quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Carta ao amigo Rialto




Caro Rialto,

Sobre o que me escreveu acerca do meu post ‘Uma fotografia para a história: uma jovem estudante contesta o sistema que ameaça o Estado Social’, digo-lhe:

Nem o Calderón de La Barca, na fascinante ‘La Vida es sueño’, nem o Sebastião da Gama, no belíssimo ‘Pelo sonho é que vamos’, tinham, inteiramente, razão.

Mais perto do certo andou António Gedeão, quando poetou:

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

O sonho que referem Calderón e Sebastião da Gama não é ilusão, como parece insinuado, nem quimera, nem utopia.

Ou talvez não quisessem eles dizer isso.

Não quisessem limitar o sonho à imaterialidade inatingível.

Muito ao contrário pensariam na realidade essencial que é o sonho.

E soubessem que o sonho, a quimera e a utopia são da mesma raça do vento que varre a erva daninha.

Mas temessem por eles, pelo sonho, ou quimera, ou utopia, porque, ambos entendiam que ‘sonhar’ é um acto de fé: confiança.
Não ser aquilo a que o povo chama "homem de pouca fé": o homem que, facilmente, deita, às ortigas, as convicções... como se tivesse medo delas...

E o sonho tem o risco da fé: a sua fragilidade.

E a sua indestrutível força.

E a sua força vital.

E a sua força criadora.

Porque a verdadeira vida é feita de sonho porque o sonho a arranca à morte e a move e empurra.

O sonho é a premunição da harmonia, do amor e da justiça.


Exige coragem e sacrifício.

António Gedeão sabia que nada poderia existir sem ele –porque tudo era ele: o sonho.

...Todo este arrazoado, que espero não seja totalmente obscuro, para lhe responder ao seu “talvez”:

‘talvez um dia a mediocridade perca... E então deixaremos de pertencer à classe dos perdedores”.

Meu caro amigo: há muito que o homem deixou de pertencer, completamente, à classe dos perdedores!

Basta-lhe olhar para trás 37 anos, ou 70, e reparar que o português vive, hoje, incomparavelmente melhor do que então –no tempo do Salazarismo...

E, se for mais atrás ainda... À miséria da gleba do século XIV, do século XV...

Não mudou, para melhor, tanta coisa fundamental: o direito à vida, ao trabalho, à comida... à Cultura... ao estudo... à investigação?

Giordano Bruno, hoje, dificilmente seria queimado no Campo dè Fiori –mas ainda poderia ser gazeado, ali ou em Auswitz, há 65 anos... Eu sei.

E se pensarmos nos escravos a morrerem para construírem as pirâmides do Egipto?...
Hoje, seria impossível.

...mas as as mulheres podem ser justiçadas à pedrada, no Irão..., ainda hoje...
Eu sei.

Não é fácil, a libertação do homem.

Nada é fácil: ‘eles’, os flibusteiros que nos chupam os ossos e, dizia-me, há dias, um camponês, foram mesmo além do tutano..., os plutocratas, os donos do dinheiro não desistem...

e tudo fazem para nos reconduzir à condição de escravos, tal qualinhos os tais do Egipto.

Mas cada dia lhes é mais difícil.

A crise que o mundo sofre, e que eles, os ladrões que a fizeram, querem que os roubados paguem,

é um exemplo da sua, deles, fraqueza progressiva –porque os atingiu também a eles em cheio e os desorientou, fragilizou.
Os obriga a fugirem para a frente: a tentarem roubar mais.
E a denunciarem-se... se já não o estivessem.

Acredite no dia de hoje –nem lhe digo que comece a acreditar no de amanhã!

Cada instante é um instante virgem e está nas nossas mãos que ele, este dia, realize o sonho... realizando-se no sonho.

Acredite no sorriso esplêndido -de confiança, de esperança- das duas jovens que aqui no blog encontrará em dois posts.

Um abraço forte.

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