Orlando, de Virgínia Woolf (fotos acima), Relógio de Água, um romance admirávelA “Correspondência” de Gustave Flaubert representa, para muitos, uma espécie de breviário. Perante a riqueza das cartas Gide interrogava-se acerca do valor da obra do normando. Exagerava, mas a leitura prende; ora veja-se o que Flaubert escrevia a George Sand: “a literatura é mercadoria, o vendedor explora-a e respeita apenas quem a compra, se o cliente não aprecia o objecto, diz ao autor que a sua mercadoria não lhe agrada.” Na crueza dos termos, a denúncia é actualíssima: aqui tenho ligado a importância do livro à dos produtos oferecidos no mercado... Desde sempre -e respeito a acusação do autor de “O vermelho e o negro”, datada de 1872-, certos editores marimbaram-se para a qualidade literária e privilegiaram a comercialidade. Não lhes interessa o que vai lá dentro, interessa-lhes o que se vê por fora; não conta a riqueza do texto, comanda a negociabilidade. Acelerou-se o aviltamento das coisas da Arte? Sem dúvida: o nosso tempo é da agonia moral, do império do lucro e do colapso da pedagogia. Semeiam o analfabetismo? Com certeza. O provérbio “de boas intenções está o inferno cheio” justifica essa pouca vergonha? Não; o inferno é aqui e ergueram-no aqueles que traficam a morte da alma. Uma empregada de livraria indignava-se: “Só aparece literatura de cordel, é o que se vende!” É o que o mercado impõe, e, consequentemente, o leitor derrapa no palco publicitado, recebe a incultura, imbeciliza. Excepções? Sim, e merece sublinhar-se a coragem de “Relógio d’Água” que, ao invés, lançou, entre outros, Flaubert, Dostoievski, Kafka, Faulkner e, agora mesmo, o extraordinário “Orlando”, de Virgínia Woolf.
Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias, 22/08/10
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