sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Diz basta!: com tormentas pudemos nós bem!

Luta, não baixes os braços!


A finar-se o ano, diante de um país assaltado, de um povo perplexo a que aconselham desembuçados, indiferentes à vergonha e à moral, que se dissolva ou deixe abater, emigre ou morra aqui de fome e humilhação –em Camilo vou exumar o que sou e somos: poetas trágicos, bons e apaixonados, homens de honra.

Reabro Ensaios de Interpretação Crítica***, obra preciosa de José Régio, onde se guarda talvez o mais profundo ensaio sobre o torturado de Seide, como lhe chamou Alberto Pimentel; e leio:

Sem pretendermos negar as extraordinárias qualidades de Eça (num certo sentido discutível, mais "artista" que o nosso Camilo) não é no Eça mas em Camilo, e também em Júlio Dinis, que acharemos caracteres possivelmente característicos do génio português.

...génio de gente da periferia europeia, entre Castela e o mar, de quem Unamuno dizia ser de poetas trágicos e em que sinto a bondade inigualável e a força do sonho.

A grandeza e a coragem do sonho nos salvou e ainda a força de arrancar à escassa terra, contra todos, tudo.

Estamos ali, nas páginas de Camilo; agora, toca-nos recusar a ofensa.

*** Portugália Editora, 1964

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