sábado, 14 de agosto de 2010

Sartre em Veneza

Café Florian, em Veneza


Em 1976, Sartre, em Veneza, caminhava com dificuldade. Era o mês de Julho e a Bienal e eu estava ali com o Alberto Carneiro. Pela primeira vez -acontecera o 25 de Abril-, Portugal participava em pavilhão próprio. O comissário, Fernando de Azevedo, convidara Alberto Carneiro e este trouxera a transparência de uma obra cândida e intransigente e a robustez das barbas. Habituara-me à sua boa companhia, aos almoços no Da Raffaele (que óptimos pinot e arroz de peixe!) e à praça de San Marco, de que Alberto Carneiro apreciava a assimetria, até de madrugada. Depois, fazíamos as malas e recolhíamos ao Savoia & Jolanda, carregados de calor, esperando a brisa que deveria chegar do Adriático. O scirocco pesava sobre Veneza e quem por lá andava. Inesquecível a noite de 14 de Julho, com a temperatura desmedida e a humidade colada ao corpo. Da margem de Le Zattere os barcos desenhavam uma ponte que chegava à Giudecca, à Igreja de Palladio, a do Redentor. Era festa e os venezianos cozinhavam dentro dos barcos, encontravam-se a cantar e a viver. Havia-os impacientes que se atiravam para dentro dois canais. Manuel Corrales, Conselheiro Cultural de Cuba, abria o caminho interpelando as pessoas com a poesia herdada de Che Guevera; das barbas de Alberto Carneiro escorria água; eu levava, com algum embaraço, a minha asma pela mão.

Sarte apareceu debaixo das arcadas napoleónicas, devagarinho. Ia no meio da gente, sem pressa, sem olhar. Vestia uma camisa clara, a única mancha no pequeno corpo. Reconheceu que era ele, quando lhe perguntei se não era o Senhor Sartre. E aceitou que fossemos tomar café na esplanada do Florian. Julgo que nunca me viu, tão fortes as lentes que se metiam entre ele e o imediato. Sentado a cem metros da basílica, dir-me-ia:

“-Disto, já só me apercebo das cores, nem sequer dos volumes. Ali, deve ser San Marco e, do outro lado, as Procuradorias Velhas... Ando dentro de uma nuvem. Oiço as pessoas. As pessoas, as cores, o barulho da água. Há trinta anos que venho a Veneza. E, agora, é assim.

Assim, com a camisa clara, os óculos e o cabelo oleoso, a disponibilidade. Chegava-lhe a minha voz, de dentro da minha inexistência e ele aceitava-a. Não era um deus mas era um homem velho e meio cego. Podia falar-lhe porque ele me escutava. Tranquilo, consciente da própria decadência e assumindo-a, com humildade exemplar, diante de mim e do café. Um dos seus lábios imobilizara-se num esgar que parecia um sorriso. E era o seu naufrágio.

“-Esta praça... Daqui a pouco, começam as orquestras. A música vai entrar por aí... E há espaço.

O seu rosto vibrava diante das pessoas que ele sabia que o rodeavam e das coisas. Parecia-me perceber a expectativa. O que dizia não eram banalidades: era o que realmente sentia: o sofrimento físico e o desejo de comunicar a inquietação que o impedia de ser um bonzo.

“-Tentei entrar no ‘Harry’s’ e vim-me embora: estava cheiode alemães e de americanos, muito gordos...

Falava simplesmente. No entanto, via-o impertinente, decidido a perguntar-me tudo. Deixava-me tempo para lhe responder e isso lisonjeava-me. Talvez a minha voz lhe trouxesse uma mensagem de fora. E, talvez, também, por essa razão, André Gide lhe merecia o elogio:

“-Em França, a Literatura acabou: juntam-se palavras. Gide impunha-nos a insurreição: a recusa da renúncia. Teríamos de ser pessoas...

E era uma pessoa o que eu tinha diante de mim: meia cega, com os lábios fixos no sorriso dorido. Velha pessoa, aberta. Eis o mistério das pessoas: aceitarem os outros. Nesse momento, começa a libertação do suicídio: quando as pessoas aceitam os outros e descobrem que os outros lhes trazem qualquer coisa. Sartre, naquela altura, receava ser um figurante: uma personagem a mais. E eu era português e Portugal representava um caminho. Portugal, depois de uma noite monstruosa, era a pureza, o excesso, a imprevidência. Sartre conhecera-o: em 1975, atravessara o Rossio de Lisboa. E, dessa sã indisciplina, ficara-lhe a esperança: os homens continuavam a recrear o dia. Não era eu o que lhe interessava: era o facto de a vida ainda o procurar e deixar que ele a procurasse. A vida chegava-lhe como onda cinzenta mas inevitável. Gide, Portugal, a liberdade livre... O desafio às estrelas, a recusa do repouso, a assunção do destino... talvez, por isso, me aceitasse, ali, na minha insignificância. Que, depois, era o único absoluto, porque não se podia viver -naquele momento- outro momento. Quem era eu mais do que uma voz? Uma espécie de sombra.

Veneza. San Marco. Do outro lado, as Procuradorias Velhas. As chávenas de café. A laguna. Os olhos apagados de Sartre. O meu entusiasmo.

(in Crónicas Italianas, Difel, 1984)

Sem comentários:

Enviar um comentário