Carolina Beatriz Ângelo, pioneira dos direitos da mulherEm 1890, quando os ingleses nos explicaram e impuseram as fronteiras africanas, de Angola a Moçambique, isto é, as terras que lhes interessavam e as meteram no bolso –o país reagiu. A Guarda, também, “a velha cidade da Beira, núcleo mais puro e genuíno do velho povo lusitano”, como, à data, assinalava um articulista inflamado. Justamente? Sem dúvida, ora veja-se o perfil desta mulher, Carolina Beatriz Ângelo (1878-1911), egitaniense de gema e um dos símbolos da conquista que mudou a face do reino encarquilhado: a implantação da República (fundamental o excelente estudo de Maria Antonieta Garcia, editado pela CMG). A vida breve de Carolina apaixona: era uma lutadora. Licenciada em Medicina, republicana, assume-se paladina dos direitos da mulher. A primeira lei eleitoral (Março de 1911), que aponta à criação da Assembleia Constituinte, diz poderem votar “os cidadãos” maiores de vinte e um anos. Carolina quer participar. Encontra resistências: ela é mulher. Protesta, recorre aos tribunais: “cidadão”, sublinha, compreende homens e mulheres. O tribunal dá provimento. E, no dia 29 de Maio de 1911, Carolina Beatriz Ângela, “médica distinta, apresentou-se na assembleia eleitoral de S. Jorge de Arroios, momento único até agora nos anais do eleitorado nacional”, escreve “A Vanguarda”, de Lisboa. E acrescenta: “grande parte da assistência acompanhou a sua eleitora até à porta, onde o fotógrafo da “Ilustração Portuguesa” tirou um instantâneo que será para as gerações futuras”. Era a primeira mulher portuguesa a votar. Uma mulher da Beira. Uma mulher da Guarda, sagrado monte, segundo Augusto Gil.
Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 03/10/10
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