domingo, 7 de junho de 2009

Auto-Retrato de José Régio que a Câmara Municipal de Vila do Conde ou o Centro de Estudos Regianos da mesma terra deviam adquirir


UM AUTO-RETRATO DE RÉGIO

Conheci muito bem os dois escritores: José Régio e João Gaspar Simões. Eram duas pessoas completamente diferentes, apesar de os haver unido uma grande amizade, aliás, com interregnos de amuo e silêncio, mais ou menos longos. Régio, reservado e capaz de terrível frieza; Gaspar Simões, extrovertido, quase ingénuo, cândido. Disso falei, num livro, Memórias, José Régio e Outros Escritores (Quasi Edições, esgotado) mas valem a pena, e vai-se ver porquê, certas memórias. Estas, por exemplo, que denunciam a estranha relação dos dois presencistas: em Portalegre Régio confiou-me: “Um dia, apareceu, aqui, na Pensão 21 [a pensão onde Régio ia almoçar], um senhor, à minha procura. Não o reconheci. Depois, lá percebi que era o Gaspar Simões! Sorridente, como se não estivéssemos zangados! Disfarcei, e conversámos...”; anos após a morte de Régio, Gaspar Simões desabafou, na nossa casa de Roma (fora convidado para fazer conferências em diversas universidades italianas): “Tive um pesadelo diabólico! A noite passada, sonhei que o Régio estava a ralhar-me! E eu sem saber o que responder-lhe!

Amigos, inimigos, umas vezes bem, outras às avessas, assim atravessaram a vida, afinal, presos um ao outro (e negá-lo-iam, firmemente, se lhes dissessem...). Acontece, em grandes amizades. Notícias dela, da Amizade de Régio e Gaspar Simões? Ora oiçam: há dias, entrei na Livraria Académica (http://www.livraria-academica.com/), no Porto, e dei com um impressionante desenho de tamanho de quadro, a tinta da china, intitulado “Tentativa de Auto-retrato” e dedicado: “Ao meu amigo João Gaspar Simões, com a muita amizade do José Régio”. Está à venda. Quem ficará com a peça? O proprietário da Livraria, o Sr. Nuno Canavez, disse-me que ainda ninguém manifestou interesse. Mas o comprador há-de aparecer. José Régio é um dos maiores da nossa Literatura e o auto-retrato fascina, tem força, vida e muita qualidade. José Régio nasceu em Vila do Conde e tem lá Casa-Museu. Uma pergunta, que não se pode considerar indiscreta: a Câmara Municipal de Vila do Conde e o Centro de Estudos Regianos irão ignorar o auto-retrato, vão deixá-lo perder-se, sabe-se lá por onde, quiçá no estrangeiro? Seria um crime. Seria imperdoável. Muitas obras da nossa Cultura -manuscritos, cartas, livros raros- têm seguido esse destino. Nas barbas do Ministério da Cultura e das instituições competentes... Fundação Gulbenkian compreendida...
acima: a Casa-Museu José Régio, em Vila do Conde

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