Mundo paradoSe espreitarmos o século XX português, encontramos dois movimentos culturais de importância e influência inestimáveis. Malgrado 48 anos de ditadura salazarista.
Refiro-me à “presença” e ao neo-realismo.
Contra ventos e marés, tentaram, através da Cultura, obviar ao anacronismo intelectual vigente. Obstar ao empobrecimento do espírito.
Esses movimentos salvaram-nos da cegueira total.
Hoje, da afirmação de individualidades, resvalámos para a descaracterização da cultura, entregando-a nas mãos do mercado.
E, daquilo mesmo que ainda é público, os governos preferem, à qualidade, a quantidade rentável.
Ora a cultura não é um produto, sujeito a leis de compra e venda. A cultura é o coração de um país, é o aríete do progresso. O homem evoluiu, graças às aquisições culturais.
Na febre de destruir o Estado Protector -a grande conquista da segunda metade do século XX- menosprezam os governos uma obrigação essencial: privilegiar ensino e cultura.
Há que investir nos ministérios da educação e da cultura.
Há que reclamar, da TV pública, a difusão -a horas de grande audição- de programas culturais semanais.
Tem, também, o governo de subsidiar as iniciativas que brotam, aqui e ali, no Interior esquecido.
Urgentemente, deve o governo rever as condições de trabalho dos professores das escolas públicas, impossibilitados de exercerem pedagogia frutuosa e de se actualizarem.
Tem que defender a escola pública e impedir a sua degradação –e a consequente elitização do ensino: ao privado não chegam todos, cada vez menos...
Porque nos arriscamo a ser uma sociedade, anquilosada e condenada a desconhecer-se.
A definhar.
publicado da Página de Cultura do Jornal de Notícias de hoje













































