domingo, 17 de maio de 2009

Um peregrino em Braga


Ir a Braga não significa mergulhar no esquecido e maltratado Interior. A cidade dos Arcebispos é a terceira do país. A sua Universidade impôs-se. A beleza, milenária, resistiu à impudicícia do betão: o excelente trabalho do arquitecto Domingos Tavares e a bela escultura de Zulmiro Carvalho, junto da Igreja dos Congregados, ilustram o mundo que intervém e cria. Fui, aliás, romeiro, em Braga, a convite de uma associação extraordinária: “Velha-a-Branca, Estaleiro Cultural”. É pólo dinamizador, alavanca que provoca e recebe quantos usam a cabeça e pensam. Na sede cultural mais irreverente que jamais visitei, de dentro de um tanque (sim, um tanque de lavar roupa, “reformado”), ao meu lado, António Levy Ferreira, moderador, conversei, horas, com a assistência viva, igualmente informal e inconformista.

Aquelas pessoas não andam a apanhar gambuzinos –e uma cidade que tem dessa gente não anda a ver passar os comboios. Aliás, no tempo que corre, seria crime. E, a talhe de foice: um dos presentes perguntou: “Como se explica, no momento em que a questão política é primordial e mais do que nunca incontornável, multiplicarem-se os livros sem nada dentro?” Que responder? Dizia verdades duras como pedras –denunciava a fuga, quando a casa arde. E trazia de volta a velha discussão: arte-pela-arte ou arte empenhada? E só esse franco debate justificaria o encontro. A arte-pela-arte não existe? O artista é, ele também, responsável pela sociedade em que vive? Discutiu-se, livremente, isso e o mais que tinha que se discutir. Cada um conforme a própria consciência, olhos na difícil realidade, que nos aperta e aflige.




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