quarta-feira, 3 de junho de 2009

Camilo e Aquilino um encontro inevitavelmente apaixonado (e nunca pacífico)




a ilustração é uma caricatura de Camilo, feita pelo seu filho Jorge
Há mais de cinquenta anos, começava a sair, em fascículos, “O Romance de Camilo”, de Aquilino Ribeiro. Dava-se o encontro inevitável e fatalmente procurado pelo autor de “O Malhadinhas” –e cito-lhe a obra mais falada, tão falada que corre o risco de ninguém a ler, convencidos, doença do lugar-comum, que a lemos. Mas isso é outra conversa. Aquilino tinha de haver-se com Camilo: nunca o fantasma do Torturado de Seide lhe dera sossego. Régio morreu a folhear Camilo; o meu amigo José Pires Sanches, homem do Rochoso, irmão gémeo de Dostoievski, chora como uma Madalena sempre que o abre; e, caladinho, o leitor anónimo devora-o. Cada um vive Camilo à sua maneira. Aquilino viveu-o em escaramuça –fricções de personalidades próximas e fortes.

Afinal, o que os junta? A riqueza e pureza de linguagem? Sim; mas é o que os separa. O estilo revela dois escritores cuja singularidade, por inimitável, aponta sensibilidades distintas: Aquilino tudo atinge através da terra, orquestra a epopeia dos homens e bichos; Camilo vai pela alma –dizem que não se topa árvore na sua obra.

Aquilino não abordou Camilo -nem podia- objectivamente. Diante do émulo e rival em génio e mestria, ferveu na admiração e despique. Não cabe, fisicamente, pesar aqui a equidade dos juízos do primeiro sobre o segundo. E para quê? Para constatarmos o óbvio? Que Aquilino nunca conseguiria libertar-se da obsessão, do fantasma do outro, nunca atingiria o juízo sereno, imparcial? Além disso, talvez fosse tempo perdido: o que há a seguir na biografia -tão subjectiva- é a paixão.

Sem comentários:

Publicar um comentário