Há, no filme Habemus papam, de Nanni Moretti, uma frase, que me impressionou:
“O Inferno está vazio.”
Di-la um dos cardeais -aliás aquele que se esperava fosse eleito Papa-, ao médico que chamaram a fim de tratar o Papa eleito que recusa assumir as responsabilidades de Sumo Pontífice.
E perguntei-me:
O Inferno está vazio porque Deus não condena os homens a um castigo tamanho e os compreende e absolve?
Ou o Inferno está vazio porque... o Inferno está aqui?
E pareceu-me ouvir o nosso Camilo, em A Bruxa de Monte Córdova:
“Deixe-se disso mulher! Não há Inferno nenhum. O Inferno é cá neste mundo. Quem não tem que comer nem beber, nem umas palhas em que se deite, isso é que é o Inferno. Os mais são arolas dos frades.”
São mentirolas -arolas- de muitos, a resolverem o absurdo que tão dificilmente se aceita e resolve.
Num mundo, numa sociedade injusta como nunca, vivemos hoje.
Num quotidiano extirpado da alma, do amor, da ética.
Numa sociedade de onde Deus se ausentou?
A vida assim é a de abandonados de Deus.
Um “Inferno” de solidão, de incomunicabilidade, de barbárie –mal tapado pelo brilho do superficial, do inconsequente, que anestesia e afasta momentaneamente a dor.
“Os homens mordem-se como cães”, escreveu Aquilino.
E aquele que elegeram Papa não se sente à altura de apagar o fogo desse Inferno, que foi visitar, sozinho, anónimo, enquanto os cardeais, a Cúria, se arrepelam os cabelos os que não o entendem –ou que não querem aquilo que pressentem: não querem reconhecer a ausência de Deus.
O final, que surpreendeu tantos espectadores, e a mim também, talvez seja uma acusação, lançada a Deus pelo Papa que não o quer ser; e repete, por outras palavras, as de Cristo, na cruz:
“Por que nos abandonaste?”

Eu acredito mesmo que o inferno é esta vida. E deus está por aí, nos Amigos de verdade, na Arte, no pôr do sol, no cantico do rouxinol, no olhar terno do meu cão! Estarei a tornar-me uma pagã da Natureza?
ResponderEliminarBeijinhos
Ainda bem, Luísa, que para ti é assim... Um beijo.
ResponderEliminarO Inferno somos nós que o fazemos, se calhar porque nos afastamos dos valores que deveriamos preservar. Temos os meios para o caminho da felicidade, mas costumamos estragar tudo.
ResponderEliminarBeijinhos
Manuel Poppe,
ResponderEliminarGostei muito deste filme. Se quiser passar pela minha janela vê algumas impressões. A sua citação também me impressionou mas por acaso não a escolhi. Sabe, estava para ir ver um filme e fui trocar o bilhete quando vi que o filme era italiano. Rever o Vaticano, não todo o que mostram mas rever aquele ambiente fez-me bem e trouxe alguma nostalgia.
Beijinho.
Esqueci-me de dizer que gostei muito desta postagem e da sua erudição.
ResponderEliminarDe acordo com a Luísa!
ResponderEliminarAna, Gostei do que escreveu.
ResponderEliminarQuanto ao meu post: não se trata de erudição, que não partilho... Só que leio há muitos anos o Maior, Camilo, e Mestre Aquilino, para encher a alma e renovar a língua -uma espécie de terapia, de limpeza interior.
Ana, Gostei do que escreveu.
ResponderEliminarQuanto ao meu post: não se trata de erudição, que não partilho... Só que leio há muitos anos o Maior, Camilo, e Mestre Aquilino, para encher a alma e renovar a língua -uma espécie de terapia, de limpeza interior.