
É uma velha conversa: ‘os portugueses, aqui, não querem trabalhar mas, lá fora, trabalham como mouros...’ E, habitualmente, quem diz isso é o sorna que prefere a bica e o bagaço, a mexer uma palha. O que atira, todo basófias, a velha e imbecil frase dos tempos do “botas”, do Salazar: ‘A minha política é o tabalho!” –e vai mais um bagaço...
Meus caros amigos: hoje mais do que nunca, o português não trabalha porque não tem emprego.
Como sabem, vivi, fora da terrinha (da terrinha, há séculos, explorada e mal tratada), em quatro países e três continentes. Encontrei e conheci muitos emigrantes portugueses. Ouvi falar deles a estrangeiros. Vi-os a trabalhar com toda a vontade e toda a capacidade; ouvi dizer deles, aos das terras onde trabalhavam, o melhor que se pode dizer de alguém: competentes, honestos, aplicados, generosos. Querem mais?
Os jornais de hoje noticiam uma conclusão da EU: somos pessimistas, no que se refere à possibilidade de arranjar um emprego e de o manter.
Admiram-se? Eu não. É milagre arrancar um emprego e milagríssimo guardá-lo. Com mais ou menos estudos. Ainda ontem os mesmos jornais denunciavam uma realidade que todos nós conhecemos: aumenta, dia após dia, a emigração de jovens e não jovens, em Portugal –e, inclusivamente, de jovens e não jovens altamente qualificados (aqui, em Inglaterra, trabalham quase 500.000 portugueses).
Admiram-se? Eu não. Qu’é feito das pequenas e médias empresas? Qu’é feito da agricultura? Qu’é feito da pesca? Por que se investiu tanto na construção civil –quando a classe média (em extinção, aliás) e a classe operária (nas lonas, aliás) não têm dinheiro para comprar uma casa a crédito (os juros são incomportáveis) e muito menos, muitíssimo menos, a pronto? Por que se investiu num turismo, que destrói a paisagem e degrada o ambiente, quando, mal gerido e mal instalado (o turista aprecia a beleza da paisagem, a qualidade dos serviços...), cada vez menos atrai turistas?
Dizem os jornais, ainda: 58 % dos portugueses pensa -e muitíssimo bem- que, para ele, portuguesinho comum, a crise vai ser sempre pior. Não engoliu, pelo visto, a balela, criminosa, irresponsavelmente mentirosa dos que, para acalmar o Zé Povinho, tentaram vender “o fim da crise”. O português pensa, não é burro, como julgam os que lhes comeram a carninha e se impacientam, ao topar os ossos que restam... O português já percebeu que a “resolução da crise” é, para os neo-liberais (e o governo e candidatos a governo e coligações direitistas são neo-liberais, quando não liberalíssimos de gema), a recomposição do capital, à custa e sobre a miséria de quem... quer trabalhar dignamente. Essa “resolução”? O português marimba-se para ela: é falsa: é a continuação do que estava, com mais bate-chapas e tinta fresca...
E, desanimado, desesperado, descrente, pessimista, o português emigra. Vai em busca de um país onde possa trabalhar a sério, seriamente pago, onde possa fazer filhos, sem medo do dia seguinte, onde possa pôr os filhos a estudar, possa vê-los, um dia, trabalharem e singrarem na vida. Em suma: onde lhe possa acontecer aquilo que, há tantos, tantos anos, nunca aconteceu aqui: ser Homem inteiro, com direitos e deveres justos. E passaram ‘tantos anos? Por cima do 25 de Abril, da revolução dos cravos, da revolução da esperança na justiça social, ate hoje, à espera de quem, coerente e eticamente, a realize e imponha.
O PORTUGUÊS TEM AS DUAS FACES QUE OS MAUS GOVERNOS O OBRIGARAM A TER.