A minha tia Doroteia...
“Ora, às ocultas eu trazia
No seio, um livro e lia, lia,
Garrett da minha paixão…
Daí a pouco a mesma reza:
-Não vás dormir de luz acesa,
Apaga a luz!... (E eu ainda… não!)
E continuava lendo, lendo…
O dia vinha já rompendo,
De novo: -Já dormes, diz?
-Bff!... e dormia com a ideia
Naquela tia Doroteia,
De que fala Júlio Dinis.”
António
Nobre in Só
Quis
Deus ou o Destino que, nos idos de 1948, deixasse a casa de meus pais e fosse
viver com Beatriz, a minha ama, num andar de uma casinha, hoje prestes a desfazer-se,
no antigo Largo 5 de Outubro, em pleno “alto
monte da sagrada Beira”: a Guarda.
Acompanhou-nos
o primeiro dos meus dois cães, o Vick, assim chamado porque nascera a 7 de Maio
de 1945, dia da vitória dos aliados. Cocker spaniel pacífico cuja morte, dez
anos depois, abriu, um vazio, preenchido, trinta anos mais tarde, pelo rafeiro
Zack, italiano de gema, príncipe e poeta eternamente apaixonado.
Foi
então que conheci a minha tia Doroteia:
Maria Angélica de Sá Osório Lopes, viúva de um primo de meu avô paterno, menina
criada em Coimbra, prendada e de alma sã.
Vivia
numa das suas duas casas, a “de campo”, a dois passos da Guarda, em Celorico da
Beira, junto ao Castelo.
A
casa-mãe era em Torre de Moncorvo,
origem da família de meu pai.
E
contou-me que, bem novinha, casada de fresco, ao chegar a Trás-os-Montes a sege
que a trazia de Coimbra, onde nascera, julgo, deparara-se-lhe a imensa e infindável paisagem e tivera um flato, precisou de sais.
Era
uma mulher extraordinária, católica praticante e muito inteligente e sensível;
como veremos, uma mulher livre e muito avançada para o tempo.
Ela
me levou à primeira comunhão, na Sé da Guarda, contrariando o ambiente
agnóstico em que nascera e crescera até despontar a segunda infância.
Bem
recordo e me emociona ao lembrá-lo, os serões da casa de Celorico, em que todos
os que lá vivíamos nos juntávamos a rezar o terço –senhoras e servas, parafraseando, no feminino, Tolstoi.
Eu era o
primo intruso e tratado como um anjo.
Bem
recordo as idas com a minha tia Doroteia,
à igreja da vila, a preparar a comunhão.
E
que entusiástico católico (ou, talvez melhor, cristão) eu fui!
Não
importa, agora, deter-me nas razões que me afastaram, poucos anos depois, da
Igreja.
Quero,
apenas, fixar um gesto inesperado -um dos muitos!- da minha tia Doroteia.
Nas
sextas-feiras à tarde, eu apanhava a camioneta e ia passar o fim de semana à Casa do Castelo –assim lhe chamavam, na
vila.
Crescera,
entrara na adolescência e dei-me a vasculhar os poucos livros que por lá havia,
topando Germinal, de Émile Zola,
traduzido para o português, em dois volumes que se perderam, nas minhas
bolandas de voador holandês ou judeu errante, mundo fora.
Obviamente,
meu primo António, o marido da minha tia
Doroteia, que já partira há muito, não partilhava as convicções da mulher
–ou não as partilhava com o mesmo fervor…
Perguntei
a minha prima -à tia Doroteia- se
podia levá-lo, se me oferecia.
E
vejo -vejo-o agora mesmo- o sorriso de quem se não surpreende, compreende e
aceita, ela a dizer:
-Pois
não! Ora essa! Leva-o Manelico, é teu!
A
verdade é que muito mexera em mim e ela já me surpreendera a ler Nietzche -felizmente
desconhecia a minha convivência com
Ernest Renan e Blasco Ibáñez..-; estava a par das minhas rebeldias e paixões.
Quando
vinha à Guarda, cedia-me o imponente Dodge, sabendo muito bem que, instalado no
banco de trás, com o chauffeur fardado,
eu ia namoriscar um primeiro amor, raiana morena e bem cortada, olhos vivos e
espertos, adolescente de vontade de ferro e aventura escondida.
E,
para que conste, eis outra singularidade de minha tia Doroteia: apareci-lhe com um livro de Georges Simenon, ou,
melhor, do inspector Maigret, dessa maravilhosa Colecção Vampiro, e ela a
pedir-me:
-Quando o acabares de ler, deixa-mo aí, que depois te devolvo…
E
devorou-o! Reclamou mais obras de Simenon, que lá comprei na desaparecida e
saudosa Papelaria do Sr. Casimiro, todas quantas apareceram.
…
Minha prima andaria pelos oitenta anos…
Há dias, eis que descubro, num alfarrabista ambulante de Cascais, um estafado Germinal, edição de Le Livre de Poche, e toca de o comprar, o coração a bater e a
saudade a sangrar, a lágrima que disfarcei mal -a ferida da memória indelével, da saudade de minha minha tia Doroteia.
Castelo de Celorico da Beira