Na passada 5ª feira, 13
- número aziago que, afinal me trouxe imensa alegria...-, por iniciativa e,
sobretudo, amizade da Drª Ana Ruas, desloquei-me a Coimbra, para um encontro
inesquecível -apaixonante, tal qual escrevi acima- com um grupo de alunos da
Escola Básica, 2, 3, Martim de Freitas.
Durante uma hora,
conversámos, sem pauta nem nenhum tema que não fosse o de trocarmos ideias,
opiniões, sonhos e desabafarmos do que custa construir uma vida, uma
personalidade e defender e afirmar a própria singularidade.
Porque cada um é um e
único –coisa muito difícil e dolorosa, em tempo de massificação e neo-escravatura,
em tempo de quererem os senhores do mundo, os exploradores do próximo, os
gananciosos, os amorais, transformar o cão de Pavlov e o bezerro de oiro em
ídolos e exemplos a respeitar e seguir.
Os adolescentes, que
deambularam comigo à volta dessa realidade-genocídio e se interrogaram como se
lhe oporem, afirmaram-se gente pura e disposta a lutar –e na saudável e
preciosa sinceridade trouxeram-me uma certeza: quem os ensinou e ensina muito
lhes ensinou e ensina.
Trouxeram-me uma
certeza: na Escola, no Professor(a) está a força capaz de refazer os alicerces
deste país, em brutal, criminosa derrocada.
Deste país que ameaça
transformar-se numa casa abatida.
Nunca tanto se abusou
dos professores, nunca tanto se menosprezaram as escolas –o Ensino.
A hora vivida com a Drª
Ana Ruas e os seus alunos empolgou-me e indignou-me.
Há muito que faço parte
dos Indignados... e, perante
adolescentes ansiosos por se afirmarem como Pessoas, Indivíduos, por afirmarem
a sua vocação e realizarem o sonho (António Gedeão escreveu, maravilhosamente,
que “... o sonho/ é uma constante da vida/
tão concreta e definida/ como outra coisa qualquer”), a Utopia que tem asas
de anjos a puxarem pelos seus corações.
Ao longo dos séculos, as
utopias concretizadas, realizadas, arrancaram o homem à condição de primatas,
de analfabetos, de ignorantes –subfetos,
como lhes chama Tomaz de Figueiredo, em Nó
Cego.
Levaram-no à
felicidade?
Sim, levaram –tal qual
o levaram à infelicidade, quando os fariseus, os vendilhões dos templos, os escravizaram,
roubaram e castraram.
Os roubadores de almas,
os vampiros que “comem tudo e não deixam nada”...
...e do Outro, do nosso
irmão, fizeram os humilhados e ofendidos de que fala, genialmente, Dostoievski.
É para que isso não
continue a acontecer e os adolescentes não feneçam e não se percam, velhos
precoces, seres ancilosados, que lutam os professores.
Os professores... hoje,
também eles, humilhados e ofendidos.
Há muitos anos,
adolescente eu e estudante na Guarda, li um romance que nunca esquecerei e reli
e releio, sempre com as lágrimas nos olhos: Adeus,
Mr. Chips, de um autor menor, James Hilton, que deixou uma bíblia.
Nas mãos dos milhares
de “Mr. Chips” de hoje, repousa o futuro do nosso país e dos nossos jovens.
Bem hajam eles pelo sacrifício,
pela abnegação, pela coragem –pelo respeito por si próprios, pelo outro e por todos
nós.
Diálogo...
A Escola
Alunos...
A Drª Ana Ruas e eu...
Despedida...
Amizades feitas...
(fotografias de Maria João Falcão Lopes Cardoso)