quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

E é porque todos os meninos, todos os jovens são criaturas de Deus, que deixo aqui, em tempo natalício, esta denúncia terrível e certeira


São Lorenzo, óleo de Michelangelo Merisi de Caravaggio (1517-1610): E agora?!

Este país não é para jovens

Por Manuel António Pina

Um estudo da CGTP revela que 51% dos jovens trabalhadores com menos de 25 anos recebem um salário inferior a 500 euros, o mesmo acontecendo com 24,5% dos jovens entre os 25 e os 34 anos. Somando a estes números, referentes tão só aos "privilegiados" que têm trabalho, os milhares que se encontram em situação de desemprego ou procuram em vão o primeiro emprego, fácil é concluir que este país não é para jovens.

A minha geração viveu o pesadelo da Guerra Colonial, que semeou entre os jovens milhares de mortos e estropiados e forçou outros tantos à solidão do exílio, enquanto a casta política e económica dominante (parte dela ainda hoje avultando por aí) ia metendo, com a Pátria na boca, os proveitos da colonização ao bolso.

Mas uma comissão de serviço na guerra, parecendo eterna, não durava eternamente, e os sobreviventes regressavam ao fim de dois anos. Regressavam, é certo, a um país cabisbaixo e desapossado, mas onde, apesar de tudo, lhes era possível construir uma vida, se bem que cinzenta ao menos autónoma.

Como sobreviver porém, física e moralmente, à guerra que se abate hoje sobre os jovens, condenados sem fim à vista à precariedade, à humilhação e à desesperança, impedidos de constituir família ou de ter vida própria? E uma boa parte da responsabilidade política por isso é justamente da minha geração, sobretudo daqueles que, logo que puderam, se meteram na cama com o inimigo dos seus 20 anos.

Transcrito, com a devida vénia, do Jornal de Notícias de hoje

2 comentários:

  1. É constrangedor, não é?
    Beijinho.

    ResponderEliminar
  2. é um caso demasiado sério, que envelhece e entristece mais o país...

    jovem no nosso país só dá para "boys".

    ResponderEliminar