a reedição de um dos poemas de amor mais belos da Literatura Portuguesa: “Corpo Visível”, de Mário Cesariny de Vasconcelos (Assírio & Alvim/ Fundação Cupertino de Miranda). E digo talvez porque a tiragem limitou-se a mil exemplares e, caso os portugueses ainda apreciem a Literatura de qualidade, já se terá esgotado.


O domínio do mercado por grandes grupos que impõem literatura de cordel favorece os que não repararam no acontecimento (é um acontecimento, jóia excelentemente apresentada). A pacotilha distrai as atenções.


Corpo Visível” (1950) reaparece, com a força que fez dele um dos grandes poemas da nossa literatura.


O poeta e o seu comparsa, “miséria deste tempo”, amam-se no fio da navalha. “Entre os blocos de prédios enevoados a bela mancha/ diurna dos calceteiros na praça/ e os dois amantes que não dormiram vão partir nos barcos da/ sua estrela”. Jogam coração e alma porque “A vida inteira Meu Amor/ SOMOS NÓS”.


E é no limite do precário, na selva, “na horrível sala dos passos perdidos”, que tudo se joga.


Livres/ digo Livres/ e isso é não só a grande rua sem fim por onde vamos/ (...) mas é também as chamas que acendemos na terra”.


Buscam-se no “amor da grande solidão povoada de pequenas figuras cintilantes”. Fogem ao “Homem Sufocado”. Recusam a vulgaridade do coração, em que morremos, hoje.


Conscientes, porém: “somos a multidão a que eu chamo/ o homem e a mulher de todos os tempos áridos/ e como sempre não há lugar para nós nesta cidade”.


Mas não desistem: “Contra ele meu amor/ a sombra que fazemos/ no aqueduto do meu peito O MAR”.


O tudo ou nada.


publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 27/o2/11

domingo, 20 de fevereiro de 2011

E torno aos lugares que amo e onde abri os olhos para a vida...





Guarda: a Sé e uma das faces da Praça Velha



Hoje, daqui a pouco, regresso às origens.


Volto ao “alto monte na sagrada Beira”: à Guarda, à minha pátria, meu ponto cardeal.


Ao encontro das raízes e do calor da amizade.

E, durante uma semana, por lá andarei, à busca dos lugares santos da minha paixão.


Vou reencontrar a alegria.


Até já, amigos, depois, vos conto...

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Veneza: as impressões indeléveis ou as fidelidades do holandês voador

San Giogio Maggiore, Veneza, 1908, de Claude Monet



“Ontem, a BBC transmitiu um documentário sobre Veneza e, às primeiras imagens, murmurei: “sono a casa" ["estou em casa"]...


Veneza... Lorenza, Mirella, O Pássaro de Vidro...


A Mulher Nua... Os Amantes Voluntários...

Os meses, quase anos, lá vividos...

À noite, no Inverno, a Piazzetta deserta.


O ângulo, o canto do Harry’s Bar e as contessine, Paola e Mónica, rostos de Renoir, esplêndidas na adolescência voraz, impensada e alegre. O americano gordo, a perguntar-me onde as descobrira, onde fora buscá-las...


Il Calice, onde me juntava com Aldo e Giogio Trentin, para o aperitivo do meio-dia...

As osterie...

La vedova, Due Mori, Il Paradiso Perduto...


O Carlos Soares e a amante francesa. O grande Aldo Zari, o pintor mais pobre de Veneza, aventureiro das mãos de oiro.


Luciana Piai e La Fenice, quando fomos ver Marcel Marceau..,. ela com a chapéu à manzzantini e a capa cor de sangue, os olhos azuis-mar...


A laguna. Burano e as casas pintadas, o quadro de Moggioli, que retratava a avó do proprietário da pastelaria onde íamos admirá-lo... Valerio Zurlini, que aparecia, no Outono, metido consigo, de acordo com o filme, em que andava a pensar: Il deserto dei Tartari...


O copo de vinho que bebíamos, juntos, no Da Romano...

Catherine Donner, a amiga de Namur.


Há tantos anos! Foi ontem? Volta a ser hoje, agora, aqui. Comigo.”


publicado neste blog, em 29 de Julho de 2009

Gatsby bué de fixe

Capa da 1ª edição, 1925


Traduzir é trair, denunciam, desde o tempo da Maria Cachucha. E tinha razão quem assim falava.

Chega-nos de França uma notícia alarmante: narra o “le Nouvel Observateur” as desventuras de um dos melhores romances de Francis Scott Fitzgerald -"The Great Gatsby"-, agora publicado na Garnier-Flammarion, cuja tradução se deve a Julie Wolkenstein.

A intérprete, identificada como tradutora, abre a modificar o título: de “The Great Gatsby”, passa a “Gatsby”. E explica: “Fitzgerald referiu-se sempre ao romance nesses termos, donde se conclui que era o que preferia”. Depois, no final, interpreta a conhecidíssima frase “son of a bitch” (“filho da ...”) e põe “enfoiré” (“inútil”).

Corrige e actualiza, diz ela, duas traduções, de 1945 e de 1976.

E imagino-a que pergunta a Fitzgerald: “Não achas bem, ó meu?” E ele a responder: “Uauu!

O magazine vai mais longe: noticia uma edição nos USA, das celebérrimas “Adventures of Huckleberry Finn”, de Mark Twain, em que se substitui a palavra, “nigger”, usada 219 vezes e considerada pejorativa, por “slave”, “politicamente correcta”.

Surgiu aí um “acordo ortográfico” cuja entrada em vigor há-de fazer estragos nos nossos escritores –e não só clássicos: de hoje. Muito de irresponsável politicamente correcto assistiu ao disparate que irá reflectir-se nas traduções em português e, de que maneira!, na prosa do cidadão comum.

Sabemos que as tivemos péssimas e fomos obrigados a ler, entre outros, um Dostoievski resumido e inqualificável. Essa “liberalidade” justificavam-na os tradutores com os pagamentos indecentes recebidos. Teriam razão. Mas traduzir é uma arte. E cito dois poetas, dois grandes, exemplares tradutores: Cabral do Nascimento e Pedro Tamen.
publicado na Página de Cultura de Jornal de Notícias, de 20/02/11, aqui retocado

A alegria de viver

André Gide (1869-1951)




Gide morreu há sessenta anos. Do “Journal”, transcrevo: “Não creio a morte difícil para aqueles que tenham amado a vida. Pelo contrário...”


Pierre Lepape, conclui a biografia -uma das muitas biografias que se escreveram- “André Gide, Le messager” (Seuil, 1997), assim: “O túmulo de Gide está nu. A pedra partiu-se num dos ângulos. Amarelida, gasta, comida pelo musgo. Adivinha-se a inscrição -André Gide 1869-1951-, quase já ilegível e destinada a desaparecer.” Interroga-se: “uma homenagem da vida”?


Talvez: a homenagem justa, porque a amou intensamente e sabia que era no momento e ali que ela se deveria e poderia possuir e gozar.


No fabuloso “Les Nourritures Terrestres”, Gide escreveu: “O mais pequeno instante da vida é mais forte do que a morte e nega-a”.


E, adiante: “Nataniel ensinar-te-ei o fervor”.


Agarrar o instante, cumprir a obrigação da alegria.


“À medida que se reduz o meu tempo de vida, cada vez menos suporto o tédio”, anotou. Depois, e por isso, era-lhe indiferente sobreviver em efígie ou que lhe cuidassem do túmulo.


E com razão: quem quiser encontrá-lo que o procure na obra.


Entretanto, cabia-lhe interpelar a vida: “Não passa um dia em que não me volte a interrogar sobre tudo”.


Foi um grande libertador, um grande inquietador. Em “Ainsi-soit-il”, livro póstumo, meditação final, avisa: “alguns procuram e não sabem no que se fiar; a esses digo: acreditem nos que procuram, duvidem dos que encontram; duvidem de tudo mas nunca duvidem de vós próprios”.


E, a seis meses da morte, escreveu, no “Journal”: “Acredito no mundo espiritual e tudo o resto não me diz nada. Mas esse mundo espiritual, penso que existe, apenas, através de nós, em nós; que depende do suporte que lhe dá o nosso corpo”.


E da alma: “Sim, acredito na alma. Acredito nela como na luz do fósforo. Mas não posso imaginar a luz do fósforo sem a madeira que a produz”.


Era um homem da Terra, que desvendava o sentido das coisas da terra e, nelas, surpreendia o sinal da eternidade.


Marcou gerações. E, solto do limbo, ressuscita. Ouvi, em Veneza, nos finais de 70, a Sartre (que tanto o criticou): “A verdade é que Gide é quem tinha razão!”



publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias, 19/02/11 (aqui, ligeiramente retocado)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

De Afonso Duarte para Aldo Zari

'Veneza ao pôr do sol', 1908, óleo de Claude Monet



Se eu pudesse e se Aldo Zari não andasse já por outros mundos, ainda que ainda neste, e não estivesse em Veneza, algures em Cannaregio, suspenso da vida, a apagar-se em morfina, confiava-lhe, de Afonso Duarte, os versos:

'Não temas: Na paz dos mortos
É a terra de ninguém.
Olha às almas, não aos corpos
E, além de nós, outro além.
(Só na terra da verdade
No tempo da eternidade,
Onde a terra é de ninguém).'

in Canto de Morte e Amor, 1952

Um pintor cuja grandeza muito provavelmente não lhe chegará a ser reconhecida em vida

Óleo, 2010, de Aldo Zari que luta com a morte num hospital de Veneza

Mr. Chips, exemplo de professor humano e integralmente (porque era um homem íntegro) responsável não roubaria a ningém o ganho com o suor do rosto

O mítico Professor Mr. Chips, do romance de James Hilton, que fez chorar milhões de leitores...


Julgo necessário acrescentar o seguinte ao meu post anterior:


o mail que me chegou trazia um texto a citar suposta expressão de Miguel de Sousa Tavares, “ofensiva” da classe dos professores, e, assim, justificar... o roubo.


Obviamente, esse texto não vinha assinado, ninguém se responsabilizava pelo escrito.


Nunca li esse artigo, para mim, fantasma, de MST.


A única verdade do mail é que, em anexo, qualquer um poderia ler de borla os três livros de MST que referi.


Ainda que fosse autêntica a crítica–que eu desconheço- de MST e ofendesse a classe dos professores, tenho a certeza do seguinte:


nenhum professor responderia a MST com a vingança baixíssima de lhe roubar os direitos de autor.


E tenho a essa certeza porque os professores são uma classe que eu admiro muitíssimo, estimo muitíssimo, respeito muitíssimo –e à qual devo muitíssimo.


Recordo, na foto acima, Mr. Chips, herói da minha adolescência.


Recordo, aqui, o mítico Mr. Chips, que me fez chorar, a mim e a milhões de leitores do romance de James Hilton e de espectadores dos filmes que o eternizaram na celulóide, por uma razão:

esse homem honesto, generoso, respeitador dos outros por se respeitar a si próprio, recusaria uma atitude talmente vergonhosa como a do anónimo que se diz paladino de professores, a usurpar, em infame burla, um título completamente imerecido.

Miguel Sousa Tavares vítima de roubo miserável

Miguel Sousa Tavares trabalhou para escrever os seus livros e merece receber -como todos os escritores- os direitos de autor

Colocar três livros de Miguel Sousa Tavares, Rio das Flores, Não te deixarei morrer e Equador, na internet,
tornando-os de acesso e leitura gratuita,

como aconteceu e continua a acontecer,

é mais que abusivo:

É UM ROUBO!

É UM CASO DE POLÍCIA!

Entretanto, e enquanto a justiça não acabar com essa pouco vergonha, parece-me da mais elementar ética e honestidade recusar recebê-los, quando no-los fizerem chegar, via mail.

O escritor não deve nem pode estar sujeito a quadrilhas –porque já basta o que sofre, o suor que vê mal pago, depois de escrever e lutar pela própria publicação.
Roubar os direitos de autor é roubar, insultar e matar a Cultura.

O impasse da arte ou a pirueta inútil

in El País de 18/02/11

"-A originalidade repete-se muito.

Poema de Edmundo de Bettencourt (1999-1973)



Nebulosa


Certo passado o audaz sempre revive,
Apenas, sobe um céu menos escuro;
Quem vive para o futuro,
Já o vive!

Futuro!
Quando te posso ver, por ti, em plena aurora,
Condena-te a presença:
És este agora
Que eu possuo,
Como a abelha suga a rosa...
E sem que o resto me importe.

Mas, antes ou depois de ver-te ou pensar-te
É ver uma nebulosa,
-É como pensar na morte.

in O Momento e a Legenda

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Água pura

'Quatro choupos", 1891, Claude Monet




Quadra anónima

Tu chamas-me tua vida
Tua alma quero eu ser,
Que a vida morre com o corpo
E a alma eterna há de ser!




in As cem melhores poesia (líricas) da Língua Portuguesa, escolhidas por Carolina Michaëlis de Vasconcellos

Salve-se, do analfabetismo galopante, o mais que se puder

Aquilino Ribeiro (1885-1963)



Aldeia (1946), de Aquilino Ribeiro, é uma das obras-primas da Literatura Portuguesa.


Leio Mestre Aquilino, como quem respira ar puro e com um prazer físico, carnal, de me chegar à língua portuguesa, vítima da incultura e da vulgaridade.


Anda por aí um acordo ortográfico, desastre anunciado pela imbecilização dos poderes e de algumas das universidades.


Hoje, manhãzinha, e antes que seja tarde e caia a foice editorial nos livros, abri, mais uma vez, Aquilino e deliciei-me.

Aqui te trago, enquanto é tempo, os três primeiros parágrafos de Aldeia, obra admirável , a sangrar de sangue e a brilhar em poesia nossos:



“Para a aldeia serrana a história reduz-se a duas partes como para o mundo de Deus se reduz a Velho e Novo Testamento. Idade Média falta. A estrada, o simpático e já obsoleto macadame é a sua linha fenomenal, acontecimento tão decisivo como a descoberta do caminho Marítimo para a Índia.

Antes da estrada que ligou a vila à aldeia e, por tabela, à capital do país e às capitais da Europa, o que sucedeu há menos de meio século, a aldeia estava mais perto da citânia que dum aglomerado rústico que se preze. As casas eram parentas próximas da orca, sem frestas, sem chaminé, com portal baixo, piso térreo, colmadas umas, cobertas outras a telha mourisca, sucedânea da tegula, cujos destroços a cada passo vêm á enxada do escavador de antiguidades. A sua armação era tudo o que há de mais primitivo: um carvalho deitado sobre o vértice das duas empenas; sobre essa trave vinham articular-se os caibros, que por sua vez ofereciam apoio às latas do telhado ou ao escama-peixe. Como pregos, tornos de madeira.

O fumo vadiava pelo interior, repulsado pelo caniço, sobrecéu de ripas em que as castanhas secavam e pilavam e o enchido de porco, distribuído em salpicões, chouriços, moiros, murcelas, se tornava o fumeiro lambe-se-lhe-os-beiços, de sabor imortal. Terra de soutos, semelhante aparato era o que o espigueiro é no Minho, região do Milho.”

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Soneto de Jorge de Sena

Detalhe do tecto da Capela Sistina, de Miguel Angelo


“Como de Vós...”

Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo
mesmo no mal que consentis que eu faça
por ser-Vos indiferente ou não ser mal,
ou ser convosco um bem que eu não conheço,

Importa pouco ou nada que em Vós creia,
que Vos invente ou não a fé que eu tenha,
que a própria fé não prove que existis,
ou que existir não seja a Vossa essência.

Não de existir sois feito, e também não
de ser pensado por quem só confia
em quem lhe fale, em quem o escute ou veja.

Humildemente sei que em Vós confio,
e mesmo isto o sei pouco ou quase esqueço,
pois que de Vós, meu Deus, me fio em tudo.

in Na Mão de Deus, Antologia de Poesia Religiosa Portuguesa, organizada por José Régio e Alberto de Serpa (Portugália Editora, 1958)

Madoff e a Banca foram compinchas?

Bernard Madoff, entre dois polícias





Wall Street



From Prison, Madoff Says Banks ‘Had to Know’ of Fraud


por Diana B. Henriques


Bernard L. Madoff said he never thought the collapse of his Ponzi scheme would cause the sort of destruction that has befallen his family.
In his first interview for publication since his arrest in December 2008, Mr. Madoff — looking noticeably thinner and rumpled in khaki prison garb — maintained that family members knew nothing about his crimes.

But during a private two-hour interview in a visitor room here on Tuesday, and in earlier e-mail exchanges, he asserted that unidentified banks and hedge funds were somehow “complicit” in his elaborate fraud, an about-face from earlier claims that he was the only person involved.


Mr. Madoff, who is serving a 150-year sentence, seemed frail and a bit agitated compared with the stoic calm he maintained before his incarceration in 2009, perhaps burdened by sadness over the suicide of his son Mark in December.


Besides that loss, his family also has faced stacks of lawsuits, the potential forfeiture of most of their assets, and relentless public suspicion and enmity that cut Mr. Madoff and his wife Ruth off from their children.


In many ways, however, Mr. Madoff seemed unchanged. He spoke with great intensity and fluency about his dealings with various banks and hedge funds, pointing to their “willful blindness” and their failure to examine discrepancies between his regulatory filings and other information available to them.


“They had to know,” Mr. Madoff said. “But the attitude was sort of, ‘If you’re doing something wrong, we don’t want to know.’ ”


While he acknowledged his guilt in the interview and said nothing could excuse his crimes, he focused his comments laserlike on the big investors and giant institutions he dealt with, not on the financial pain he caused thousands of his more modest investors. In an e-mail written on Jan. 13, he observed that many long-term clients made more in legitimate profits from him in the years before the fraud than they could have elsewhere. “I would have loved for them to not lose anything, but that was a risk they were well aware of by investing in the market,” he wrote.


Mr. Madoff said he was startled to learn about some of the e-mails and messages raising doubts about his results — now emerging in lawsuits — that bankers were passing around before his scheme collapsed.


“I’m reading more now about how suspicious they were than I ever realized at the time,” he said with a faint smile.


He did not assert that any specific bank or fund knew about or was an accomplice in his Ponzi scheme, which lasted at least 16 years and consumed about $20 billion in lost cash and almost $65 billion in paper wealth. Rather, he cited a failure to conduct normal scrutiny.


Both the interview and the e-mail correspondence were conducted as part of this reporter’s research for a coming book on the Madoff scandal, “The Wizard of Lies: Bernie Madoff and the Death of Trust,” for publication this spring by Times Books, a division of Henry Holt & Company.


In the interview and e-mails, he also claimed he had been helping the court-appointed trustee who is seeking to recover lost billions on behalf of his swindled clients. In e-mails, Mr. Madoff said repeatedly that he provided useful information to Irving H. Picard, the trustee trying to recover assets for the fraud victims. He met with Mr. Picard’s team over four days last summer, he said. The e-mails were written in December and January, but he only recently agreed that they could be made public.


In prison, Mr. Madoff’s access to the outside world is both limited and monitored. All visitors must be approved by prison authorities, who also screen his limited collect calls and his incoming and outgoing e-mails and letters, though interviews with lawyers like Mr. Picard and his colleagues are less restricted and can be conducted in private.


Asked about his cell, he described a room about 12 feet square with a big window looking out on the grounds; he said he had a roommate, the second since he arrived at the prison.


It was clear from the e-mails and interview here that Mr. Madoff closely followed news related to his case in December, the second anniversary of his arrest. He lashed out at what he called some of the “disgraceful” coverage of the suicide of his son Mark on Dec. 11.


Disputing reports that he refused to attend any funeral services for Mark, he said the prison informed him it would not approve a request for him to attend a service because of “the public safety issue” and the limited time available to make arrangements. He concluded any funeral he attended “would be a media circus” and that it “would be cruel to my family” to put them through that, he wrote on Dec. 29.


Regarding his meetings with Mr. Picard’s legal team, Mr. Madoff asserted in an e-mail written on Dec. 19 that he had given Mr. Picard’s legal team “information I knew would be instrumental in recovering assets from those people complicit in the mess I put myself into.”


In a message 10 days later, he was even more explicit about what he told the trustee: “I am saying that the banks and funds were complicit in one form or another and my information to Picard when he was here established this.”


Mr. Madoff’s claims must be weighed against his tenuous credibility. After deceiving federal regulators and supposedly sophisticated investors for at least 16 years, he would certainly be branded as a liar by defense lawyers if he appeared as a witness against any defendant in a courtroom — a fact he acknowledged somewhat ruefully during the interview on Tuesday.


Despite his many references to the complicity of others, he acknowledged in the Dec. 19 e-mail that he had not shared his information with the federal prosecutors working on criminal cases related to his fraud — although the trustee most likely would have done so, if Mr. Madoff’s information was relevant to the investigation.
Mr. Madoff wrote in an e-mail that while he was willing “from the beginning” to give prosecutors information “to help recover assets only, I refused to help provide them with criminal evidence.” In the interview he declined to discuss any of the criminal cases under investigation.


In the months after the Picard team’s prison interviews, the trustee’s law firm, Baker & Hostetler, filed hundreds of civil lawsuits seeking approximately $90 billion in damages and fictional profits withdrawn from Mr. Madoff’s scheme over the years. The defendants in those cases included the Wilpon family, the owners of the New York Mets; JPMorgan Chase, which served for decades as Mr. Madoff’s primary banker; and Sonja Kohn, the Viennese financier at the hub of a network of hedge funds that invested heavily with Mr. Madoff.


Mr. Madoff said about Fred Wilpon and Saul Katz, Mr. Wilpon’s brother-in-law and business partner: “They knew nothing. They knew nothing.”


There was no obvious sign that any of those lawsuits were based on evidence or guidance from Mr. Madoff. All the defendants have said they had no knowledge of the fraud and have denied the trustee’s claims that, as financially sophisticated investors, they should have been suspicious from the beginning.


Mr. Picard declined to comment on whether his team had interviewed Mr. Madoff and would not say whether information from him had contributed to the vast body of litigation filed since last summer.


In some e-mails, Mr. Madoff conceded that Mr. Picard’s team conducted its own investigation into the withdrawals made by some big clients, in the years before the Ponzi scheme collapsed, to determine who might have known what and when. Such withdrawals could indicate that investors could have been aware of the fraud, which could increase their liability.


However, Mr. Madoff added, “the facts are that I alone was present at certain meetings with these clients.”


To date, none of the major banks or hedge funds that did business with Mr. Madoff have been accused by federal prosecutors of knowingly investing in his Ponzi scheme. However, Mr. Picard in civil lawsuits has asserted that executives at some banks expressed suspicions for years, yet continued to do business with Mr. Madoff and steer their clients’ money into his hands.


All the financial entities facing civil lawsuits by Madoff victims and Mr. Picard have denied they had any knowledge of the fraud.


In a related e-mail on Jan. 12, Mr. Madoff cited out-of-court settlements that some banks and funds had negotiated with private Madoff investors over the last two years and claimed some settlements were made “to keep me quiet” about the role the institutions played in “creating my situation” and about the identity of the beneficial owners of some of their private accounts.


Mr. Picard has already recovered roughly $10 billion through asset sales and settlements with several foreign banks and a few significant Madoff clients, including the estate of a private investor, Jeffry Picower, and the family of Carl Shapiro, a philanthropist in Palm Beach, Fla.


While the Picower settlement had been under negotiation since at least the fall of 2009, the settlements with the Shapiro family and a Swiss bank, Union Bancaire Privée, both came after Mr. Picard’s trip to the prison here in Butner. But because both settlements came before Mr. Picard had filed any public claims in court, it is unclear whether information from Mr. Madoff was a factor in those settlement talks.
Neither Mr. Shapiro nor the Swiss bank has been accused of any complicity in Mr. Madoff’s crimes, and Mr. Picard has publicly acknowledged their good-faith cooperation with his inquiries when he announced the settlement agreements, which totaled more than $1 billion.


The only people formally charged with complicity in Mr. Madoff’s crime are his former auditor and members of his own staff.


Although Mr. Madoff swore in court that he had carried out his elaborate fraud on his own, his accountant, David H. Friehling, and Mr. Madoff’s senior lieutenant, Frank DiPascali, have pleaded guilty and are cooperating with prosecutors. Five other former Madoff employees have been indicted; they have asserted their innocence and are awaiting trial.


While Mr. Madoff said he was determined to aid the trustee’s efforts to recover assets, he was also critical of the trustee’s reach, claiming that Mr. Picard was seeking far more money than was needed to resolve valid investor claims.


In addition to the customer claims for the cash losses and the paper wealth that vanished, the Madoff estate also faces claims by general creditors, like unpaid vendors and landlords, who cannot recover until all the valid customer claims are paid.


Mr. Madoff argued in several e-mails that Mr. Picard’s responsibility was to return only the $20 billion in out-of-pocket cash that investors lost in his scheme.


Given that Mr. Picard has already recovered roughly $10 billion, Mr. Madoff calculated that the lawsuits against major banks and hedge funds would produce more than enough to cover the rest of the cash losses without Mr. Picard having to pursue “clawback” litigation against some longtime investors who withdrew more from their accounts than they put.

transcrito, com a devida vénia, de The New York Times, 16/02/11

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O regresso à chapelada eleitoral





A "chapelada" era, nos velhos tempos, chegar-se um cacique, ou seu apaniguado, à urna e despejar lá o quantum satis, o bastante, para palmar as eleições... e, ao que parece, vamos a caminho de reinstalar o sistema..., acompanhando-o do apagamento de nomes inseguros que constem das listas...



Computador de costas largas


por Manuel António Pina

Embora a coisa já vá sendo uma tradição entre nós, não deixa de ser estranho, por isso mesmo, que continue a não dar a letra dos números dos eleitores e dos votos com a careta do apuramento final dos resultados eleitorais, de tal forma que os das recentes "presidenciais" acabaram aprovados na Comissão Nacional de Eleições (CNE) com 2 votos contra, 2 a favor, 2 abstenções e com... o voto de qualidade contrariado do presidente para não "prejudicar a data de tomada de posse" de Cavaco Silva.

Parece que a CNE fez as contas e encontrou "resultados errados grosseiramente" e "irregularidades inaceitáveis". Entre elas o "desaparecimento" misterioso de 113 247 eleitores e de 60 448 votos. Conta José Vítor Cavaco, da CNE, que só em Setúbal, e a título de exemplo, terão "desaparecido" "cerca de 120 mil eleitores e cerca de 60 mil votos"; por sua vez, em Viseu "apareceram", vindos do nada, mais 40 mil eleitores e mais 20 mil votos.

O que valeu desta vez foi que a diferença de votos de Cavaco para o segundo classificado foi tão grande que, mais voto menos voto (no caso, mais uma centena de milhar deles ou menos uma centena de milhar deles) não aquece nem arrefece. E quanto a coisa for mais renhida? Chegará atirar as culpas para cima do computador do MAI? Não será melhor ir, desde já, solicitando observadores internacionais (equipados com computadores minimamente fiáveis) ao Togo ou ao Burkina Faso?


transcrito, com a devida vénia, do Jornal de Notícias de 16/02/11

Não há nada para ninguém: a pobreza e a fome

Esta fotografia não é uma montagem, esta criança existe, este abutre não foi inventado. Isto é uma cena de fome. Olha para ela. Não a esqueças. Todos os dias.





O Banco Mundial informa que, desde Junho de 2010 até hoje, o número de pobres, no mundo, aumentou 44 milhões.


Uma das razões é o rareamento e aumento de preço dos alimentos e, obviamente, da especulação em volta desses.



O Banco Mundial informa, também, que há cerca de um bilião de pessoas com fome, no mundo, 60 % das quais mulheres.



E informa que 1/3 da morte de crianças, no mundo, se deve à fome.



Desde Junho de 2010, diz o Banco Mundial, apareceram mais 44 milhões de pobres, neste mundo...



Porquê?



Quantos milhões desses 44 milhões passarão a pobres irreversíveis, fixos, efectivos?



Quem é que come e quem é que não come?



Por que não comem todos?



Por que não têm fome todos?



Por que tantos milhões caíram e caem na pobreza e alguns não caíram nem irão cair na pobreza nem sofrer a fome?



Eis as perguntas que aqui deixo.



Avisando que rejeito, indignado, enojado, revoltado, as velhas frases:






“Sempre houve pobres”



e: “Tenha paciência”, usadas



quer para se auto-justificar o indivíduo desinteressado do destino do próximo,



quer para passar adiante do mendigo e esquecê-lo.

Abre o link:



La vera Itália

Piazza Navona, Roma, a Itália sem Berlusconi

'Doutor Jivago': um romance sempre actual

Lara (Julie Christie) e Jivago (Omar Sharif), no filme 'Doutor Jivago', de David Lean



Li o Doutor Jivago, de Boris Pasternak, quando apareceu no ocidente, isto é, nos idos de 1958.


Regressava de Paris, onde fora pela primeira vez, no célebre Sudexpress, que demorava quase 48 horas, de cá para lá e vice-versa.



Comprara a tradução francesa e ia lendo e recordo a expressão de censura de um padre espanhol, meu vizinho no compartimento, a reprovar-me a heresia de espreitar um autor russo, para ele, com certeza, “rojo”, vermelho, comunista...



E, ao correr das teclas, lembro esta enormidade salazarista: nos tempos do homem das botas, aos jogadores do Benfica não se podia chamar “vermelhos”, tinha de ser “encarnados” (e creio que a mesquinhice pegou)...



Doutor Jivago é, a meus olhos, um dos romances importantes do século XX.



Acontece-me reabri-lo e aqui deixo esta passagem, bem actual, em que Jivago descreve os dias passados, na granja isolada de Varikino, com Lara:



“Mais ainda que a comunidade de alma, unia-os o abismo que os separava do resto do mundo. Ambos sentiam a mesma aversão por tudo aquilo que o homem contemporâneo tem de fatalmente típico: o entusiasmo do comando, a ênfase espectacular e a mortal carência de largueza de espírito, que espalham tantos homens das ciências e das artes –conseguindo, assim, que o génio continue a ser uma coisa rara”.



Lara e Jivago recusavam o colectivismo castrador, o pensamento único, o racionalismo aleijado, que reduz a iniciativa do indivíduo.



A ditadura soviética acabou.



Ei-la substituída pela ditadura neo-capitalista, que nos condena à condição de novos escravos, a cães de Pavlov, a salivar quando tocam as campainhas.

Políticos acordam estremunhados e aborrecidos, vagamente inquietos, bocejando...

Foto do alarmante espectáculo, pedida 'emprestada' ao Público


"Audição de Politicas de Juventude
Canção do grupo Deolinda chegou ao Parlamento"


título do Público de hoje


Eis a letra revolucionária, que alvoroçou a nossa bem conhecida ex-ministra Lurdes (membro da famosa firma, Lurdes & Lemos & Pedreira, Sociedade de Irresponsabilidade Ilimitada, fundador, com os sócios, do PAC, Processo de Analfabetização em Curso) e inquieta os sentados na Assembleia da República:


"Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.

Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,

já é uma sorte eu poder estagiar.

Que parva que eu sou!

E fico a pensar,

que mundo tão parvo

onde para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração ‘casinha dos pais’,

se já tenho tudo, pra quê querer mais?

Que parva que eu sou!

Filhos, marido, estou sempre a adiar

e ainda me falta o carro pagar,

Que parva que eu sou!

E fico a pensarque mundo tão parvo

onde para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração ‘vou queixar-me pra quê?

’Há alguém bem pior do que eu na TV.

Que parva que eu sou!

Sou da geração ‘eu já não posso mais!’

que esta situação dura há tempo demais

E parva não sou!

E fico a pensar,

que mundo tão parvo

onde para ser escravo é preciso estudar."



Será que o governo e os deputados da nação irão, contrariados já se sabe, finalmente olhar e pesar o estado desgraçado a que deixaram chegar a nação?

Poesia de um daqueles que nem sempre são poetas menores e atingem a transparência da beleza

'Menina da boina verde', 1930, óleo de MIlly Possoz (1888-1967)


No túmulo duma criança

Era perfeitamente um passarinho
Esbelto, saltarico e cantador...

Acolhe-o com carinho
Recebe-a com amor
E sê-lhe levezinha, ó terra mãe!
Pois que tão leve ela te foi também...


Augusto Gil
in Rosas da Manhã

Van Gogh perde a cor

'Margem do rio Sena', 1887: ao centro, tal qual o quadro se apresenta, hoje; à esquerda: aspecto original; à direita como ficará em 2050




El amarillo de Van Gogh se reduce

por Malen Ruiz de Elvira


Los rayos X descubren la compleja reacción química que degrada los brillantes colores del genio holandés y abren una vía para evitarlo


El brillante amarillo de los cuadros de Van Gogh ya no es tan brillante como cuando los pintó y vira a marrón. Esta preocupante degradación, que afecta a otros colores y otros artistas de finales del siglo XIX, se debe a una compleja reacción química, que han conseguido detectar en un esfuerzo conjunto varios laboratorios europeos, incluyendo el gran sincrotrón de Grenoble (ESRF).

Pequeñísimas muestras de pintura analizadas por científicos de cuatro países han confirmado el proceso, que abre la vía a posibles medidas para evitarlo, como la protección de la luz solar y los rayos ultravioleta. Los resultados se publican en Analytical Chemistry .

Como en una historia de investigación forense, los científicos emplearon un haz microscópico de rayos X para revelar la reacción química, que tiene lugar en una capa finísima, donde coinciden la pintura y el barniz de la superficie. La luz del sol solo puede penetrar unos pocos micrómetros en la pintura, pero en esta cortísima distancia es capaz de disparar una reacción hasta ahora desconocida que convierte el amarillo de cromo en pigmentos marrones.

La decisión de Van Gogh de utilizar nuevos colores brillantes en sus lienzos se considera un hito en la historia del arte, señalan los científicos. Eligió deliberadamente colores para manifestar emociones y estados de ánimo, y no lo hubiera podido hacer sin la innovación en la fabricación de pigmentos industriales que tuvo lugar en el siglo XIX.

Aunque se sabe desde ese siglo que la pintura amarillo cromo se oscurece bajo el efecto de la luz del sol, no todas las pinturas de esa época están afectadas y el proceso no va siempre a la misma velocidad. Dada su toxicidad, los artistas se cambiaron a otras alternativas en los años cincuenta del siglo XX.

Para resolver el rompecabezas químico, el equipo dirigido por Koen Janssens utilizó primero en los análisis muestras de tubos de pintura antiguos, que envejeció artificialmente sometiéndolas durante 500 horas a luz ultravioleta. Solo una muestra, del pintor Rik Wouters (1882-1913), se oscureció significativamente, y esta fue la que se analizó con rayos X. Se encontró que el fenómeno es una reducción del cromo, que pasa de cromo VI a cromo III.

En la segunda etapa se utilizaron muestras de dos cuadros de Van Gogh, Vista de Arles con lirios (1888) y Ribera del Sena (1887), que están en el museo del artista en Amsterdam . Se efectuaron numerosos análisis en varios laboratorios europeos, incluidos los sincrotrones ESRF y DESY, y la conclusión es que se ha producido este fenómeno en los dos cuadros.

Los rayos X mostraron también que el cromo III está presente en mayor medida cuando también hay compuestos con bario y azufre. Esto indica que la técnica de Van Gogh de mezclar pintura blanca y amarilla puede ser la causa del oscurecimiento de su amarillo.

Los últimos experimentos mostraron que los nuevos compuestos de cromo III forman una capa de espesor nanométrico sobre las partículas de pigmento de la pintura.

transcrito, com a devida vénia, de El País, 14/02/11

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Uma pintora portuguesa

'Menina na praia', s.d., óleo de Ofélia Marques (1902-1952), Centro de Arte Moderna

A cor da acácia vermelha



Em Portugal as acácias são amarelas, esta é tingida da cor do sangue? Ou é apenas do sol africano?”, pergunta-me a amiga Ana, no seu comentário ao meu post anterior.


É à acácia vermelha, à acácia-rubra, que me refiro.

À Delonix regia..., também chamada "flor do paraíso", "chama da floresta" e... acácia-rubra.


Destacava-se, no jardim da nossa casa de São Tomé.


Antes de ter escrito o contarelo, já me impusera o nome.


A delicadeza da acácia-rubra, que tem, na forma e na cor, a elegância e a beleza secreta de uma jovem mulher, ligava-se, dentro de mim, a Ednilza, e nunca as separei.


A acácia-rubra tem o sol de África e o sangue e a poesia africanas.


Tem a aristocracia e a generosidade doce da mulher africana.

Sobre 'A Acácia Vermelha', que estreia para a semana, no TMG




Mensagem à amiga Redonda, publicada neste blog:



"Esse contarelo -e uso o termo em elogio à grande Irene Lisboa, que o usou, também, num belo livrinho, ‘13 Contarelos’- ‘A Acácia Vermelha’ germinou-me dentro, durante os anos de África.


Os cinco anos que vivi, em São Tomé.


É uma história inventada, que ilustra um sentimento de perplexidade e revolta autêntico.


Da janela do meu gabinete de trabalho, no Centro Cultural Português, em São Tomé, cidade capital -assim lhe chamam os que lá vivem-, da janela que era toda uma parede, observei a passagem de centenas de alunos e alunas do liceu, alegres, confiantes, autênticos. Cheios de sonhos e ambições.


E doía-me saber que a vida deles não iria ser o que eles sonhavam, que lhes pesava sobre os ombros aquilo que ainda não haviam consciencializado: a tragédia africana.



África é um continente abandonado e aceito, pelos do primeiro mundo, como terceiro mundo a explorar: a sugar.


Eu vi o que nunca tinha visto: a injustiça, a brutalidade, a infâmia de existir o terceiro mundo. E a dificuldade que tem quem lá vive -o africano- em transformá-lo, recuperá-lo, salvá-lo.



E terceiro mundo quer dizer fome, vidas amputadas, fragilidade, humilhações e ofensas.



A Ednilza é um símbolo, o doutor, outro símbolo.



Ednilza é o passarinho de asas cortadas; o doutor é o europeu alheio à miséria, ao sofrimento do próximo, ao crime da indiferença e do neocolonialismo.



Que esse também eu observei.


O grande contraste que me chocou, em África -não conheci apenas São Tomé- está entre a pureza e a bondade do africano e a ganância desmesurada do europeu.



Como lhe disse, ‘A Acácia Vermelha’ cresceu cá dentro, foi-se impondo até que...



...até que, em Telavive -acabara de chegar a Israel-, num café da Ben-Yehuda, a escrevi de um jacto.



Depois, corrigi-a, tentei torná-la menos imperfeita.



O Valdemar Santos, há tempos, pediu-me que adaptasse ao teatro o contarelo –e, no dia 23 de Fevereiro, subirá à cena, no Teatro Municipal da Guarda [e será apresentada, no dia 3 de Março, no Teatro Sá da Bandeira, no Porto].



Mudou bastante ‘A Acácia Vermelha’, juntam-se, à Ednilza e ao doutor, outras personagens...



Mas o diamante que iluminou a nova versão do suicídio-assassínio de Ednilza, esse é o que a Redonda leu e, generosamente, apreciou."

Um quadro de Manuel d'Assumpção (1926-1969)

'Génesis I', 1958, Câmara Municipal de Matosinhos

Antero em soneto de Régio

Antero, por Columbano




O soneto junta duas personalidades extraordinárias: Santo Antero, que invoca, e José Régio, o autor.


A grandeza do primeiro reside na sinceridade da sua aventura e na coragem dela; também, na riqueza e profundidade de uma obra em carne viva, que encarna a tragédia do homem: a busca desesperada e necessária. Essencial e à beira do nada. Arrebatadora e absurda.


A unicidade do segundo está nos versos, na narrativa, no teatro, no ensaio, que partilham certos caminhos de Antero, os tais à beira do abismo, se destacam pela genialidade –e fazem de Régio o maior dos nossos escritores do século XX.




Foi publicado em 19 de Abril de 1942, no Correio dos Açores, e transcrevo-o de 16 Poemas não incluídos em Colheita da Tarde de José Régio, breve antologia, organizada por Alberto de Serpa, 1971, tiragem de 250 exemplares, “destinada a familiares, amigos íntimos, camaradas e admiradores provados do Poeta, além de, como é óbvio, ao depósito legal que salvaguarda a possibilidade de consulta a estudiosos”.




Antero


Formosura do corpo, mocidade,
Coração arrojado, ardente e brando,
Surtos de águia do espírito pairando
Nos píncaros que o sol primeiro invade.

Luz da razão, fervor, serenidade...
E por quê tantos dons se vão juntando
Num pobre ser humano e miserando
Que espia uma voraz fatalidade?

Por quê, se tudo, em seu redor, cai, passa,
E a tudo ele ergue os braços, nada abraça,
Em fumo, brumas, dúvidas, submerso?

Por quê, se, crente mísero!, a descrença
Todos os dons lhe esmaga até que o vença...?


-Todos... mas não o de dizê-lo em verso!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Bom dia!

'Cena de rua, montagem de ideias", 1905, óleo de Pierre Bonard



Nos idos de 60, conheci um poeta cuja personalidade me impressionou e lembro com respeitosa saudade: Vasco Miranda, a quem aqui voltarei.

Hoje, procurei o seu livro, Dizer, Amar, Portugália,1971, que reúne toda a sua escassa obra.

Ao folheá-lo, encontrei estes versos, assinados de Alberto de Serpa, citados por Vasco Miranda, a modo de epígrafe de Alfa e Ómega.

Pareceu-me convidarem a iniciarmos positivamente o dia:



“Pode haver silêncio
Pode haver escuro,
-Todo o mal deste mundo, o pior,
vence-o
verso que seja, som, luz, no futuro.”

8 peças roubadas do Museu Egípcio do Cairo

Esta estatueta de Tutankamon foi um dos objectos roubados





Casa roubada, trancas à porta...




Na confusão revolucionária, o Museu Egípcio do Cairo foi assaltado e desviadas oito peças de valor inestimável. Nem todas as intenções eram boas... e encheram os bolsos os tradicionais traficantes, sempre de olho na presa.

Um poeta cuja grandeza d'alma se desconhece

óleo de Berthe Morisot (1841-1885)



Eternidade

O meu olhar, logo que vi
teus olhos tristes, conheceu-os.
O caso foi de mim e ti
e amor e vida e morte e Deus.

Tudo ali, ai, se jogou logo:
a vida, a morte... Sei lá!
Que final põe Deus nesse jogo,
nem no final se saberá.

Que, mesmo sendo nós ninguém
e as nossas órbitas vazias,
ficam as almas que não têm
o passar breve destes dias...


Alberto de Serpa (1906-1992)
in Poesia, Inquérito, 1944

Encontrados os restos do baleeiro que inspirou a Herman Melville o romance "Moby Dick"

Um romance fabuloso




Imagem dos restos de "Two Brothers"




Arqueólogos americanos encontraram o navio baleeiro naufragado que pertenceu ao capitão George Pollard, que inspirou o romance “Moby Dick”, de Herman Melville.


Os restos do barco, Two Brothers, foram descobertos nas águas do Havai, segundo a BBC.


O navio embateu num recife de corais e afundou-se, em 1823.


Apesar da madeira ter desaparecido, foram encontrados arpões, ganchos de metal e caldeirões (um deles na imagem acima) para guardar óleo de baleia.

Entregues à bicharada: lê este excelente artigo!

Em vias de extinção?



Um país insuportável

por A. Marinho e Pinto


A falta de bom-senso e humildade constitui uma das principais causas da degenerescência da justiça portuguesa. Tudo seria simples se houvesse uma coisa que falta cada vez mais aos nossos magistrados: bom senso.

Uma mulher com 88 anos de idade morreu no seu apartamento em Rio de Mouro, Sintra, mas o corpo só foi encontrado mais de oito anos depois, juntamente com os restos mortais de alguns animais de companhia (um cão e dois pássaros).

Este caso, cujos pormenores têm sido abundantemente relatados na comunicação social, interpela-nos a todos não só pela sua desumanidade mas também pela chocante contradição entre os discursos públicos dominantes e a dura realidade da nossa vida social. Contradição entre promessas e garantias de bem-estar, de solidariedade e de confiança nas instituições públicas e uma realidade feita de solidão, de abandono e de impessoalidade nas relações das instituições com os cidadãos.

Apenas duas ou três pessoas se interessaram pelo desaparecimento daquela mulher, fazendo, aliás, o que lhes competia. Com efeito, uma vizinha e um familiar comunicaram o desaparecimento às autoridades policiais e judiciais mas ninguém na PSP, na GNR, na Polícia Judiciária e no tribunal de Sintra se incomodou o suficiente para ordenar as providências adequadas. Em face da participação do desaparecimento de uma idosa a diligência mais elementar que se impunha era ir à sua residência habitual recolher todos os indícios sobre o seu desaparecimento. É isto que num sistema judicial de um país minimamente civilizado se espera das autoridades policiais e judiciais, até porque o caso era susceptível de constituir um crime. O assalto e até assassínio de idosos nas suas residências não são, infelizmente, casos assim tão raros em Portugal. Mas, sintomaticamente, as autoridades judiciais não só não se deram ao trabalho de se deslocar à residência como, inclusivamente, recusaram-se a autorizar os familiares a procederem ao arrombamento da porta de entrada.

E tudo seria tão simples se houvesse uma coisa que falta cada vez mais aos nossos magistrados: bom senso. Mas não. Dava muito trabalho ir à uma residência procurar pistas sobre o desaparecimento de uma pessoa. Dava muito trabalho oficiar outras instituições para prestar informações sobre esse desaparecimento. Sublinhe-se que um primo da idosa se deslocou treze vezes ao tribunal de Sintra para que este autorizasse o arrombamento da porta da sua residência. Mas, em vez disso, o tribunal, lá do alto da sua soberba, decretou que a desaparecida não estava morta em casa, pois, se estivesse, teria provocado mau cheiro no prédio. É esta falta de bom-senso e humildade perante a realidade que constitui uma das principais causas da degenerescência da justiça portuguesa. Os nossos investigadores (magistrados e polícias) não investigam para encontrar a verdade, mas sim para confirmarem as verdades que previamente decretam. E, como algumas dessas verdades são axiomáticas, não carecem de demonstração.

Mas há mais entidades cujo comportamento revela que a pessoa humana não constitui motivo suficientemente forte para as obrigar a alterar as rotinas burocráticas e impessoais.

A luz da cozinha daquele apartamento esteve permanentemente acesa durante um ano, ao fim do qual a EDP cortou o fornecimento de energia eléctrica, sem se interessar em averiguar o motivo pelo qual um consumidor deixou de cumprir o contrato celebrado entre ambos.

Os vales da pensão de reforma deixaram de ser levantados pela destinatária, mas a segurança social nada se preocupou com isso. Ninguém nessa instituição estranhou que a pensão de reforma deixasse de ser recebida, ou seja, que passasse a haver uma receita extraordinária sem uma causa. E isto é tanto mais insólito quanto os reformados são periodicamente obrigados a fazerem prova de vida. Mas isso é só quando estão vivos e recebem a pensão.

Os CTT atulharam a caixa de correio daquela habitação de correspondência que não era recebida sem que nenhum alerta alterasse as suas rotinas.

Finalmente, as finanças penhoraram uma casa e venderam-na sem que o respectivo proprietário fosse citado. Como é que é possível num país civilizado penhorar e vender a habitação de uma pessoa, aliás, por uma dívida insignificante, sem que essa pessoa seja citada para contestar? Sem que ninguém se certifique de que o visado tomou conhecimento desse processo? Como é possível comprar uma casa sem a avaliar, sem sequer a ver por dentro? Quem avaliou a casa? Quem fixou o seu preço?

Claro que agora aparecem todos a dizer que cumpriram a lei e, portanto, ninguém poderá ser responsabilizado porque a culpa, na nossa justiça, é sempre das leis. É esta generalizada irresponsabilidade (ninguém responde por nada) que está a tornar este país cada vez mais insuportável.

transcrito, com a devida vénia, do Jornal de Notícias de hoje