
Em 17 de Novembro de 1869, “Educação Sentimental”, aquele que se deverá considerar o terceiro e último romance de Gustave Flaubert, chega às livrarias. O acolhimento da crítica foi muito reticente, tal qual acontecera, sete anos antes, com “Salambô” e aconteceria, cinco anos depois, com “A Tentação de Santo António”. O sucesso de “Madame Bovary” (1857), ligado ao escândalo que o livro provocara, nunca mais se repetiu. E, no eremitério de Croisset, junto ao Sena, que, ali, costeava Ruão, “longe da multidão enlouquecedoura” (título dum belo livro de Thomas Hardy), acusa o golpe, revolta-se, esmorece. Os críticos agridem-no. E, por sua vez, “os amigos têm medo de se comprometerem e falam-me de outras coisas” –escreve Flaubert a Georges Sand (a “Correspondence” entre os dois, editada na Flammarion, densíssima, vale bem a pena ler). Mas ela sossega-o: “é de mestre e o teu lugar está conquistado para sempre”.
Albert Thibaudet, num ensaio sobre o romancista, assinala: “Flaubert disse: Madame Bovary sou eu, poderia ter dito: a Educação Sentimental é o meu tempo”. Por isso, reconheceram-se os amigos no romance e viraram-lhe as costas. No entanto, o livro, que a Relógio d’Água relançou há meses, vai fundo e é muito mais que um retrato de época –do mesmo modo que “Guerra e Paz” ou “A Montanha Mágica”, iluminados pelo génio de Tolstoi e Thomas Mann, o são. As obras que se aventuram nas profundezas da alma não têm tempo. E o destino de Frédéric Moreau, o seu amor a Madame Arnoux, a teia de contradições e infortúnios, os alçapões da vida, apaixonarão o leitor de hoje, que vibrará com eles. Afinal, uma obra-prima.
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