quinta-feira, 4 de junho de 2009

Páginas de um Diário público



Eis que saiu o que semeia a semear. E quando semeava, uma parte das sementes caiu na estrada e vieram os pássaros e comeram-nas. Outras caíram entre rochas, onde não tinham muita terra e logo germinaram porque não tinham terra suficiente; mas ao nascer do sol, arderam porque não tinham raízes, e secaram.” Mateus, XIII, 3-6

A parábola do semeador... E pego nas palavras e retomo as pessoas que ardem... porque não lançam raízes.

Há muitos anos, quando se publicava o ‘Almanaque’ e eu era muito jovem, encontrei José Cardoso Pires e Luís Sttau Monteiro, na redacção da revista. Eles eram mais crescidos e tinham as suas ideias. Eu também tinha as minhas... Os jovens e os muitos jovens -e Cardoso Pires e Sttau também eram jovens- fracturam, querem abrir novos caminhos, afastam-se daqueles que vieram antes. Aconteceria isso mais facilmente, nesse tempo: todos os dias pesava a ditadura, a censura, a Pide, etc, e, todos os dias, sentíamos ferver, em nós, a revolta contra a mentalidade mesquinha, castradora, perversa, que dominava tudo –e fora anquilosando e atrasando o país. Ora aqueles que nos estavam ‘mais perto atrás’ eram os da presença: Régio, Gaspar Simões, sobretudo, porque continuavam a exercer uma forma de magistério, nos jornais, revistas, livros. E, ‘mais perto menos atrás’, estavam os neo-realistas, que defendiam a arte empenhada, o ‘realismo socialista’. Dizia-se, então (se calhar, continua a dizer-se...), que os da presença defendiam a ‘arte-pela-arte”. Tudo isso me parece, hoje, um disparate como outro qualquer: não existe ‘arte-pela-arte’: o artista cria, em relação com o mundo, isto é: com todos os que o rodeiam. Adiante.

Não aceitava fracturas, nem andar de costas viradas ao que me antecedera. Certamente, o semeador entende: há que lançar raízes. Ou agitamo-nos, piruetamos e... secamos depressa: nada demos, nada deixamos. E, diante de Cardoso Pires e Sttau, desenvolvi a simplória ideia da pirâmide (mesmo os jovens mais jovens têm, e devem ter!, ideias, apesar de mais ou menos ingénuas: são as suas e só o que é fundamente nosso pode servir de alguma coisa aos outros). Disse-lhes eu: ‘a Cultura, a Arte vai-se construindo tal qual uma pirâmide e tende ao Sol, ao ápice, é pedra que se põe sobre outra pedra, e mais uma, e mais uma, até lá... Se eu quiser acrescentar, devo ler e meditar o que se escreveu antes...’ Falava-se de literatura e eu já escolhera ser escritor, contra os ventos e as marés caseiras (meu Pai, magistrado com os pés assentes na terra, considerava que ‘escrever, escrevem os escrivães...’). Recordo que desencadeei uma discussão animada e boa: Cardoso Pires e Sttau, ainda que simpatizantes de fracturas, aturaram-me, ouviram-me (a melhor coisa que se pode dar a quem fala, ainda que asneire: ouvir): eram generosos, pessoas abertas e dinâmicas.

Creio que, à altura, eu não compreendia que o ‘ápice’, a ‘perfeição’ nunca se atinge –luta individual, que se repete e multiplica, séculos fora. Sim, ajudam-se os homens, ajudam-se os artistas –mas o combate de Jacob e o Anjo (em Arte, a busca da perfeição imita o confronto de Jacob e o Anjo) acontece, outra vez, em cada um de nós, à nossa maneira. Quanto nos deixam aqueles que vieram antes de nós é transformado, por nós, à nossa maneira, no que é nosso e nos faz e pertence.

Hoje, assistimos a um desbaratar mais vasto? Especialmente trágico? Secam mais depressa, mais antes da hora, as sementes que a vida semeadora lançou? Brilham de luz artificial –nesta imensa feira onde se vende a superficialidade e a inconsequência? Suicida-se, sem saber ou sem querer saber, o homem, que se aceita homem-objecto? Dado que referi escritores e literatura –o que me dá a ‘literatura’ de hoje: a dos best-sellers e dos grandes prémios? Das imensas tiragens? Das grandes montras e das ‘críticas’ laudatórias na imprensa? Não me dá nada e, desta vez, sim, viro-lhe as costas. E esse ‘desastre’, esse acumular de fogos-fátuos, de festinhas saloias, que acabam logo depois e deixam sede e amargura –isso é tudo? Não, não é tudo. Há... elites...

Bem, o termo -elite- é perigoso. Tenho de voltar a pegar-lhe e explicar que não se trata de ‘reaccionário aristocratismo’...
reproduzo um quadro -"São Jerónimo, lendo"- do veneziano Giovanni Bellini

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