sábado, 16 de maio de 2009

Um apontamento de Irene Lisboa, transcrito do livro com o mesmo nome



Esta pobre mulher vestida de preto, que me bateu à porta de manhã, e que anda a vender agulhas e alfinetes, era a mãe daquele infeliz rapazito...
O caso veio no jornal não há muito tempo. Mas eu ouvi-o da boca de um seu espectador, que ainda estava impressionado quando mo relatou.
O rapazito ia a fugir de um polícia, com medo da multa. Vendia limões. E um carro eléctrico colheu-o. Era no Aterro, onde os carros vão sempre desabalados. Depois o povo levantou o carro em peso, mas o pobrezito morreu.
Era um ladrão da riqueza pública, um contrafactor das leis. Fugia com o a sua leve carga no braço para nos lesar...
A sua vida era uma bagatela. Como nada a defendia, um carro do acaso lha levou. Coisas de tão grande evidência!
E hoje a mãe do pobre que exerce como ele um comércio de miséria, destes que enfadam criadas e donas de casa, responde à minha pergunta acerca do seu luto: morreu-me o meu filho!’ e dá-me os sinais dele. Como andava também por estes sítios... Ajuda-me ainda a identificá-lo: era um que tinha a cara miudinha...

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