domingo, 1 de agosto de 2010

Ressurreição da esperança


RESSURREIÇÃO DA ESPERANÇA

A meio do deserto, a água viva, a obra extraordinária: “Por favor, não matem a cotovia”, de Harper Lee (Difel). Um romance fora do comum –com alma dentro. Publicado em 1960, nos USA, denuncia a imoralidade da exclusão dos negros. E é sofrendo o conhecimento do escândalo que três crianças brancas passam da infância à adolescência, feridas mas capazes de recusar o desespero. A que se agarram? Ao amor, que implica o respeito ao outro. E, quando vêem o outro humilhado e ofendido, descobrem o que esse sentimento -esse amor- tem de sagrado, essencial, na luta pela vida verdadeira. Mudam de idade, sem desistir. A infâmia não matou a cotovia. Em 1968, racistas assassinam Luther King, defensor dos direitos dos negros; 41 anos depois, Barack Obama, um afro-americano, é eleito presidente da república. O tempo traz mudanças, às vezes boas, a história avança, não fica congelada –o que surpreende as maiorias educadas para o egoísmo e a indiferença, aflige as minorias assentes nos privilégios, e consola as minorias que lutam por um mundo melhor. Jean Louise, Jem e Dill, os três pequenos heróis da novela, pertencem à minoria que luta e acredita na justiça, tal qual Atticus, o advogado das causas que afinal não são perdidas: alguns assistiram às vitórias. Ao longo de “Por favor, não matem a cotovia”, nós ouvimo-lhes bater os corações, emocionamo-nos com a sua pureza, empolgamo-nos com os seus combates. Saímos rejuvenescidos do encontro. Depois de lermos o livro, olhamos a vida de outra maneira. Como se uma pedra preciosa, música delicada, nos viajasse dentro e nos limpasse –precisamente do egoísmo e da indiferença.

publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de hoje

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