domingo, 31 de outubro de 2010

Dilma Roussef é a primeira mulher Presidente do Brasil

22: 15 m, sem risco de engano: Dilma Rousseff ganhou a segunda volta das eleições à Presidência do Brasil, com uma vantagem de cerca de 10 pontos sobre o adversário, José Serra. É uma excelente notícia!



Sabe mais sobre Dilma:

Imagens de Lisboa







Óleos de Francisco Smith (1881-1961)



sábado, 30 de outubro de 2010

A ética no limbo

Morta e enterrada...


Sérgio Almeida publicou, neste jornal, um artigo, pertinentemente intitulado “Trinta anos sem a ética de José Rodrigues Miguéis". Sublinho, além da certeza do juízo, a actualidade, constatando que denuncia, através de Miguéis, o morbo dos nossos dias: o amoralismo. Sem dúvida, muita falta nos faz a voz esclarecida do autor de “O Milagre segundo Salomé”, um dos seus livros mais interessantes, irreverentes e intervenientes.


E a talhe de foice, aqui recordo um grande jornalista e humanista, também esquecido (tão desestimado que nem sequer lhe reeditaram agora a obra essencial, “O Cinco de Outubro”): Jacinto Baptista, que, no extinto “Diário Popular”, acolheu páginas tersas de Miguéis, depois reunidas em volume.


Textos capitais, porquê? Abordavam e debatiam problemas respeitantes à ética: ao comportamento diante da vida e dos homens.


Ora essa preocupação arquivou-se; talvez, até, se tenha esquecido; certamente se quer aniquilar. Incomoda, atrapalha os especuladores, estraga os arranjinhos. Envenena a vida negociada, mercadejada, cuja amoralidade se erigiu como valor absoluto. E ninguém -ou raríssimos- o contesta. Grande parte da literatura, a quase maioria das artes optou por instalar-se no superficial, no lúdico inócuo, no inconsequente. A prudência, autodefesa popular, diz: ‘não fazer ondas’. Mais me parece culto do egoísmo, da indiferença e, nisso dos negócios, império da ganância. E despudor. Ao que se acrescenta a covardia? Provavelmente. Recusar a maré da vida fácil e do gozo anestésico, exige coragem. Não é apenas a ética de Miguéis que falta: é a Ética que foi fechada a sete chaves.


Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 31/10/10

Aqui está uma notícia agradável... já não era sem tempo!

O Pavilhão de Portugal na Expo 2010 de Xangai foi distinguido, pelo Bureau International des Exhibitions, com o Prémio dos pavilhões alugados (pavilhões não construídos de raiz). Ora viva!

Para não esquecer nem a pessoa extraordinária nem o que ela fez nem o que ela disse

Marcelino Camacho (1918-2010): uma vida a lutar pelos direitos de quem trabalha, contra ventos e marés



Marcelino Camacho: "Ni el trabajo, ni el pan, ni la libertad, ni el futuro se regalan"


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O absurdo

Erlich, in ElPaís, 30/10/10


"-Há coisas que por mais que me expliquem não consigo entender. É grave?
"-Não. Chama-se vida.

Tanto palavreado e... a montanha pariu um rato

Que a telenovela acabaria assim já nós sabíamos, não sabemos -apesar de cheirar mal- é a doença que o rato vai espalhar...



"PSD e Governo entendem-se para viabilizar Orçamento"

in RTP

Em Fevereiro aparecerá por aí um novo filme dos irmãos Coen...

Vem a caminho o novo filme de Ethan Coen e Joel Coen, ''True Grit', com Hailee Steinfeld e Jeff Bridges (na foto), a história de uma jovem que contrata um marshall para que encontre o assassino do pai. Emocionante, certamente...

A Gestapo em Lisboa?





Os corpos do delito


por Manuel António Pina


Não tenho por costume folhetinizar em episódios estas crónicas (como o taoista, chamo-lhes assim porque não sei que nome têm e posto que tenho que chamar-lhes alguma coisa), mas as declarações do "porta-voz oficial da PSP" ao DN acerca da detenção de quatro raparigas e um rapaz da JCP que pintavam um mural na Rotunda das Olaias, em Lisboa, talvez justifiquem, na sua exemplaridade novilinguística, uma excepção.

A PSP considera naturalíssimo e "decorre[nte] das medidas cautelares de polícia" que duas das jovens detidas (menores, tudo o indica) tenham sido obrigadas a despir-se completamente na esquadra. Porque tudo terá tido, pelos vistos, a maior pureza de propósitos: fazer-lhes uma "revista sumária" (imagine-se o que será uma "revista completa") à procura de "armas, de fogo ou brancas" ou "produtos cujo transporte pode ser considerado crime, nomeadamente drogas".

Dir-se-ia, pois, que é rotina da PSP, de modo a pôr a nu todas as suspeitas possíveis sobre comuns cidadãos "conduzidos à esquadra", pedir-lhes o BI e mandá-los logo pôr-se em pelota. Talvez seja, mas, a crer no que se passou, será só com jovens raparigas, já que, no caso, os agentes se dispensaram de qualquer actividade por assim dizer investigatória no corpo do rapaz. Aparentemente, nem as mochilas do grupo terão sido revistadas. Só os corpos das jovens.

Há-de ter havido um bom motivo para isso. Talvez até mais do que um.


transcrito, com a devida vénia, de Jornal de Notícias de 29/10/1

Pierrot le fou






Decidi rever o filme de Jean Luc-Godard, ‘Pierrot le fou’, datado de 1965 (três anos antes do agitado Maio de 1968).

Na altura, escrevi um artigo para o extinto ‘Diário Popular’, cuja cópia andará por aí e irei procurar.

O que pretendia era compreender a razão por que me apaixonara a história que, na altura, vi e tornei a ver cinco vezes.

Interrogar-me: ainda tem cabimento, hoje?

Reencontrei o problema de viver num mundo superficial, convencional, estéril, que tende a castrar e absorver os jovens, despojá-los dos ideais, do sonho e de paixão.

A conjuntura modificou-se?

Certamente.

O canibalismo da sociedade refinou. A pessoa tem, hoje, mais dificuldades -muito mais dificuldade- em preservar e salvar a sua individualidade.

Em ser uma pessoa –na unicidade, singularidade, diferença.

A máquina monstruosa, que referiu Chaplin, em ‘Tempos Modernos’, o deserto envenenado, transformado em polvo sufocante –alargou: é quase todo o mundo.

Está quase em toda a parte.

É o quotidiano, em que, durante o breve tempo da juventude, gesticulamos e, depois, pouco a pouco, soçobramos.

Há 45 anos, matavam-se os homens, no Vietname e em muitos outros sítios; hoje, matam-se no Afeganistão e no Iraque.

As guerras de há 45 anos chocavam os heróis de Godard.

Para Pierrot, aliás Ferdinand, e Marianne Renoir, aliás e muito simplesmente Marianne, não tinham sentido.

Ofendiam a sua inocência: a candura da procura e do amor.

Escureciam os dias.


E constatavam que viviam no universo da gratuitidade –eles que buscavam uma vida com a autenticidade dentro

Senti, outra vez, grande pena de Pierrot e Marianne –e a vontade de os abraçar e proteger, solidário.

Hoje, muitos acabarão de morte macaca, tal qual Pierrot e Marianne –ou imbecilizados, tal qual a massa amorfa, formatada, obscena, de que Pierrot e Marianne tentaram fugir.

Haverá, porém, aqueles que recomeçarão e continuarão a luta para salvar o mundo e repudiar a hipocrisia.

Coisa que compete a todo o jovem que se respeita a si próprio e respeite os outros.
E compete a toda a pessoa que como tal se tenha.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Discutem o Orçamento do Estado...

in Público de hoje

As pessoas com coisas dentro

Bob Dylan e Suzie Rotolo (capa de The Freewheelin' Bob Dylan, album, 1963): onde não habita a falsidade e o que se diz é parte da busca da verdade...


O homem cheio de nada



E disse ainda o “recandidato” que nem se pode imaginar o que seria do nosso país, não fossem os “avisos” dele...

Quais avisos?...

Nenhuns. Nada: o vazio. A banalidade. O oportunismo. A incapacidade de juntar duas letras.

É como o sapo doutor que inchou até rebentar.

ATENÇÃO: este aguentará a pé firme, a declamar lugares-comuns, se não o mandarmos de volta para Boliqueime, nas próximas eleições.

Um rebate de consciência ou o medo da hipocrisia

São Francisco de Assis




No livro ‘Frère François’ (Éditions du Seuil), biografia de São Francisco de Assis, Julien Green refere um encontro dos seguidores do Santo e daqueles atraídos pelo seu exemplo e pregação. E diz que lá esteve, também, o cardeal Ugolino, mais tarde Papa, com o nome de Gregório IX.



Conta que percorrendo, de noite, o acampamento, acompanhado dos servidores e em todo o seu fausto, reparou Ugolino nos fiéis de Francisco, deitados em leitos de palha e pobres.


E exclamou, angustiado:


“Eis como dormem os irmãos dele! Que destino será o nosso, miseráveis que vivemos no conforto?”

José Rodrigues Miguéis morreu faz hoje 30 anos






A INTELIGÊNCIA REJEITA A MEDIOCRIDADE

Passam, hoje, 30 anos sobre a morte de José Rodrigues Miguéis, exilado involuntário.


Nascido em Lisboa, em 1901, na Rua da Saudade, do típico bairro de Alfama, o escritor acabou por viver de 1935 a 1980 na América –precisamente, em Nova-Iorque. Não há emigrantes voluntários, sempre alguma coisa os obriga a sê-lo. E, no que diz respeito a Miguéis, a razão esteve na incompatibilidade entre um espírito livre e culto e um regime repressivo e desinteressado da cultura –oa ditadura salazarista. José Rodrigues Miguéis licenciou-se em Direito, mas, republicano empenhado na modernização dum país quase analfabeto, entendeu que o progresso exigia o aperfeiçoamento da pedagogia, a divulgação da Cultura. Ligou-se à “Seara Nova”, foi estudar pedagogia em Bruxelas, onde cruzou Irene Lisboa, que muito estimava e admirava; fundou e dirigiu, com Bento Jesus Caraça, o semanário “O Globo”, logo proibido pelo governo. Sim e obviamente, o regime esganou o ardor pedagógico, criou a censura à imprensa, proibiu publicações, apreendeu livros. E, em 1935, quando Hitler sobe ao poder na Alemanha e Salazar se refastela nas suas sete quintas e multiplica as perseguições e as proibições, Miguéis opta pelos Estados Unidos.


Deixa atrás de si um país amordaçado e uma pequena obra admirável: “Páscoa Feliz” (1932), descida ao poço interior do homem. Só voltará aos escaparates 14 anos depois, com “Onde a noite se acaba”. Em 1956, publica “Saudades para Dona Genciana”. Em 1958, “Léah e outras histórias”, cuja primeira, “Léha” (essa Léha, judia russa exilada, refere ele em carta a Irene Lisboa), na poesia e certeza do retrato, é uma obra-prima. Em 1960, sai o romance “A Escola do paraíso”, inesquecível evocação da Lisboa dos princípios do século XX.

Citei alguns títulos de um dos ficcionistas portugueses mais importantes, que releio e te peço, leitor, procures ler -não deixes de ler, no tempo do volátil e do superficial, do desumano e do vazio, da desonesta mediocridade literata.

Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 27/10//10
O amigo Paulo Pinto autorizou-me a publicar a mensagem que me enviou por mail:

"Há pouco tempo num alfarrabista justo comprei um exemplar de Léah e outras Histórias; uma segunda edição, de 1959. José Rodrigues Miguéis não desperdiçava palavras. Nos textos dele , tudo tem a qualidade essencial e a medida certa ...
Já conhecia Páscoa Feliz ; Gente de Terceira Classe (notável), Onde a noite se acaba , O espelho poliédrico ...
Há mais e lerei a seu tempo.
Da minha parte e apesar de ser um jovem leitor tentei sempre ler o que ficou para trás, o que foi esquecido ou renegado na literatura portuguesa. Olhe, por exemplo,no dia 26 deste mês toda a imprensa generalista esqueceu José Cardoso Pires; e este até é mais recente."

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Cavaco confirma o que prometera confirmar... e já andava a confirmar há mais de um ano...

Cavaco espreita e diz: "não colocarei nenhum cartaz..." Pudera! Conhecem aquela do gato escondido?...

Depois de quatro anos e picos de estar na PR e não perder nenhuma oportunidade para parlapatar, depois de declarar e redeclarar isto e mais aquilo, numa enxurrada de lugares-comuns, depois de calcorrear o país, acariciar as criancinhas e apertar as mãos do povinho há oitocentos anos espoliado e humilhado e persistentemente mal informado e desesclarecido,

o neo-doutor Assis, o homem de Boliqueime, afirma, às TVs que se recandidata...

...“depois de profunda reflexão”.

Puxa!, que digestão (reflexão) tão lenta!

É preciso ter muita lata...

A Europa e a África, o branco e o preto ou os tenebrosos labirintos do racismo

Caricatura da jovem africana Saartje Baartman, que foi exibida pela Europa, de 1810 a 1915, data em que morreu, em Paris. Esta imagem foi desavergonhadamente publicada num jornal inglês da época







Imagem do filme de Abdellatif Kechiche, 'Venus Noire'



"Vénus noire" : la Vénus dérangeante et bouleversante de Kechiche


par Thomas Sotinel





La première séquence de Vénus noire donne la mesure de la violence et de la force tellurique du film d'Abdellatif Kechiche. Dans un amphithéâtre, un homme exhibe à d'autres hommes le sexe d'une femme. Ce geste pornographique est le fait d'une figure du panthéon français, le naturaliste Georges Cuvier (François Marthouret). Il montre les organes génitaux qu'il a détachés d'un cadavre féminin. La lumière crue qui inonde l'amphithéâtre souligne l'obscénité du vocabulaire zoologique appliqué à un être humain.



Abdellatif Kechiche s'apprête à raconter l'histoire de l'être qui habita ce cadavre, la "Vénus hottentote". Originaire de la colonie du Cap, aujourd'hui province de l'Afrique du Sud, Saartjie Baartman, jeune femme d'ethnie khoisan, fut exhibée en Europe de 1810 à sa mort en 1815, à Paris. Le moulage de son cadavre fut exposé au Musée de l'homme, à Paris, jusqu'en 1974.



Effigie, au sens littéral du terme, de la condition dans laquelle l'Occident a tenu la partie de l'humanité qu'il considérait inférieure, Saartjie Baartman est devenue, après la chute du régime d'apartheid, un symbole pour l'Afrique du Sud nouvelle, qui a demandé et obtenu la restitution de ses restes.



Vénus noire raconte les cinq dernières années de cette odyssée misérable. Creusant encore le sillon de ses deux derniers films, L'Esquive (2003) et La Graine et le mulet (2007), Kechiche procède par grands blocs de narration. Au risque du malaise, chaque séquence va jusqu'au bout des actes et des pulsions des personnages. C'est le meilleur moyen pour démêler l'écheveau de racisme, de fantasmes, d'avidité, qui a fait le destin de Saartjie Baartman.



La colère qui anime ce film terrible n'empêche pas la lucidité. Celle de Kechiche d'abord, qui extrait de ce destin brisé une vision très claire du moment où s'est formé le rapport des puissances coloniales au reste du monde. La virulence du discours n'empêche pas la lucidité du spectateur. C'est l'un des traits les plus singuliers de ce film que de remettre en cause sans cesse (et sans ménagement) la place de ce dernier.


Après l'exhibition scientifique, Kechiche revient cinq ans en arrière, à -Piccadilly, où la Vénus hottentote est montrée dans un établissement forain. Cette séquence déroule l'intégralité du spectacle monté à l'intention du public populaire londonien. Caezar (Andre Jacobs), un Afrikaner venu du Cap avec Saartjie, la fait passer pour une créature semi-sauvage. Kechiche filme avec attention la résignation parfois traversée de colère de la jeune femme, l'entrain forcé de Caezar et les réactions de la foule.


Au lieu de procéder par plans brefs, qui constitueraient une galerie de trognes, Kechiche et ses opérateurs (Lubomir Bakchev et Sofian El Fani) s'attardent assez longtemps pour que l'on distingue les compatissants et les voyeurs, les choqués et les effrayés.


Viendront ensuite les publics d'une salle d'audience (lorsqu'une société anti-esclavagiste londonienne demande l'interdiction du spectacle), d'un cabaret parisien, d'un salon libertin, du Muséum d'histoire naturelle (où Saartjie Baartman fut examinée de son vivant par Cuvier). A chaque station, les questions s'accumulent : suffit-il de voir et de s'indigner pour acquitter sa dette à l'égard de la victime que l'on montre ? Cette pornographie à alibi scientifique née autour des attributs physiques de la jeune femme peut-elle être montrée sans troubler ?


Ce qui ne veut pas dire que Kechiche se défausse de sa responsabilité de metteur en scène. S'il a gardé sa façon de gérer le temps du film, Vénus noireest mis en scène avec moins d'abandon que L'Esquive ou La Graine et le mulet. La caméra traque toujours les visages, mais le découpage est plus net. Le choc entre l'appareil du film d'époque (le décor de Piccadilly est impressionnant) et l'image numérique, précise, impitoyable, est fécond. Il donne à ces scènes survenues il y a deux siècles une immédiateté douloureuse.


Dans ce grouillement du XIXe siècle filmé comme s'il survenait aujourd'hui, les personnages vivent leur vie. Le projet originel du réalisateur était de cueillir Sarah Baartman avant son départ d'Afrique. Faute de moyens, on la découvre à Londres, déjà alcoolique, en proie à une tristesse qui ne se dissipe que rarement. Ce que Kechiche demande à la jeune Cubaine Yahima Torres va bien au-delà du travail ordinaire d'une actrice. Etre à la fois la marionnette que voient les foules et la femme qu'elle s'efforce de demeurer. Il faut de l'abandon et de la force, de l'instinct et de l'intelligence. Yahima Torres trouve tout ça ; si elle n'y était pas parvenue, Vénus noire aurait sans doute été un film insupportable à regarder.


Les personnages qui l'entourent n'inspirent guère de sympathie, à la possible exception de Caezar. Le comédien sud-africain Andre Jacobs en fait un maquignon retors mais pas dépourvu de sensibilité. Son successeur, le Français Réaux (Olivier Gourmet) est un maquereau sans conscience qui livre la pauvre Vénus à la libido de l'aristocratie française.


Enfin, la dernière station de ce chemin mène Saartjie Baartman sous le regard des scientifiques. C'est là que le plus grand mal est fait, dans cette détermination "objective" de la hiérarchie entre humains. François Marthouret, intense, monomaniaque, compose un savant fou à force de raisonnements faussés. Et la résistance que lui oppose la jeune femme fait entendre, très faible, très ténue, la voie de la raison.


transcrito com a devida vénia do Le Monde de 26/10/10



Biografia de Saartje Baartman:


Liverpool, chuva

Um bela fotografia de Christopher Furlong

Morreu o polvo que sabia de mais...

No Aquário de Oberhausen, Alemnha, morreu, hoje, por razões desconhecidas, o polvo Paul, que adivinhava os resultados dos jogos de futebol e se distinguiu ao antever qual seria o Campeão do Mundo, na África do Sul. Estão em curso investigações.

Só faltava esta grande surpresa!


Dos jornais: "Cavaco anuncia hoje as razões da sua recandidatura"... A farsa continua e o país à rasca continua a amochar...

Corrupção: Portugal em 32º lugar entre 178 países

Pintura falsificada: admiras-te?





E já agora veja a lista dos países corruptos em geral:


Em que país é que nós vivemos???

O abuso da autoridade ou o gozo da violência



"Obrigando-os a despir-se"

por Manuel António Pina


"Militantes da JCP viram, mais uma vez, ser impedida a pintura de um mural junto à Rotunda das Olaias, em Lisboa, tendo sido identificadas duas pessoas e apreendido o material usado (...).


A pintura mural (...) já tinha sido impedida dois dias antes chegando os agentes da PSP a deterem e insultarem os jovens comunistas, obrigando-os a despir-se e retendo-os durante várias horas na esquadra".


A notícia vem no "Avante!" e em numerosos blogues (alguns particularizam que eram quatro raparigas e um rapaz) e, a confirmar-se, não é surpreendente para quem conheça o que se passa hoje em certas esquadras da PSP e relatórios internacionais regularmente vêm denunciando.


Como não surpreende que a notícia tenha singularmente "escapado" à generalidade da imprensa e das TV, mesmo àquelas que fazem dos "faits-divers" o pão nosso noticioso de cada dia e que nem aquele afrontoso "obrigando-os a despir-se" parece ter sido capaz de interessar.


Gostaria de estar certo, eu que sou um ingénuo, que o comportamento a vários títulos abusivo da PSP (a pintura de murais em locais públicos é um direito reconhecido por lei e um parecer do Tribunal Constitucional condena impedimentos ao seu exercício) e o silêncio dos media não se deve ao facto de os cinco jovens serem militantes de uma organização comunista.


Mas temo, sobretudo, o que pode significar o facto de um caso destes já não ser hoje notícia entre nós.


transcrito, com a devida vénia, do Jornal de Notícias de hoje

Haiti vítima da nossa indiferença

Forges in El País de 26/10/10



"-A miséria, o terramoto, a cólera... Que mais nos pode acontecer, Mamã?

"-Que se esqueçam de nós

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Há 50 milhões de anos os insectos eram assim

Insecto fossilizado em ambar


A invasão das lojas chinesas...

Erlich in El País de 23/10/10

A farsa das negociações PS/ PSD acerca do OE

'Vai um joguinho?..."



Alguém leva a sério essa conversa?... Ou somos todos atrasados mentais?...

A maravilha de cada dia

'Vista de Cannet', óleo de Pierre Bonnard

domingo, 24 de outubro de 2010

Uma história terrível, um texto admirável no "La Stampa" de hoje... aposto que alguém vai conseguir ler porque é muito importante

Os monges assassinados em Tibhirine, Argélia, em 1996. Colhi esta foto no Blog Shalom-Carmadélio e no texto, que te esclarecerá em pormenor, cujo link coloquei a seguir ao artigo transcrito de La Stampa


Il fascino quotidiano del bene

por Enzo Bianchi

Lo straordinario successo che sta avendo il film di Xavier Beauvois
sui monaci di Tibhirine merita forse qualche considerazione che scavi un po’ in profondità sulle ragioni di un’accoglienza così favorevole. Come mai la critica è rimasta subito colpita e ora gli spettatori - artefici di un passaparola che dilata gli echi positivi che si rincorrono ovunque, a partire dalla laicissima Francia, avamposto delle proiezioni per il grande pubblico - paiono commossi e affascinati?


Penso che un elemento tutt’altro che secondario sia stata la capacità del regista di mostrare che una vocazione rara e particolare come quella monastica - vissuta da una esigua porzione dei credenti che professano una fede a sua volta non più maggioritaria - sia in realtà una scelta umanissima, fatta di gesti quotidiani, di limiti e di paure, di ritmi e vicende addirittura quasi banali, di non apparizione, di quotidianità ripetitiva.


E sia una scelta operata da persone normalissime, magari profondamente diverse tra loro per cultura, formazione, sensibilità, ceto sociale: persone nelle quali ciascuno si può riconoscere, a prescindere dalla condivisione della medesima fede.


Il monachesimo, nelle sue espressioni più genuine, è sempre stato una scelta di controcultura, di volontaria e libera marginalità: non nel senso di un’opzione elitaria, di un consesso esclusivo di puri e duri, ma nel suo voler cercare il senso di ciò che si vive, nell’anelare a tradurre in scelte quotidiane nella loro ordinarietà le convinzioni più profonde che lo animano, nel non lasciarsi condizionare dai comportamenti della maggioranza quando questi si discostassero dalle esigenze evangeliche. Un fenomeno marginale, dunque, sovente periferico persino rispetto alla chiesa stessa - non si dimentichi la sua natura fondamentalmente non clericale - ma non autoescludentesi: un modo «altro» per essere al cuore dell’umanità, là dove pulsano le energie vitali di ogni convivenza.


Oggi, in una società in cui dimensioni come il silenzio, l’interiorità, la discrezione, la condivisione, l’obbedienza a istanze etiche, la ricerca della pace e della solidarietà paiono ignorate se non addirittura irrise, la semplice vita quotidiana di un pugno di uomini può destare nei cuori di chi li incontra - anche solo attraverso lo strumento della finzione cinematografica - una spontanea «simpatia», può richiamare alla memoria desideri sopiti, aneliti a una vita più umana e pacata. Nel devastante dominio dell’apparire, della ricerca ossessiva dell’interesse personale a scapito degli altri e della collettività, della soddisfazione degli impulsi più incontrollati può suonare come una salutare boccata d’aria fresca la semplice testimonianza di chi liberamente decide di tener conto degli altri nel proprio comportamento, di chi accetta di condividere i doni - materiali come intellettuali e spirituali - che possiede, di chi affronta la sofferenza, il dolore e la morte come parti integranti di una vita che vale la pena di essere vissuta.


Sovente nasce così una paradossale «simpatia» verso chi si comporta in modo tanto diverso da noi: il suo semplice restare lì, fedele nel poco, fa sorgere una nostalgia profonda per i piccoli gesti quotidiani, il ricordo di come a volte basta uno sguardo, un tocco delicato, una parola sommessa, un pasto preparato con cura per farci riscoprire la grandezza delle nostre vite, l’umile bellezza di vivere non solo gli uni accanto agli altri, ma gli uni con gli altri, solidali nel condividere la comune umanità. Non abbiamo forse bisogno - oggi come sempre, e forse più che mai - di riscoprire l’antico senso della fedeltà alla parola data, dell’onorare gli impegni assunti, dell’alimentare incessantemente di senso i gesti più banali che compiamo ogni giorno per sottrarli all’asfissiante monotonia della routine?


Apparentemente saldezza e perseveranza non godono oggi di molto credito eppure, se ci interroghiamo in sincerità, cos’altro ci attendiamo dalle persone che ci stanno accanto? Cos’altro desideriamo se non che le persone amate restino fedeli a se stesse e a noi nel mutare di eventi e stagioni? Forse ci manca la consapevolezza che affinché questo sia possibile è necessaria una dinamica molto più profonda della volubilità cui siamo abituati, dell’affannoso rincorrere nuove prospettive, dell’infantile inseguire l’ultima emozione di un momento: la fedeltà infatti esige una capacità di mutare atteggiamento, di adattarsi alle situazioni che cambiano, di adeguarsi all’altro che accanto a me cresce, cambia, lavora, riposa, soffre, si rallegra, invecchia, muore, in una parola: vive.


Credo sia proprio questo uno dei messaggi più eloquenti di «Uomini di Dio», un messaggio non riservato ai monaci né ai cristiani o ai credenti: aver saputo mostrare la quotidianità del bene, le normali umanissime potenzialità che ciascuno di noi porta in sé, la capacità di amare e di essere amati senza calcoli, la possibilità di vivere con dignità anche nell’angoscia e nella paura, il faticoso discernimento su come affrontare situazioni drammatiche, cercando non come venirne fuori a tutti i costi, ma piuttosto come poterle attraversare tutti insieme


Irmandade do bom paladar



Essa confraria que assinalo abaixo (já na lista dos meus blogs preferidos) é de visita obrigatória para todos aqueles que apreciam a boa mesa... uma espécie de bíblia de Pantagruel:




Do absinto ao mecenato: o Prémio Ricard 2010

"Homonymes", de Isabelle Cornaro





"A história da geometria", colagem digital de Benoît Maire


Isabelle Cornaro e Benoît Maire foram distinguidos com o 1º Prémio ex aequo, entre dez concorrentes seleccionados.

Para saber mais sobre essa Fundação original:

sábado, 23 de outubro de 2010

Milagre na Serra de Ossa

Ao fundo, a Serra de Ossa: o mundo encantado



Subir ao castelo de Estremoz e admirar a estupenda Torre de Menagem, costas viradas ao esquisito foguetão místico, a estátua da rainha Santa Isabel, é um bem de Deus –e, para mim, que o amor e o bom gosto prenderam ao Alentejo, um ritual. À Serra de Ossa, não ia há muitos anos. Sendo a fome boa conselheira, cortei direito a Aldeia da Serra, onde -memória bem guardada- se come pantagruelicamente. Minto: come-se requintadíssimamente. E dado o sucedido, acrescento: ecologicamente: apanágio do Interior que se despovoa, brasão de vida autêntica. Males que salvam o bem cujo reverso é o endurecer da luta quotidiana.


A meio da estrada, eis a felicidade do gastrónomo: “O Chana”, tal qual lá diz, restaurante de comida caseira alentejana. E que delícias! Pézinhos de coentrada, o ensopado de borrego, a açorda de bacalhau, a sopa de beldroegas, as favas estufadas, a sopa de peixe, o fígado grelhado na brasa, com azeite, alho e coentros... Tudo isso regado a vinho da casa, um saltitante Alecrim, capaz de ressuscitar um homem! Enquanto lavava e recompunha a alma de holandês voador amolgada pelo progresso simplex, ouvia o senhor Bernardino Martins Ferreira, o locandeiro, e conhecia as donas e mestras -e que excelentes mestras!- da cozinha e da sala, as senhoras Teresa e Andrea. A senhora Inês e o senhor João, a esposa e o genro de Bernardino -outros pilares do “Chana”- estavam fora. Da próxima vez e com eles, o bate-papo, a honrar a carne de porco veraz, a couve da horta e os enchidos de truz, voltará a ser coisa divina.


Não aconteceu o milagre dos pães nem o milagre dos peixes: aconteceu o milagre do cozido à portuguesa.

Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 24/10/10

A crise não atinge o mercado das artes

"Le nue au plateau de sculpteur", de Picasso, vendeu-se, Maio passado, na Christie's, em Nova-Iorque, por 76 milhões e 500 mil euros




Os números referentes ao preço da venda é dado pelo Le Monde de hoje; em Maio, El País, cifrou-a em 81 milhões de euros.


Pouco importa..., o que surpreende é a resistência do valor das obras de arte, em plena crise. Um mistério. Terá explicação?


Vale a pena comprar o Le Monde de hoje e procurar o excelente artigo de Harry Bellet e Marc Roche: "Pourquoi le marché de l'art résiste-t-il à la crise?"

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A moral e a crise

Erlich, in El País de 23/10/10


"-É verdade. Necessitamos de coragem e confiança para sair da crise.

"-Euros. Necessitamos de euros.

Jovem português sonha com a aprovação do OE


Epidemia de cólera mata e avança no Haiti: todos nós esquecemos o Haiti...

Desenho de Forges (que, em todas as suas vinhetas, a um canto, lembrou o Haiti), no El País, apontando a indiferença de todos aqueles que ontem celebraram o Dia Mundial da Paz e hoje (envergonhados?) reparam que já tinham esquecido o martirizado Haiti... depois de, em Janeiro, tantas ajudas terem prometido e tantas lágrimas de crocodilo terem chorado pelas vítimas do terrível terremoto... As desgraças duram, na memória das pessoas, o que dura uma manchete num jornal ou nas televisões... As desgraças são importantes enquanto se vendem.

Um rosto, a juventude, a solidão, o medo?

Obra de Dino Valls (1959-), pintor espanhol ao qual cheguei através do curioso blog (in) cultura


O orgulho de uma mulher

Irene Lisboa (1892-1958)



Já falei disso, noutro lugar: José Régio admirava muito Irene Lisboa e ouvi-lhe: “Se não fosse portuguesa, considerá-la-iam um novo Tchekov...”

Era sua intenção e preocupação escrever um longo ensaio sobre Irene. Mas o tempo é padrasto...

Na organização dos três programas que dediquei à autora de ‘Voltar atrás para quê’, na RTP, no meu programa O Livro à Procura do Leitor, conheci a sua grande amiga, Ilda Moreira, outra mulher extraordinária.

Ela cofiou-me o sofrimento de Irene, durante a doença e o internamento hospitalar, à beira da morte.

Irene Lisboa era uma mulher muito bonita, dizem-no os retratos e confirmou-me João Gaspar Simões, que privou com ela.

Ora, quando já hospitalizada, José Régio manifestou o desejo de a visitar.

-Como é que ele soube que eu estou doente? –perguntou a Ilda Moreira.

E, depois:

-Diz-lhe que já não estou em estado de ser visitada, nem de receber visitas.

Sabia-se diminuída fisicamente e não queria que a vissem assim.

Foi, agora, a arrumar papéis que encontrei essas notas, e aqui as deixo.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Carta ao amigo Rialto




Caro Rialto,

Sobre o que me escreveu acerca do meu post ‘Uma fotografia para a história: uma jovem estudante contesta o sistema que ameaça o Estado Social’, digo-lhe:

Nem o Calderón de La Barca, na fascinante ‘La Vida es sueño’, nem o Sebastião da Gama, no belíssimo ‘Pelo sonho é que vamos’, tinham, inteiramente, razão.

Mais perto do certo andou António Gedeão, quando poetou:

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

O sonho que referem Calderón e Sebastião da Gama não é ilusão, como parece insinuado, nem quimera, nem utopia.

Ou talvez não quisessem eles dizer isso.

Não quisessem limitar o sonho à imaterialidade inatingível.

Muito ao contrário pensariam na realidade essencial que é o sonho.

E soubessem que o sonho, a quimera e a utopia são da mesma raça do vento que varre a erva daninha.

Mas temessem por eles, pelo sonho, ou quimera, ou utopia, porque, ambos entendiam que ‘sonhar’ é um acto de fé: confiança.
Não ser aquilo a que o povo chama "homem de pouca fé": o homem que, facilmente, deita, às ortigas, as convicções... como se tivesse medo delas...

E o sonho tem o risco da fé: a sua fragilidade.

E a sua indestrutível força.

E a sua força vital.

E a sua força criadora.

Porque a verdadeira vida é feita de sonho porque o sonho a arranca à morte e a move e empurra.

O sonho é a premunição da harmonia, do amor e da justiça.


Exige coragem e sacrifício.

António Gedeão sabia que nada poderia existir sem ele –porque tudo era ele: o sonho.

...Todo este arrazoado, que espero não seja totalmente obscuro, para lhe responder ao seu “talvez”:

‘talvez um dia a mediocridade perca... E então deixaremos de pertencer à classe dos perdedores”.

Meu caro amigo: há muito que o homem deixou de pertencer, completamente, à classe dos perdedores!

Basta-lhe olhar para trás 37 anos, ou 70, e reparar que o português vive, hoje, incomparavelmente melhor do que então –no tempo do Salazarismo...

E, se for mais atrás ainda... À miséria da gleba do século XIV, do século XV...

Não mudou, para melhor, tanta coisa fundamental: o direito à vida, ao trabalho, à comida... à Cultura... ao estudo... à investigação?

Giordano Bruno, hoje, dificilmente seria queimado no Campo dè Fiori –mas ainda poderia ser gazeado, ali ou em Auswitz, há 65 anos... Eu sei.

E se pensarmos nos escravos a morrerem para construírem as pirâmides do Egipto?...
Hoje, seria impossível.

...mas as as mulheres podem ser justiçadas à pedrada, no Irão..., ainda hoje...
Eu sei.

Não é fácil, a libertação do homem.

Nada é fácil: ‘eles’, os flibusteiros que nos chupam os ossos e, dizia-me, há dias, um camponês, foram mesmo além do tutano..., os plutocratas, os donos do dinheiro não desistem...

e tudo fazem para nos reconduzir à condição de escravos, tal qualinhos os tais do Egipto.

Mas cada dia lhes é mais difícil.

A crise que o mundo sofre, e que eles, os ladrões que a fizeram, querem que os roubados paguem,

é um exemplo da sua, deles, fraqueza progressiva –porque os atingiu também a eles em cheio e os desorientou, fragilizou.
Os obriga a fugirem para a frente: a tentarem roubar mais.
E a denunciarem-se... se já não o estivessem.

Acredite no dia de hoje –nem lhe digo que comece a acreditar no de amanhã!

Cada instante é um instante virgem e está nas nossas mãos que ele, este dia, realize o sonho... realizando-se no sonho.

Acredite no sorriso esplêndido -de confiança, de esperança- das duas jovens que aqui no blog encontrará em dois posts.

Um abraço forte.

No mundo de John Bull





Ainda as reformas do conservador David Cameron por terras da Grã Bertanha



Edito du Monde

La Grande-Bretagne ou l'austérité juste ?


Les Britanniques sont sous le coup d'un "blitz budgétaire" comme ils n'en n'avaient pas connu depuis des générations.

Au printemps, ils ont chassé le New Labour du pouvoir pour donner un coup de barre à droite, pas pour aller plus à gauche. La coalition de conservateurs et de libéraux-démocrates que dirige David Cameron tient ses promesses. Elle avait annoncé un cocktail d'une amertume à faire fuir tous les piliers de pub du pays : un mélange de coupes dans les dépenses publiques et de hausses d'impôts destiné non seulement à s'attaquer à la dette et au déficit public du royaume - le plus élevé parmi les grands pays d'Europe -, mais aussi à recalculer, à la baisse bien sûr, l'importance de l'Etat dans la vie des Britanniques.


Le chancelier de l'Echiquier (ministre des finances), le bouillant George Osborne, a traduit tout cela en chiffres mercredi 20 octobre en présentant le budget 2011 à la Chambre des communes.

L'objectif est d'étaler jusqu'en 2014-2015 une cure d'austérité qui doit ramener le déficit public de 11 % du produit industriel brut aujourd'hui à 1,1 % (celui de la France est de 8,5 %). Les prestations sociales fournies aux plus défavorisés - l'Etat-providence au sens strict - vont baisser de plus de 10 %. Deux secteurs sont épargnés : l'éducation et la santé. Mais, pour le reste, les familles touchées par le chômage, voire une maladie de longue durée, vont voir leurs ressources affectées. Les grands départements ministériels, du Foreign Office au ministère de l'intérieur, devront apprendre à vivre avec des budgets diminués de 20 à 30 %. Au total, la fonction publique va perdre plus de 500 000 personnes d'ici à 2015. L'âge de la retraite, enfin : 66 ans en 2020.

Ces coupes sont accompagnées d'une hausse des impôts. Et c'est là que M. Cameron impose sa marque : il se veut juste. L'augmentation de la fiscalité cible les hauts revenus, comme la droite française n'ose pas le faire. Les coupes dans le budget social introduisent une progressivité dans la fourniture des prestations qui malmène les classes moyennes, comme la gauche française n'oserait pas le faire, et ce afin de protéger les plus démunis. Experts de l'UMP et du PS, prenez d'urgence le TGV pour Londres - s'il n'y a pas grève... Nombre d'économistes ne sont pas convaincus. Certes, le budget Osborne va plaire aux marchés et permettre à Londres de financer sa dette à bon prix. Mais ils craignent qu'il ne pèse sur la conjoncture et rende la reprise encore un peu plus anémique. Pourquoi cette obsession à réduire les déficits en si peu de temps ?

A cela, M. Cameron a une réponse : "Je suis un conservateur budgétaire, dit-il, mais un activiste monétaire." Autrement dit, la Banque d'Angleterre va faire marcher la planche à billets pour soutenir la croissance, au risque de l'inflation. C'est la nouvelle politique économique conjoncturelle : discipline budgétaire, libéralité monétaire. Le remède est plus facile hors zone euro, bien sûr. Il a le mérite de la détermination et d'être administré avec le souci d'une certaine justice sociale.


transcrito, com a devida vénia, do Le Monde online de hoje

A guilhotina?

O cesto está ali para recolher as cabeças da classe mais desfavorecida...

Editorial


Bisturí británico


Haciendo buenas sus promesas electorales, la conservadora coalición gobernante ha anunciado unos recortes sin precedentes de las cuentas públicas británicas. El profundo tajo del primer ministro David Cameron al Estado de bienestar ha sido presentado por su ministro del Tesoro como inevitable si Londres quiere reducir al 3% en cinco años su déficit actual del 11%. Ningún Gobierno previo se había marcado objetivos tan ambiciosos, con ramificaciones en casi todos los frentes que incluyen el aumento progresivo, hasta los 66 años, de la edad para percibir pensión, una poda de gastos ministeriales en torno al 20% durante la actual legislatura o la desaparición de centenares de organismos redundantes o innecesarios. Como aperitivo, el martes se anunció una disminución del 8% de los gastos militares, menor de lo que se anticipaba, tras considerar Cameron a última hora diferentes argumentos de seguridad interna e internacional.

En el camino del asalto al déficit británico se van a quedar medio millón de empleos públicos y quizá otros tantos privados. La reacción sindical está por concretarse en su gravedad. La opinión pública, inicialmente, está mayoritariamente a favor de la política gubernamental.

Es cuestión abierta si el Gobierno Cameron-Clegg conseguirá ahorrar los más de 80.000 millones de libras previstos en cuatro años. Una cosa es anunciar cirugía radical y otra llevarla efectivamente a cabo. Pero no cabe duda de que el mayor ajuste del gasto público en medio siglo va a poner a prueba a la economía británica y la solidez de la alianza entre conservadores y liberales. El partido minoritario ya empieza a sentir los efectos de haberse hecho socio de algunas medidas que rechazaba antes de las elecciones generales de mayo. Con un capital político todavía intacto, la coalición ha dado una muestra inicial de coherencia. De cómo reaccione la economía a esta cura de caballo, dependerá en muy buena medida la suerte del Ejecutivo.


transcrito, com a devida vénia, do El País de hoje