segunda-feira, 15 de junho de 2009

No limite do silêncio, Prefácio a 'desesperância' livro de poemas de Anthero Monteiro



A voz dos poetas fez-se para desafiar o silêncio. O trabalho é o de Édipo: interpelar a Esfinge. E não obtém resposta: ela, a Esfinge, nunca sai da mudez, serena, indiferente, em pleno deserto –o deserto que é o nosso horizonte. Cada homem traz consigo a sua Esfinge, anda com ela dentro do coração e sofre-lhe a distância. Grita, a ver se a acorda. Grita, a ver se a vida acorda. Porque nesta vida que vive, os dias não lhe bastam e pressente, advinha que, em cada momento, falha o encontro com a verdadeira vida, com o absoluto. A Esfinge sabe, ela conhece os caminhos –julga o homem, que se revolta. E é o silêncio da Esfinge que o agita e ainda mais o angustia. “Um brado surpreende o meu sono/ tento acender o olhar/ nesta fria antracite/ sentir bem os sentidos/ na devassa dos silêncios”, escreve o poeta Anthero Monteiro, e acrescenta: “afinal/ foi ele quem gritou?” Ele, o Deus que a Esfinge deveria revelar mas esconde e, cruelmente, enquanto nos recusa a palavra salvadora, aponta? A nossa inquietação -a nossa ânsia de desespero...- materializa-se na Esfinge, a impossível intermediária de Deus.

Não por acaso Anthero Monteiro é um apaixonado e arguto leitor de Manuel Laranjeira; não por acaso soube abrir, para nós, o desespero do torturado de Espinho. É seu parente. Neste livro, “Desesperânsia”, há um poema, “Ode à imprescindível beleza”, belo, doloroso e forte, de que transcrevo duas estrofes:

aí vem mais um dia para o rol dos perdidos e não achados
bem se esmerou ontem o meteorologista
bem se esmerou o sol para não o defraudar
bem se esmeraram as aves pintando mais azul
bem se apura o silêncio pé ante pé nos ramos
e me insinuo na amplidão vestido de aromas

mas como alçar-me para além de mim
se não posso abstrair-me do chão
desta vala comum onde se debruçam os continentes
onde nos vamos atolando através dos séculos
estrato após estrato

Manuel Laranjeira, preso à terra e saudoso de um “mais”, da harmonia, onde se resolvesse a tragédia do nosso destino -o tal absoluto- compreenderia esses versos de Anthero Monteiro.

Atente-se, também, no poema “Esperança” (o título, na ironia -o poeta confessa a esperança morta-, representa o protesto de quem reclama da absurda condição humana):

este barco já nem é barco
jaz ali abandonado
como um cadáver arrojado à praia
jaz invertido a imitar
uma lapa que devore um rochedo
pela eternidade adiante

este barco
(adivinham-se-lhe as letras quase extintas)
chamava-se esperança

e agora esperança
não passa de um inútil barco
para sempre de borco

O rochedo que não conseguimos decifrar é o de Sisifo –o silêncio que arremetemos, inutilmente, que nos gela e arrastamos connosco. Atraiçoa-nos a Esfinge ou a nossa pobreza –a nossa incapacidade de encontrar a saída ao labirinto? O que nos resta? Camilo Castelo Branco, numa das suas páginas geniais e consoladoras, deixou escrito: “quem tem a graça de Deus não é pobre”. Esse dom, essa dádiva, essa “graça” é o bem que resgata os poetas. E a voz dos poetas é o que nos resta.




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