de Aldo Zari
CORPO VISÍVEL
A esta hora entre os blocos de prédios enevoados
a bela mancha
diurna dos calceteiros na praça
e os dois amantes que hoje não dormiram vão partir nos
braços da sua estrela
à beira do caminho ladeado de sebes de espinheiro
uma carta
uma letra muito fina
extremamente caligráfica
onde a aventura do homem que devolve as palavras que
lhe são remetidas
deixou a sua marca
e o duque da terceira levanta o braço
comentando seguido pelas aves que acordam a duzentos e
mais metros de altura
o que não é ainda a grande altura
sim sim
não são
quem sabe
Dentro do grande túnel digo-te a vida
esta nuvem que vai para o centro da cidade leve e
rosada
como a proa de um barco
bateira que me trás os dados e a roleta onde no branco
ou no preto devo jogar
jogando-me contigo
bem-me-quer
malmequer
ou muito ou pouco
ou nada
o que só com as mãos pode ser soletrado
só nos teus olhos nos teus olhos escrito
Dentro do grande túnel digo-te a vida
(…)
Maro Cesariny de Vasconcelos in “Pena Capital”

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