
a convite do coordenador, nesse livro escrevi, sobre José Régio, o que aí vai:
O último homem livre?
Poemas de Deus e do Diabo, livro primeiro de José Régio, data de 1926. Dele consta o seu projecto de vida: Cântico Negro e o verso sempre repetido, declamado, proclamado, hoje, clássico: “Não sei por onde vou,/ Não sei para onde vou,/ -Sei que não vou por aí!”
Uma escolha assente numa recusa: “Vou por onde eu sentir ou adivinhar que é o meu caminho”, pensava. Diante da larga estrada da vida, apresentava-se -e queria-se- virgem, impoluto, livre de influências alheias; ouvindo os avisos do destino e interrogando-os, entregando-se à sua viagem. Decifrando os avisos, sinais, luz.
Foi Régio constantemente fiel à escolha? É irrelevante que o tenha sido ou não. O importante é que quisesse sê-lo. A luz não passa de um sinal na noite; de uma estrela inatingível, porque o Infinito é infinito e não podemos saber onde, no Infinito, ela brilha. Não sabemos sequer se ela não é o Infinito imponderável, inatingível, imprevisível. O que conta -e vale- é a tentativa para atingir o sinal. O que interessa é vencermos obstáculos, ultrapassarmos derrotas e desilusões. E avançar. Quando Régio, em A Lição Inútil ou Carta a Um Juvenil Individualista, fala do marco de pedra que vai pontuando a nossa viagem ao longo dos dias -“De tal parte a tal parte, tantos quilómetros”- não sugere outra coisa.
Nada nos garante que estamos no caminho certo? Nada garante. A vida não oferece garantias. Respeitamos e seguimos a inspiração, escolhemos consoante. O risco da escolha é inevitável e a escolha nunca é definitiva. A nossa vida é soma de escolhas, de certezas e incertezas. Caímos e levantamo-nos. Acumulamos as nódoas negras e, em movimento, desenhamos a nossa imagem.
Salvamos as ilusões, recriando-as? Talvez. Mas é teimosia que nos salva do desespero (porque a dúvida é insuportável). Se não temos a certeza da verdade, temos a certeza do que há do outro lado: o silêncio, o deserto, a morte, a negarem a luz de vida. Avançamos em direcção à luz fixa e esquiva, ambígua como a alegria que alivia. E continuamos. Continuamos contra a dúvida e a fraqueza.
Thomas Hardy, em Tess of the d’Urbervilles, apontava-o: “o valor moral deve estimar-se não pelo que foi realizado mas, sim, pelo que se quis realizar”. E acrescentava: “por vezes, a imperfeição pode ser superior à perfeição”.
É desafiar a maioria habituada a não discutir o lugar-comum estabelecido afirmar que a imperfeição pode ser superior à perfeição. E, de facto, Hardy escandalizou no século da rainha Victória e escandalizaria a massa, agora ainda. No entanto, ele sublinhou uma verdade: da imperfeição partimos em busca da perfeição –e ai daquele que se julga perfeito: está morto e julga-se vivo. Na cruz, não duvidou Cristo do Pai e, duvidando, não duvidava de si próprio, que se tinha por filho de Deus? E, antes de crucificado, não sofreu a dúvida? E não lutou com ela, tal qual Jacob lutou com o Anjo? Cristo, Deus feito homem? Ou sagrada criatura de Deus, como nós todos? Cada um receberá a mensagem de Jesus, interpretará a sua vida breve neste mundo e há-de tê-lo pelo que nele achar. Seja, porém, qual for a conclusão, a extraordinária, maravilhosa vida breve de Cristo -algo mais- conforta e aquece o homem obrigado à viagem que o abrasa, do berço à morte.
Não sei se José Régio leu Hardy, mas procedeu de acordo. E, recusando receber de mãos alheias a perfeição que lhe cabia conquistar -entendia que devia conquistá-la sozinho, diante de Deus e do diabo-, arriscou perdê-la? Esse é o trabalho do homem: assumir o risco de perder –e talvez a perfeição não seja deste mundo, a saudade dela é que é.
Conheci José Régio em Junho de 1957, na casa da Boavista, Portalegre. A impressão primeira marcou toda a convivência de 12 anos. Um nada, claro!, porque o tempo cronometrado não é nada. O “muito”, o “tudo” é imensurável. O “tudo” -e os 12 anos foram um “tudo” mais a somar-se a outros, esse especialmente intenso- está em nós: somos, breve e eternamente, o seu sujeito. Recebemo-lo e vivemo-lo. Ardemos nele, porque o Infinito é a Sarça Ardente, o fogo que assombrou e decidiu Moisés. Os 12 anos, não sendo nada, foram muito –precipitaram miríades de instantes (cada instante guarda, em si, a legião incontável dos instantes).
Digo o seguinte: o homem essencial que me abriu a porta da casa da Boavista nunca se traíu -nunca dei por que se traísse-, durante os 12 anos. E, quando escrevo “homem essencial”, aludo a um homem despido de supérfluo, um homem em carne viva, a recortar-se na penumbra do vestíbulo, exposto, surpreendido, curioso, reservado e disponível. Ecce Homo. Régio era-o e foi-o sempre. A fidelidade ao essencial representa a fidelidade ao Cântico Negro.
Não ir por aí; buscar o nosso caminho. À partida, defender a pureza da alma. Preservar a subjectividade. Exigir autenticidade, sinceridade. É um acto de coragem indispensável, se quisermos acrescentar alguma coisa à vida e, terrena e espiritualmente, viver. Porque é aqui -na terra- que o espírito se reconhece e conquista. De facto, ele afirma-se no viver com os outros, em comunhão. Isso não implica a desistência de nós próprios, pelo contrário.
Um homem independente, um homem livre, é um homem sozinho? De modo nenhum. No fundo da solidão encontra-se o Outro. E, na descida aos abismos da subjectividade -do Mistério-, vamos desenhando a nossa figura: um poliedro que reflecte e multiplica imagens –tantas quantas a complexidade do homem que, escavando a própria perplexidade, foi descobrindo. Porque nenhum homem é uma imagem só. E na figura geométrica enraíza o diálogo criador. Outros “bichos da terra tão pequenos” -cada um à sua maneira- reconhecem, nas múltiplas faces do poliedro, sinais da perplexidade e do deslumbramento de viver, que, através do encontro e do diálogo, se multiplicam infinitamente, encadeados e livres.
O homem que fala a sério comigo alguma coisa leva para dar a outrem e dele recebo ensinamento. E por diante.
Eis a luta e a coragem do grande poeta: oferecer-se descoberto. O amor fati: amou e respeitou o próprio destino, na certeza (e na incerteza: Deus e o diabo) de não ser em vão.
Hoje, poderá parecer desvario ou inconsciência. Provavelmente, assim hão-de considerá-lo alguns, quando se tem por aconselhável a prudência hipócrita: seguirmos aquilo que os cartazes apregoam, entregarmo-nos à mascarada e, ao imperativo ético, substituirmos as regras do lucro e do comércio... De facto, negociamos a alma. Alienamos a liberdade e a responsabilidade, dissolvemo-nos no tumulto da massa, espécie de morfina ou droga que adormece e anula. Vamos com a procissão dos falsos vivos, feridos de morte, palhaços cujo frenesi esconde a covardia.
***
Olho à volta e pergunto-me: terá sido José Régio o último homem livre?
Porto Covo, Natal de 2008
Poemas de Deus e do Diabo, livro primeiro de José Régio, data de 1926. Dele consta o seu projecto de vida: Cântico Negro e o verso sempre repetido, declamado, proclamado, hoje, clássico: “Não sei por onde vou,/ Não sei para onde vou,/ -Sei que não vou por aí!”
Uma escolha assente numa recusa: “Vou por onde eu sentir ou adivinhar que é o meu caminho”, pensava. Diante da larga estrada da vida, apresentava-se -e queria-se- virgem, impoluto, livre de influências alheias; ouvindo os avisos do destino e interrogando-os, entregando-se à sua viagem. Decifrando os avisos, sinais, luz.
Foi Régio constantemente fiel à escolha? É irrelevante que o tenha sido ou não. O importante é que quisesse sê-lo. A luz não passa de um sinal na noite; de uma estrela inatingível, porque o Infinito é infinito e não podemos saber onde, no Infinito, ela brilha. Não sabemos sequer se ela não é o Infinito imponderável, inatingível, imprevisível. O que conta -e vale- é a tentativa para atingir o sinal. O que interessa é vencermos obstáculos, ultrapassarmos derrotas e desilusões. E avançar. Quando Régio, em A Lição Inútil ou Carta a Um Juvenil Individualista, fala do marco de pedra que vai pontuando a nossa viagem ao longo dos dias -“De tal parte a tal parte, tantos quilómetros”- não sugere outra coisa.
Nada nos garante que estamos no caminho certo? Nada garante. A vida não oferece garantias. Respeitamos e seguimos a inspiração, escolhemos consoante. O risco da escolha é inevitável e a escolha nunca é definitiva. A nossa vida é soma de escolhas, de certezas e incertezas. Caímos e levantamo-nos. Acumulamos as nódoas negras e, em movimento, desenhamos a nossa imagem.
Salvamos as ilusões, recriando-as? Talvez. Mas é teimosia que nos salva do desespero (porque a dúvida é insuportável). Se não temos a certeza da verdade, temos a certeza do que há do outro lado: o silêncio, o deserto, a morte, a negarem a luz de vida. Avançamos em direcção à luz fixa e esquiva, ambígua como a alegria que alivia. E continuamos. Continuamos contra a dúvida e a fraqueza.
Thomas Hardy, em Tess of the d’Urbervilles, apontava-o: “o valor moral deve estimar-se não pelo que foi realizado mas, sim, pelo que se quis realizar”. E acrescentava: “por vezes, a imperfeição pode ser superior à perfeição”.
É desafiar a maioria habituada a não discutir o lugar-comum estabelecido afirmar que a imperfeição pode ser superior à perfeição. E, de facto, Hardy escandalizou no século da rainha Victória e escandalizaria a massa, agora ainda. No entanto, ele sublinhou uma verdade: da imperfeição partimos em busca da perfeição –e ai daquele que se julga perfeito: está morto e julga-se vivo. Na cruz, não duvidou Cristo do Pai e, duvidando, não duvidava de si próprio, que se tinha por filho de Deus? E, antes de crucificado, não sofreu a dúvida? E não lutou com ela, tal qual Jacob lutou com o Anjo? Cristo, Deus feito homem? Ou sagrada criatura de Deus, como nós todos? Cada um receberá a mensagem de Jesus, interpretará a sua vida breve neste mundo e há-de tê-lo pelo que nele achar. Seja, porém, qual for a conclusão, a extraordinária, maravilhosa vida breve de Cristo -algo mais- conforta e aquece o homem obrigado à viagem que o abrasa, do berço à morte.
Não sei se José Régio leu Hardy, mas procedeu de acordo. E, recusando receber de mãos alheias a perfeição que lhe cabia conquistar -entendia que devia conquistá-la sozinho, diante de Deus e do diabo-, arriscou perdê-la? Esse é o trabalho do homem: assumir o risco de perder –e talvez a perfeição não seja deste mundo, a saudade dela é que é.
Conheci José Régio em Junho de 1957, na casa da Boavista, Portalegre. A impressão primeira marcou toda a convivência de 12 anos. Um nada, claro!, porque o tempo cronometrado não é nada. O “muito”, o “tudo” é imensurável. O “tudo” -e os 12 anos foram um “tudo” mais a somar-se a outros, esse especialmente intenso- está em nós: somos, breve e eternamente, o seu sujeito. Recebemo-lo e vivemo-lo. Ardemos nele, porque o Infinito é a Sarça Ardente, o fogo que assombrou e decidiu Moisés. Os 12 anos, não sendo nada, foram muito –precipitaram miríades de instantes (cada instante guarda, em si, a legião incontável dos instantes).
Digo o seguinte: o homem essencial que me abriu a porta da casa da Boavista nunca se traíu -nunca dei por que se traísse-, durante os 12 anos. E, quando escrevo “homem essencial”, aludo a um homem despido de supérfluo, um homem em carne viva, a recortar-se na penumbra do vestíbulo, exposto, surpreendido, curioso, reservado e disponível. Ecce Homo. Régio era-o e foi-o sempre. A fidelidade ao essencial representa a fidelidade ao Cântico Negro.
Não ir por aí; buscar o nosso caminho. À partida, defender a pureza da alma. Preservar a subjectividade. Exigir autenticidade, sinceridade. É um acto de coragem indispensável, se quisermos acrescentar alguma coisa à vida e, terrena e espiritualmente, viver. Porque é aqui -na terra- que o espírito se reconhece e conquista. De facto, ele afirma-se no viver com os outros, em comunhão. Isso não implica a desistência de nós próprios, pelo contrário.
Um homem independente, um homem livre, é um homem sozinho? De modo nenhum. No fundo da solidão encontra-se o Outro. E, na descida aos abismos da subjectividade -do Mistério-, vamos desenhando a nossa figura: um poliedro que reflecte e multiplica imagens –tantas quantas a complexidade do homem que, escavando a própria perplexidade, foi descobrindo. Porque nenhum homem é uma imagem só. E na figura geométrica enraíza o diálogo criador. Outros “bichos da terra tão pequenos” -cada um à sua maneira- reconhecem, nas múltiplas faces do poliedro, sinais da perplexidade e do deslumbramento de viver, que, através do encontro e do diálogo, se multiplicam infinitamente, encadeados e livres.
O homem que fala a sério comigo alguma coisa leva para dar a outrem e dele recebo ensinamento. E por diante.
Eis a luta e a coragem do grande poeta: oferecer-se descoberto. O amor fati: amou e respeitou o próprio destino, na certeza (e na incerteza: Deus e o diabo) de não ser em vão.
Hoje, poderá parecer desvario ou inconsciência. Provavelmente, assim hão-de considerá-lo alguns, quando se tem por aconselhável a prudência hipócrita: seguirmos aquilo que os cartazes apregoam, entregarmo-nos à mascarada e, ao imperativo ético, substituirmos as regras do lucro e do comércio... De facto, negociamos a alma. Alienamos a liberdade e a responsabilidade, dissolvemo-nos no tumulto da massa, espécie de morfina ou droga que adormece e anula. Vamos com a procissão dos falsos vivos, feridos de morte, palhaços cujo frenesi esconde a covardia.
***
Olho à volta e pergunto-me: terá sido José Régio o último homem livre?
Porto Covo, Natal de 2008
Sem comentários:
Publicar um comentário