domingo, 30 de junho de 2013

Alentejo

Obra de Manuel Ribeiro de Pavia


CHARNECA EM FLOR

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago...

E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E, já não sou, Amor, Soror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

Florbela Espanca in Obras Completas de Florbela Espanca, Volume II, Publicações Dom Quixote, 1985***


***o manuscrito deste soneto encontra-se na Biblioteca Pública de Évora, onde foi depositado por Guido Batelli cujo recebera em carta da poetisa, datada de 27 de Julho de 1930

sábado, 29 de junho de 2013

Notícias do Alentejo...

Desenho de Manuel Ribeiro de Pavia


NOITE DE VERÃO

Quando é no verão das noites claras
e faz calor dentro da gente,
...aquela menina casadoira,
que mora junto ao largo,
vem à varanda ver a Lua.

Roçando o corpo, devagar,
descem por ela as mãos da noite:
sente-se nua.
Sente-se nua, na varanda,
já tão senhora do seu destino,
sem medo às estrelas nem às mãos da noite
-mas baixa os olhos se algum homem passa...

Manuel da Fonseca in Poemas Completos, 3ª edição, com um estudo de Mário Dionísio, Portugália Editora, 1969



sábado, 22 de junho de 2013

O governo reuniu-se em Alcobaça: o melhor da festa foi a ginjinha...



“Após uma ginja de honra no claustro do mosteiro, tomada em ambiente também informal, os ministros (com excepção de Crato que se encontra no estrangeiro), fecharam-se no Sala do Capítulo. Uma sala que, segundo explicou o autarca Paulo Inácio ao PÚBLICO, era o local onde os monges escreviam, ou seja, uma das mais nobres do mosteiro.

Ler mais:

E a grande verdade!

in Público de hoje

E até ao meu regresso, amigos!

Algures em Porto Covo


O VAGABUNDO DO MAR

Sou barco de vela e remo
sou vagabundo do mar.
Não tenho escala marcada
nem hora para chegar:
é tudo conforme o vento,
tudo conforme a maré...
Muitas vezes acontece
largar o rumo tomado
da praia para onde ia...
Foi o vento que virou?
foi o mar que enraiveceu
e não há porto de abrigo?
ou foi a minha vontade
de vagabundo do mar?
Sei lá.
Fosse o que fosse
não tenho rota marcada
ando ao sabor da maré.
É por isso meus amigos,
que a tempestade da Vida
me apanhou no alto mar.
E agora
queira ou não queira,
cara alegre e braço forte:
estou no meu posto a lutar!
Se for ao fundo acabou-se.
Estas coisas acontecem
aos vagabundos do mar.

Manuel da Fonseca in Poemas Completos, Iniciativas Editoriais, 1958  

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Portugal de luto

in Público de hoje

quinta-feira, 20 de junho de 2013

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Tempo de peste ou a agonia do homem

"Golconda", 1953, óleo de René Magritte

Em entrevista a El País (12 do corrente mês), o filósofo e pensador Zygmunt Bauman***, denunciou, numa só frase, o mal dos nossos dias:

“Esquecemos o amor, a amizade, os sentimentos, o trabalho bem feito.”


P.s. somos os párias de nós próprios...

***http://pt.wikipedia.org/wiki/Zygmunt_Bauman

O outro lado


"Kinetic Construction", 1919-1920, escultura de Naum Gabo



MADRUGADA

Sem viragem de nuvem, norte ao sul,
Quando ainda o sol me não diz nada,
Fazem-me crer em mística morada
As límpidas manhãs do céu azul.


Afonso Duarte in O Anjo da Morte e Outros Poemas, livro inédito, coligado de 1952 a 1956 e incluído in Obra Poética de Afonso Duarte, Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1956

terça-feira, 18 de junho de 2013

Um amizade complexa

Dali (à esquerda) e Lorca (à direita)


Ler:

Consequências de um governo sem governo nem salvação (felizmente)

in Público de hoje

Bom dia! Ainda com o livro proibido...

Óleo de Berthe Morisot


NOCTURNO Nº  I

Varanda.
(Não sei de craveiro
que  esteja tão certo.)
A menina espreita.
Ai!, o largo é deserto.

É deserto o largo
mas ela não crê.
(Num banco do jardim
está um namorado
que só ela vê.)

Está um namorado
que nunca lhe fala.
(Pobre namorado
tão alheio ao sonho
ali debruçado...)

Entanto ela espera.
Entanto ela crê
no jardim, no banco
e no namorado
que só ela vê.

Eugénio de Andrade in Pureza, Desenhos de Manuel Ribeiro de Pavia, Livraria Francesa, Lisboa, 1945***

***retirado do mercado pela Censura do regime salazarista  

segunda-feira, 17 de junho de 2013

E assim deitámos e deitamos o dinheiro no bolso dos dealers da estupidez massificada...

in Público de hoje

O espelho ou o milagre d'alma

"Narciso", 1597, óleo de Michelangelo Merisi dito Il Caravaggio


CANÇÃO INFANTIL

Era um amieiro
Depois, uma azenha.
E junto
um ribeiro.

Tudo tão aberto!
Que devia fazer?
-Meti tudo no bolso
para os não perder.

Eugénio de Andrade in Pureza, Desenhos de Manuel Ribeiro de Pavia, Livraria Francesa, Lisboa, 1945 (fora do mercado***)


***retirado do mercado pela Censura do regime salazarista  

domingo, 16 de junho de 2013

Em Coimbra: o encontro inesquecível e apaixonante com a juventude que tem o direito a construir livremente o seu futuro


Na passada 5ª feira, 13 - número aziago que, afinal me trouxe imensa alegria...-, por iniciativa e, sobretudo, amizade da Drª Ana Ruas, desloquei-me a Coimbra, para um encontro inesquecível -apaixonante, tal qual escrevi acima- com um grupo de alunos da Escola Básica, 2, 3, Martim de Freitas.

Durante uma hora, conversámos, sem pauta nem nenhum tema que não fosse o de trocarmos ideias, opiniões, sonhos e desabafarmos do que custa construir uma vida, uma personalidade e defender e afirmar a própria singularidade.

Porque cada um é um e único –coisa muito difícil e dolorosa, em tempo de massificação e neo-escravatura, em tempo de quererem os senhores do mundo, os exploradores do próximo, os gananciosos, os amorais, transformar o cão de Pavlov e o bezerro de oiro em ídolos e exemplos a respeitar e seguir.

Os adolescentes, que deambularam comigo à volta dessa realidade-genocídio e se interrogaram como se lhe oporem, afirmaram-se gente pura e disposta a lutar –e na saudável e preciosa sinceridade trouxeram-me uma certeza: quem os ensinou e ensina muito lhes ensinou e ensina.

Trouxeram-me uma certeza: na Escola, no Professor(a) está a força capaz de refazer os alicerces deste país, em brutal, criminosa derrocada.

Deste país que ameaça transformar-se numa casa abatida.

Nunca tanto se abusou dos professores, nunca tanto se menosprezaram as escolas –o Ensino.

A hora vivida com a Drª Ana Ruas e os seus alunos empolgou-me e indignou-me.

Há muito que faço parte dos Indignados... e, perante adolescentes ansiosos por se afirmarem como Pessoas, Indivíduos, por afirmarem a sua vocação e realizarem o sonho (António Gedeão escreveu, maravilhosamente, que “... o sonho/ é uma constante da vida/ tão concreta e definida/ como outra coisa qualquer”), a Utopia que tem asas de anjos a puxarem pelos seus corações.

Ao longo dos séculos, as utopias concretizadas, realizadas, arrancaram o homem à condição de primatas, de analfabetos, de ignorantes –subfetos, como lhes chama Tomaz de Figueiredo, em Nó Cego.

Levaram-no à felicidade?

Sim, levaram –tal qual o levaram à infelicidade, quando os fariseus, os vendilhões dos templos, os escravizaram, roubaram e castraram.

Os roubadores de almas, os vampiros que “comem tudo e não deixam nada”...

...e do Outro, do nosso irmão, fizeram os humilhados e ofendidos de que fala, genialmente, Dostoievski.

É para que isso não continue a acontecer e os adolescentes não feneçam e não se percam, velhos precoces, seres ancilosados, que lutam os professores.

Os professores... hoje, também eles, humilhados e ofendidos.

Há muitos anos, adolescente eu e estudante na Guarda, li um romance que nunca esquecerei e reli e releio, sempre com as lágrimas nos olhos: Adeus, Mr. Chips, de um autor menor, James Hilton, que deixou uma bíblia.

Nas mãos dos milhares de “Mr. Chips” de hoje, repousa o futuro do nosso país e dos nossos jovens.

Bem hajam eles pelo sacrifício, pela abnegação, pela coragem –pelo respeito por si próprios, pelo outro e por todos nós.  
  

Diálogo...


A Escola



Alunos...



A Drª Ana Ruas e eu...


Despedida...



Amizades feitas...

(fotografias de Maria João Falcão Lopes Cardoso)




quarta-feira, 12 de junho de 2013

Hoje,em Coimbra

Vista de Coimbra

Hoje, irei dormir a Coimbra, uma das raras cidades que o "progresso" não destruiu e mantém encanto e beleza inigualáveis... Vou, a convite da minha querida amiga Ana Alves, conversar com os seus jovens -muito jovens e por isso puros- alunos da Escola de Ensino Básico Martim de Freitas. O tema que escolhi chama-se Os dias da vida -e sobre o modo como fui construindo a minha trocarei impressões com eles, que são... o sal da vida.

sábado, 8 de junho de 2013

Fechado para retiro espiritual

Data de reabertura: desconhecida

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Bom dia no país das maravilhas: Itália

"As três graças", 1503-1504, óleo de Raffaelo Sanzio da Urbino


“O meu primeiro desejo é, sempre, retirar-me em Itália, longe dos idiotas e das almas geladas que povoam o mundo.”

Carta à sua irmã Pauline, datada de 29 de Abril, de 1813 in Dictionnaire amoureux de Stendhal, obra de Dominique Fernandez, Editores Plon e Grasset, Paris, 2013  

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Blá blá de falso samaritano...




Os estudantes não podem ser meios para atingir fins”, declarou Cavaco
in Público online


Pois… pois… mas os fins que os professores querem atingir são disporem de condições para ensinar devidamente os alunos, e os fins dos alunos é serem devidamente ensinados.

E as condições em que o ensino se ministra, em Portugal, não permitem atingir esses fins.

Há falta de professores, horários inexequíveis, turmas ao molhe… etc. etc. etc.

E é este governo o responsável por isso.

Mas isso -essa realidade vergonhosa e destruidora de um país cujo futuro depende de poder ou não poder contar com gente qualificada- quer, com ginástica de Chico esperto, driblar Cavaco, a fingir que se preocupa com os alunos.

Alunos e professores foram abandonados à sua má sorte –porque para o governo, que Cavaco preserva e estima, alunos e professores não passam de um peso que lhe atrasa a vida, a ele, governo: atrasa a privatização total do país e a destruição definitiva do Estado Social.


Há 50 anos morreu "il Papa buono"

João XXIII, o Papa que era um homem e abriu caminhos infinitos


Notícia:

Este rapaz de 18 anos foi assassinado ontem, em Paris, pelos bandos neo-fascista: toma conhecimento e tem presente!

Este crime tem de ter castigo! Não ao neofascismo!


José Régio por Ventura Porfírio

"Poeta de Deus e do Diabo", 1958, óleo de Ventura Porfírio, exposto na Casa-Museu José Régio, em Portalegre

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Conversam os mortos-vivos

in El País de hoje


"-Recordo o tempo em que a vida era mais fácil.
"-Recordo o tempo em que a vida era vida.

Quem sabe deste país?

domingo, 2 de junho de 2013