quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O silêncio de Deus

Michel Piccoli, o papa rebelde  

Há, no filme Habemus papam, de Nanni Moretti, uma frase, que me impressionou:

O Inferno está vazio.

Di-la um dos cardeais -aliás aquele que se esperava fosse eleito Papa-, ao médico que chamaram a fim de tratar o Papa eleito que recusa assumir as responsabilidades de Sumo Pontífice.

E perguntei-me:

O Inferno está vazio porque Deus não condena os homens a um castigo tamanho e os compreende e absolve?

Ou o Inferno está vazio porque... o Inferno está aqui?

E pareceu-me ouvir o nosso Camilo, em A Bruxa de Monte Córdova:

Deixe-se disso mulher! Não há Inferno nenhum. O Inferno é cá neste mundo. Quem não tem que comer nem beber, nem umas palhas em que se deite, isso é que é o Inferno. Os mais são arolas dos frades.”

São mentirolas -arolas- de muitos, a resolverem o absurdo que tão dificilmente se aceita e resolve.

Num mundo, numa sociedade injusta como nunca, vivemos hoje.

Num quotidiano extirpado da alma, do amor, da ética.

Numa sociedade de onde Deus se ausentou?

A vida assim é a de abandonados de Deus.

Um “Inferno” de solidão, de incomunicabilidade, de barbárie –mal tapado pelo brilho do superficial, do inconsequente, que anestesia e afasta momentaneamente a dor.

“Os homens mordem-se como cães”, escreveu Aquilino.

E aquele que elegeram Papa não se sente à altura de apagar o fogo desse Inferno, que foi visitar, sozinho, anónimo, enquanto os cardeais, a Cúria, se arrepelam os cabelos os que não o entendem –ou que não querem aquilo que pressentem: não querem reconhecer a ausência de Deus.

O final, que surpreendeu tantos espectadores, e a mim também, talvez seja uma acusação, lançada a Deus pelo Papa que não o quer ser; e repete, por outras palavras, as de Cristo, na cruz:

Por que nos abandonaste?”         

8 comentários:

  1. Eu acredito mesmo que o inferno é esta vida. E deus está por aí, nos Amigos de verdade, na Arte, no pôr do sol, no cantico do rouxinol, no olhar terno do meu cão! Estarei a tornar-me uma pagã da Natureza?
    Beijinhos

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  2. Ainda bem, Luísa, que para ti é assim... Um beijo.

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  3. O Inferno somos nós que o fazemos, se calhar porque nos afastamos dos valores que deveriamos preservar. Temos os meios para o caminho da felicidade, mas costumamos estragar tudo.
    Beijinhos

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  4. Manuel Poppe,
    Gostei muito deste filme. Se quiser passar pela minha janela vê algumas impressões. A sua citação também me impressionou mas por acaso não a escolhi. Sabe, estava para ir ver um filme e fui trocar o bilhete quando vi que o filme era italiano. Rever o Vaticano, não todo o que mostram mas rever aquele ambiente fez-me bem e trouxe alguma nostalgia.
    Beijinho.

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  5. Esqueci-me de dizer que gostei muito desta postagem e da sua erudição.

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  6. Ana, Gostei do que escreveu.

    Quanto ao meu post: não se trata de erudição, que não partilho... Só que leio há muitos anos o Maior, Camilo, e Mestre Aquilino, para encher a alma e renovar a língua -uma espécie de terapia, de limpeza interior.

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  7. Ana, Gostei do que escreveu.

    Quanto ao meu post: não se trata de erudição, que não partilho... Só que leio há muitos anos o Maior, Camilo, e Mestre Aquilino, para encher a alma e renovar a língua -uma espécie de terapia, de limpeza interior.

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