Mário de Sá-Carneiro nos tempos do liceu, em LisboaDe Umberto Saba, triestino e italiano, múltiplo na raiz cultural -em Trieste coabitaram austríacos, italianos, eslavos e judeus-, do grande poeta de “Il Canzoniere”, existe um acervo de cartas intitulado “Atroz país que amo”. Durante muito tempo. Saba não foi apreciado e comentava, resignado: “Hão-de descobrir-me daqui a cinquenta anos, agora não há nada a fazer” (1948). Assim aconteceu: em 2000, a intellighenzia votou nele o maior escritor italiano do século XX. No entanto, nómada em casa (demorou-se em Milão, Florença, Roma), se lhe doía a ignorância dos outros, amava a Itália. E lembro o triestino, ao pensar em Mário de Sá-Carneiro, outro esquecido em vida. Quando, em 1916, com 26 anos, desesperado por o obrigarem a voltar à pátria, se suicida num hotel de Paris, não mudou de pele: é um autor visceralmente português que se mata. Primo-irmão de António Nobre, Bernardim Ribeiro disse-lhe certamente muitas coisas acerca do nosso modo de querer o inatingível: o infinito. Repelia o país e convivia com ele –bem no imo. Conhecemos o “sucesso” dos homens do Orpheu (Sá-Carneiro era um deles) e os insultos que ouviram, em 1915. Mas o que tinha de vir veio e a justiça fez-se: em 1927, a revista “presença” publica um inédito de Sá-Carneiro, “Ápice”, e reedita-lhe parte da obra. O seu génio não demoraria a afirmar-se tantos anos quantos demorara o de Saba, ainda que a incompreensão geral o afligisse e reforçasse a convicção de lhe ser impossível regressar a Portugal. Apagara-se um poeta. Só um grande poeta? Leia-se a antologia, “Verso e Prosa”, agora lançada pela Assírio & Alvim e organizada por Fernando Cabral Martins.
Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de hoje
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