domingo, 3 de abril de 2011

Uma interpretação lúcida do modo de superar a crise

Um problema mundial



Procurar onde não se pode encontrar



É provável que a história tenha um autor ou um protagonista real ou imaginário; o certo é que, se os tem, os perdeu, o que, para aqui, também não será propriamente relevante. Curta, simples e eloquente, a breve narrativa apresenta-nos um indivíduo que procura uma chave. É noite cerrada e ele tenta encontrá-la numa zona que um candeeiro ilumina. Procura, procura, procura. Dois homens, que não muito longe conversavam, aproximam-se, indagam o que se passa e resolvem ajudar na busca. Passado algum tempo, chega ao local um rapaz, que também se propõe colaborar. Antes, faz uma pergunta: “O senhor tem a certeza de que foi aqui que perdeu a sua chave?”. A resposta não continha qualquer dúvida: “Não foi, de facto, aqui que a perdi, mas só aqui é que há luz para a procurar”. Não valia a pena, pois, examinar o sítio onde a chave se encontraria porque aí estava escuro. Esta história tem vindo a repetir-se, todos os dias nos jornais, nas rádios e nas televisões, onde, discorrendo sobre a presente crise económica europeia e portuguesa, abundam as opiniões de umas quantas (e quase sempre as mesmas) almas que julgam que a chave com a solução tem de ser procurada não onde ela estará, mas onde houver luz. Nem todos procedem do mesmo modo. É o caso dos autores de um decálogo contra a crise que pode ser lido em diversos blogues e sites espanhóis (http://www.economiasolidaria.org/node/1871). Afirmando que “quem acredita que o crescimento económico é infinito num mundo finito, ou é um louco... ou um economista liberal”, os autores, não identificados, apresentam dez provérbios, com dez comentários contundentes. Vale a pena ler:


1. Em casa de ferreiro, espeto de pau.

Os que mandam fazem o contrário do que dizem. É necessário abandonar o capitalismo selvagem e devolver a economia ao seu significado originário, como conjunto de actividades para satisfazer as necessidades humanas (dentro dos limites da biosfera).


2. Caminho largo, passo curto.

A verdadeira alternativa à crise actual (financeira e económica, mas também alimentar, ecológica, energética e ética) é avançar para uma economia pós-capitalista.


3. Trabalho feito nunca estorva.

O trabalho cooperativo, o consumo responsável e as finanças éticas (já uma realidade em vários locais) baseiam-se em valores alternativos aos capitalistas: mais democracia, igualdade, apoio mútuo e solidariedade, justiça social... É necessário reforçar estas práticas.


4. Vender gato por lebre.

Somos enganados e insultados quando o dinheiro de cada um é usado para resgatar a banca, as multinacionais e o sector imobiliário. Trata-se de uma provocação a uma democracia, que se esvazia de conteúdo. Um autêntico assalto às necessidades sociais.


5. Quem tem o rabo alugado, nunca se senta quando quer.

É necessário promover a economia produtiva em detrimento da economia especulativa. E não uma qualquer economia produtiva, mas aquela que for orientada para satisfazer as necessidades sociais e a reconverter ecologicamente aqueles sectores industriais que produzem bens socialmente úteis.


6. Quem a fez, que a pague.

A crise económica deve ser paga pelos ricos que a provocaram.


7. Fazendo e desfazendo, aprende o aprendiz.

Faz falta uma mudança de valores. A sociedade consumista do “quero tudo e quero-o agora” é impossível e insustentável. Os anos de crédito fácil e do mal denominado “capitalismo popular” impuseram os valores próprios do sistema às pessoas comuns. Se não se viver de acordo com outros valores, não há nenhuma possibilidade de mudar a sociedade.


8. De ricos, está o cemitério cheio.

O modelo actual de crescimento económico, a distribuição desigual do poder e da riqueza, e a crueldade que supõe a morte por causa da fome de 700 mil pessoas por dia e a existência de 2.800 milhões de pobres no mundo não deveriam viver um dia sem dar passos efectivos para erradicar todas estas injustiças. A todas e a todos nos afectam a miséria, a violência e o medo que assediam o planeta. É necessário um compromisso com as gerações futuras.


9. Se um burro não quer beber, não se consegue obrigá-lo.

Face à servidão voluntária que a todos assedia, dizer não é dizer não. Sem nós, isto não se aguenta.


10. Quem semeia colhe.

A curto prazo importa pressionar os governos para que adoptem políticas públicas para controlar o mercado e dotar os cidadãos de mais poder democrático. A médio prazo, é necessário demonstrar que há alternativas e promover modelos diferentes para mostrar que outra economia é possível. Se não o fizermos, ganharão eles. A economia ou a fazemos nós... ou fá-la-ão contra nós. A chave com a solução pode continuar sem aparecer, mas é, com certeza, por aqui que ela estará.


transcrito de

OS DIAS DA SEMANA de Eduardo Jorge Madureira Lopes [osdiasdasemana@gmail.com]

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