domingo, 30 de agosto de 2015

A veneziana


Obra de Amedeo Modigliani, pormenor

“(…)

Sotto la vela che si beve il vento
tu stai lisciando i tuoi neri capelli,
nude le braccia  come serpentelli
bruni di fuori e pallidi di dentro;

ed io son qui accosciato sul timone
che te guardo, e ti vedo cosi bella,
attraverso la blusa e la gonnela,
che dalla voglia mi si strugge il cuore.

(…)”

Diego Valeri, in Poesie, Ortoloni della Laguna,Arnoldo Mondadori Editore, 1967


Imagem da Laguna veneziana

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Do amor como salvação

Obra de Marc Chagal

João Gaspar Simões tornou-se em escritor maldito.

São ódios herdados e sem fundo, inveja, pressa em enterrar eventuais rivais e sacar-lhes o lugar.

Gaspar Simões foi o maior e mais lúcido crítico da nossa Literatura –mas quem procura as suas obras? Praticamente, ninguém.

É proibido nomeá-lo.

Além de crítico exemplar e único na nossa História, JGS escreveu e publicou obras de ficção narrativa e de teatro.

Mais escondida, ainda, essa sua actividade…

Que importa? Ficou, para sempre e só a mediocridade ou imbecilidade o poderão ignorar.

Não é isso, porém, que me volta a trazê-lo aqui: é esta frase de um dos seus mais ricos contos/novela, Eduarda (1939), parte de A Unha Quebrada, Edições Casa do Livro, Lisboa, s.d., esgotado:

“Quando o tempo mata em nós o amor, tudo parece pequenino e ridículo, mas a verdade é que o amor é dos poucos sentimentos que libertam o homem da sua triste condição vegetativa.”


  João Gaspar Simões, nos anos finais da vida




quinta-feira, 27 de agosto de 2015

As vozes esquecidas


"Jardim das Delícias", obra de Hieronymus Bosch



Este é tempo pobre, tempo estéril e desesperado por isso, porque o sabe e sofre.

Superficial, inconsequente, a agarrar o fácil, incapaz de criar.

Um borbulhar inútil.

Uma fuga.

A impotência e o onanismo que abrem a estrada da soledade e as portas do bordel.

Improvisam-se castelos de areia, que logo se desfazem.

E onde enterraram ou esconderam os que revelaram a alma portuguesa?

Qu’é dos grandes, dos génios, dos Mestres? Qu’é do poeta? Do santo?...

“O poeta e o santo sabem que mais facilmente existe nas regiões sombrias da sociedade e das almas a brasa soterrada capaz de ser claridade, do que naquelas camadas (das almas ou das sociedades) que o egoísmo estreito, o baixo utilitarismo, o cobarde comodismo beato e a estupidíssima felicidade da besta babando-se empederniram.”

Isso escreveu José Régio em António Botto e o Amor, Editora Livraria Progredior, Porto, 1937.

E aqui vo-lo deixo, quando tão pouco ou nada se pensa e escreve a sério.

E pouquíssimo se invoca o genial, precioso escritor…

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Homenagem a Aldo Zari

Até sempre, meu amigo!



Completaria, hoje, 73 anos, Aldo Zari.

A morte antecipou-se e levou-o, deixou-o dormir, algures na Laguna veneziana: a ilha de San Michele.

Ficaram para trás muitos amigos e admiradores, sobretudo, porém, uma vasta e extraordinária obra.


Do dicionário dos grandes pintores italianos, consta já, certamente, o nome de Aldo Zari.

Obra de Aldo Zari



quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Portugal no fim?

A solidão a dois



Não acredito em estatísticas forçadas e os números que nos chegam assustam.

Quantos somos nós, realmente? 6, 7 milhões? E quantos jovens e quantos velhos? E quantos empregados e quantos desempregados? E quantos com vida digna e quantos com vida indigna? Quantos com comida e quantos com fome?

Cormac McCarthy escreveu um romance-sucesso, cruelmente verdadeiro e doloroso:

No Country for Old Men

Os irmãos Cohen realizaram, a partir dele, um filme, com o mesmo título, que abalou meio-mundo.

Também, por cá, houve quem o lesse ou visse e sentisse calafrios.

Pergunto:


será Portugal um país só para velhos? Será que este país não é para jovens?

Despedida às ruínas 

Portugal no fim?

A solidão a dois


Não acredito em estatísticas forçadas e os números que nos chegam assustam.

Quantos somos nós, realmente? 6, 7 milhões? E quantos jovens e quantos velhos? E quantos empregados e quantos desempregados? E quantos com vida digna e quantos com vida indigna? Quantos com comida e quantos com fome?

Cormac McCarthy escreveu um romance-sucesso, cruelmente verdadeiro e doloroso:

No Country for Old Men

Os irmãos Cohen realizaram, a partir dele, um filme, com o mesmo título, que abalou meio-mundo.

Também, por cá, houve quem o lesse ou visse e sentisse calafrios.

Pergunto:


será Portugal um país só para velhos? Será que este país não é para jovens?

Despedida às ruínas 

DIA MUNDIAL DA FOTOGRAFIA


Dia 25 de Abril de 1974: imagem da libertação de Portugal

O coração de um povo




E a ler e reler Mestre Aquilino, topo estas palavras maravilhosas, sangue da nossa alma, quando a língua portuguesa se perde, se prostitui…

“…a folha verde, arquejo de vida…”


in UM ESCRITOR CONFESSA-SE seguido de LANCES DA MINHA VIDA,  Bertrand Editora, Lisboa, 2008

 

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Da vida recuperada






“PIERROT

As palavras mais repetidas podem tornar-se novas. Toda a gente as diz, quase ninguém as sente.

COLUMBINA
Ninguém! Só tu!

PIERROT
Sou poeta, Columbina. Descubro a virgindade das coisas gastas.”

José Régio in Três Máscaras, fantasia fantástica, “Três Peças Em Um Acto”, Portugália Editora, Lisboa, 1957

domingo, 9 de agosto de 2015

INTERRUPÇÃO XV: A VOZ QUE NOS ENRIQUECE

O isolamento nunca é total; ou melhor: no isolamento procuramos a companhia dos que nada perguntam e tudo oferecem. É o caso dos compositores que nos acompanham e dos livros que levamos connosco.

Ora acontece que, neste canto, longe da multidão que enlouquece, Isaac Bashevis Singer, de par com Vivaldi, tem sido o meu companheiro preferido.

Tanto me apaixonou o seu romance Inimigos, uma história de amor, que sinto o dever de o sugerir.


Aqui vos deixo três edições, a portuguesa editada no Brasil (tradução portuguesa não a encontrei por cá…).








terça-feira, 4 de agosto de 2015

INTERRUPÇÃO XX: É O TEMPO DELES...



Em fuga à onda fedorenta e imbecil -a vaga do turismo-, refugiado algures na cova de um lobo que emigrou, oiço a voz que consola, escrita deixada por homem de mérito:   

“…o turista, uma das vias modernas para a ilusão de existir.”
(Claude Roy in Chemins Croisés 1994-1995, Gallimard, Paris, 1997)


E volta-me, em versão actualizada, a pobre gente de Dostoievsky.  

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Interrupção XVIII: Henry Miller e Isaac Bashevis Singer



O calor de Agosto pede repouso e as viagens dentro de nós.

Retomei mais uma obra do grande Isaac Bashevis Singer, Gimple o Idiota (Gimple L’Idiota, Longanesi & Cia, Milão, 1979) e deparei, ao abrir, com um admirável ensaio de Henry Miller, em que este faz o elogio apaixonado do grande escritor, judeu perseguido e exilado.

Na primeira linha, Miller cita estas palavras de Singer, hino ao milagre de arrancar a vida à morte e de a perpetuar, dentro de nós e naquilo que se deixa escrito.

Ora leiam:

“Feliz é o homem que pode reencontrar-se através de quanto foi criado.”   





Página do The New Yorker, Agosto de 2000, com "Duas Histórias", de Isaac Bashevis Singer

sábado, 1 de agosto de 2015

Peço desculpa de interromper o silêncio...

EM FÉRIAS, LÊ UMA OBRA PRIMA DA LITERATURA PORTUGUESA:

O BARÃO, de BRANQUINHO DA FONSECA


Ilustração d'O Barão, por Júlio Pomar