sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Júlio Dinis: um Mestre do romance português


Júlio Dinis (1839-1871)


Júlio Dinis vem, hoje, a Sobre o Risco, por uma razão: a lucidez com que aponta a um grande amigo ferido na alma, triste, desinteressado, Custódio Passos, a saída, a maneira de se recuperar:

“Não preciso dizer-te a impressão dolorosa que me causou a tua carta. Antes de a abrir já conhecia a triste notícia que ela continha, e a sua leitura acabou por me magoar, por profundo e justificado desalento que denunciava em ti.

Pela primeira vez faltei a teu lado nesses dias de luto, por que tantas vezes temos passado.

(…) Persiste pois em mim, a ansiedade neste ponto. Eu não ouso dar conselhos, porque acho tão incertos todos os caminhos no mundo, que não sei qual se deva aconselhar. Contudo, a tua vida tem sido até hoje uma consequência de sacrifícios realizados com a maior abnegação.

É tempo de viveres para ti. O coração já não te impõe deveres; ainda mesmo quando pudesses ser egoísta, já ninguém tinha o direito de o estranhar. Tinhas obtido bem caro o direito de o ser. Mas não está no teu carácter ir tão longe e receio até que fiques muito àquem do que exigem de ti a saúde do corpo e a tranquilidade de espírito.

Acredita que temo deveras que o desalento nem te deixe lutar contra a espécie de fatalidade que te tem perseguido. Toma uma resolução, rompe o círculo em que tens vivido, adquire hábitos novos.*** É uma necessidade urgente para ti. Deus queira que se realize.”

in  Júlio Dinis, Cartas e Esboços Literários, Livraria Civilização,  s.d., Porto


Júlio Dinis, aliás, José Joaquim Guilherme Coelho (1839-1871) nasceu no Porto, filho de José Joaquim Gomes Coelho, de Ovar, e Ana Constança Potter, tripeira, filha de pai e mãe ingleses.

Morreu Júlio Dinis aos 32 anos –e deixou o suficiente para que se deva considerar um inovador do romance português e um admirável escritor. Rural? Ora, deita para o lado: com a leitura atenta dos mestres da Literatura inglesa, de Milton e Shakespeare a Jane Austen e Dickens, por exemplo -tantas das grandes novelistas inglesas não procuraram o “rural”? que fez o enorme Thomas Hardy?...- ele abriu janelas ao romance português e só não foi mais longe porque a morte chegou antes do tempo.

Eça de Queirós assinalou a morte de Júlio Dinis com uma simpática frase:

“viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve”.

O admirável romancista da obra-prima Os Maias enganou-se: Júlio Dinis viveu dura e profundamente, a sofrer a consciência do “inferno é aqui” (que Camilo denuncia em O Bem e o Mal) e a dividi-lo com os outros, cobrindo-os, num gesto de insuperável humanidade, com o manto da sua doçura, ternura, amor.

Manto esse a esconder a revolta: Júlio Dinis, denunciava, assim, e a contrario, todo o mal, onda tremenda a afogar-nos e a revelar-se em nós ao modo de pequenos diabinhos soltos nas almas.

Foi o autor de A Morgadinha dos Canaviais um psicólogo superior, e não duvido que, a viver os anos que é uso viver, teria ido bem mais além de Eça de Queirós.

E, já agora, sou eu quem te aconselha: procura o melhor ensaio/biografia sobre Júlio Dinis, até hoje escrito, em Portugal:

Júlio Dinis, a Obra e o HOMEM, por João Gaspar Simões, Editora Arcádia, s.d



*** o sublinhado é meu

3 comentários:

  1. Gostei de ler este post. Júlio Dinis é um escritor que está bastante esquecido.
    Gostava de ler essa biografia que refere. Vou ver se a Cláudia o arranja.

    Um beijinho e um bom fim-de-semana :)

    ResponderEliminar
  2. Um grande romancista, uma alma nobre, um ser sensível e inteligente. Tinha muita razão quando diz ao amigo desconsolado: "mudar de vida, procurar outras coisas"...
    Porque nesta vida -como bem referes- "Júlio Dinis, denunciava, assim, e a contrario, todo o mal, onda tremenda a afogar-nos e a revelar-se em nós ao modo de pequenos diabinhos soltos nas almas."
    Os diabinhos da alma...são o Diabo!

    ResponderEliminar
  3. Isabel, Júlio Dinis é um dos nossos grandes romancistas! E o livro do João Gaspar Simões, uma obra preciosa -como quase todas que ele escreveu. Um beijo.

    ResponderEliminar