domingo, 8 de agosto de 2010

O autor é um fantasma



...ou a morte do artista, enquanto demiurgo. Alguém desabafava na velha Hollywood: “Os actores foram à vida! Já não são precisos, porque os efeitos especiais os substituíram...!” E falava certo: o actor, hoje, é um comparsa, mais um “efeito”, parte acessória dum grande puzzle: a sua importância não ultrapassa a do pássaro fantástico ou da caverna tenebrosa, constituintes da história projectada no ecrã. Ninguém lhe pede inteligência, nem sensibilidade, nem talento para encarnar personagens variadas e emprestar-lhes complexidade –pedem-lhe aspecto. E mesmo esse depende da aparência em voga. O filme é, apenas, um produto, na grande praça da sociedade consumidora. Auscultado o mercado, o “produto” e, consequentemente, o perfil do comediante, ajusta-se às preferências, impositivas, tal qual, em televisão, as audiências. Tudo isso se estende a todas as mercadorias –e ao livro, também. O livro não é uma criação individual: é um objecto que se quer atraente o bastante para comercializar. Os grandes grupos editoriais funcionam à maneira de qualquer outra empresa cuja meta desconhece o Espírito e aponta ao lucro. Dizem especialistas que o computador é capaz de sonhar: de combinar dados e oferecer textos. Ora aí está! Os editores podem prescindir dos autores: metem no computador os dados necessários e a máquina trata de combiná-los, e sai “coisa” capaz de satisfazer apetites. Escolhidos e calculados os fundamentos, o computador organiza-os de modo a garantir o efeito. Depois, aluga-se um nome; ou vai-se mais longe: usa-se o nome de ninguém, sendo o autor um nado-morto: inexistente.

Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de hoje

2 comentários:

  1. Olá.
    É,também por isso,que não sou capaz de comprar livros onde se vende "chicharro" e macarrão manga de capote.
    Um abraço,
    mário

    ResponderEliminar