Antes de abalar, deixo-vos duas poesias de Eugénio de
Andrade -meu saudoso amigo que conheci, via correio, em 1957.
São duas pérolas.
A primeira do livro proibido pela polícia salazarista -“Pureza”,
1945, que me ofereceu em 1959-; a segunda de 1948, que me enviou, sem data, “As
Mãos e os Frutos”.
Eu era um adolescente, estudante na Guarda. Só nos viríamos a
encontrar (e nunca mis nos encontrámos…) em 1972.
E o tempo nunca
deixara nem deixa de passar, tal qual cada instante da viagem do Holandês
Voador…
MADRIGAL
Coisinha frágil…:
Teu corpo perdeu-se
no meu coração.
Queres encontrá-lo?
-Tenho-o fechado
na minha mão.
a abrir AS MÃOS E OS FRUTOS
Só as tuas mãos trazem os frutos.
Só elas despem a mágoa
Destes olhos, choupos meus,
carregados de sombra e rasos de água.
Só elas são
estrelas penduradas nos meus dedos.
-Ó mãos da minha alma,
flores abertas aos meus segredos!
(Todos os desenhos são da autoria de Manuel Ribeiro de Pavia e pertencem às primeiras edições de ambos os livros)
















