quinta-feira, 30 de junho de 2011

Este é, hoje, o único caminho: exigir o direito a viver como gente!



Quem paga a dívida?

E os que andam asim, Senhor, por que não os fazes pagar?

Oração da Manhã



Feliz ou infeliz, que eu não me queixe
Senhor! se uma vez mais a vida principia;
E, quer te esqueça ou não, durante o dia
Tua presença me não deixe.

Tua presença entorne claridade
No íntimo do querer que me pareça opaco,
E alongue pela sombra o que, restrito e fraco,
Reduza eu à minha exiguidade.

Assim não possa já caluniar aquilo
Que não entenda,ou por demais julgue entender.
Assim, nos meus irmãos, não fira o próprio Ser,
E possa, ao vir a noite, adormecer tranquilo.

José Régio, in Filho do Homem

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Paula Rego: este quadro foi vendido, na Christie's de Londres, por 864.792 euros

'Looking back over my shoulders', 1987

Ao que andamos, é unisexo...

Erlich in El País de hoje


Quem paga a dívida?

'São Sebastião', de Tiziano: o povo português apanhado à má fé


Isto é tão simples como dois e dois serem quatro eram no tempo do meu saudoso professor da primária, o bom Rabaça, na Guarda.


Quem paga a nossa dívida?


Eu, tu e mais aquele que não é rico.



Nós, os martirizados, gostaríamos de saber o que pagam os ricos.



Quanto pagam os bancos, os grandes empresários do comércio inevitável, grandes superfícies, supermercados...



Quanto pagam?



E por que é que pago eu, tu e aquele que não tem onde cair morto?



E por que é que não paga a banca, o grande empresário, o dono da grande superfície onde eu vou para poupar e não morrer de fome?



E, quando, depois de nos terem chupado o último grama do tutano, tiver sido paga a dívida, o que acontece?



De que vamos viver?



Se não há indústria, se não há agricultura, se não há pesca?



As botas vêm da China; o azeite, de Espanha; os congelados daqui e dali.



Começa, outra vez, a dívida, e a banca & cia a aproveitar a nossa pobreza?



Responde.

terça-feira, 28 de junho de 2011

A crise vista de Espanha




Editorial


Tormenta sin fin





El diferencial de la deuda española, en máximos por la crisis griega, amenaza la recuperación



El euro se enfrenta a otro periodo de extrema incertidumbre en los mercados, a la espera de que el Parlamento griego apruebe medidas de ajuste adicionales que permitirán debatir un nuevo plan de rescate para Atenas (unos 100.000 millones más). La situación en Grecia es de una gran alteración social, con huelgas del sector público y privado, hoy y mañana, y la amenaza adicional de que sus efectos lleguen a dinamitar la zona euro. Los inversores castigaron ayer la deuda española con un diferencial máximo de 293 puntos básicos (Italia llegó a los 216), que solo se atemperó cuando Francia difundió el acuerdo con sus bancos para reinvertir el 70% del capital en bonos griegos que vencen hasta 2014 por nuevos títulos a 30 años. Se supone que el pacto cancela la hipótesis de que se declare un impago y se desaten las cláusulas de seguros y derivados que arruinarían el mercado europeo.



De nuevo estamos ante un respiro momentáneo. El miedo de los inversores castiga en demasía a países que, como España, no deberían tener diferenciales superiores a los 200 puntos básicos en función de sus fundamentales económicos. La crisis financiera se manifiesta como una serie de movimientos espasmódicos de los mercados, en los que a momentos de relativa calma les siguen fuertes tensiones en los diferenciales de deuda y rentabilidad que amenazan con condenar a la insolvencia a los países con independencia de sus compromisos de ajuste. El motivo recurrente de las convulsiones financieras es Grecia. No es difícil predecir que, si el Parlamento griego aprueba los planes adicionales de ajuste, los mercados concederían días de tranquilidad (eso sí, sin que el diferencial español caiga hasta los niveles previos a la crisis griega) hasta que se dispare otra causa de tensión, que podría ser la aplicación concreta de las nuevas medidas de ajuste en Grecia o la discusión de los procedimientos para el nuevo rescate.



Esta tensión crónica está motivada por la evidencia de que la Europa del euro funciona a varias velocidades. Pero también por la incapacidad de las instituciones europeas para encontrar remedios a la desconfianza de los inversores. Alemania, Francia y Bruselas no reconocen esos graves errores cometidos en la gestión de la crisis que convierten en inviables los planes de rescate, sencillamente porque los préstamos son punitivos y sus condiciones asfixian el crecimiento***. Grecia no puede pagar la deuda, y menos si se le exigen las condiciones actuales de ajuste fiscal.



Las decisiones de los más poderosos parecen parcheos desesperados, pensados para ganar tiempo a ver si en una de esas ventanas de calma se anuncia algún dato favorable de crecimiento o se cierra la reforma financiera española. Pero la situación no es sostenible, porque los actuales diferenciales de deuda están estrangulando el crecimiento económico español. Cualquier rentabilidad exigida a 10 años que sea superior al crecimiento nominal en ese plazo es tóxica para el crecimiento. España supera en varios puntos ese límite.



transcrito, com a devida vénia, do El País de hoje


*** o sublinhado é meu

Clarice Lispector: amigos lamentaram a tristeza de Clarice, na entrevista aqui publicada: ei-la tal e qual, bela, forte, diferente!

Para os amigos brasileiros, outra princesa... brasileira

Oferta da amiga Ana: bem haja!

Roma, Piazza Navona: ao fundo, por trás da fonte de Bernini, a Sant'Agnese de Borromini, de que a menina Rosetta gostava tanto...

Com paninhos quentes não se curam males...


Em 12 de Novembro de 1976, o extinto Século Ilustrado publicava uma entrevista com o ex-ministro da Agricultura, António Lopes Cardoso (demitira-se do cargo pouco antes).




Lopes Cardoso afirmava:


A CAP [Confederação dos Agricultores Portugueses] tem de se convencer que para impedir a Reforma Agrária não basta derrubar o ministro Lopes Cardoso, terá de destruir algo de muito mais importante, o Partido Socialista.”




35 anos depois, o que ficou da Reforma Agrária?


E o que resta do Partido Socialista –isto é: o que resta da ideologia socialista que o enformava?




Não irei debater a campanha em curso para a eleição de um novo secretário-geral do PS.


Não sou militante do PS.



Direi, apenas, que a linguagem dos dois únicos candidatos até ao momento declarados me sabe a chá de tília pouco interessante.



Sejamos francos: uma verborreia pouco socialista e às voltas, como barata doida, de uma 4ª via qualquer, disposta a tirar o chapéu ao neo-capitalismo em que se revê o actual governo.



Aquilo que António Lopes Cardoso julgava difícil aconteceu: a direita (a CAP não passa de uma das flores da lapela reaccionária) estilhaçou, há muito, o PS.

Bom dia com uma grande escritora

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Em Yotala, Bolívia, a 2511 metros de altura...



Se quiseres saber mais, abre o link:

O encontro com Menano

António Menano


Chegara há poucos meses a Lisboa.

Vinha da Guarda, onde passei grande parte da minha infância e adolescência, e abri ao mundo.


Acerca desses anos extraordinários, em que as sementes se lançaram, tenho escrito um pouco por toda a parte, especial e insuficientemente, nas Memórias, José Régio e Outros Escritores, e recordo a entrada na pequena academia da Guarda, a estróina, os amores, as serenatas, que sempre se ligavam a algum deles.


Ouvira falar do Menano, cantara -eu cujos dotes musicais não iriam nunca além da campainha de porta...- passarinho da ribeira e Maria, se fores ao baile, na rua vizinha à Igreja de São Vicente, à espera do acender da luz no antigo e desaparecido Lar da Acção Católica, onde dormia uma rapariguinha raiana... acompanhado à guitarra e à viola não me lembra por quem e rodeado de outros, o Bidarra, o Manisco, o José Pires Sanches...


Ora no dia 22 de Outubro de 1956, meus irmãos Eurico e António, mais velhos do que eu, o benjamim, e o Domingos Manuel de Brito Mariano, nosso irmão escolhido, mais da alma que de sangue, o que é e tem sido muito mais importante, levaram-me à Tapada da Ajuda ouvir o Menano.


E, citando Biografias (poderás ler no google, em António Menano), aqui deixo:"O espectáculo estava marcado para a meia-noite, começou às duas horas da manhã e só viria a terminar de madrugada sem que ninguém tivesse arredado pé. Do Diário de Notícias de 23-10-1956 [por isso, deduzo que a serenata aconteceu a 22 de Outubro] respigamos o seguinte:


"Até madrugada alta, com um céu em que a Lua e as estrelas paradas pareciam acercar-se da Terra, no sortilégio das canções de Menano ressurgiu Coimbra de há quatro décadas." Conclui dizendo: "Sem luz eléctrica nem microfones a voz de Menano, casada coma das violas e das guitarras, brindou Lisboa com uma noite inesquecivel, única. Espectáculo imprevisto e verdadeiramente sensacional..."


De quando em quando, volto a ouvir Menano e a saudade que me dói partilho-a entre a Guarda e os amigos da minha juventude, meus irmão perdidos, e, a consolar-me, lá almoço com o Mariano, para falarmos de outras coisas, tendo bem vivo o fogo da lembrança dessa noite, realmente ‘inesquecível, única’, maravilhosa.


(este post saiu aqui, em Setembro de 2010 e resolvi "reeditá-lo"...)

A voz genial de Menano, o príncipe do fado de Coimbra




Se quiseres saber mais, abre o link:


A menina Rosetta

'Rosas', 1915, Pierre-Auguste Renoir


Rosetta, a alta triestina, não tem idade. Uma vez, na esplanada do Café di Colombia, a meio da Piazza Navona, disse: “Cem liras, uma flor! Não se recusam cem liras a uma velha!”


E, com essas palavras, voltava atrás a sua idade. Só quem muito sabe fala assim e só quem ainda não cresceu se expõe desse modo. Vestida à maneira da Ístria, eslava dos sapatos rotos à travessa que os cabelos bancos aceitam, Rosetta sorri sempre e leva nas mil cores da saia comprida a forma diferente de viver.


Acerca dela correm muitas histórias: voluntária pedinte, desprendida de tudo, colhe a luz de Roma, e basta-lhe? Prepara, lá no Norte, uma reforma digna? Tem uma filha drogada que a obriga a mendigar?


Uma coisa é certa: com flores roubadas nos jardins, atravessa docemente as ruas, as avenidas e praças e toca-nos no ombro, a atrair companhia.


Ouvi que é nos cemitérios que roubas as rosas. Então isso quer dizer que a sua solidão vem carregada da solidão dos mortos, que a sua voz é a de muita gente.


Não me surpreende: a voz e o comportamento são diversos. Existem outras vozes dentro da sua voz? Eu escutava: “Cem liras, uma flor...”


Mas aquele corpo maciço, pernas altas, quadris quadrados, peito murcho e grande, mãos feridas das frieiras e dos espinhos das rosas roubadas, os olhos mansos e o cabelo branco –apontavam para coisas extravagantes. Ela é a companheira de quantos se recusam a suicidar-se dentro das regras sensatas.


Ouvisse-me Rosetta dizer isto depois de um dos inúmeros comícios vermelhos que animam a Piazza Navona e corrigir-me-ia: “Eu sou a companheira de quantos recusam o suicídio dentro de regras burguesas.”


Rosetta ama a aventura. Por vezes, de manhã, senta-se junto à fonte de Santa Maria in Trastevere. Está ali e Bernini, que em 1659 recuperou o lugar, passa-lhe a mão pelos cabelos. Rosetta dispensava-o: a sua história é de hoje.


Na Navona, é de hoje a sua angústia ao ver, encostada às grades de Sant’Agnese, uma criança (dezassseis anos?) de pernas abertas (que belas pernas douradas!), abandonada e indiferente. Detém-se, por instantes, a triestina e cede um pouco o seu braço ao peso das rosas. A outra nem a vê: no fundo dos seus olhos há um barco vazio. E a triestina vai desprovida de bússola. “Pobre menina!”, pensará Rosetta, que se sente mais leve porque as flores a puxam.


Lá vai a triestina, carregada de flores e de doçura...


Para Santa Maria della Pace, para os lugares onde as pessoas se recusam e guardam, no cadinho das mãos, a luz, e não se vendem.


Rosetta nunca se vendeu. O instinto e a ternura foram-na empurrando; e, também, o grande amor à vida que, às vezes envergonhada, confunde com egoísmo. Nesses momentos, quando compreende que a sua aventura não poderá alegrar a tristeza dos desapaixonados, oferece quanto tem: as rosas e o sorriso.


Nessa oferta há uma provocação: a da ironia meiga que põe no que diz. Vende rosas a cem liras, ama os pares de namorados. É capaz de parar diante deles e de os olhar com um sorriso que os inquieta porque lhes pergunta se são verdadeiros. E, depois, deixa-os e segue.


Não tem o hábito de entrar nos restaurantes. Conhece Enrico Granati, porque se trata de um outro poeta. Respeitam-se e têm em comum o desprezo pelo frívolo. Enrico, o proprietário da Trattoria PiocchottinoVia Monte Giordano, ao lado da Navona- cozinha as suas sopas maravilhosas e inventa, de cada vez, um preço que, por tão baixo, é justo.


Rosetta solta das mãos as rosas que ficariam bem na orelha de Enrico, que conheceu Pasolini e arrasta as pernas dos oitenta anos, na esperança de que lhe entre pela porta (alguma vez há-de ser) a sensação absoluta.


Rosetta leva a sensação nas pétalas das flores e finge que não sabe. Mas sabe-o bem: assim lhe dói a menina de Sant’Agnese: como comunicar-lhe a alegria? Dói-lhe aquele consentimento na infelicidade. Quando chega esse frio, Rosetta tem de aquecer o corpo no próprio corpo. Tem de afastar o pequeno e gordo demónio que a convida a desistir.


Lá vai Rosetta, encostada à beleza de Roma. Move-se devagar e olha para dentro. O seu calmo sorriso abre-se-lhe no coração. O plástico onde leva as flores toca a calçada húmida da urina dos cavalos, dos excrementos, da chuva. E o verde rosa e branco das flores mantém-se imaculado.


Rosetta acredita no polícia municipal, esquece os deveres e toma café no Tre Scalini. Acredita na jovem mãe que empurra a bicicleta do primeiro filho. De tais almas, chega-lhe o calor que lhe cura o reumatismo –e que lhe confirma a poesia: uma pomba é uma pomba porque os olhos brilham.


Rosetta não acredita nas ciências exactas. E, por isso, deixa-se ir pelo Lungotevere. Faz-lhe bem. A ilha de Esculápio, a ilha Tiberina, navio amigo, espera-a, coberta de ocre, serena.


Rosetta, amanhã, começará outra vez, presa do barulho da vida, das vozes, das ruas. Velha sem idade, menina por natureza, esconde-nos a filha e abandona-se à clandestinidade. Os seus amigos não têm passaporte. A sua casa não consta dos guias. Os seus gestos procuram o azul.



Roma, 1981


in Crónicas Italianas, Editorial Difel

domingo, 26 de junho de 2011

As borlas

in Público de hoje

Billy The Kid leiloado

O único retrato existente de Billy The Kid




Este retrato de Billy The Kid, com cerca de 130 anos -o único reconhecido como autêntico-, foi leiloado e vendido, em Denver, Colorado por... 1 milhão e 620 mil euros. O crime acaba sempre por compensar -nunca se sabe é quem...

Um violino que foi vendido por 11 milhões de euros

Eis o violino que vale uma fortuna


sábado, 25 de junho de 2011

Vinicius, o poeta mais apaixonado do Brasil, o amante por excelência, num soneto belíssimo

À consideração

Cuida do teu destino, salva a tua vida



Edgar Morin (1921-), filósofo francês:

“Quando não vivemos como pensamos, estamos condenados a pensar como vivemos.”


Cornelius Castadoris (1922-1997), filósofo, economista e psicanalista francês, de origem grega:


O capitalismo não pôde funcionar senão porque herdou uma série de tipos antropológicos que já não existem e que não poderia criar: juízes incorruptíveis, funcionários íntegros, educadores que se dedicavam à sua vocação, trabalhadores com o mínimo de consciência profissional, etc. Tipos desses não surgem espontaneamente, criaram-se em períodos anteriores ao capitalismo, graças a valores consagrados: a honestidade, o serviço do Estado, a transmissão do saber, a obra bonita, etc.”


Comenta Jean-Claude Guillebaud (le Nouvel Observateur), a quem fui buscar as duas citações:


O ‘sistema’ tem de reaprender, tem de ser forçado a fabricar esses tipos antropológicos.”


Certamente, porque esta não é vida: é um arremedo vergonhoso e assassino de andar pela Terra.


Mas só a nossa vontade, a nossa coragem, a nossa entrega à luta contra o sistema neo-esclavagista conseguirá ressuscitar os valores éticos, a que acena Castadoris.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Este milagre de beleza, doçura e juventude infrangível não podia faltar...

Elis Regina tal qual: única

Para os meus amigos brasileiros a voz de uma menina genial..., santa: Elis Regina

Os sacrifícios do novo governo

Emigrantes: o povo irresponsável parte, alegremente, para férias...


"Governo sem férias nos próximos dois meses para aplicar medidas da troika"


título do Jornal de notícias de hoje


p.s. e que raio de "férias" quereria este governo que trabalha há três dias?!

Bom dia com esta mulher cuja sinceridade e a força nos puxam para cima!

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Lisboa na voz de uma grande fadista

Quando a vida se suicida

Uma rua de Tóquio


Abre o link:


Quando o progresso não é retrocesso

Perú: Machu Pichu

Abre o link:

http://www.elpais.com/articulo/cultura/Machu/Picchu/salva/castigo/Unesco/elpepucul/20110623elpepucul_3/Tes

A expressão artística






Deixava a Navona e a incerteza dos passos levava-o para o Lungotevere. Já na Pizza delle Cinque Lune, depois de descansar e de acertar as abas do casaco, faria um desvio até Sant’Agostino e, ali, receberia a bênção de Caravaggio e da Madona dei Pellegrini. Encostava-se á montra do alfarrabista, a olhar-se no vidro. Do outro lado, as velhas edições. Entre o outro lado e o dele, o seu rosto cheio de rugas, os olhos profundos, os longos cabelos brancos acertados pela risca ao meio. Era uma cara de artista. Uma cara de artista a flutuar em Roma, com livros de grandes escritores à frente e automóveis atrás. Um laçarote ao pescoço e livros debaixo do braço. Uma certa melancolia na expressão. A boca desenhada.



Lá vinha ele, o “expressão artística”, com o dramatismo e a miséria. Do fundo dos olhos, espreitava-te e aceitava o teu olhar; estava ali para isso: para transmitir a profundidade do olhar. Arranjava o laço, esticava o cabelo. Compunha os gestos. Roma era o seu palco e o seu corpo, o instrumento. Dava aos outros e a Roma aquelas horas, com a consciência de um profissional. Caminhava convencido disso mesmo: da alma que oferecia.



Nunca soube muito da sua vida, mas acreditei sempre que recitou como comparsa –e, se Roma fosse Portugal, encontrava-o numa leitaria, com restos de cigarros no pires do carioca e as mãos a saírem dos punhos gastos. Mãos de unhas aparadas, e o olhar vivo, as riquezas possíveis. Papéis escritos há muito tempo. A doçura e a disponibilidade, a beatitude de quem está convencido de trazer dentro de si alguma coisa.



Por S. Apollinare, perdia-se entre os lampiões da Via dei Coronari. Apontava à ponte de Sant’Angelo e, enquanto andava, pensava que todos reparavam nele, o homem da papelaria, o criado do café, a senhora que vendia antiguidades, as crianças que brincavam na rua e paravam à espera de poderem continuar a jogar à bola. Finalmente, Sant’Angelo! E, quando olhava para o mausoléu de Adriano, sentia-se igual ao anjo, também ele sofria. E enchia o peito de ar, de rosas e de ocre.



Era um homem que se encontra muitas vezes, mas que conseguia parecer único. Eu via-o ir com a roupa no fio, as rugas, a brilhantina, as folhas, flores que, se houvesse vento, esvoaçariam, escuras de tinta azul delida. Via-o na sua comédia, e pensava: há muitas maneiras de comunicar com os outros. Uma pessoa põe um cravo na lapela; tinge o cabelo; escreve uma carta; atira-se para debaixo de um comboio. Mostra-se e diz: estou aqui, queres ouvir?, eu conto. E começa a contar as coisas de que teria sido capaz e algumas de que foi.



Se uma pessoa não sabe pintar; se tem ouvidos de cortiça; se, quando escreve, lhe ficam as palavras dentro da alma –nem por isso deixará de querer expandir-se, nem por isso deixará de se querer dar. E escolhe outro modo: o seu modo de expressão artística: o modo de, encontrando-se, sair de si e chegar à vida. Tê-la, naquele gesto; ter-se, naquele gesto. Agita-se da maneira que pode; veste-se da maneira que pode; sorri da maneira que pode. Procura dizer que compreende, que identifica as cores, que ouve os autocarros. Quer estender o mistério à janela.



Havia uma nebulosa, por onde caminhava. Parecia um manequim coberto de oiro. Arrastava os pés, encostava-se às paredes, compunha as abas do casaco. A vida ia com ele.



Veneza, Novembro de 1982



in Crónicas Italianas, Editorial Difel

O ovo de Colombo




Não há apenas uma geração –diria, um país- à rasca: há a imprensa à rasca.




Os jornais vendem-se cada vez menos, por mais prendinhas que lhes acrescentem.


É um fenómeno internacional, é um fenómeno especialmente grave entre nós.



Adrien Bosc, que se prepara para lançar uma revista intitulada Feuilleton (Folhetim) dedicada à publicação de grandes reportagens e novelas, disse uma verdade, repôs em pé 0 ovo de Colombo:



“Quanto melhor for a qualidade dos jornais e revistas, mais a imprensa reencontrará os seus leitores.”



Bosc privilegia a qualidade das reportagens e das novelas; Bosc privilegia a Cultura.



Essa palavra ainda existe em Portugal ou foi banida pelo Acordo Ortográfico?

O político é um fantasma

Que é feito do político que se dedica ao bom governo da polis, da cidade, e se desinteressa do carreirismo que rende?...



O prestígio da AR



por Manuel António Pina



Foi um "pedido" público e chegou-me, através da SIC Notícias, pela voz de Guilherme Silva, vice-presidente da AR, com quem não estou há 40 anos. Mais do que um "pedido", foi antes um apelo, dirigido não só a mim mas a mais cronistas de imprensa, no sentido de não contribuírem para o desprestígio do Parlamento.



Mas quem, em primeiro lugar, tem de fazer pelo seu prestígio é a própria AR. De facto, o descrédito da AR junto dos portugueses resulta, não dos jornais, mas, desde logo, do descrédito dos próprios partidos (sobre o qual existem estudos e sondagens q.b., designadamente a "sondagem" que os números sempre crescentes da abstenção constituem). E, depois, de coisas como a qualidade dos deputados, muitos deles "yes men" sem espírito crítico nem vontade própria, ou regras partidárias que põem em causa a função de representação e autonomia parlamentares, como o uso e abuso da disciplina de voto, que reduz a maioria dos debates na AR a um mero e inútil formalismo.



O que se passou no início da nova legislatura com a rejeição, autónoma e livre (enfim, ou mais ou menos...) pelos deputados de uma candidatura contranatura à presidência da AR e a escolha para o cargo de alguém com o prestígio de Assunção Esteves, foi, por isso, algo capaz de contribuir para o crédito da AR mais do que mil apelos públicos.



A AR ganhou pontos junto dos portugueses. Esperemos que não os desbarate na primeira oportunidade.




transcrito, com a devida vénia, do Jornal de Notícias de hoje

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Bom dia com a vida em síntese, poética e dura como ela é

Páginas de um diário público

Pormenor de 'Anunciação', de Tiziano, Museu de Brescia -um dos Mestres de Aldo Zari


Lembro um encontro com José Cardoso Pires, nos finais dos anos 50, creio que Luís Sttau Monteiro estava presente, e de se falar de autores “actuais” e de autores “ultrapassados”.

Era, ainda, o tempo da ‘literatura engajada”, talvez melhor dizer “comprometida”.


Mas o francês funcionava como segunda língua e a “littérature engagée”, de Sartre, encontrava a tradução preferida.


Não nos demorámos nisso, ou, melhor, evitei o assunto, tendo já, para mim, que ao escritor cabe, apenas, comprometer-se, “engajar-se”, comprometer-se consigo próprio.


E, necessariamente, se compromete com o mundo, pois que no mundo vive e se descobre, em movimento comum de todos.


Aquilo que o jovem aprendiz que eu era defendeu foi a intemporalidade da actualidade.


O que pode parecer malabarismo pedante de verbalista -coisa de papagaios que repetem palavras alheias decoradas e lhes dão, para as tornarem ‘originais’, uma voltinha, esperando deslumbrar os espectadores do circo literato- queria e quer dizer o seguinte:


o fogo foi descoberto há centenas de milhares de anos e, no entanto, cada um de nós reaprende a acender um fósforo.


E, ao modo do nosso tempo e ao nosso modo, repetimos o gesto do tal ‘homo erectus’, de que recebemos a descoberta, que ele fez ao modo do seu tempo e ao seu modo.


Reler Sófocles, Shakespeare, Thomas Hardy, Balzac, Camões, Camilo... António Nobre, Afonso Duarte, Mário de Sá-Carneiro, Régio, Branquinho da Fonseca..., por exemplo, não significa entrar numa caverna cuja luz já não é a nossa.


A nossa luz, o nosso fogo deve, ao deles, ser o que é.


A arte é uma pirâmide... horizontal.


Um somar de mundividências (expressão inteligente que aprendi com o Padre Manuel Antunes, em 1960, nas fascinantes aulas de História da Cultura Cássica).


Um somar de experiências.


Porquê horizontal essa pirâmide, esse somar?


Porque em Arte não há evolução: há um suceder-se de pessoas com o dom de expressarem a sua visão singular, original, diferente, única, de verem e entenderem as coisas.


Um dos Mestres de Aldo Zari foi Tiziano. E ele há lá coisa mais diferente do que a pintura de cada um deles!


Mas, na singularidade, originalidade, diferença de Tiziano, Zari aprendeu a descobrir e expressar a sua.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Se fores a Londres...



Los magos del 'glamour' de Hollywood


por Nacho Meneses



Una exposición de la National Portrait Gallery, en Londres, recuerda la labor de los grandes fotógrafos del cine

James Dean con la mano extendida,puro hedonismo de luz sobre fondo negro; Marlon Brando contra una columna de hierro, musculoso, descarado e irresistible en camiseta blanca; Alfred Hitchcock de espaldas, genio del suspense, capaz de contener al poderoso león de Metro Goldwyn Mayersin tan siquiera moverse de la silla que luce su nombre. Mucho antes de la llegada de Internet, cuando la televisión daba sus primeros pasos y no existía aún la ignominiosa sombra de los paparazis sobre los famosos, la magia, el misterio y la fascinación de Hollywood viajaban por todo el mundo gracias al trabajo de un selecto grupo de fotógrafos. Una labor que, pese de su innegable importancia, resultó desconocida durante mucho tiempo. Exactamente hasta la llegada de John Kobal, periodista, actor, autor y, sobre todo, coleccionista de los retratos que dan vida a
Glamour of the Gods: Hollywood portraits, la nueva exposición de la National Portrait Gallery londinense.


La muestra, que abarcará del 7 de julio al 23 de octubre de 2011, bebe de los fondos de la Fundación John Kobal para mostrar retratos icónicos, o nunca vistos antes, de estrellas como Joan Crawford, Elizabeth Taylor, Rock Hudson, Joan Collins, James Dean o Marilyn Monroe; pero también instantáneas de filmes legendarios cuyo drama ha sido congelado por el tiempo. Así, Charles Chaplin y Jackie Coogan aún permanecen, desamparados, en aquella solitaria esquina de El Chico; Marlene Dietrich luce su mirada altiva en Manpower o Vivien Leigh emociona eternamente en Lo que el viento se llevó, retratados por casi 40 fotógrafos como George Hurrell, Clarence Sinclair Bull, Laszlo Willinger o Bob Coburn. Un material que, para garantizar una mayor difusión, carecía de derechos de autor y daba lugar a pósters y tarjetas promocionales que debían incluir el argumento de la película o ser lo suficientemente dramáticas como para atraer el interés de la gente en una sola imagen. Retratos que dotaban a los actores de un aura de misticismo e inaccesibilidad que venía muy bien para los intereses de una industria que, entre 1920 y 1960, ejerció un absoluto control sobre la imagen de sus estrellas.


La historia de John Kobal (Linz, Austria, 1940-Londres, Inglaterra, 1991) con Hollywood empezó en la posguerra. La zona donde vivía estaba ocupada por tropas estadounidenses, y él solía ver todas las películas que proyectaban para los soldados. Quedó fascinado por todo lo que fuera americano, y "empezó a coleccionar revistas de cine, hasta el punto de que su padre se hartó y se las tiró todas", cuenta Simon Crocker, comisario de la exposición, por vía telefónica. John tenía 10 años. La familia emigró a Canadá y su devoción no había hecho más que empezar.


Breve carrera como actor


Tras una breve y poco exitosa carrera como actor en Inglaterra a principios de los sesenta, en la que siguió aumentando su colección de fotografías y recuerdos de Hollywood, llegó finalmente a la costa oeste de Estados Unidos como corresponsal de la BBC, "en una época de profunda transición en Hollywood. Los estudios estaban siendo vendidos a grandes multinacionales que tenían poco interés por la historia de la industria del cine", dice Crocker. "Se estaban deshaciendo de todo el material publicitario, y John se lo llevó completamente gratis. Para ellos, resultaba increíble que alguien se interesara por ello". MGM tuvo que vender todo: archivos, videoteca... La televisión se convirtió en un tremendo competidor que acabaría por superarles, y los grandes estudios habían dejado pasar la oportunidad de involucrarse en el caballo ganador. Acostumbrados a controlar todo el sistema, se vieron obligados a elegir entre distribución o exhibición, y el poder pasó de los estudios a las estrellas: "La televisión hizo que los actores tuvieran el poder, porque les necesitaban. De repente, se dieron cuenta de que ya no tenían la necesidad de firmar largos contratos con ningún estudio, sino que estaban en el mercado y podían elegir libremente", sostiene Crocker.


John Kobal escribió para la revista de The Sunday Times y otros periódicos que necesitaban fotografías como las que él poseía. Y aunque al principio su interés estaba en las estrellas, pronto "se interesó por los hombres detrás de esas imágenes, casi todos aún vivos y localizables. Fue John quien se dio cuenta de su importancia, en una época en la que a nadie le importaba un carajo quiénes eran", apunta el crítico John Russell Taylor. Para Crocker, "lo que [estos fotógrafos] hacían era reconocido por los departamentos de promoción. Su labor era crucial para Hollywood, que les respetaba y les pagaba muy bien". Pero no obtenían ningún tipo de reconocimiento público; algo que llegaría finalmente de la mano de Kobal, que publicó 30 libros y organizó más de 40 exposiciones por todo el mundo.


Amigo de Andy Warhol, con quien intercambió numerosas fotografías, Kobal formó la fundación que lleva su nombre en 1990, un año antes de morir en Londres por culpa del SIDA. A ella donó unos 18.000 negativos y 3.000 imágenes de las que había acumulado a lo largo de los años, y lo hizo con el objetivo de promover el trabajo de fotógrafos emergentes y apoyar el conocimiento y los avances técnicos en la fotografía y el retrato; algo que hicieron primero a través de un premio de retrato en colaboración con la National Portrait Gallery de Londres (de 1992 a 2002), y también a través de diferentes becas que otorga la fundación.


transcrito, com a devida vénia, do El País de hoje

Páginas de um diário público

Manifestação em Barcelona: substitui-se a placa da 'Plaça de L'Ajuntament' por outra que diz: 'Plaça del Quinze Maig', data em que tudo começou, aqui ao lado...


Não me surpreendem as manifestações da juventude ofendida, na Grécia, em Espanha, em Itália, na Irlanda; aqui mais incertas.

Nem as desaprovo.


Compreendo-as e aprovo-as.


Apresentaram, a essa juventude, uma sociedade de que o roubo, a corrupção, a hipocrisia, o abuso do próximo, a nova escravatura, são os pilares.


Apresentaram o cadáver da moral.


Não acabou a História.


Mataram a moral.


A História continua, aí mesmo, nas ruas de Atenas, de Madrid e Barcelona, de Dublin, de Roma, de Lisboa.


E é essa juventude -à qual querem roubar o futuro, que se indignou, que se revoltou- quem está a escrevê-la.


No Le Nouvel Observateur desta semana, Henri Guaino, conselheiro especial do presidente francês, Sarkozy –um neo-liberal, com telhados de vidro-, reconhece:


A importância da questão moral não vai deixar de crescer, no debate público.”


Certamente.


Porque aquilo a que assistimos é o pináculo da imoralidade, que tocou a fronteira da insuportabilidade.

O desemprego, a pobreza, o limiar da fome, ei-los aí –e a liberdade de pensar e agir (um dos maiores inimigos do sistema neo-capitalista) desvendou os homens.


E os jovens.


Dezenas de milhões de jovens, na Europa, estão desempregados, ou sub-aproveitados, ou neo-escravizados.


Se nos cingirmos à Europa –porque, no mundo, serão centenas de milhões.


Serão biliões, talvez cinco, se contarmos jovens e adultos.


Ontem, na estação, segui o protesto, via telemóvel, de um jovem,-tive de ouvir, tal a indignação de quem falava.


Discutia ele, com um amigo ou amiga, o aluguer de um quarto, em Manchester, onde irá trabalhar.


É, há séculos, o primeiro movimento do português, quando, por cá, não vê, futuro.


Começou com as viagens dos mártires da nossa História Trágico-Marítima.


Nem a expansão da fé nem o alargamento do império os moveram: arrolaram-se nas caravelas, a fugir à fome.


Mais tarde, foi ir para o Brasil, aventura que Ferreira de Castro e Miguel Torga descreveram realisticamente.


Menos escolheram a África, que Salazar nunca os quis lá e era mais fácil emigrar para os USA e Canadá do que para Angola e Moçambique.


Depois, viveu-se a fuga “a salto”, nos anos 50/60, França, Alemanha, Luxemburgo...


Agora, cidadãos europeus, o melhor da nossa juventude (que ser “melhor” não implica, muito pelo contrário, ser rico), emigra, sem ter que pagar aos “passadores”, que recebiam o dinheiro e, muitas vezes, os abandonavam, a meio do caminho.


Qualificados ou não, buscam lá fora o que não encontram aqui: trabalho.


Mais procuram, e é muito importante: trabalho digno.


Fogem ao desemprego e, também, à neo-escravatura.


Só o cego não vê –e, no caso, até o cego “vê”.


Sem nenhum pudor, sem nenhuma vergonha, sem nenhuma moral, o neo-capitalismo, à beira da falência, exige, aos que usou para se enriquecer, que o salvem do colapso mortal.


Porque, isso sim, talvez estejamos a assistir à morte do neo-capitalismo e à consequente recomposição do Estado Social.


E digo “talvez”, porque a plutocracia tem sete fôlegos como os gatos.


E nenhuma humanidade, como os desalmados.


Atenção!: não há que reclamar esmola nem “caridade”.


Há que reclamar justiça, que é fraternidade, igualdade e liberdade.


Respeito pelo outro; respeito pelo direito a compartilhar as oportunidades; direito à escolha, à vocação, à própria diferença, isto é, à própria individualidade.

domingo, 19 de junho de 2011

A estudantinha de Bolonha

'Beatrice', 1885, Odilon Redon




Conheci-a há dez anos -tinha menos dez de agora que tem trinta-, era uma rapariga pequena de cabelos e olhos claros, o corpo redondo. Estudava leis em Bolonha, mexia-se satisfeita dentro do que vestia: amplas camisolas de ponto largo, casacões masculinos e, no Verão, camisas leves que lhe apertavam o peito, saias brancas pregadas de onde saíam as pernas douradas e, no fim, os sapatos de ténis já cambados, também brancos, com listas azuis. Era alegre e voluntariosa, por isso é que se mexia bem dentro dos vestidos: escolhia facilmente a vida e o que punha em cima era o que lhe servia, as coisas que lhe serviam para continuar o movimento que nascia nela e não queria contrariar: a curiosidade. No Inverno, andava por Bolonha, de uma praça para a outra, nos cafés, nos cinemas, nas salas de aulas e conferências, sempre fresca e decidida, com o rosto avivado pelo frio e os olhos brilhantes. Em Agosto, ia para a costa de Cesena, o Cesenatico, convivia com quem lá encontrava e com os amigos que levava de Bolonha.



-Corríamos uns atrás dos outros -contou-me, quando a reencontrei, já sem a simplicidade de há dez anos-, corríamos na praia, nos bares, nas discotecas...


-Corriam nos bares, nas discotecas?... –perguntei.


Olhou-me, percebeu a ironia, e acrescentou:


-E por que não? Gostávamos de correr...


-Nas discotecas?


-Por toda a parte!


Desafiava-me e não parecia muito segura, a impetuosidade soava a falso, como se procurasse convencer-se. E a roupa já não era a mesma e não coincidia nem com ela, nem com os seus movimentos: era uma roupa que tinha dez anos a mais. Não envelhecera ainda a minha amiga -isso era verdade-, mas esquecera-se de se ir deixando envelhecer e continuava a vestir o que já não era dela. Os olhos -a curiosidade- não se tinham alterado, intensos, verdadeiros, viam porém as coisas de outro modo porque as que lhes pertenciam, ou lhes tinham pertencido, haviam ficado para trás, irresolutas.


-E depois? –insisti.


-E depois?..., e depois arranjávamo-nos!


-E qual era o arranjo?


-O que podíamos...


-Era pouco?


O rosto abriu-se-lhe. Sorriu, baixou os olhos, concentrou-se, e respondeu:


-Era muito!


E eu via-a, no outro tempo, capaz de se arriscar, de verdades, de mentiras, de ardis, na plenitude da juventude, da convicção, da prepotência, e, agora, via-a com esperança frágil, a explicar-se:


-E agora? –perguntei-lhe.


-Somos mais livres... Só levamos a sério o que queremos...


-E o que é que querem?


-Isto!


E pôs-se a rir. Tinha à minha frente uma mulher que a juventude, que vive desses corpos e demora a deixá-los porque, depois, fica sem apoio, ainda não abandonara. Mas já não era a mesma: era, apenas, obstinada e poucas vezes sincera. Ou, então, a sinceridade era aquela: o desplante com que insistia em fingir e se agredia (porque tinha consciência do próprio jogo).


-Isto?


-A nossa vida!


-E o que é a vossa vida?


Ela hesitou, fitou-me e respondeu-me:


-É a que tu não tens!


-A que eu não tenho?


-A que tu não tens! –repetiu.


-E o que é que eu não tenho?


-Não tens a minha liberdade!


Íamos pela Via Rizzoli, direitos à Piazza Maggiore, onde as primeiras luzes se acendiam, dispostos a sentar-nos nas escadas do Duomo. Era Inverno, húmido, a chuva miudinha caía-nos em cima e eu embrulhava-me no meu capote, ao lado dela.


-A tua liberdade?


-A de amar quem me apetece! A de deixar quem me apetece! A de fazer o que me apetece!


-E o que é que te apetece?


-Isto!


A estudantinha de Bolonha ia ao meu lado, com as unhas roídas e o que não lhe pertencia: tinham passado os anos e o que levava em cima não tinha nada a ver com o seu olhar que era o de uma mulher de trinta anos, cheia de medo de envelhecer.


-Isto? –perguntei-lhe.


Não me respondeu.


-E depois? –insisti.


Atrás, estava a fachada do Duomo, inacabada, meia restaurada, cor-de-rosa e de tijolo. Ela não me respondeu: foi-se inclinando para mim e deixou que eu a abraçasse.


-Parecemos uma pietà... –disse-lhe.


Riu-se e, a aconchegar-se, respondeu-me:


-Uma pietá?... Qual pietà?! Deixa-te de fitas!


E abandonando a cabeça aos meus braços, perguntou:


-Gostas de mim?


-Gosto.


-Como eu sou?


-Como tu és.


Soergueu-se e, com o alvoroço e a alegria de uma criança, exclamou:

-De verdade?!


Eu tranquilizei-a:


-De verdade.


Deu-me um beijo e disse:


-Obrigada.


-De quê? –perguntei-lhe, enquanto apertava o seu corpo contra o meu e a deixava respirar, encostada a mim.


-Um dia... –murmurou.


Aquele era o dia em que estava sozinha e entregue. Levantei-lhe a gola do casaco e afaguei-lhe os cabelos.


-Não te preocupes.


-Achas?


Eu não achava nada mas tinha a certeza de que era uma alma que merecia ternura. E foi quando se separou de mim, me empurrou e se levantou, a gritar:


-Se tu não achares, é o mesmo! Eu não preciso de ti! Eu tenho a minha vida!


Caía sobre nós a humidade de Bolonha, a chuva, o Inverno, a noite, e eu perguntei-lhe:


-Só isso?


Ela não respondeu e agarrou-me na mão.

in Novas Crónicas Italianas, Editorial Teorema

Bom dia!

A força do PAC ou o Processo de Analfabetização em Curso



Fiquei a saber, pelos jornais, que os jogadores do Futebol Clube do Porto não são contratados...


São CONTRATUALIZADOS...


Neo-facada já consagrada no acordo ortográfico ou mais uma canelada na gramática?


Pobre língua portuguesa!

Bom fim de Domingo! E... 5ª feira é feriado!

"A menina do circo"

Élia Fernandes recria a história da menina do circo


Em Fevereiro, o TMG e a Câmara Municipal da Guarda organizaram um Ciclo, que me foi dedicado.


Nunca agradeci devidamente o gesto tão generoso, tão amigo, que me calou fundo.


Por pudor, timidez. Maneira de ser.


A alegria, emoção e tumulto interior bloquearam-me. Ainda me apertam a alma.


Ontem, revi, em CD-ROM, o momento que mais profundamente me tocou nessa festa maravilhosa : o espectáculo concebido e interpretado por Élia Fernandes, com música (estupenda) de Victor Afonso, executante e comparsa -a partir de um contarelo meu.

Depois, as crianças (outros formidáveis comparsas!): os alunos de uma das escolas básicas que vieram... ao circo.


Porque ele ali estava: o circo de outros tempos, dos anos 50, que invadia o antigo Largo 5 de Outubro, onde eu tinha casa, hoje em ruína, cheia de fantasmas!


E, de volta, a menina do circo...


O talento excepcional de Élia Fernandes, a sensibilidade, o seu instinto de criadora, de artista primorosa, arrancou ao nada, que o que passa apaga-se, perde-se no espaço infinito onde as imagens fogem, a sua inteligência, a intuição vigiada, tiraram do silêncio a figurinha inesquecível da jovem trapezista: Rosalinda.


Rosalinda existiu. Talvez ainda viva, num lugar qualquer deste país de fábula, com o mesmo sorriso meigo, os olhos mais cansados, o rosto sarapintado de sardas e o cabelo, de loiro, bordado agora em fios de prata.


O adolescente, que Rosalinda deslumbrou, também cresceu...


E vem agradecer-lhe, Élia, ter ele podido reviver o instante, tudo é tão breve!, e sentir o coração bater outra vez, como há tantos anos, sobressaltado diante da fantástica realidade do sonho.


Bem haja.

sábado, 18 de junho de 2011

O rio da vida

Este magnífico trabalho de William Blake, 'The River of life", c. 18o5, enviou-me a amiga Ana, autora do excelente blog (In)Cultura, no seu comentário ao post 'O sentido da vida'. É a minha maneira (abusiva?) de agradecer as suas palavras.

André Gide, o espírito e a eternidade

O mistério e a beleza da vida acompanharam-no até ao último momento...


A alma, escusado será dizer que creio nela. Creio tal qual creio na luz do fósforo. Mas não posso imaginar essa luz, sem o fósforo que a origina.


(...) Creio no mundo espiritual e tudo o resto é-me indiferente. Mas penso que esse mundo espiritual não existe senão graças a nós, em nós; que depende de nós, do suporte do nosso corpo.


(...) Creio que não há dois mundos separados, o espiritual e o material, e que é inútil opô-los. São dois aspectos do mesmo e único universo; é inútil opor alma e corpo.”


in Journal, 15 de Maio de 1949



E, as últimas linhas, que juntou a Ainsi soit-il ou Les jeux sont faits (publicado, póstumo, em 1952), aqui as que deixo na língua original:


13 Février 1951
Ai-je encore quelque chose à dire? Encore à dire je ne sais quoi. Ma propre position dans le ciel, par rapport au soleil, ne doit me faire trouver l’aurore moins belle!




André Gide morreria 6 dias depois, em 19 de Fevereiro de 1951.

O sentido da vida

'Norte', 1879, Arkhip Kuindji (1842-1910)


“O espírito sopra onde quer e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai.”



Evangelho segundo João, III, 8

Bom dia!



Abre o link:

http://en.wikipedia.org/wiki/Mikhail_Nesterov

quinta-feira, 16 de junho de 2011

RTP e analfabetismo






"Cortar na Educação"



por Manuel António Pina



Para quem, como eu, considera da maior importância um serviço público de televisão, a notícia de que PSD e CDS-PP irão privatizar um dos canais da RTP, provavelmente a RTP1, deveria ser preocupante. Então porque não é?



Fundamentalmente porque nenhum dos governos que legislaram sobre serviço público de televisão se preocupou em definir com clareza o conceito e os limites do que seja esse serviço público, abrindo portas a que sucessivas gestões da empresa fossem mantendo a RTP1 numa pantanosa situação de ambiguidade concorrencial com o telelixo dos canais comerciais e, salvo raras excepções, exilando para a RTP2 tudo o que cheirasse a serviço público (considerando este um fardo na guerra pelas audiências e pelos recursos publicitários).



Ora a primeira pergunta que se poderia pôr a propósito da RTP1 é se uma televisão pública, financiada pelo OE, deverá estar envolvida em guerras de audiência ao ponto de muita da sua programação ser dificilmente discernível da dos canais privados. Até porque programas como os documentários de Joaquim Furtado sobre a guerra colonial, ou mesmo, apesar de tudo, o "Prós & Contras", parecem provar que nem só com telelixo se asseguram "shares".



Diz João Carlos Silva, ex-presidente da RTP, que cortar na televisão pública é o mesmo que "cortar na Educação". Espero que não esteja a pensar em salas de aula como o "Praça da Alegria", o "Preço certo" ou o "Último a sair".



transcrito, com a devida vénia, do Jornal de Notícias de 17/06/11

Eu não esqueci e fico contente (a verdade é sagrada) por me lembrarem mais este crime dos alemães covardemente nazis





"Caro Manuel, bem mais de 1/2 milhão de ciganos foram mortos e infelizmente em quase todos os textos que lemos não os vemos citados.


Chamado de Porrajmos - a grande devoração, que para os dessa etnia ainda se apresenta em textos e ações até hoje.Infelizmente muitos fazem questão de esconder e tentar sumir com essa parte negra da história, infelizmente nossas memórias são curtas e convenientes para tragédias alheias.Estuda-se a possibilidade de não entrar mais nos livros de história da Inglaterra - por exemplo e nos países Islâmicos existe uma forte tendência a sequer falar do assunto, ficção americana, como dizem.com carinho,


Cozinha dos Vurdóns"

Não temas as tuas confissões

Jean-Jacques Rousseau


José Régio


André Gide


A José Régio, chamavam “umbiguista”, “egotista”, porque de si e da sua relação com a vida deixou testemunho.

O que não terão chamado a Jean-Jacques Rousseau, quando leram as suas formidáveis –e ousadíssimas- Confissões...

Uma das mais inteligentes e reveladoras biografias de André Gide (apesar de incompleta), ficou a dever-se a Jean Delay (1907-1987), psicólogo e homem de cultura: La Jeunesse d’André Gide, dois volumes, que vão de 1869 a 1895.

A páginas tantas dessa obra admirável, escreve Delay:

“Foi porque ousou falar de si que a sua obra talvez nunca se apague: toda a confidência que contém uma verdade humana traz consigo a promessa ou o compromisso de durar”.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Contas mal feitas... e memória que não pode enterrar-se...

Auschwitz, 1945

Enganei-me nos cálculos: foi há 66 anos e não a 60 nem a 63, que as tropas aliadas entraram nos campos de concentração nazis e libertaram o que restava de judeus ali prisioneiros, torturados e à espera de vez nos fornos crematórios.


Chapéus há muitos, dizia Vasco Santana; erros de aritmética, ainda mais...


Crimes como os que perpetrou a Alemanha, nos dez anos em que se deixou conduzir por Hitler, desses, há poucos, na História da Humanidade.


É banditismo raro, que faria inveja à Inquisição.


E corrijo a data. Gostaria de ajudar a corrigir a tendência –também imperdoável- para o esquecimento do holocausto

O nosso grego



"Entrevista do Financial Times
Portugal enfrenta dois “anos terríveis”, avisa Passos Coelho"

Apostila aos 66 anos

Pobre Cristo, que teve o azar de ser judeu






O racismo começa no patamar: no ódio ao vizinho.






O racismo começa no cão do outro: nem tenho cão ou o meu é diferente do dele.



O racismo começa na cor: eu sou branco, ele é preto. Ou amarelo. Ou monhé (indiano).




O racismo começa no medo de eu não ser capaz de ser mais forte do que sou.




De ser SÓ eu.




Sozinho.




Por isso, bato na mulher, nos filhos e só não bato no chefe porque TENHO MEDO de perder o emprego.




Antijudeu: sempre.






Antipreto: sempre.



Antiárabe: sempre.




Antimonhé: sempre.




Anti?: presente!




É o medo de mim.




Passam 63 anos sobre a libertação dos prisioneiros dos campos de concentração alemães, do nazismo assumido e vivido e seguido e respeitado pelo povo alemão.




Tinham medo de ser SÓ ALEMÃES.




E cantavam: “Deutscland über alls”.




“A Alemanha acima de todos”.




Não era bonito... mas matava... o outro.




Hoje, depois do escândalo do assassínio de 6 milhões de judeus nos campos de concentração dos alemães, do nazismo, depois do remorso de nada terem feito para o evitar (os aliados sabiam disso, desde 1942),




voltou o antisemitismo,






voltou a regra de vida do homem que envergonha o lobo: o ódio ao outro.



No caso, o judeu.




Pobre Cristo, que era judeu.






Mas odeiam tudo o que seja diferente: judeu, preto, amarelo, monhé (indiano), gay, lésbica...



...na miséria da incapacidade de amarem.




De serem.






Livres.



Eles.