
‘Nathanaël... comprends qu' à chaque instant du jour tu peux posséder Dieu dans sa totalité.’
e:
‘Regarde le soir comme si le jour y devait mourir ; et le matin comme si toute chose y naissait.
Que ta vision soit à chaque instant nouvelle.
Le sage est celui qui s’étonne de tout.’
Passagens de ‘Les Nourritures Terrestres’ (1897), de André Gide (1868-1951). E nem seria necessário sublinhá-lo : a vitalidade, o amor às coisas da terra, à beleza da terra, a sensualidade que, na paixão, atinge a espiritualidade..., eis Gide tal qual foi, tal qual é. Hoje, muitos reabrem Gide, aparece citado. Lembro-me de Régio, nos últimos anos, que me dizia: ‘Cada vez me afasto mais de Gide e menos gosto dele...’ A verdade é que Régio o lera e que Gide marcou gerações, entre outras, a de Régio, da presença... O Vaticano excomungou-o, a sua obra caiu no famigerado Index... E, no entanto, quanto lhe devo! A leitura de Gide foi uma libertação! Recupera, em tempo de totalitarismos, o Indivíduo, devolve-lhe o direito a ser ele próprio. Há quem veja, em Gide, o diabo, Claudel também o excomungou e, brandia, à mesa de jantar, um crepe em fogo e profetizava: ‘Gide arderá, assim, no inferno!” A Correspondance Gide/ Claudel (Gallimard) é interessantíssima.
A liberdade sem limites, que Gide reclamava, assustou muita gente. Mas lembro-me de Sartre concluir, em Veneza: “Afinal, Gide é que tinha razão!” Evoquei esse encontro nas Crónicas Italianas.
Em 1931, um escritor secundário (e custa-me escrever “secundário”), o inglês James Hilton, nas últimas páginas do seu primeiro romance, And Now Goodbye, 1931, apontava:
‘Como era breve a vida e breves os momentos que lhe davam, verdadeiramente, valor! A moldura dos anos não pode aprisionar esses momentos divinos, eles iam além do tempo, notas da sinfonia universal jamais concluída! O que importava era a qualidade da vida. Quarenta anos, uma existência inteira, podiam apagar-se diante do que instante em que se levanta o véu que oculta a beleza.”
Autor secundário, autor menor? E por que o li, interessadamente, por que me prendeu? Tem a arte dos ingleses, a contarem, exemplarmente, histórias –Tackeray, Dickens, as fabulosas irmãs Brontë, Thomas Hardy, Somerset Maugham, Margaret Kennedy, Doris Lessing, Agatha Cristie..., sejam geniais ou, realmente, secundários...Mas tem mais: fala de coisas que se vão esquecendo. A vocação, a fidelidade a nós próprios, o amor absoluto.
Tudo isso anda tão diminuído, abandonado! É a nova escravatura consentida: os trabalhos forçados e despersonalizados; a ditadura do mercado; a ditadura da publicidade... a formatação, a massificação, o tempo roubado a cada um dos inocentes cuja liberdade de escolha foi proibida...
James Hilton cuja vida de certo modo breve (1900-1954) acabou por sofrer os primeiros sinais da sociedade desalmada que nos sufoca, a do consumo, dos objectos, do homem escravo do consumo, do homem-objecto, operário e garante do mercado global (do deserto, do imenso glaciar), em And Now Goodbye, James Hilton ocupa-se da importância dos sentimentos e da obrigação da sinceridade, da autenticidade, da fidelidade à própria individualidade (obviamente, não contarei, aqui, a história...).
Não sei até que ponto a novíssima geração, os adolescentes, por aí aos trambolhões, abandonados, solitários, condenados ao autodidatismo (em certos aspectos, inevitável, saudável e importantíssimo) não compreenderiam esse romance de James Hilton; desconfio que o leriam, emocionados. Porque eles sofrem de uma terrível e dolorosa carência de amor. Porque eles se sentem atraiçoados e adivinham a futura castração, começam a sentir a anquilose, imposta pela sociedade dos mortos-vivos. Ainda pressentem vocações, ainda não desistiram da diferença (nenhuma folha é igual a outra folha...)... ainda não cresceram... ainda pertencem ao sagrado mundo da infância, que Bernanos tanto amava...
E, seja como for, James Hilton situa-se muito acima da literatura de cordel que enche as bancas das livrarias e a despudorada e citada publicidade impõe.
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