...para certos homens, certos outros homens não são homens: não existemO que me inquieta vai além da perseguição aos ciganos, cidadãos búlgaros e romenos e, por consequência, da UE. Aquilo que se engendra, sobretudo na Itália e na França, é a ponta dum icebergue. Quando falta o dinheiro e há desemprego e insegurança, descobre-se o bode expiatório, o “outro” por excelência. E o “outro” é o invasor do “nosso espaço”. A Europa atravessa a maior crise económica dos últimos 80 anos, para a qual não se encontra saída, e o “outro” cai do céu. A alterofobia -o medo de quem é diferente de nós- referve. Voltam nacionalismos e populismos, sempre irracionais, xenófobos e cruéis. Ao longo dos séculos, assim foi, fruto de problemas sociais e religiosos. Declarou-se a caça ao judeu, o ódio ao árabe, a degradação do negro, o perigo amarelo... Infiel ou apenas pela cor, o “outro” pagava tudo. Mas a alterofobia prescindia do drama social, ainda que esse a beneficiasse. No fim e ao cabo, as razões partilham subjectivo e objectivo. A Inquisição socorreu-se do dogma religioso; nazismo e fascismo, de ignorância e convulsões internas. Certo que todos nós tivemos o nosso judeu, o nosso preto, o nosso árabe, o nosso árabe, o nosso cigano. Porque os há bons e maus. Os nossos são os bons. E é o que me aflige: o reaparecimento -continuação- da tara milenária: o racismo (leitor: é disso que estamos a tratar). É urgente recusá-lo: combatê-lo, opondo-lhe a Cultura humanista, brasão da Europa. Bento XVI já se pronunciou contra a discriminação rácica, e ainda bem: a Igreja não repetirá os silêncios de Pio XII, enquanto ardiam os fornos dos campos nazis e ardiam, neles, judeus, ciganos (imaginem!) e os homens livres.
publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias, 29/08/10
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