sábado, 30 de setembro de 2017

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

sábado, 16 de setembro de 2017

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

sábado, 9 de setembro de 2017

Junto ao rio...




(Telemaco Signorini, Veneza, 1835-Florença, 1901)

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

terça-feira, 5 de setembro de 2017

sábado, 2 de setembro de 2017

sexta-feira, 14 de julho de 2017

quarta-feira, 12 de julho de 2017

A poesia de um poeta (1922-1976) nascido em Junça, freguesia de Almeida, concelho da Guarda




Vieste com rosto de virgem georgiana


Trazida nos ventos que o mar soprou
Vieste na Lua nas pedras nos dentes brancos
Das crianças e no arco
Do sonho que a distância não matou
Vieste na ilha de fogo destes e mil versos
Criados para dar-te corpo –forma humana
Vieste na fome dos meus olhos
Nos dedos da miséria e nas gaivotas
Emergindo do rio
Onde o Sol se purificou


Vasco Miranda, “Dizer, Amar”, Portugália Editora, 1971

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Era uma vez Umberto Saba disse...








O livro “Il cerchio imperfetto”, correspondência entre Umberto Saba e Vittorio Sereni, excelentemente organizado por Cecilia Gibellini, Archinto, Milão, 2010, fecha com uma entrevista de Vittorio Sereni, em 1978.

Segundo Serenni:

“Sabba afferma che per fare e comprendere l’arte é necessário “avere conservato in noi la nostra infanzia.”

+


“Saba afirma que para criar e compreender a arte é necessário conservar em nós a nossa infância”

Bom dia!

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O primeiro livro de Eugénio de Andrade




Em 1942, Eugénio de Andrade publicou o seu primeiro livro: “Adolescente” (Editorial Império, Lisboa), com dois desenhos de Manuel Ribeiro de Pavia. Os anos levaram o poeta a afastá-lo e já não consta das suas obras. No entanto, guarda o livrinho poesias de muita beleza. Escolhi este:

Estalaram folhas quando ergui os braços.
Fugiram aves quando cantei.

Depois…
a terra prendeu-me os pés,
o sol queimou-me o rosto,
a chuva vincou-me o corpo,
…e as aves vieram-me cantar nos ramos.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

sexta-feira, 23 de junho de 2017

quinta-feira, 22 de junho de 2017

domingo, 18 de junho de 2017

terça-feira, 13 de junho de 2017

Quem foi?


O misterioso ladrão da simpática intervenção de uma gentil amiga... 



MARIA FRANCO, tão simpática amiga, enviou, há pouco tempo, duas opiniões para dois posts. 

Dirigi-as para o lugar certo.

Quando fui ver se lá estavam... não estavam.

Encontrei o vazio.

Desculpe Maria Franco, mas a culpa não é minha. Um grande abraço.

Um amigo de todos os dias


Umberto Saba



Descobri Umberto Saba (Trieste, 1883 -Gorizia, 1957) em 1976. Ou melhor: Aldo Zari apontou-mo, na banca de uma livraria barata de Veneza. A partir daí e até hoje, nunca mais o larguei: é um poeta genial, é um grande amigo. Foi difícil apanhá-lo: a poesia é muito difícil de abrir, quando se nos apresenta em língua não dominada e eu dava os primeiros passos de convivência com o italiano.

No ano seguinte, 1977, comprei um livrinho (Il Canzoniere, Scelta e Anotazione di Folco Portinari, Giulio Einaudi Editore) destinado a estudantes. E em estudante me tornei nos anos seguintes, sempre com o livrinho no bolso, em frequentes viagens a Veneza. Passados cinco anos ou sete anos, dispensei o livro e o fabuloso Il Canzoniere passou a ser a minha bíblia.

Hoje, muito cedo, fui às estantes e retomei uma obra de muito interesse: Il cerchio imperfetto, que apresenta Umberto Saba e Vittorio Sereni preparou, (Archinto, 2010).

Nas últimas páginas e, certamente, muito perto da morte, Saba, entrevistado por Sereni, disse:

“Bem gostaria, agora que sou velho, retratar com simplicíssima inocência o mundo maravilhoso.”

E, até ao fim, a obra de Saba cumpriu: recriou esse mundo maravilhoso que o poeta viveu e recriou.    

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Bom dia...

de Aldo Zari


CORPO VISÍVEL

A esta hora entre os blocos de prédios enevoados
     a bela mancha
diurna dos calceteiros na praça
e os dois amantes que hoje não dormiram vão partir nos
     braços da sua estrela
à beira do caminho ladeado de sebes de espinheiro
uma carta
uma letra muito fina      extremamente caligráfica
onde a aventura do homem que devolve as palavras que
     lhe são remetidas
deixou a sua marca
e o duque da terceira levanta o braço
comentando seguido pelas aves que acordam a duzentos e
     mais metros de altura
o que não é ainda a grande altura
sim sim
                 não são
                                 quem sabe


Dentro do grande túnel digo-te a vida
esta nuvem que vai para o centro da cidade leve e rosada
     como a proa de um barco
bateira que me trás os dados e a roleta onde no branco
     ou no preto devo jogar
jogando-me contigo
bem-me-quer
malmequer
ou muito     ou pouco
                                    ou nada
o que só com as mãos pode ser soletrado
só nos teus olhos nos teus olhos escrito


Dentro do grande túnel digo-te a vida
(…)

Maro Cesariny de Vasconcelos in “Pena Capital”


domingo, 11 de junho de 2017

sábado, 10 de junho de 2017

Dia de Portugal


5 de Outubro de 1910


Celebrar a Pátria?

Certo.

Para isso, é de trazer aqui os dois grandes momentos de Portugal, no século XX bem perto deste novo século em que a luta pela liberdade e pela democracia continua e parece triunfar.
Deixo-vos duas imagens-memória de 5 de Outubro de 1910 e de 25 de Abril de 1974 –dois momentos históricos, decisivos (o segundo, oferta genial de Vieira da Silva).


25 de Abril de 1974

quinta-feira, 8 de junho de 2017

O escritor proibido é um escritor precioso




A obra de João Gaspar Simões está fechada à chave –é proibido mexer-lhe.

Tudo começou quando Gaspar Simões morreu e a sua morte foi um alívio para os literatos em curso: ele já não podia criticar os livros medíocres cujos autores sonhavam o Nobel -e um deles teve-o…-.

Passaram os anos e os que vieram depois deram com a definição dos ainda vivos -“Simões não vale nada!”- e deram com a inexistência de livros seus (afinal esgotados ou seja comprados e lidos pelos que o respeitavam e admiravam).

Isso é um disparate e prejudica a Cultura portuguesa.

A título de curiosidade, aqui vos cito um dos seus últimos e precioso livro: “Retratos dos Poetas Que Conheci”, Brasília Editora, 1974.


Refere magistralmente João Gaspar Simões os seguintes escritores: Afonso Lopes Vieira; Afonso Duarte; Fernando Pessoa; José de Almada Negreiros; Luís de Montalvor; Raul Leal; António Botto; Mário Saa; António Ferro; Carlos Queirós; Francisco Bugalho; Alexandre d’Aragão; Edmundo de Bettencourt; Irene Lisboa. Ao ler o livro essa gente reaparece-nos viva.




quarta-feira, 7 de junho de 2017

Vazio


obra de René Magritte



Na segunda metade do século XX, Jean-René Huguenin escrevia:

“Ao nosso século faltava já o coração. Hoje é ainda pior: vai-se afirmando a carência de espírito”.***

E, neste século XXI, o de hoje, exactamente? Onde anda o espírito –e não a fuga, o vazio, o sem sentido em que nos refugiamos?


***in “Une autre jeunesse”, Éditions du Seil, 1965
(quadro de René Magritte)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Hoje e ontem

Neste tempo de cabeçadas, roubos de carteiras, amoralidade… fala bem este nosso antepassado…

in Público de hoje


Livro para férias






E aproximam-se, a galope, as férias de cada um, a paz, o tempo de viver a sério e da vida procurarmos novos ou verdadeiros caminhos. Há tempo para tudo? Sim, há: tempo verdadeiramente nosso. Aqui vos deixo a abertura de um romance, “Pântano”, publicado em 1940. Nele encontrarás Maria Helena Vieira da Silva, José Bacelar, Mário Eloy… e outros. É a Lisboa da guerra e dos refugiados, do medo que Salazar, apoiado, em Hitler e Mussolini, sobreviva à resposta inglesa, à luta-esperança de um Portugal democrata, livre.

Dificilmente encontrarás o romance. E porquê? Porque o autor já leva mais de vinte anos que o enterraram. Ele é ma dessas vítimas da ganância e da desvergonha daqueles que quiseram todos os louros para eles; quem?: João Gaspar Simões. Busca, porém, a sua obra.

Aqui te deixo, pois, a abertura do “Pântano”, um dos grandes livros do condenado ao Progatório.

“Nas Ruas, Ao anoitecer: Caminhar ao acaso, numa grande cidade, por entre desconhecidos, livre, perfeitamente livre, sempre se lhe afigurara um sonho. Não desejava coisas impossíveis. Não tinha grandes ambições. Mas aquela liberdade silenciosa dava-lhe asas. Que haveria de mais invejável neste mundo?”


Bom dia, amigo.   

domingo, 4 de junho de 2017

O herói do nosso tempo



Mikhail Lermontov (1814-1841) -quadro de Nikolai Pavlovich Ulyanov


Mikail Lermontov (1814-1841), um dos apaixonantes escritores russos, sublinhou:

“Ao que, à nascença, está escrito na fronte, não escapa nenhum homem.”
Nem ele cuja vida breve foi a tragédia de uma alma pura mas ferida... certamente à partida…


Queres conhece-lo? Lê O herói do nosso tempo, traduzido e publicado por Relógio d'Àgua.



https://en.wikipedia.org/wiki/Mikhail_Lermontov


sábado, 27 de maio de 2017

quarta-feira, 24 de maio de 2017

domingo, 30 de abril de 2017

quinta-feira, 27 de abril de 2017

quarta-feira, 26 de abril de 2017

O novo dia...



Obra de Edward Hopper (Usa, 1882-1967

domingo, 23 de abril de 2017

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Lembrando um grande poeta: Mário Cesariny de Vasconcelos



Os Pássaros de Londres

Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres

quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos

Mário Cesariny, in "Poemas de Londres"
 

A França de outro tempo... em tempo de violência

domingo, 16 de abril de 2017

E o tempo passa, leva consigo a nossa alegria de viver...

de Alberto Carneiro


Faleceu, ontem pela manhã, Alberto Carneiro. Um amigo, um homem generoso, um criador.

Convivemos um mês, em 1976, na Bienal de Veneza.

Sempre presente em mim, sempre por mim admirado e respeitado, nunca mais nos vimos.

Desde essa primeira presença de Portugal, na Bienal de Veneza.

O primeiro artista português -creio- na Bienal de Veneza.

Trabalhámos juntos, num mês de muito calor -Junho-, a erguer a belíssima obra que Alberto Carneiro trouxera.

Colaboraram Aldo Zari, o nosso “guarda”, e uma jovem veneziana, Mirella Canzian, que vinha espreitar o trabalho, animar-nos, conversar connosco, rir connosco.

Hoje, restamos dois: a Mirella e eu.

Da dor que sinto é quanto posso dizer: tudo o mais seria pó, treta, palavras ocas.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Simplesmente magistral tal qual era




Isaac Bashevis Singer

A obra e o artista

“Quando era jovem, lia os livros sem verdadeiramente tentar saber quem era o autor. (…) O bom leitor, o verdadeiro leitor enquanto jovem está-se nas tintas para saber quem era Tolstoi: o que ele quer é ler um livro que o entusiasma.”


Isaac Bashevis Singer in Conversation with Isac Bashevis Singer, Doubleday and Company, Inc., New Yourk,1978

domingo, 26 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

André Gide, meu escritor de cabeceira


André Gide (1869-1951)


André Gide é um escritor que descobri sozinho, há tantos anos: nos idos de 50. Dei com ele na papelaria do Sr. Casimiro, na Guarda; em um livrinho francês da famosa edição “Le Livre de Poche”. Michèlle Morgan iluminava a capa e talvez a fabulosa beleza da actriz me impressionasse. A obra intitulava-se “La Symphonie Pastorale”.

Daí em diante, Gide acompanhou-me e é, ainda hoje, autor de cabeceira.

Escolhi, para vocês, meus amigos, estas linhas que leio e releio e sempre muito me dizem:

“Tu que virás quando eu já não ouvir a música da terra e os meus lábios já não poderem beijá-la -tu que, mais tarde, talvez me leias- é para ti que escrevo estas páginas. Talvez tu não te surpreendas o bastante por estares vivo; não admires como deverias o milagre que é a tua vida.”

Estas linhas abrem “Les Nouvelles Nourritures” (1935); a fechar “Les Nourritures Terrestre” (1897), escreve Gide:


Prende-te, apenas, àquilo que sintas estar em ti e não noutro, cria em ti, impacientemente e pacientemente, o mais insubstituível dos seres.”  

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

domingo, 12 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

domingo, 29 de janeiro de 2017

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Já não somos nós... a máquina vai-nos papando...


Quando Claude Bernard (1813-1878), há tantos anos e num tempo bem diferente do nosso, afirma que adaptarmo-nos ao ambiente em que nos encontramos envolvidos é morrer e que a vida, ao contrário, consiste na nossa capacidade de preservar o nosso ambiente íntimo –aponta-nos o caminho da salvação da nossa personalidade.

Realmente, não vivemos: aceitamos e imitamos formas de vida que nos impõem de fora. O nosso tempo é o da máquina a comandar o homem castrado e a quem, tal qual escreveu José Gomes Ferreira, chuparam o cérebro por uma palhinha.


Acorda! 







de "Tempos Modernos", de Charlie Chaplin





https://en.wikipedia.org/wiki/Claude_Bernard

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

domingo, 15 de janeiro de 2017

Sussurros...: .

Sussurros...: .: De tanto olhar pelo olho de vidro da dor secaram-se-me os olhos. Faço-me e desfaço-me em pele  por vestir um olhar apagado no passar dos ...



Nunca mais soube de si... mande notícia! Bom ano!

Bom dia, meninas e meninos!



de Cipriano Dourado, postal

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O amor a Umberto Saba, a amizade aos meus amigos/camarada do Blogue, a paixão pela juventude -por aqueles que ainda não chegaram aos mortíferos vinte aos..-venderam a incómoda invasão desta gripe… Aqui vos deixo uma obra-prima:



"Retrato de uma jovem", de Mary Cassatt




Ammalata d’un intimo malore
ha gli occhi grandi e neri.
Reggere sogna fieri
interminati gli assalti d’amore.

Forse è vergine ancora, forse solo
pensò,   pensa quel bene.
Forse in deserte arene,
tornata fiera, uccise il suo figliolo.

Eppur bella è cosi, fiori di spina,
che, se il male tace,
toglie a te la tua pace
col franco riso de buona bambina.

Ma se piange spettacolo si tocca
di sconvolta natura,
e se parla hai paura:
dice cose confuse la sua bocca.

Umberto Saba in Fanciulle, ll Canzoniere


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Um autor e um livro que não se podem esquecer




Se eu quisesse distinguir um dos mais importantes neo-realistas, traria aqui Soeiro Pereira Gomes (1909-1949) e o seu “ Esteiros”, único livro publicado em vida, obra-prima de que sentes a força, a humanidade e, imagina, a poesia… A trágica poesia, sempre a sobrevoar a vida daqueles que a atravessaram, violados por um regime sinistro –o de Salazar.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

E mais uma vez recordo um grande poeta: Afonso Duarte (1884-1958)




Humana Condição
Um sonhar-me distante, um longe incrível 
É agora o meu estado: Eu sonho o Espaço
 
Que se fixa no mundo ao invisível
 
Como se o mundo andasse por meu braço,
 

Existo além: Sou o animal temível
 
De Jesus com o mundo-Deus na mão.
 
Sou para além do mundo concebível
 
Onde morre e começa a criação.
 

Eu, homem, sondo e meço o Infinito;
 
Sou corpo e espírito, esse corpo oculto,
 
E é só na mão de Deus que ressuscito.
 

E chamam a isto humana condição ...
 
Um nada, e tudo: — Vivo e me sepulto
 
Dentro e fora do próprio coração.
 

Afonso Duarte, in “Ossadas”


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O regresso de Sidarta






Organizando um bocadinho -poderia lá ser uma organização ‘decente’, os milhares de livros que enchem a nossa casa são rebeldes e mudam  de lugar a toda a hora!…- mudei volumes e eis que topo “Siddharta” (assim está na capa), de Hermann Hesse.

É uma edição da Frassinelli, datada de 1973; na página interior de título, escrevi: “Roma, 12 de Abril de 1975, no fio da navalha”.

Porquê no fio da navalha? Julgo saber porquê mas fica comigo.

Chegara a Itália no dia 9 de Janeiro do mesmo ano e já muitas coisas haviam acontecido.

Muitas boas coisas.

Por que comprara “Sidarta” –assim aparecera escrito em Portugal-? 

Porque a oferecera antes da viagem, tal qual ofereci muitos outros exemplares e apetecia-me relê-lo.

Creio que esse romance (?) de Herman Hesse nos tocou a todos, sobretudo a juventude.

Passados tantos anos, quase 42…, espreitei as folhas, cheias de sublinhados; escolhi estas palavras:


“…agora és um homem, escolhe a tua estrada. Oxalá possas segui-la até ao fim, meu amigo. Oxalá encontres a tua liberdade!”  

Bom dia com um pintor romeno

domingo, 8 de janeiro de 2017

Será que também este grande poeta -António Nobre- também já se pôs de parte, com uma etiqueta de 'romancista', ele que abre a estrada da psique?





António Nobre






Poveiro
Poveirinhos! meus velhos pescadores! 
Na Agoa quizera com vocês morar:
 
Trazer o lindo gorro de trez cores,
 
Mestre da lancha
 Deixem-nos passar! 

Far-me-ia outro, que os vossos interiores
 
De ha tantos tempos, devem já estar
 
Calafetados pelo breu das dores,
 
Como esses pongos em que andaes no mar!
 

Ó meu Pae, não ser eu dos poveirinhos!
 
Não seres tu, para eu o ser, poveiro,
 
Mail-Irmão do «Senhor de Mattozinhos»!
 

No alto mar, ás trovoadas, entre gritos,
 
Promettermos,
 si o barco fôri intieiro, 
Nossa bela á Sinhora dos Afflictos!
 

António Nobre, in 'Só’




A jovem mulher que espera o regresso daqueles que desafiaram o mar (quadro de Silva Porto)