Morta e enterrada...Sérgio Almeida publicou, neste jornal, um artigo, pertinentemente intitulado “Trinta anos sem a ética de José Rodrigues Miguéis". Sublinho, além da certeza do juízo, a actualidade, constatando que denuncia, através de Miguéis, o morbo dos nossos dias: o amoralismo. Sem dúvida, muita falta nos faz a voz esclarecida do autor de “O Milagre segundo Salomé”, um dos seus livros mais interessantes, irreverentes e intervenientes.
E a talhe de foice, aqui recordo um grande jornalista e humanista, também esquecido (tão desestimado que nem sequer lhe reeditaram agora a obra essencial, “O Cinco de Outubro”): Jacinto Baptista, que, no extinto “Diário Popular”, acolheu páginas tersas de Miguéis, depois reunidas em volume.
Textos capitais, porquê? Abordavam e debatiam problemas respeitantes à ética: ao comportamento diante da vida e dos homens.
Ora essa preocupação arquivou-se; talvez, até, se tenha esquecido; certamente se quer aniquilar. Incomoda, atrapalha os especuladores, estraga os arranjinhos. Envenena a vida negociada, mercadejada, cuja amoralidade se erigiu como valor absoluto. E ninguém -ou raríssimos- o contesta. Grande parte da literatura, a quase maioria das artes optou por instalar-se no superficial, no lúdico inócuo, no inconsequente. A prudência, autodefesa popular, diz: ‘não fazer ondas’. Mais me parece culto do egoísmo, da indiferença e, nisso dos negócios, império da ganância. E despudor. Ao que se acrescenta a covardia? Provavelmente. Recusar a maré da vida fácil e do gozo anestésico, exige coragem. Não é apenas a ética de Miguéis que falta: é a Ética que foi fechada a sete chaves.
Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 31/10/10
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