
Num desses fins de tarde húmidos e pesados de Agosto, estávamos sentados, eu, Zvi Pelberg, e Leon Goldapple, numa das esplanadas da Promenade, em frente da praia cheia de gente e do mar azul, sereno, com velas brancas e barcos de recreio ao fundo. O meu amigo resolvera fugir ao calor de Nova-Iorque, onde tinha o seu escritório de consultor financeiro, e viera encontrar o calor sufocante de Telavive. Era um homem da minha idade, solteiro impenitente, que emigrara para a América após a licenciatura em economia na Universidade de Jerusalém. Ali nos tínhamos conhecido e partilhado ilusões, sonhos, aventuras, a brutalidade da guerra do Kippur. Recorri a ele, muitas vezes, para resolver problemas da minha empresa de Holon e para alargar os meus negócios de export-import.
-Ham!... Não se aguenta! -exclamou, no seu hebraico já de Brooklin.
E engoliu, de um trago, o que restava da coca-cola, que fora aquecendo, mal protegida pelo guarda-sol torto e desbotado.
-Podias ter escolhido outro sítio... A riviera italiana, Nice, Marbella! –disse-lhe eu, também cansado e encharcado de suor que me colava a roupa ao corpo.
-Tu sabes que eu volto todos os anos, meu velho! Sem falhar! Esta cidade paga tudo! Única!
E riu alto e pareceu-me que acreditava no que dizia:
-A cidade mais humana do mundo! Aqui és como és, não aldrabas! E já viste como isto se desenvolveu? Olha os hotéis, antigamente eram dunas... E esta Promenade! Olha-me esta juventude! Estas raparigas! Lindas! Gente sã! Capaz!
E piscou-me o olho:
-Aliás, tenho uma coisa para te dizer...
-O quê?
-Nada de grave...
Eu conhecia bem a maneira, espontânea, extrovertida, apaixonada, às vezes cruel, e sabia que ele estava morto por contar tudo, por se exibir:
-Foi hoje?
-Há uns dias...
E, inesperadamente, refreou-se. Olhou-me de viés:
-Conto?... É uma história de sexo. Não te escandalizas?
Não, não me escandalizava. Leon tinha vontade de a contar e, além disso, naquele momento, eu aceitaria tudo, ouviria qualquer história, qualquer anedota, qualquer coisa, fosse o que fosse, não tinha forças para reagir, para me escandalizar, não podia com uma gata pelo rabo, destruído. Falou de modo esquisito, ao princípio tímido, como se tivesse remorsos ou se sentisse em falta, ele que nunca se importara com os sentimentos. Melhor: com certos sentimentos. E depressa se entusiasmou e enveredou pelo sarcasmo, que lhe era muito habitual.
-Foi com uma prostituta... Há-as de todos os tipos, altas, baixas, magras, cheiinhas, loiras, morenas, pretas, amarelas. Cá da terra, africanas, brasileiras, russas... Aquela que eu escolhi era de Kiev, Natacha, deu esse nome, se calhar é outro, é com certeza outro, mas deu esse. Dão, sempre, um nome falso. Uma esplêndida mulher, alta, loira, jovem, com uns olhos lindíssimos! As prostitutas usa-las como quiseres. Podes virá-las, pô-las de pés para a cabeça, agachadas, de gatas. Depende dos teus gostos. E daquilo que contratares com elas. És livre, decides como entendes. E fazes o que te apetecer. Depois, se te cansares, se te fartares, deixas a tua mão nas coxas delas ou mexes-lhes nos seios, se não fores parvo, vale a pena, escolhes raparigas bonitas, frescas... Ou maduras! É contigo, tu é que sabes. És rei e senhor! Julgas tu... Contas feitas, meu velho, nunca leva a mais do que isso, à liberdade de usares o outro à tua insatisfação. Acontece elas acordarem e jogarem contigo o tal jogo das sensações vertiginosas e efémeras. Duram o tempo do contrato. Às vezes a emoção acaba antes! E não tens de agradecer, pagaste. É natural. Se agradeceres, se te virares para a cara do corpo que te aturou e se te ofereceu -é o mercado, a oferta e a procura...-, se olhares, reparas que é uma pessoa. E começas a confiar-te, sem confiança nenhuma, levado pelo que ela te deu e pelo teu cansaço. O teu cansaço, esse, é verdadeiro. Tal qual o dela. Só que elas resistem mais, é a profissão. Amar assim cansa. E desvias os olhos, deixas cair o braço. Chegas-lhe, outra vez o corpo, à procura do seu calor. Ela aceita. Agradece, imagina!, agradece, ou parece que agradece, e é capaz de ser verdade, nunca se sabe... Sem pensar que a compraste, e quando a julgavas indiferente, um objecto treinado para te fazer gozar e saciar, para sossegar os teus vícios, ela abre os olhos para ti e vês neles uma ternura que te aflige, porque achas que não a mereces. Dói-te? É bom sinal. Pagaste... E contrataste, exigiste. Sentes, sabes que abusaste. Ela esqueceu e constrange-te pensar que te perdoou. Afinal, tu és uma pessoa à procura dela e do calor que te dá. Passa as mãos pelos teus cabelos, ao pé de ti, sem se esquivar e com a tristeza irónica que te incomodou. Não tinhas o direito de comprares uma pessoa. Não pensas isso? Julgas que não acredito? Pensas, sim, pensas... E ela continua a olhar para ti e pergunta-te:
“Foi bom?
Tu respondes, lisonjeado:
“-Ah!, sim, foi muito bom!
Também tu não queres desiludi-la.
E ela diz-te e surprende-te:
“-Também para mim...
E apressas-te, desarmado e incerto:
“-Ai sim? Obrigado!
Vês a ironia nos olhos dela? Vês. E não a queres ver, deixas de a ver, queres o seu calor, a compreensão. Ela compreendeu-te.
“-Descansa! Chega-te para aqui...
Sem que nada a obrigue a esse gesto...
Hesitou uns instantes.
-Um disparate, não achas?
E, antes que eu respondesse, continuou:
-Agarrou-me, abraçou-me, apertou-me. Era disso que eu precisava, de uma amiga assim... Daquela sinceridade...
“-Sentes-te bem?
Sentia-me mal, encostado a um corpo que me aparecera por acaso e por dinheiro, que não era, ai!, não era!, o da mulher amada, mas que me excitara e, agora, me consolava, na incauta disponibilidade. Mulher amada!... Sabes o que isso é? Chatices! A Natacha era mesmo uma Natacha, à russa! Insistiu:
“-Não te assustes...
-Sinto-me bem...
“-Mas estás a suar... Vai tomar um banho quente...
Fui tomar um chuveiro, deixei a água escorrer-me pelo corpo, à espera que o lavasse. Ela vestia-se. Peguei na toalha e enxuguei-me. Queria sair dali. Só havia uma porta e ela esperava, ao lado, ainda meio despida. O que é que esperaria aquela prostituta?...
“-E tu? Não te vestes?!
Enterneceu-me, comoveu-me?
“-Agasalha-te... Não estejas assim...
Era no Inverno e o quarto tinha uma grande janela aberta por onde entrava vento frio. Ela foi direita à janela e disse:
“-O mar...
“-Já sei. Está aí em frente...
Ela virou-se e perguntou-me:
“-Gostas disto?
“-Do quê?
Apontou para a cama desfeita.
“-Daquilo...
“-Mais ou menos...
“-Mais?... Ou menos?...
Ela volttara e encostara-se a mim e eu não sabia o que fazer. Já a usara. Já acabara. Passara o tempo.
“-Mais? Ou menos? -perguntou, outra vez, a sorrir- Não gostaste? Não fui boa?
Boa? Boa, com certeza. Mas aquele corpo era humano? Tive vergonha de o pensar, mas pensei-o: apenas, um corpo que comprara. Havia outros. Loiros, morenos. Mais bonitos. Jovens, sem as primeiras rugas. Não me apareceu assim, não a vi mulher de compra e venda. Era uma jovem mulher que se oferecia e sorria, à minha espera. Puxei-a, quis beijá-la, soltou-se, empurrou-me, a brincar e a sério:
“-Já é tarde...
“-E amanhã?
Ela respondeu, contente:
“-Se quiseres, encontramo-nos na praia do Dan Panorama... Queres?
Leon Goldapple calou-se e eu não lhe disse nada. Ele tinha destas coisas e era um homem maduro, independente, solitário. Mas não resisti:
-E tu foste?
Olhou-me como se não me visse, e, depois, franziu o sobrolho.
-Aonde?
-Foste ter com ela?
-És maluco?...
Abanou a cabeça, enquanto pedia à empregada que trouxesse a conta.
-És tolinho... Claro que não fui, tinha mais que fazer!
in Um Inverno em Marraquexe
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