sábado, 16 de maio de 2009

O dia de hoje...



Irene Lisboa: como é possível que uma escritora da sua qualidade, inteligente, hábil, capaz de fixar os instantes, a beleza e a dificuldade, a maravilha e a violência –ande pela “segunda linha”, esquecida, menosprezado, nem sequer tenha editor, nem sequer seja possível encontrar-lhe os livros? É um escândalo. Um escândalo cultural. Uma vergonha. Não há quem a ensine os adolescentes? Não há programas de ensino de Literatura Portuesa? Eu sei que há: desastrosos. Não há quem lhe dedique páginas? Não há revistas culturais, literárias? Imbecilizámos, chuparam-nos o cérebro por uma palhinha?

Bem escrevia ela: ‘O meio literário ser pequeno acarreta muita outra pequenez. Como aqueles que escrevem, escrevem com a mira naqueles que os lêem, e todos mais ou menos se conhecem, directa ou indirectamente, o círculo fecha-se logo muito depressa.’


Irene Lisboa não faz parte desse círculo de socorros mútuos ou de invejas e ódios mesquinhos. Eu sei: já morreu. Mas nunca fez: foi uma isolada, independente, por natureza. Tinha uma obra a levantar – e esse trabalho não é compatível com a intrigueta literata.

As suas páginas... A pungente humanidade das suas páginas! Tão actuais! Assim:

Os bairros-das-latas à vista...
Parece que estes bairros andam a ser demolidos. Mas para onde se escoará essa população?
(...) A miséria não acaba, por mais que a espanquem, é certo, mas pode perder os rumos conhecidos”.

E a miséria continua a disfarçar-se, a ser atirada para guetos, para longe da vista e do coração dos privilegiados... Prédios e prédios desumanos, frios, aqui e ali, encostados às autoestradas, longe, periféricos, arrumados à margem, betão e betão, nem árvores nem relva. Os pobres, os remediados (esta palavra é monstruosa), os de 2ª e 3ª classe são marginalizados -evita-se que a sua miséria incomode, inquiete, mexa nas consciências dos que estão por cima -desinfecta-se o ambiente.

Um dia... podem perder “os rumos conhecidos”. Sabe-se lá o que pode acontecer! E o pior é que “a miséria não acaba, por mais que a espanquem”... A ironia de Irene Lisboa quer dizer: a miséria continuará a atirar-nos à cara o crime cometido (a nossa responsabilidade): ou a criámos nós, ou consentimos que a criassem, ou é-nos indiferente.

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