A finar-se o ano, diante de um país assaltado, de um povo perplexo a que aconselham desembuçados, indiferentes à vergonha e à moral, que se dissolva ou deixe abater, emigre ou morra aqui de fome e humilhação –em Camilo vou exumar o que sou e somos: poetas trágicos, bons e apaixonados, homens de honra.
Reabro Ensaios de Interpretação Crítica***, obra preciosa de José Régio, onde se guarda talvez o mais profundo ensaio sobre o torturado de Seide, como lhe chamou Alberto Pimentel; e leio:
“Sem pretendermos negar as extraordinárias qualidades de Eça (num certo sentido discutível, mais "artista" que o nosso Camilo) não é no Eça mas em Camilo, e também em Júlio Dinis, que acharemos caracteres possivelmente característicos do génio português.”
...génio de gente da periferia europeia, entre Castela e o mar, de quem Unamuno dizia ser de poetas trágicos e em que sinto a bondade inigualável e a força do sonho.
A grandeza e a coragem do sonho nos salvou e ainda a força de arrancar à escassa terra, contra todos, tudo.
Estamos ali, nas páginas de Camilo; agora, toca-nos recusar a ofensa.
*** Portugália Editora, 1964

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