sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal

'Adoração dos magos', séc. XVI, Museu da Guarda, proveniente de Açores, Celorico da Beira


Nossa Senhora

Tenho ao cimo da escada, de maneira
Que logo, entrando, os olhos me dão nela,
Uma Nossa Senhora de madeira
Arrancada a um calvário de capela.

Põe as mãos com fervor e angústia. O manto
Cobre-lhe a testa, os ombros, cai composto;
E uma expressão de febre e espanto
Quase lhe afeia o fino rosto.

Mãe de Deus, seus olhos enevoados
Olham, chorosos, fixos, muito além...
E eu, ao passar, detenho os passos apressados,
Peço-lhe: -“A sua bênção, Mãe!”

Sim, fazemo-nos boa companhia,
E não me assusta a sua dor: quase me apraz.
O Filho dessa Mãe nunca mais morre. Aleluia!
Só isto bastaria a me dar paz.

-“Porque choras, Mulher? –docemente a repreendo.
Mas à minh’alma, então, chega de longe a sua voz
Que bem entendo:
-“Não é por Ele...”
-“Eu sei! Teus filhos somos nós”.

José Régio, in Mas Deus É Grande, 1945, Editorial Inquérito 

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